Domingo, 30 de Agosto de 2009
CRÓNICA DE VIAGEM – 2

 

 
ROMÉNIA
 
    
    Transposta a fronteira terrestre e já em território romeno, os sentidos estão agora virados para a interiorização de outra realidade nacional e desde logo o guia introduz dois temas pendulares: a queda do consulado de Ceausescu e o ressurgimento económico do país; a lenda de Drácula e a sua exploração no turismo nacional.
    A cidade de Timisoara foi a primeira etapa do nosso percurso, mas com paragem justificada apenas para o almoço e uma breve visita à catedral ortodoxa local. Cidade industrial e a segunda maior do país, Timisoara não suscitaria qualquer interesse no nosso roteiro se não revestisse hoje um certo simbolismo político para a actual Roménia. Foi onde, em 1989, nasceu a onda revolucionária que haveria de propagar-se a Bucareste e ao resto do país, provocando a queda de Ceausescu e a sua execução (quase) sumária, sem que o ditador tivesse tempo para se redimir. À entrada da cidade, os degradados blocos habitacionais da classe operária são os vestígios ainda remanescentes da era industrial de Ceausescu, no seu sonho invasivo de uma Roménia auto-suficiente, desatrelada de Moscovo. Mas o paradigma da auto-suficiência cairia por terra quando as tecnologias industriais entraram em obsolescência, criando estrangulamentos insuperáveis na economia e detonando uma situação social que já vinha sendo fermentada por uma política interna marcadamente repressora.
    Desmantelados os alicerces do antigo regime, a Roménia empenhou-se logo na reconversão e modernização do seu tecido económico e das suas infra-estruturas rodoviárias e de telecomunicações, criando condições para a sua adesão à União Europeia, que ocorreria em 2007. De então para cá, o esforço continua em crescendo, mas não sendo fácil ultrapassar os antigos estrangulamentos da sua economia e os problemas da corrupção na máquina estatal e do mau funcionamento da justiça e do fisco.
 
 
Telhado típico generalizado na medieval Sibiu
 
    Nota-se que o turismo é uma das apostas nacionais. Quem visitar pela primeira vez a Roménia não deixará de regressar, eis o lema do governo e das entidades privadas, que, em parceria, vêm empreendendo um esforço visível na recuperação do parque hoteleiro e na construção de novas e mais modernas unidades com que, no conjunto, visam alterar o panorama de oferta. Em Sibiu, em Sighisoara, em Targu Mures, em Bistrita, em Humorulai, em Brasov e na capital Bucareste, para não falar nas localidades junto ao Mar Negro, que não se incluíram no nosso roteiro, o turismo é, com efeito, um sector em crescendo na economia romena
    Em particular, a Roménia não descura a importância do turismo cultural, possuindo mais de 3000 museus, locais arqueológicos, castelos e palácios, igrejas e mosteiros antigos, fortalezas e monumentos bem conservados. Foi gratificante visitar o Museu Nacional da História da Roménia, em Bucareste, que reúne peças que remontam à antiguidade dos dácios e aos antepassados romanos, atravessando a Idade Média até à época moderna. Este museu possui ainda um fabuloso tesouro em ouro que se reporta a importantes achados arqueológicos. Junta-se a isso tudo ainda a Coluna de Trajano, cópia fiel do original da Praça do Capitólio de Roma, cujo valor é de grande simbolismo nacional por assinalar o nascimento do povo romeno quando Trajano conquistou a Dácia e a partir daí nasceu este povo por simbiose étnico-cultural entre e dácios e romanos.
    Outra riqueza patrimonial reside na arte sacra. Desde mosteiros a igrejas e catedrais, a diversidade é grande e com predomínio do estilo bizantino. Por únicas na Europa, são património da humanidade pela UNESCO os mosteiros medievais de Bucovina (palavra que significa faia, árvore abundante na região) – Humor, Voronet, Sucevita e Moldovita – com os seus exteriores e interiores pintados com frescos dos séculos XV e XVI e que se mantêm bem conservados apesar das intempéries. Embora não tão antigas nem constituam património da humanidade, são também dignos de interesse os mosteiros de Agapia e Varatec. O primeiro é simplesmente lindo e resplandece na abundância variegada das flores que o ornamentam, tratadas pelas suas 400 monjas. Neste mosteiro funcionam variadas manufacturas de bordados, rendas e mantas, e ainda confecção de iconografias, tudo a cargo das monjas, cujo labor o turista pode apreciar directamente, mas sem fotografar as artífices. O segundo mosteiro, com 800 monjas, também muito atraente e florido, tem um importante museu que vale a pena visitar.
 
 
                                                          
Mosteiro de Voronet
 
    De entre as cidades medievais visitadas, destaco a de Sibiu, cujo centro histórico começou a ser restaurado há algum tempo, podendo-se já apreciar os antigos edifícios com toda a frescura devolvida pelo restauro, sem transgressão da sua traça original. Vale a pena percorrer a pé as ruas e praças medievais dessas cidades, onde as marcas do passado se mantêm intactas convidando-nos a momentos de pausa silenciosa para melhor sentir os ecos guardados nas vetustas pedras. Realce ainda para as praças e largos do centro histórico, bastante acolhedores e equipados com confortáveis cafés, restaurantes e esplanadas, onde o turista se sente bem e não dá por desperdiçada a passagem pela urbe. O mesmo acontecerá em Bistrita e Sighisoara, cujo aproveitamento turístico será pleno logo que forem concluídos os programas de restauro que estão em curso.
    Quanto à lenda de Drácula, é precisamente em Sighisoara, uma cidade medieval da Transilvânia, que entramos na senda do famoso vampiro. Nesta cidade existe um edifício medieval que é tido como o local de nascimento do príncipe Vlad Tepes, o personagem da história romena no qual o escritor irlandês Bram Stoker se inspirou para escrever o seu romance em 1897. Essa sinistra figura da história romena e as lendas sobre vampiro que parece terem sido introduzidas no país pelos ciganos, constituíram o caldo de cultura em que se baseou o escritor para perpetuar um mito que, nos dias de hoje, é sabiamente explorado na Roménia para fins turísticos, como é prova essa casa medieval onde nasceu Vlad Tepes. Nela funcionam um restaurante e bares onde se respira uma atmosfera soturna quanto basta e com enfeites draculianos. Almoçámos no lugar, mas, como o preço estava incluído no pacote de viagem, ficámos sem saber se o nosso sangue foi ou não sugado pelo dito cujo.
    O rasto de Drácula voltámos a reencontrá-lo em Bistrita, no sopé dos Cárpatos, no restaurante onde jantou Jonatham Archer, o advogado inglês que viajou de Londres para negociar com o Conde Drácula a venda de um palácio que este queria adquirir na capital inglesa, sem o causídico saber que estava a lidar com um vampiro. O Jonatham Archer comeu ao jantar uma espetada de boi e bebeu um vinho que o escritor diz que “fazia picos na boca”, ementa que, ao que parece, o restaurante recria para fazer jus à ficção literária. Mas a nossa decepção foi não termos sido contemplados com a ementa de espetada. Sim o vinho, mas nem eu nem os meus companheiros sentimos os tais “picos na boca”. Diria que era qualquer coisa parecida com um mau vinho verde português. De resto, o ambiente do restaurante é completamente draculiano, com pinturas sinistras, morcegos e gatos embalsamados, podendo-se até vestir de Drácula para a fotografia da praxe.
 
Edifício (em Sighisoara) onde nasceu Vlad Tepes (Drácula)
 
    Mas, deixando por agora Drácula refugiado no seu esquife entre o nascer o pôr-do-sol, confesso ao leitor que um dos meus grandes deleites nesta visita à Roménia foi o espectáculo da natureza e a imersão no mundo rural profundo. Tal só é ainda possível na Roménia porque o progresso, como todas as coisas, pode ter duas faces distintas. A ainda escassa rede rodoviária obriga necessariamente a atravessar povoados rurais, seja através das planícies do Danúbio seja serpenteando os Cárpatos, dando assim ao turista o privilégio de contemplar quadros de um bucolismo que são um autêntico bálsamo para quem se sente cansado do progresso e sua superabundância. Já é pouco frequente nos campos mecanizados da Europa Ocidental ver camponeses cavando a terra com enxada, galinhas à solta junto das habitações, carroças carregando bilhas de leite, fardos de palha ou produtos agrícolas. Depois, há uma sagração generalizada das flores, que são uma constante no embelezamento criativo de tudo o que é presença humana. E tudo é de um intenso verde perene, que se mantém inalterável mesmo no pico do Verão, porque as chuvas não cessam na estação mais quente, ainda que entrecortadas.  
    Mas Drácula regressa e vai fazer das suas na réplica de um castelo de linhas antigas erigido num dos cumes da Transilvânia. Tudo preparado para que o turista experimente um pouco do fantástico que habita o seu imaginário. Após percorrer estreitos corredores soturnos, entra-se no compartimento de um figurado mausoléu no centro do qual está um caixão preto. Nas paredes, pinturas sinistras dão o tom adequado ao ambiente. Às tantas, apagam-se as luzes e, apenas à chama bruxuleante de uma vela, alguém da casa levanta a tampa do caixão e de um salto, como que impelido por uma mola, um “Drácula” ejecta-se e dilui-se na escuridão envolvente. Ninguém se apercebe efectivamente se ele se volatilizou ou se desapareceu, minguado, pela frincha de algum refúgio secreto. As mulheres não se contêm e soltam um grito estridente, já sem discernirem entre a realidade e a fantasia. Logo a seguir, à saída pelo mesmo corredor de entrada, braços esticam-se inesperadamente de buracos dissimulados nas paredes e agarram os transeuntes na semi-escuridão, com o sexo fraco a perder de novo as estribeiras. E assim o Drácula regressa à sua eterna condição de morto-vivo, sem que alguém lhe tenha conseguido cravar um punhal de prata no peito. Na visita ao belo castelo medieval de Bran, voltaríamos a ouvir falar de Vlad Tepes, mas apenas como sua provável residência temporária.
    Pouco espaço me resta já para falar da capital Bucareste, onde, por má sorte, fomos bafejados por uma chuvinha incómoda. Referi anteriormente o importante Museu Nacional e mal ficaria se não referisse o Palácio do Parlamento, antes chamado Casa do Povo (Casa Poporului), mandado construir por Ceausescu, que é o segundo maior edifício estatal do mundo, a seguir ao Pentágono. Salta à vista um certo vazio de recheio interior a contrastar com a dimensão dos seus espaços monumentais, onde, não por acaso, não figura nem o nome nem retratos do estadista que mandou construir o colosso, talvez numa tentativa de o apagar da memória colectiva para esconjurar os males nacionais. Como se isso fosse possível, como se a história não o venha um dia a colocar no seu lugar, para o bem ou para o mal. Os dois dias de permanência em Bucareste talvez eu não os tenha vivido com maior intensidade porque a imersão no interior do país deve ter-me consumido as energias mentais e esgotado as reservas de emotividade. Bucareste é conhecida como a “Pequena Paris do Leste” e a razão se deve à arquitectura dos seus edifícios do século XIX, muito semelhantes aos seus contemporâneos de Paris. A Avenida da Vitória, os seus parques e jardins, os seus museus e os seus teatros tornam Bucareste uma bela e atraente cidade, com uma vida nocturna também animada. E, a propósito, seria imperdoável não falar do animado jantar em que participámos na Cervejaria Caru’cu Bere, com música e dança ao vivo, numa das zonas mais movimentadas da capital. Refira-se que a cidade está neste momento em franca remodelação urbanística e com o concurso de empresas portuguesas como a Soares & Costa e a Mota-Engil, cujos estaleiros vimos montados. É natural que a breve trecho essas empresas ajudem a enterrar os molhes de intrincados cabos aéreos (telefónicos e eléctricos) que neste momento são uma verdadeira aberração na capital.
  País com enormes potencialidades agrícolas e turísticas, detentor de importantes recursos energéticos de petróleo e gás natural, a Roménia vai certamente reerguer-se de décadas e décadas seguidas do imobilismo de uma errada política de centralismo estatal. Esperemos que o faça sem perverter a sua mais funda identidade. Ao exprimir-me assim, lembro-me destas palavras do escritor romeno Eugéne Ionesco: “Mergulha, sem limites, no espanto e na estupefacção; deste modo podes ser sem limites, assim podes ser infinitamente”.
 
 Tomar, Agosto de 2009
 
Adriano Miranda Lima

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:08
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3 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 30 de Agosto de 2009 às 18:30
RECEBIDO POR E-MAIL:

Mais um belíssimo texto de Adriano M. Lima, que nos faz partilhar essas suas viagens vividas com tanto aprumo de conhecimento, entusiasmo e amor, descritas num texto de pormenores e argumentos tão enriquecedores, onde à história se acrescenta a lenda, ao panorama do campo e das flores, o das várias cidades e das tentativas de recuperação pelo turismo. Uma coisa que gostaria de saber, nesses espaços visitados é a importância que se dá à cultura, mas certamente que faltou o tempo para aprofundar. Digo-o porque tenho uma empregada romena a quem comecei por comprar os "Borda d'Água" e calendários e acabei contratando-a. É campesina, tem uma escrita infantil, mas o irmão e o marido não sabem ler e estranho isso num país de Leste, donde nos chegam emigrantes com cursos superiores, que começam por trabalhos operários. Julguei que a iliteracia fosse mais um estigma nosso, infelizmente, sobretudo das classes etárias mais idosas. Gostei a valer do seu passeio.
Berta Brás


De Adriano Lima a 31 de Agosto de 2009 às 17:38
Obrigado, Doutora Berta Brás, pelo seu comentário.
De facto, tive de fazer uns cortes no meu relato para não abusar do espaço deste blogue e também para não saturar os leitores. Sei que o comum das pessoas foge hoje em dia a textos muito longos, o que não é certamente o seu caso, como bem se vê.
Nesta minha crónica havia uma menção ao povo cigano da Roménia, que é cerca de 8 ou 10% da população do país, talvez actualmente mais centrado nos 8% em virtude da acentuada emigração que se seguiu à democratização iniciada com a queda de Ceausescu.
Não pude recolher dados muito exactos, mas fiquei convencido de que a escolarização do país não terá atingido os tão celebrados níveis de sucesso que outros países do mundo comunista alcançaram. A razão terá a ver com a extensão e interioridade do país, com forte predomínio do mundo rural arcaico que eu referi na minha crónica. Por outro lado, a escassez e má qualidade das vias de comunicação agravaram o isolamento das populações, impedindo a escolarização de penetrar nas regiões mais interiores. Ceausescu apostou no isolacionismo face a Moscovo, acreditando que o seu país seria auto-suficiente em todas as áreas do desenvolvimento, o que o Ocidente aplaudiu por razões óbvias mas que fracassou, acabando por ditar a queda do ditador. E a educação não terá sido por certo um dos trunfos da sua política.
Basta contactar com o povo anónimo mais simples para se notar um certo comportamento bisonho e pouco evoluído na expressão, nos gestos e na maneira de ser, o que é sintoma de pouca evolução social, particularmente visível nas faixas etárias mais velhas. Encontramos semelhanças notáveis com as nossas populações do mundo rural de há umas décadas atrás. Vê-se nos aspectos exteriores, como no vestuário (lencinho à cabeça), na atitude prosaica e no olhar algo ausente. Todavia, para lá do verniz exterior a que associamos ao progresso, as pessoas encantam-nos com o seu ar singelo e sincero. Fica-se com a impressão de que nos cederiam sem pensar duas vezes a sua casa para passarmos a noite ou a sua mesa para partilharmos a sua refeição. A fazer lembrar o Portugal de há uns anos. Por isso, essa gente despertou-me uma verta ternura.
Mas, de entre a população romena, verifiquei que os ciganos estão no mais baixo estrato social e que o cidadão romeno não disfarça o seu sentimento de rejeição. E parece que alguma razão haverá porque de facto o cigano romeno vive numa mendicidade mais descarada e mais chocante do que alguma vez vi em Portugal. O cigano português evoluiu e está hoje léguas à frente do romeno, sendo hoje muito raro ver casos de mendicidade entre os nossos. Os romenos imigrantes é que os vieram substituir, mendigando ostensivamente ou por intermédio do Borda d’Água. Além disso, à mendicidade se associa o roubo e os furtos na via pública de que os romenos se queixam, razão por que querem ver os ciganos o mais longe possível da vista. Não é agradável o quadro típico de mulheres andrajosas com crianças ao colo a pedir e muito menos criancinhas de 5 anos a mendigar na rua.
No entanto, há uma classe cigana que se dedica tradicionalmente a trabalhos de serralheiro, canalizador e destilação de uma aguardente típica. E há ainda uma classe de ciganos enriquecidos em negócios ilícitos que se dá ao luxo da ostentação, ao ponto de construírem palacetes de uma arquitectura completamente anárquica e bizarra, à revelia das regras e normas municipais, nos arredores de uma cidade chamada Busescu. É um estilo que mistura os elementos mais insólitos e desencontrados, mas que ao olhar ingénuo e pretensioso do proprietário surge como algo imponente e reflector de um estatuto que quer alardear. A coisa é de uma aberração tal que, segundo o guia, o local tem vindo a ser objecto de curiosidade turística. Não entendo é como as câmaras municipais pactuem com tal agressão ao bom gosto e à paisagem urbana.
Para finalizar, fiquei com a impressão de que o analfabetismo grassa sobretudo entre os ciganos. E na Bulgária a situação é idêntica, como pude ver.


De Henrique Salles da Fonseca a 1 de Setembro de 2009 às 10:59
RECEBIDO POR E-MAIL:
Como sempre, um esclarecimento lúcido, sobre algo que bem conhecemos em relação ao nosso país, bom palco de acolhimento de gente mais mísera e mesquinha do que nós, embora outros povos os recebam, não sei se permitindo os mesmos espectáculos de exposição de mazelas, por vezes fictícias, como aqui, de gente que prefere pedir a trabalhar, e que merecia uma intervenção de ordem social. Mas é tão antigo entre nós, que já faz parte da nossa mentalidade, talvez, o aceitarmos isto, que Cesário Verde tão bem descreve. Obrigada, sr. Adriano Lima, pelos dados tão objectivos e verdadeiros.
Berta Brás


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