Terça-feira, 1 de Setembro de 2009
CRÓNICA DE VIAGEM – 3

 

 
 
BULGÁRIA
   
 
    Gastando os últimos dois dias do meu roteiro turístico, e quando sobre o corpo já pesa um certo cansaço, entro na Bulgária, após umas três horas de viagem terrestre desde Bucareste. Talvez seja o momento de fazer um pequeno balanço sobre os propósitos desta série de crónicas. Inicialmente, a intenção foi enveredar por uma espécie de síntese analítica que integrasse o conjunto dos três países, com uma narrativa mais subordinada ao aspecto temático que descritivo, mais cingida ao extracto do pensamento que à exposição de dados. Mas acabei por preferir tratar cada país de per si, uma vez ter concluído que de outro modo iria suprimir grande parte dos registos que trazia no alforge. No caso particular da Bulgária, não se pode dizer que a visita seja o corolário de todo o roteiro, caso que até poderia ter sido diferente se aquele tivesse abrangido a costa búlgara do Mar Negro, onde consta haver lugares turísticos muito aprazíveis. Portanto, sem ser o patinho feio destas crónicas de viagem, tenho de reconhecer que, excluídos os locais do Mar Nego, na Bulgária não tive possibilidade de ver atracções turísticas de vulto nem colhi registos pessoais fora do comum, susceptíveis uns e outros de ocasionar um espraiar da vista e do pensamento.
 
Render da Guarda em Sofia
 
    Mas o facto é que mal se entra em terra búlgara depara-se com ligações rodoviárias em melhores condições do que é dado ver actualmente na Roménia. Esta só há pouco tempo arrancou com a modernização e expansão da sua rede rodoviária, ao passo que a Bulgária há muito dispunha de uma situação bem mais vantajosa neste capítulo. Esta realidade pode à primeira vista parecer contraditória, por ser um país de muito menores potencialidades económicas que o vizinho. Mas há uma explicação plausível. A Bulgária, diferentemente da Roménia de Ceausescu, foi dos mais indefectíveis satélites de Moscovo, deste dependendo largamente a sua economia e colhendo apoios ao desenvolvimento das suas infra-estruturas, como seria o caso das vias de comunicação. A situação económica do país era nessa época tão equilibrada, dentro dos limites da lógica do sistema então vigente, que o padrão de vida dos búlgaros chegou a cair cerca de 40% nos anos seguintes ao desmembramento do Bloco, quando cessou o acesso privilegiado ao mercado soviético.
    País parcialmente montanhoso e com um clima quente e seco no Verão, faz-nos lembrar um pouco Portugal. Atravessa-se longas extensões de território sem se avistar povoados e sem se deparar com grandes áreas cultivadas, senão florestas semelhantes às nossas em certas regiões. É certo que, ao invés do que aconteceu em território romeno, as vias rápidas, aqui mais desenvolvidas, tendem a contornar os centros habitacionais, mas mesmo assim surpreende a rarefacção de aglomerados populacionais, pequenos que sejam, ao longo do trajecto. A paisagem humano-geográfica parece assim indiciar o predomínio do “habitat concentrado” em grande parte do território búlgaro. Pelo menos é a impressão que se colhe no trajecto entre a fronteira, em Ruse, e a capital. Pese embora o bom estado das vias rápidas, à chegada a Sofia salta à vista que os arrabaldes e os pequenos acessos à cidade apresentam mau estado de conservação e até um aspecto deprimente e pouco encorajador aos olhos de quem visita pela primeira vez o país. E os degradados bairros sociais da era comunista não podiam faltar, condizendo com a aridez insípida do ambiente à volta, semelhantes que são na sua traça e na sua uniformidade aos da generalidade dos ex-países comunistas. É natural que esses inestéticos mamarrachos comecem, aos poucos, a ceder lugar a empreendimentos e edifícios mais modernos e aprazíveis, como o recém-inaugurado hotel do grupo Holliday Inn, onde fomos alojados. Esse hotel e outros empreendimentos privados, como sedes de empresas, escritórios, centros comerciais e cinemas, inserem-se, pois, numa área renovada dos arredores da cidade e representam o investimento na modernização e na reabilitação da economia do país.
    Tendo reagido vigorosamente à ruptura com o sistema em que se integrava, os primeiros sinais da recuperação da economia búlgara só começaram a aparecer, todavia, depois de 1997, com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a queda da inflação, propiciando a estabilidade macroeconómica que viria a favorecer a entrada do país na União Europeia, em 2007, ao lado da Roménia. Não obstante o país enfrentar uma elevada taxa de desemprego e baixos padrões de vida, os sinais apontam claramente para uma aceleração das privatizações e a prossecução das reformas estruturais. No entanto, à semelhança da Roménia, o país tem de superar os emperramentos de um funcionalismo público corrupto e de uma máquina fiscal e sistema judiciário pouco eficazes. Além disso, a elevada emigração que se seguiu à queda do sistema comunista, agravada com as actuais baixas taxas de natalidade, perfila-se como outro problema candente. 
 
                       
O autor e a mulher, posando à entrada da Igreja de Santa Sofia
 
    Com apenas dois dias para a minha visita, ela resumiu-se praticamente à capital Sofia, uma cidade com interessante herança arquitectónica, mas onde apenas se destacam, como locais de maior interesse turístico, a Praça Nedejla, a Igreja Russa de S. Nicolas, a Igreja de Santa Sofia e a famosa Catedral Alexandre Nevski. Mas o tempo deu ainda para mergulhar no mercado tradicional da cidade, localizado mesmo no centro, onde se pode comprar produtos de consumo diário e outros bens típicos. Foi, por assim dizer, a única visita que me permitiu sentir um pouco a alma singela da cidade, pois que um mercado tradicional espelha muitas vezes o lado simples e mais autêntico de uma identidade nacional.
     O pouco tempo disponível deu para visitar o mosteiro mais importante da Bulgária e declarado património da Humanidade pela UNESCO. Situado nas montanhas de Rila, a cerca de 100 Km de Sofia, é ricamente decorado tanto no seu interior como no seu exterior, rodeado pelas celas, habitadas, dos monges e outras instalações monásticas.
 
Mosteiro de Rila
 
 Registe-se ainda que foi muito recentemente inaugurado um novo terminal no aeroporto de Sofia, moderno e com todo o conforto para quem o utiliza, mais um sinal de que o país está apostado na mudança.
    Terminei a visita a Bulgária com a sensação de que houve algo que em mim não se inscreveu de forma indelével. Gostaria, por exemplo, de ter ouvido o folclore e os cantos tradicionais da Bulgária, que são belos. Por isso, um dia voltarei para conhecer melhor o país e a sua gente, e nessa altura a costa do mar Negro não será por certo excluída do meu roteiro. Mas são óbvios os sinais de que o país aposta e acredita no futuro. E um sinal bem simbólico da sua ruptura completa com o passado foi a demolição, em 1990, do mausoléu de mármore, construído na Praça Battenberg, onde esteve depositado o corpo embalsamado de Gueórgui Mikhailov Dimitrov (o Stalin búlgaro) desde a sua morte em 1949. Mandado cremar pelas novas autoridades políticas, o corpo do velho estadista regressou ao destino comum dos mortais, coroado ou não com o louro da glória, absolvido ou não dos seus pecados. É que a sagração nacional dos fundadores do regime, que era prática corrente no mundo comunista, foi derrogada pela lógica igualitária vigente nas democracias ocidentais, que rejeitam o culto de personalidade ou o endeusamento de figuras públicas. E a filosofia no mundo ocidental é tão diferente que muitas vezes a memória dos que servem a nação tem a duração de uma bolha de sabão que se desfaz no ar.
 
 
Tomar, Agosto de 2009
 
 
 
 
Adriano Miranda Lima
 

tags:

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:38
link do post | comentar | favorito
|

1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 1 de Setembro de 2009 às 18:53

RECEBIDO POR E-MAIL:

Mais um texto "recheado", de informação turística, histórica, política, filosófica a deste passeio mais curto, e tão interessante também. E apesar dos dados mais negativos, sentimos sempre que continuamos na cauda de todos eles. E quanto custa isso!
Berta Brás.



Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


artigos recentes

ADEUS

CRIAR TRABALHO: O AMBICIO...

O CULTO AO ESPÍRITO SANTO...

(IR)RACIONALIDADE TRUMPIS...

MEDO OU FOBIA

DEPOIS DO…

DONALD TRUMP – 3

DONALD TRUMP - 2

DONALD TRUMP - 1

ENCONTROS DE ESCRITORES

arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds