Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
HERÓIS DE CÁ - 25

 

 

ELES MATARAM O FUTURO
 
 
 
Foi antigamente, no passado, que o futuro existiu. Os modernistas foram os últimos que o tiveram; os pós-modernistas mataram-no.
 
Ultrapassadas as hierocracias[1] tipicamente medievais e vitoriosa a Revolução Francesa, sentiu-se que a noção de Deus abafava o mundo e que o raciocínio tinha que ser dirigido com base em parâmetros modernos, nomeadamente reinventando a arte e mesmo a metodologia científica.
 
Assim nasceu na segunda metade do séc. XIX o romantismo centrado na experiência individual subjectiva, na supremacia da Natureza e sempre tendo como valor essencial a liberdade da pessoa. Se até então cada um se enquadrava na classe em que nascera e fazia o que a sociedade considerava que ele devia fazer, a partir de então a cada um passava a caber a responsabilidade de fazer jus à liberdade de que dispunha procurando uma posição profissional, familiar e política sem dependência de classe ou sequer de grupo.
 
Em paralelo, o primado da Ciência conduziu a um claro afastamento da Ética clássica tudo valorizando em função da eficácia. Contudo, terá sido por causa deste mesmo cientifismo militante que simultaneamente surgiram nesta época grandes iniciativas para a construção de uma Ética secular.
 
Mas se a Moral e a Ética clássicas definiam bem e mal segundo padrões de origem divina, haveria que buscar outro enquadramento que não dependesse da vontade de Deus. Assim, sem abdicarem por completo do Cristianismo, os modernistas foram buscar normas científicas da física clássica e doutrinas que pregavam a percepção da realidade básica externa através de um ponto de vista objectivo.
 
E porquê? Porque, «malgré tout», entenderam necessário definir padrões de harmonia social que lhes permitissem viver o presente e assegurar o futuro.
 
Sim, os modernistas tinham futuro e este iria sobreviver até à segunda metade do século XX.
 
Mas depois da II Guerra Mundial assistiu-se a um processo sem precedentes de mudanças na história do pensamento e da técnica. Ao lado da aceleração avassaladora nas tecnologias de comunicação, das artes, dos materiais e da genética, houve mudanças fundamentais no modo de pensar a sociedade.
 
A Modernidade foi criticada nos seus parâmetros fundamentais:
·         A crença na Verdade alcançável pela Razão;
·         A linearidade histórica rumo ao progresso.
 
Para substituir estes “dogmas” surgiram novos valores, menos precisos, tanto na teoria do pensamento como na ciência e na tecnologia.
 
Assim, na década de 1980, desenvolveu-se uma cultura globalizada geográfica e etnicamente: a multiplicidade, a fragmentação, a desparametrização e a aceitação de todos os estilos e estéticas, pretendendo a inclusão de todas as culturas como mercados consumidores; a Comunicação e a Indústria Cultural assumindo abertamente a orientação da opinião globalizada com o apoio dos «opinion makers» em total reverência ao «Deus» Nível de Audiência. E para que este seja devidamente venerado, tudo lhe é devido.
 
 
Altar ao «Deus» Nível de Audiência
 
Hoje, tudo! Amanhã, se o houver, será outro dia a viver como hoje em veneração ao mesmo «Deus». E se este se mostrar caprichoso, inventem-se todos os pretextos que se mostrem necessários à satisfação dos seus caprichos: não há que olhar aos meios desde que se alcancem os objectivos.
 
Sim, foi deste modo que eles mataram o futuro e por isso não precisam de Ética.
 
Tavira, Agosto de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca


[1] - Domínio clerical da sociedade à semelhança do actual Irão

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:29
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3 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 3 de Agosto de 2009 às 11:43
RECEBIDO POR E-MAIL:

Eles mataram o futuro. Ou seja, os fins justificam os meios. Foi Maquiavel que o disse? Mas ele referia-se aos "Príncipes", e nós agora, falhos de Deus, de Racionalidade, de Ética, generalizamos o princípio em função da Eficácia, fortalecidos pela espectacularidade da globalização. Não passamos de seres já sem mola interior, desde que os tais valores da Razão e da Fé se converteram ao absurdo do "vale tudo". Vivemos com medo, é esse o facto grave. Mas queremos ainda acreditar no futuro, pelos que amamos, pela Terra que amamos, por aqueles em cuja racionalidade confiamos ainda, pelas provas que já deram, pela crença em algo que nos auxilie a retomar valores que, afinal, nunca se perderam completamente. Obrigada pelo seu texto excelente, Deus não o ouça, para bem dos que amamos, que são todos, afinal, humanos e natureza na sua maravilhosa variedade.
Berta Brás


De Adriano Lima a 3 de Agosto de 2009 às 14:50
Este texto é excelente e não me atrevo sequer a imiscuir-me na sua substância. Apenas uma observação. Ontem vi num dos canais da telecine um filme francês de grande qualidade. Chama-se “Tempo de Verão”. Não viria muito a propósito se não houvesse um momento, na cena final, que me pareceu de grande simbolismo. Os filhos de uma senhora acabada de falecer desfazem-se de um património familiar que era tão nobre como artístico. Ao prescindirem, por razões meramente materiais, do passado, descomprometem-se com o futuro, sem o saberem ou sem o valorizarem. Para cúmulo, os netos, ainda adolescentes, da defunta, resolvem dar uma festa de juventude na velha casa de família, prestes a ser vendida, e já sem o seu recheio, que entretanto fora leiloado. Essa festa tem o significado simbólico de um desconchavo absoluto sobre uma memória já irrecuperável. Nada como uma estouvada e acéfala juventude para liquidar a dor da separação, e assim anestesiar os remorsos dos mais velhos. Mas, a dado trecho, há um momento em que a neta mais velha, frívola e despreocupada como a sua geração, pára e emociona-se ao descobrir que afinal de contas está a perder para sempre algo mais valioso do que supusera. Algo retiniu subitamente no espírito da moça, acordando-a, ainda que furtivamente, para a realidade de uma porta que se fechava para nunca mais. Pensei então que a esperança no futuro podia não estar completamente morta naquela jovem, ainda que sob os escombros de uma memória acabada de ruir.


De Henrique Salles da Fonseca a 3 de Agosto de 2009 às 18:23
RECEBIDO POR E-MAIL:

Futuro? Isso é coisa do passado!
Não acredita? Então veja em
...abemdanacao.blogs...


Pois! Mas eu respondi que não creio nisso, por conta das pessoas como Salles da Fonseca, que ainda podem fazer chegar longe as suas mensagens de barreira.
Berta Brás


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