Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009
A VOZ DA SABEDORIA

 

A mim ainda ninguém me explicou
 
 
            Lá está a minha amiga a exigir explicações. Gratuitas ainda por cima, as minhas, que o meu esforço de esclarecimento é todo à borla. Mas também porque a maioria das vezes não obtém resultado positivo com ela, que se julga superior em competências, só porque tem uns meses mais do que eu e lê e ouve mais imprensa diária.
 
            - “Ainda ninguém me explicou cabalmente as vantagens do novo aeroporto nem do TGV”.
 
O TGV que nos querem impôr...
 
... e o TGV para que temos dinheiro
 
            Apreciei o “cabalmente”.
 
            - “Ora essa! Estão fartos de o dizer, com o nosso PM à cabeça! O TGV permite uma maior rapidez, entre Lisboa e Madrid e entre Lisboa e Porto, com ligação a Vigo. Num ápice, estaremos na Europa. Já viu as nossas possibilidades de evasão ao nível europeu? Maior que a do Cesário: “Ocorrem-me em revista exposições, países: / Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!” Agora até podemos ir parar a Vladivostok, tomar a carreira para o Japão, dar um salto ao Alasca, um ver se te avias de experiências viageiras na aldeia global. Quanto ao aeroporto, servirá de escoadouro do tráfego aéreo – e do tráfico de qualquer via – para libertar o espaço aéreo da capital.”           
            - “Pois! Mas quem paga isso?”
            - “Acho que a União paga vinte por cento, não sei se já pagou há anos e até se eles já foram desviados para outros fins.”
            - “Ai, não! Não podem ter sido! Tudo menos isso, que a União exige as contas correctas! Esses dinheiros dos empréstimos para os fins a que se destinam são sagrados, eu sei. Mas...e o resto?”
            -“Qual resto?”
            - “Os oitenta por cento, claro!”
            - “ Ah! Isso vai-se pagando, com mais uns impostos aqui, mais umas dívidas aos fornecedores e aos trabalhadores além, vai ver que se consegue.”
            - “Vê-se mesmo que somos um país de novos-ricos, que construíram auto-estradas em excesso, talvez pelo muito que padeceram com a falta delas nos tempos fascistas.”
 
            Nada a contenta, protesta sempre.
 
            - “Eu tive um professor de italiano, nos meus tempos de estudante – tinha um Fiat que era o “non plus ultra” da beleza automóvel, para leigos como eu – que costumava afirmar que um país sem estradas não se desenvolvia. Vivi sempre com esta imagem do progresso ligado às vias, e quando chegámos à administração do Dr. Cavaco e Silva e dei um passeio pelas terras, passando pelas aldeias do abandono fascista, fiquei muito feliz, ao notar a rede de autovias”.
            - “Pois, mas quando não se pode, tem que se racionalizar! Estamos encravados até dizer chega! e vamos encravar-nos mais ainda com meios de transporte ou espaços aéreos que o nosso bolso não contempla!”
            - “Ah! Mas é que não conhece a opinião dos que afirmam que os que subtraíram em fraudes de bradar aos céus e que são tantos que dava para, com esses dinheiros que eles deviam ser forçados a repor, pagar os tais gastos da nossa megalomania e mais as dívidas das Câmaras e ainda sobraria para repor as fábricas a produzir e os trabalhadores a trabalhar, e ainda com umas sobras para os pobrezinhos desabituados de trabalhar.”
            - “Isso parece história de magia, ou de fadas que também são magia. Os que mergulharam no saco roto das massas não vão repor os dinheiros subtraídos; e tudo o resto é fantasia.”
 
            Nada a fazer, com a minha amiga. Quando diz que não acredita no milagre não acredita mesmo. Eu sinto-me na pele do chinêzinho Badaró: “Como ispilico?”
 
Berta Brás

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:28
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4 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 8 de Agosto de 2009 às 18:17
RECEBIDO PELO PLAXO, ENVIADO POR TERESA DE LEMOS PEIXOTO:

Poema da Auto-estrada

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão, in 'Máquina de Fogo'


De Henrique Salles da Fonseca a 8 de Agosto de 2009 às 23:41
RECEBIDO POR E-MAIL:

Muito obrigada, Teresa, pelo poema da Leonoreta moderna. Creio que a lambreta nesta altura, já é velharia, ultrapassada pelas motas estridentes, além de que as auto-estradas não param de rasgar os terrenos pátrios com grande eficácia, sobretudo agora, que estamos em eleições dela demonstrativas. O que faz o progresso! Nada que chegue ao TGV, claro, mas ultrapassa em grande o "eléctrico" da foto, para o qual, aparentemente, ainda temos dinheiro - embora hipotecado. Este - refiro-me ao eléctrico - está mais de acordo com o poema do melancólico trovador João de Lobeira, do "Amadis de Gaula", mais condizente com as nossas posses e os nossos arroubos de amor:

"Leonoreta, fin roseta
bela sobre toda fror,
Leonoreta, non me meta
En tal coita vostro amor."

Como vê, uns coitados sempre.

Berta Brás


De maria teresa a 8 de Agosto de 2009 às 18:40
PASTELARIA - MÁRIO CESARINY

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny

Maria Teresa Monteiro


De Henrique Salles da Fonseca a 9 de Agosto de 2009 às 11:59
RECEBIDO POR E-MAIL:

Embora Ricardo Reis tenha escrito que "Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio", "pagãos inocentes da decadência", que o aproximam, na indiferença egoísta, salvo as devidas distâncias, (porque nele saliente o sentimento da tragédia humana do efémero absurdo), desses versos que cita, também escreveu:
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
É certo que, com tanto derrotismo cínico de quem apoia e se apoia nas forças brincalhonas dos que têm bons dentes lavados, Cesariny encontra maiores aderentes nos jovens de hoje, que se esquecem que depressa perderão os dentes com que riem, porque os dentistas são extraordinariamente careiros.
Berta Brás


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