Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
CRÓNICA DE VIAGEM - 1

 

 
PARTE I - SÉRVIA
 
    Quem vai em visita turística à Sérvia, Roménia e Bulgária parte com a expectativa de ainda encontrar restos visíveis ou imaginários da história recente que consciências subitamente iluminadas resolveram virar do avesso. A expectativa acaba, nestes casos, por oscilar entre o olhar turístico e a realidade objectiva, com erros de avaliação sempre possíveis quando o rigor analítico se porfia com o registo mais epidérmico. Mas não se pode ignorar esta verdade: a história dos povos passa por encruzilhadas onde só os próprios podem avaliar os seus ideais e confrontá-los com a justeza de cada passo dado. O turista só tem de afastar o preconceito mental ou cultural se quiser apreender um pouco da alma dos povos. Acontece que estes países da Europa do Leste podem parecer, no imediato, arredados dos padrões turísticos normais, mas é exactamente a demanda do desconhecido que esteve subjacente à minha escolha, convencido de que, para além da simples fruição das coisas, há um turismo que nos interpela como seres humanos e estabelece permutas e simbioses que só nos podem valorizar.
    Foi por pensar assim que, no mês de Julho, fiz uma visita de 12 dias à Sérvia, Roménia e Bulgária, englobados num único roteiro turístico, a cargo da Agência de Viagens Pinto Lopes. No trajecto entre o aeroporto de Belgrado e o centro da cidade, a primeira impressão não é muito favorável logo que o visitante se depara com fileiras de prédios uniformes na sua fealdade e tristeza. Autênticos caixotes de betão, na sua maioria degradados, foram uma constante da arquitectura das cidades comunistas, quando se tratou de encontrar solução rápida e económica para alojar populações rurais destinadas à mão-de-obra requerida pela expansão industrial. Pesava sobremaneira a padronização e o benefício social. 
    Mas, ultrapassados os prédios inestéticos dos arrabaldes, entra-se numa cidade de bela arquitectura, carismática e monumental, onde o antigo se mistura com o moderno. Cidade vasta e bastante populosa, das mais antigas capitais europeias, dividida pelo rio Danúbio e seu afluente Sava, é na margem esquerda deste que se ergue a "Nova Belgrado", com as suas amplas avenidas e modernos prédios de habitação, hotéis e zonas comerciais. O que particularmente seduz o visitante e o tolhe de agradável surpresa é a enorme quantidade e diversidade de bem apetrechados cafés, esplanadas e restaurantes surgidos nos últimos anos. Abundam sobremaneira na rua Kneza Mihailova e suas ramificações, uma das mais concorridas, e seduzem o turista pelo requinte e luxo das suas formas. Vedadas por artísticas cercas de madeira, ornadas de flores e apetrechadas com mesas cobertas de frescas toalhas e confortáveis cadeiras de palhinha, as esplanadas são um regalo e um retempero para as pernas após severa caminhada pelas ruas.
 E, quando a noite cai, a animação ganha outra fremência nas ruas e avenidas, ficando repletos os restaurantes, bares e esplanadas. Engrossando a alegre multidão, tivemos ocasião de jantar na típica Scadalla ao som de música de violino, e convém dizer que foi num domingo, com um movimento tão intenso nas ruas que parecia não haver trabalho no dia seguinte. Não consegui saber se esta animação é moda antiga da cidade ou se ganhou renovado alento depois dos últimos conflitos, como forma de esconjurar temores ainda não de todo diluídos nos espíritos. Não deixei de pensar no actual deserto de vida nas zonas históricas das nossas cidades, mormente aos fins-de-semana. É que, lamentavelmente, aos poucos vemos esvaziar-se a alma das nossas cidades, pois que a sua memória histórica, cultural e artística não resistirá à sangria contínua da presença humana.
 
 
Esplanada em Belgrado
 
    É evidente que os dois dias passados em Belgrado não foram de molde a poder aprofundar o olhar sobre a cidade e as suas gentes, mas deu para perceber que se circula na cidade sem qualquer preocupação com a segurança. O pouco tempo disponível apenas permitiu visões panorâmicas aqui e além colhidas e visitas pré-programadas aos locais de maior interesse turístico, como a fortaleza Kalenegdan, a Catedral Ortodoxa e o Mausoléu de Tito, entre outros. A fortaleza situa-se numa área enorme sobranceira aos rios Sava e Danúbio. Ela funcionou como principal núcleo estruturante da defesa da região até ao século XVIII. Actualmente, abriga um jardim zoológico, museu, área de lazer, restaurante e café, mas nele se sente ainda o pulsar da história da Sérvia nos seus momentos mais altos e mais críticos. Dentro do forte ergue-se o monumento "Vitória", num plateau de onde se pode avistar a confluência daqueles dois rios. Erigido para comemorar o triunfo dos sérvios na Guerra dos Balcãs em 1913, este monumento é o corolário simbólico de todo um conjunto que, indiscutivelmente, constitui um dos ex-libris da cidade.
 
 Belgrado, descaindo-se sobre o Danúbio
 
    Portanto, é extremamente favorável a impressão que Belgrado exerce sobre quem a visita. Mas o que causa um impacto deveras desagradável, pela sua memória trágica e ainda bem fresca, são os prédios esventrados pelos mísseis disparados pela NATO em 1999, por ocasião do conflito do Kosovo. Justas ou não as razões da agressão bélica à Sérvia, cada um fará as extrapolações políticas que entender, mas sem se ater a juízos apressados e sem se abdicar de folhear a história do país e da região. A minha reacção imediata foi de veemente repulsa ao recordar que os ditos ataques cirúrgicos causaram a morte de centenas de civis inocentes, incluindo mulheres e crianças. Não é difícil constatar, mesmo para um leigo, que os ataques visaram alvos situados em artérias centrais da cidade, lugares, avenidas e ruas especialmente povoados e movimentados, nos quais seria irrecusável a probabilidade de sérios danos colaterais. Dói à nossa consciência moral imaginar que, nas vésperas do século XXI, bombardeiros e mísseis de cruzeiro sulcaram o céu de uma linda cidade europeia e ceifaram vidas humanas.
 
Fortaleza de Kalenegdan
 
Além de que não se pode esquecer que esteve iminente a destruição da mais importante ponte da cidade, sobre o Danúbio, mesmo depois de a saber ocupada por populares com o intuito de dissuadir os atacantes. Sabe-se que a acção só não foi executada porque os franceses se recusaram liminarmente a ser cúmplices daquilo que seria uma verdadeira tragédia humanitária. Então, os americanos não se atreveram e tiveram de enfiar a espada na bainha. Honra à França e sua consciência civilizacional, sem desprimor para a América, que em momentos-chave da história da humanidade soube estar à altura. 
     Interpelando o guia turístico sérvio sobre o interesse do povo sérvio numa adesão à União Europeia, foram estas as suas palavras: “Nós desejamo-lo porque somos europeus de consciência assumida, mas exigem-nos sempre condições inaceitáveis. Primeiro, foi a entrega de Milosevic, agora é o reconhecimento da independência do Kosovo e isso o povo sérvio não compreende e não aceita”. Para os sérvios, que libertaram o território do poder bizantino em 1208, Kosovo foi o “centro cultural, religioso e político do reino sérvio”. É onde existem importantes mosteiros da igreja ortodoxa sérvia e onde foi travada a célebre batalha do Kosovo contra os turcos, cujo significado histórico e simbólico é sumamente importante para a nação sérvia. Desde o fim da 2ª Guerra Mundial que Kosovo passou a ser uma província da Sérvia, com uma situação política de semi-autonomia.
    A verdade é que o problema do Kosovo é mais um episódio da história confusa e tumultuosa dos Balcãs, ao longo dos séculos marcada a ferro e fogo. Esperava-se que os alvores de um novo século trouxessem luz clarificadora à consciência do mundo dito civilizado, despertando novas sensibilidades políticas e humanísticas para a busca de justas soluções geopolíticas. Mas o direito internacional continua a ser manipulado por conveniências espúrias que muitas vezes ignoram os interesses vitais dos povos e minam a paz. Foi assim que, com o desmembramento da antiga URSS, emergiram nos Balcãs novos países, alguns de fraca capacidade económica, outros ajudados pela conivência pouco esclarecida de grandes potências europeias, com a Alemanha à cabeça, que sempre se opôs à formação da "Grande Sérvia" que era o sonho desmedido de Slobodan Milosevic. E o que se seguiu não podia ter sido mais trágico. Com efeito, a precipitação no reconhecimento dos novos países deu origem a calamidades humanitárias que já não imaginávamos possíveis em solo europeu. E a política externa de Bush seria mais tarde a cereja em cima do bolo envenenado que é a questão do Kosovo. Por todas estas convulsões, nos espíritos mais lúcidos e conscientes do povo sérvio tanto pode radicar uma sincera vontade de enterrar definitivamente o passado como de nunca abdicar daquilo que consideram direitos históricos, como é o caso do Kosovo.
    Se o sérvio com quem conversei reclama a plena condição europeia do seu país, um direito natural consagrado pela geografia e pela história, no seu pensamento estava subliminar o campo de luta que a Sérvia escolheu no conflito da II Guerra Mundial: ao lado das democracias ocidentais, contra a Alemanha nazi. Diferente da Roménia e da Bulgária, hoje membros da União Europeia. Diferente também da vizinha Croácia, outro país que preferiu alinhar ao lado do Eixo na II Guerra Mundial, e que, em princípio, verá em breve aprovada a sua entrada na União Europeia. Os sérvios não esquecem que centenas de milhares de compatriotas seus pereceram em campos de concentração às mãos de croatas coligados aos nazis. Veja-se assim o quão fundo mergulham as raízes dos ódios insanos que nos estarreceram no último conflito nos Balcãs. Veja-se como não se pode dissociar a geopolítica de uma correcta leitura da história.
    É verdade que forças servo-bósnias cometeram horrendos crimes contra a humanidade no triste episódio do genocídio de Sobrenica. Tanto que o primeiro-ministro sérvio, Mirko Cvetkovic, afirmou que julgar os responsáveis por esse genocídio é uma condição necessária para a reconciliação nos Balcãs. Não é difícil imaginar uma espinha cravada na alma do povo sérvio, por culpa própria mas também por contingências da história. Os governos pós-Milosevic vêm dando sinais claros de um virar de página e a nação esforça-se para recuperar a sua economia dos graves prejuízos causados pelos últimos conflitos e pela destruição de muitas das suas infra-estruturas económicas. Uma das apostas é o turismo, com o parque hoteleiro a ser restaurado e remodelado e outros equipamentos a emergirem com uma boa qualidade de oferta. É sinal óbvio de abertura ao exterior e desejo de convivência cosmopolita, rompendo com as clausuras do passado. Reportando-me de novo às palavras de Mirko Cvetkovic, acho que a integração da Sérvia na União Europeia será outro contributo importante para ajudar a cicatrizar feridas antigas e convocar todos os europeus para o mesmo espaço de valores civilizacionais. A Sérvia pertence ao mundo ocidental.
    Foi com esta impressão que deixei Belgrado a caminho da Roménia, em viagem de autocarro através das extensas planícies do Danúbio, onde o trigo, o milho e a beterraba se perdiam de vista no horizonte, de um verde igual à cor da esperança. 
 
 
Tomar, Agosto de 2009
 
 
Adriano Miranda Lima
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:13
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 29 de Agosto de 2009 às 10:34
RECEBIDO POR E-MAIL:

Uma crónica bem explícita e expressiva, nos seus dados geográficos e históricos, de uma história recente de violência, de que recordo os maus tratos aos Croatas, e de que Adriano Lima nos dá informações desapaixonadas e simpáticas sobre um povo que merece admiração. Ficamos com vontade de ler a continuação turístico-histórica.
Berta Brás


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