Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
O PREÇO DA MIOPÍA

 

“This is the first pass by an economist who, until recently, thought of financial intermediation as an issue of relatively little importance to economic fluctuations…” (O. Blanchard, FMI, Abril de 2009)
 
Há a ideia de que, se não fosse a ganância de uns quantos, nada disto teria acontecido. Erro grave, que Blanchard, um “nobelizável”, veio, há dias, corrigir. Ganâncias, incompetências várias, negligências mil - de tudo isso se fez a crise. Mas foram os preconceitos de longa data sobre o dinheiro, e sobre o modo como o dinheiro vai moldando as sociedades modernas, que criaram o clima propício para que ela se desencadeasse: uns, pensavam que bastava pôr o dinheiro barato para que os dias de abundância chegassem – e não faziam mais que premiar o endividamento; outros, imaginavam que o risco desaparecia pelo só simples facto de mudar de mãos – sem perceberem que, afinal, eram as regras contabilísticas que falhavam redondamente; outros ainda fingiam não ver como o risco se infiltrava nos sistemas de pagamentos – convictos de que a palavra “Banco” bastava para esconjurar a sombra da insolvência.
O dinheiro que hoje faz mover a economia real é, em larguíssima medida, passivo dos Bancos Comerciais. E estes, ao “exportarem” para a economia real, por meio de empréstimos, o dinheiro que criam, de lá “importam” riscos vários que se vão acumulando no interior do sistema bancário até desencadearem, de quando em vez, perdas enormes - perdas tais que os seus capitais próprios nem sempre comportam. Ao sobre-endividamento de Empresas e Famílias corresponde invariavelmente o excessivo endividamento dos Bancos – em particular, junto de outros Bancos (estes, quantas vezes, Bancos estrangeiros).
Não surpreende, pois, que uns não possam continuar a emprestar, por não terem capitais próprios que aguentem mais risco; que outros, ainda com folga, se reservem para as boas oportunidades que as crises sempre proporcionam; e que uns tantos, à beira do colapso, vendam ao desbarato na ânsia de sobreviver. E quem, do outro lado do balcão, esteja endividado, terá de ir pensando em como pagar o que deve, antes de recomeçar a pedir novos empréstimos.
Nesta conjuntura em que os passivos dos Bancos (et pour cause, o dinheiro em circulação) se contraem a olhos vistos, esperar que mais empréstimos obrem o prodígio de relançar a actividade económica não parece ser sinal de sensatez. Tanto mais que, hoje em dia, muito do emprego (na construção civil, na indústria automóvel, na electrónica, no turismo) depende, quase por inteiro, do contínuo endividamento de consumidores finais que hoje andam às voltas para pagar aquilo que devem. Tudo o que falta é: reforçar os capitais próprios dos Bancos - mas com critério, para não dar alento a Bancos zombies; sageza na política económica, para reduzir o risco latente na esfera real da economia; e paciência – porque estas coisas levam o seu tempo.
 
Por cá, a crise apanhou-nos a todos (Estado, Bancos, Empresas e Famílias) cheios de dívidas. Bem se pode dizer que, com o anúncio da entrada na UEM, mergulhámos alegremente num mar de dívidas, com os Bancos a endividarem-se sem rebuço (junto de uns, poucos, Bancos estrangeiros) para lutarem por maior quinhão no modesto mercado interno. Ser-se apanhado por um crise internacional causada pelo sobre-endividamento quando já se está endividado para lá do razoável não pode ter bom prognóstico. Até porque reagir à crise: passa pela mobilidade geográfica - mas aí está a lei das rendas a tolher-nos; exige empresas financeiramente sãs - mas o regime fiscal empurra-as para o endividamento; precisa de soluções que dêem pronto reaproveitamento aos patrimónios das empresas inviáveis - mas a lei da insolvência parece pensada para que fiquem ao Deus-dará. E não há como reagir à crise sem Bancos bem capitalizados (um caminho demasiado longo para muitos dos nossos Bancos) e sem segurança jurídica (com os nossos supervisores apostados em abalar a pouca confiança que ainda nos resta). Por isso, ficamos assim.
 
 A. Palhinha MachadO
Junho 2009

tags:

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:47
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Agosto 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
18
19

21
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

LIDO COM INTERESSE – 11 A

ADESÃO DA GUINÉ-EQUATORIA...

«GRANA PADANO»

17 HOSPITAIS NA ROTA DA Í...

LIDO COM INTERESSE - 11

CRIAR TRABALHO: O AMBICIO...

O CULTO AO ESPÍRITO SANTO...

(IR)RACIONALIDADE TRUMPIS...

MEDO OU FOBIA

DEPOIS DO…

arquivos

Agosto 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds