Terça-feira, 25 de Agosto de 2009
A CULTURA NO FUTURO DAS CIDADES – 3

 

 
AGORA TRATEMOS O FUTURO
 
Quando se fala em futuro há uma falácia que surge imediatamente: não é possível prever o futuro. O que se demonstra ser totalmente falso pois estamos constantemente a prevê-lo ou não fosse o presente apenas a passagem do passado para o futuro. Na verdade tudo o que estamos a ver e a ouvir é sempre passado de forma que tudo o que pensamos fazer “agora” no momento a que chamamos presente é de facto futurologia a curto prazo. O que se passa com a previsão do futuro é qual o prazo até onde é sensato e aceitável prever.
 
Convém agora examinar como pode evoluir a realidade e quais as causas de anomalias às nossas previsões que são baseadas no conhecimento do passado e no que temos vontade (mais do que desejamos) que aconteça.
 
Na maior parte dos casos extrapolamos as tendências do passado recente e as informações das previsões meteorológicas e das bolsas, além dos programas da TV e os espectáculos em que estamos possivelmente interessados e do que temos registado nas nossas agendas. Por vezes programamos as férias, quem as tem programáveis, e na altura de escolher o curso em que nos iremos inscrever podemos tentar prever como será a actividade que iremos realizar e por aí fora durante toda a nossa vida vamos prevendo e revendo previsões umas vezes com algum sucesso outras vezes para esquecer.
 
Mas a História ensina-nos que a realidade sempre foi muita mais variada. Com efeito os acontecimentos mais influentes na vida dos povos de que temos notícia como foram a invenção da imprensa que permitiu o início da globalização do conhecimento, o desenvolvimento das ciências que levou ao início da globalização mundial, a invenção do telescópio, da máquina a vapor, da lâmpada eléctrica, do telefone, das vacinas, das “microchips”, dos materiais de construção modernos e tantos outros mais e ainda as muitas descobertas científicas que revolucionaram as energias e a medicina, não foram previstas.
 
Tudo isto aconteceu fora das previsões feitas no esquema normal de nos basearmos apenas na evolução mais ou menos recente.
 
Conta-se a história de um responsável pelo registo de patentes nos EU nas vésperas do aparecimento do telefone e da lâmpada que teria proposto fechar o dito registo porque já estava tudo inventado.
 
Para complicar mais esta questão temos ainda que chamar a atenção para o facto de algumas destas invenções e descobertas terem tido aplicações com efeitos extremos, isto é, muito boas e muito más como foi o caso, por exemplo, da dinamite e da energia atómica, a segunda muito criticada por ter sido o meio que provocou a morte a 200 000 pessoas e a primeira nada criticada mas tendo sido o meio usado para matar muitos milhões.
 
Portanto não nos devemos preocupar com as novas invenções mas antes com a existência de condições para elas acontecerem e principalmente com o que devemos fazer para evitar grandes erros cujos resultados são previsíveis. O conhecimento da evolução da Terra e do Universo também nos ensina que há numerosos fenómenos que constituem ameaças à nossa vida e para efeitos de previsão podemos classificá-los em três categorias:
1ª Aqueles em que nada podemos fazer além de rezar e portanto não vale a pena entrar com eles na previsão, excepto aprender a rezar;
2ª Aqueles para os quais podemos prever defesas para minorar os estragos e desenvolver métodos de previsão que ajudem como acontece com os tremores de terra, com os tsunamis e com os furacões e algumas mudanças climáticas;
3ª Aqueles em que as causas são de origem humana como a poluição e o crescimento populacional e aqui está a área onde a humanidade pode e deve actuar a fim de melhorar o nível de qualidade de toda ela e permitir a sua sobrevivência.
 
Em resumo temos uma participação activa na definição do nosso futuro pois a nossa vontade é sem dúvida um factor essencial e tão essencial que ninguém se deve furtar a assumir a responsabilidade que lhe cabe nas decisões quanto às escolhas do futuro que se pretende ter.
 
E agora é a vez da Cultura
 
Não a do Ministério respectivo que introduziu a distorção do sentido da palavra, tal como aconteceu na Educação com os péssimos resultados à vista, mas aquela que, dentro do conceito filosófico, corresponde às actividades essenciais, às crenças, atitudes, instituições, comportamentos básicos, regras morais, valores e capacidade de adaptação ao ambiente, das populações e em especial das elites que as dominam e orientam e assim conduzem os seus destinos influenciando o tratamento da 3ª categoria das ameaças conforme atrás examinámos.
 
O desenvolvimento deste tema levar-nos-ia a gastar o tempo todo e por isso limito-me a focar um aspecto fundamental da história de Portugal que ilustra de forma lapidar a importância da Cultura na vida de um povo.
 
Descobrimentos portugueses - Museu de Marinha, Lisboa
 
Se olharem para um mapa da Europa, Portugal fica no extremo esquerdo inferior, longe do centro europeu, portanto obviamente periférico como se ouve dizer muitas vezes como desculpa para o atraso que nos assola há tanto tempo.
 
Com o desenvolvimento da Marinha portuguesa no século XV o mapa que passou a ser tratado pelos portugueses foi o mapa-mundo em que Portugal figura no seu centro, deixando pois de ser periférico e se tornar num país central, à escala mundial.
 
Isto resultante de termos então uma Cultura de inovação, espírito científico e tecnológico, audácia, capacidade empresarial e operacional, definição do essencial e haver responsáveis mais voltados para as obras que para os papéis.
 
Após 1974 até cerca de 95 fomos destruindo a Marinha que tínhamos e transformámo-nos novamente num estado periférico de que tínhamos iniciado o afastamento em 1945, (quando foi dado o impulso para a sua criação) sem que os muitos economistas e políticos de excelente nível que temos tivessem dado conta disso e feito alguma coisa para alterar esta rota de colisão em que temos andado.
 
Há pois actividades e atitudes componentes da Cultura que são essenciais para a identidade, para o desenvolvimento e até para a sobrevivência de um povo da mesma forma que as há que são exactamente contrárias a estes objectivos como sejam: a proliferação de estabelecimentos de vida nocturna para jovens menores, o baixo nível da sua educação global, o deficiente funcionamento da justiça, o investimento decidido na base do imediato e do mediato, a corrupção, a ineficácia, etc.,etc.. 
 
Esta Cultura é dinâmica, ou deve ser, pois como é ela que preside à adaptação da população à evolução da vida envolvente se assim não for isso significa a estagnação e no extremo a extinção da identidade que distingue essa sociedade das outras.
 
A palavra-chave para a sobrevivência de qualquer ser vivo, e portanto também para nós é adaptar-se, obviamente em tempo útil.
 
O exemplo do afogado é paradigmático: se queremos que alguém não se afogue temos que a ensinar a nadar antes de cair à água porque depois não dá tempo…
 
E aqui entra a importância da Educação, também outra vez não a do Ministério respectivo que é mais da Instrução, mas da autêntica pois há que adicionar-lhe o efeito dos enquadramentos e dos exemplos que tanto tem faltado e que são muito mais influentes que a própria matéria ensinada na escola.
(continua)
 
Tavira, 8 de Agosto de 2009
 José Carlos Gonçalves Viana

 

 

(continua)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:04
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