Sábado, 8 de Agosto de 2009
A EUROPA E O ESPÍRITO EUROPEU

 

 
Nós, os europeus, devemos considerar-nos como
viajantes embarcados num só e mesmo navio
(Comenius, Praefatio ad Europeos, 1645)
 
 

Desde tempos míticos a Europa é um Ideal de beleza e fecundidade. Zeus, o deus dos deuses, por ela se apaixonou e a levou, disfarçado de touro manso, atravessando o mar. Amou-a e deste amor fecundo nasceu eterna descendência. Zeus-Touro está hoje nos céus – um signo que aponta o destino – Europa permanece na Terra, ligada à beleza e ao cumprimento desse Ideal de Amor que nasceu junto ao mar ...
 
A Europa que celebramos a 9 de Maio é velhinha e tem passado por muitas experiências de amor e desamor, de paz e de guerra, de ser e não ser. Muitos foram os autores das várias sensibilidades, das Ciências à Poesia, passando obrigatoriamente pela Filosofia, que pensaram a Europa. Ela é lugar e pensamento, e/ou cultura que se abriu e, abre ainda, a espaços longínquos. Dela não pode deixar de se pensar, também, como sendo o lugar onde se cruzam ideais políticos que, muitas das vezes, ultrapassam o seu limite geográfico e se consubstanciam para além dos continentes. Falemos, pois, da Europa como lugar de pensamento, abstraindo das suas fronteiras ou dos seus múltiplos Tratados, das multiformidades das uniões que se sucederam ao longo da sua velha história. Esta reflexão, breve, parte deste pressuposto.
 
Se a política pode ser entendida como a resposta à necessidade da vida em conjunto, se ela aparece nesse tecido intermediário, nesse espaço mal definido, que é a ponte de uns para os outros, onde cada eu não se quer perder e, simultaneamente, quer encontrar o outro sem prescindir de si, então ela diz respeito a toda a vida humana. A Europa é hoje por excelência, o lugar da política, entendida como organização da vida em comum. Caracterizada pelo alargamento das comunidades, pela manifesta vontade de relação entre elas, pela tendência, não de apagar o papel individual dos Estados, dos governos e das culturas nacionais, mas de encontrar valores comuns de justiça, liberdade, igualdade, solidariedade e respeito, a Europa continua a pensar-se como uma entidade que ultrapassa o sítio geográfico e os limites territoriais. Como “lugar da irrupção do pensamento racional” (Edmund Husserl, A Crise da Humanidade Europeia, 1935), projecta-se como pensamento próprio que se não fecha em si, nem se contenta com esse fechamento. Tal como no mito, é levada para fora de si e dá frutos. É esse o sentido da Filosofia ou da Ciência que são o seu espírito. É essa a característica da sua racionalidade: fonte de normas para a vida, quer individual ou comunitária.
 
 
 
Que é a política, na Europa, senão o intuito de estabelecer normas para a vida? Que é a política europeia senão a consciência da necessidade de estender a razão até aos limites da Paz? Caminho nem sempre plano, nem sempre aberto e muitas vezes aparentado com a negação e o cansaço da razão: quer por defeito quer por excesso. Este cansaço, a “misologia da razão”, como lhe chama Kant (Fundamentação da Metafísica dos Costumes), caracteriza a crise da Humanidade Europeia: faz a Europa descentrar-se de si, ser outra coisa, ser o que não quis nem pensou ser, perder-se em caminhos rectos, curtos, lineares e geométricos que a trazem cega e intolerante, que a tornam seca e sem alma. É o esquecimento da dimensão da racionalidade plena que se abre à vida e a comodidade duma razão geométrica, que matam a possibilidade da própria vida; que matam o que de Humano há no Homem. Isto leva-nos a um lugar sem política, ou a uma política desenraizada da vida em comum, portanto, à crise da política, e daí, também, a uma crise da razão humanizada.   Círculo vicioso entre razão e política? Talvez, mas se a razão pode expressar-se fora dos limites da política, a política não pode exercer-se sem a razão. Ela é, ou deveria ser sempre, uma das expressões da razão enquanto legisladora e prática.   Quando assim não foi, na Europa, a crise chegou ao âmago do seu  espírito, atacou-o com um golpe quase mortal.
 
No final do texto de Husserl (A Crise da Humanidade Europeia) fica-nos a esperança de podermos ser “bons europeus” e, tal como a filosofia, levantar voo na escuridão. Espera-nos, se tivermos coragem e acreditarmos em nós, a missão renovada de uma interior, livre e imortal espiritualidade. Esta coragem e missão renovadas têm que ser postas nas mãos e no coração da juventude e, por isso, faz todo o sentido a celebração na Escola, em especial na página de Filosofia, desta Europa que é a nossa forma de ser humanos e que não sabemos nem queremos perder.
 
Citando Fernando Pessoa: “ A Europa tem sede de que se crie, tem fome de Futuro! A Europa quer a Grande Ideia que esteja por dentro destes Homens Fortes – a ideia que seja o Nome da sua riqueza anónima! A Europa quer Donos! O Mundo precisa da Europa." (Ultimatum, 1917)
 
Esta é a Europa do espírito europeu, pleonasmo necessário para acentuarmos a força do espírito, impulso indispensável numa era de criatividade, mudança e desejo de paz. Celebremos, não a Europa, mas o espírito europeu.

Façamos do dia da Europa uma festa em conjunto, por nós e pelas gerações futuras a quem queremos passar, responsável e solidariamente, este Ideal.
 
Lisboa, 25 de Abril de 2008

 Maria do Carmo Themudo

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:29
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7 comentários:
De maria teresa a 8 de Agosto de 2009 às 11:29
Maria do Carmo
Desculpe-me, desde já, os termos aparentemente demasiado familiares com que me dirijo a si. O seu sorriso convida-me a tal.

Excepcional reflexão, reveladora de um espírito cheio de esperança, de um ser humano com os pés bem assentes no chão e de uma cabeça bem "arejada". Para além de uma mostra de "muito saber".
Bem haja!
Maria Teresa Monteiro


De Henrique Salles da Fonseca a 8 de Agosto de 2009 às 12:53
RECEBIDO POR E-MAIL:

Um belo texto, que nos faz mergulhar no simbolismo mítico dos espaços que habitamos, para justificar racionalmente, pela filosofia, pensamentos de eleição, a eles pertencentes. A pena toda é que, quando olhamos para nós, "cabeça da Europa toda",, segundo outro pensamento mítico, não nos sentimos felizes, nem orgulhosos.
Berta Brás


De Luís Santiago a 8 de Agosto de 2009 às 23:33
Texto excepcional pela lição de esperança que nos conforta o espírito a caminho da desilusão e a razão coberta de cepticismo. Por este texto, apetece-me parafrasear Sócrates, não este, mas o outro... "Não sou Lisboeta, nem português, mas sim um cidadão da Europa". As minhas homenagens ao seu pensamento aqui expresso com tanta clareza e lucidez.


De Adriano Lima a 9 de Agosto de 2009 às 20:42
Belíssimo texto que nos faz reflectir sobre alguns conceitos e preconceitos.
Primeiro que tudo, reflectir sobre a Europa como espaço mítico que acreditamos, ou queremos acreditar, detém a matriz mais autêntica da civilização humana e guarda as suas reservas mais fundas. Mas, se essa Europa é a da racionalidade filosófica, com um legado teórico que se mantém imutável na sua pureza e intenções, já não será a de séculos e séculos passados de conflitos sangrentos e contrários àqueles valores humanitários que hoje desejamos ver sublimados e exportados para outros espaços. Digamos que nos revemos, sim, na Europa da actualidade, aquela que quer enterrar no fundo da memória o Nazismo e o Holocausto, a I Grande Guerra e horrorosa mortandade das trincheiras, o general Napoleão e o cortejo de desgraças que os seus exércitos semearam em todo o continente, isto para não recuarmos mais no tempo de outras terríveis calamidades. A Europa actual será assim uma Europa purificada e restaurada sobre as suas misérias, uma Europa que rejeitará o caminho do retrocesso custe o que custar, ainda que, há apenas 10 anos, tenhamos ficado petrificados com o genocídio de Sobrenica nos Balcãs.
Eis um conceito mas que pode também esconder um preconceito se admitirmos que esta Europa da actualidade, em que acreditamos, se pode congelar no tempo, imune a outras influências culturais e religiosas, exclusiva como guardiã do futuro da civilização. É que as últimas conquistas tecnológicas tendem a acelerar cada vez mais a circulação humana, as comunicações e a interpenetração cultural, contribuindo para a devassa da Europa e para o possível esbatimento da matriz cultural e religiosa que enforma os valores civilizacionais que nos são caros: as liberdades cívicas, o respeito pela vida e condição humana, a tolerância, a solidariedade humana, etc.


De Henrique Salles da Fonseca a 10 de Agosto de 2009 às 18:45
A ROGO DA AUTORA:

Por tudo o que diz Adriano Lima, e que o texto também diz, é que a Europa não é um lugar fixo mas um espírito de ser Europa, que se abre a muitos outros espíritos e lugares. O seu fio orientador será a qualidade de se levantar depois da queda - a esperança - e a de se firmar na Ciência e na Filosofia. Não nesta ou naquela concepção científica ou filosófica, mas ser capaz da auto-reflexão, apesar de, neste momento, ter que reflectir a 27, o que torna, do ponto de vista prático, muito mais difícil não se "escapar" o "espírito europeu" por qualquer brecha escondida. De qualquer modo e, apesar da crise actual, acho que todos nós vemos sinais, não obrigatoriamente vindos da Europa institucional, mas do "espírito", a soprar no sentido duma esperança de futuro. Não haverá, fora da Europa espírito europeu? Teremos que olhar para longe das nossas fronteiras e talvez perdermos o olhar de esperança para lá dos oceanos, sem nos deixarmos ofuscar pelo brilho do sol espelhado nas águas, nem nos deixarmos afundar: a " cabeça toda" tem que ficar sempre de fora...
Maria do Carmo Themudo


De Adriano Lima a 11 de Agosto de 2009 às 13:55
Percebo, Senhora Doutora Carmo Themudo, um certo idealismo messiânico na sua concepção de Europa, que, aliás, eu e todas as pessoas de boa vontade não podemos deixar de partilhar com a mais ardente fé. Todos nós alimentamos a esperança de que a Europa seja capaz de uma profunda “auto-reflexão”, via para a contínua regeneração de que não pode abdicar face à evolução natural do mundo. Mas não podemos ignorar que a Europa tem os seus demónios, que de uma forma velada ou explícita surgem no retiro da sua auto-reflexão. A capacidade de “auto-reflexão” funcionou relativamente bem a 9 (CEE), mas a 27 e para a união efectiva que será um sonho legítimo para a maioria, os problemas complicam-se. Parece difícil dotar a União do instrumento político fundamental e indispensável ao seu funcionamento e fortalecimento, porque falha o consenso necessário. Não é que se possa daí inferir que o espírito europeu seja uma miragem, mas a verdade é que paira um certo cepticismo a esse respeito. Não sei se esta realidade será efectivamente um dos seus “demónios”, mas a questão do pacifismo europeu é-o certamente, tanto mais que gerador de desentendimentos no relacionamento externo. Num mundo que se mantém conturbado e com um futuro pouco tranquilizador, a Europa não pode continuar a contar com o guarda-chuva americano. Até porque o pacifismo europeu é-o menos por razões morais que pela memória das duas guerras que devastaram o continente. A melhor maneira de exorcizar este “demónio” é fazer-lhe frente com todo o pragmatismo, porque, infelizmente, a natureza humana é um inesgotável poço de conflito. Com isto quero dizer que o espírito da Europa não pode sobreviver refugiando-se num limbo de idealismo puro. Não pode enterrar a cabeça na areia em relação a certos problemas vitais que o mundo atravessa, mormente o da segurança colectiva, com a crescente complexidade de novos fenómenos de instabilidade. O ideal europeu é um jardim que temos de cultivar mas sem pensar que estará imune aos vendavais.


De Henrique Salles da Fonseca a 12 de Agosto de 2009 às 12:34
A ROGO DA AUTORA:

Tem razão Adriano Lima chamando a atenção para "os demónios" que ameaçam a Europa. Direi que não só a Europa mas a vida de qualquer um ou de qualquer região, cultura, etc. Não esquecerei um recado de Nietzsche muito pertinente e que tenho presente, "à porta de cada civilização espreita Dionisos a querer passar a brecha das colunas do templo de Apolo" ou, ainda, que "não devemos pensar Apolo sem Dionisos, sob pena de nos petrificarmos na aparência do abstracto e esquecer a realidade da força dionisíaca da Vida". (Não são citações exactas, mas o que recordo sem a obra ao pé de mim: "A Origem da Tragédia"). No meu comentário ao texto de Husserl, talvez este aspecto se faça sentir menos por quem o lê e, concordo, que o pior é ver só o lado do positivo e petrificarmos a Vida. Pensamos à maneira de Parménides e a realidade é Heraclitiana, o devir é inexorável.
Não me trate por Doutora, sou licenciada e aqui serei Maria do Carmo


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