Domingo, 2 de Agosto de 2009
POSTAIS ILUSTRADOS XXIII

 

 
TEOLOGIA DA ECONOMIA II
Parte III
 
TUDO E NADA
 
(Continuação)
 
“Deus é puríssima essência.
Para os que têm fé nele,
Deus simplesmente é”
Mathma Gandhi
 
 
Quero, em primeiro lugar, agradecer os comentários que me foram feitos no texto anterior, e que suscitariam vários artigos sobre estes. Mas creio que os resumirei a todos com um pensamento de Mathma Gandhi ”Se queremosprogredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma histórianova”. E é disso que se trata! Aos pensadores, os profetas da era moderna, cumpre dar livre curso às ideias e sonhos; aos Homens de acção cumpre agir.
 
Mas, a acção é muito mais lenta e demora muitíssimo mais tempo a reagir e a tornar realidade as profecias. Nos dias de hoje, a Palavra acontece e espalha-se velozmente! Resta-nos esperar que o desenvolvimento e descoberta de novas tecnologias ponham em pé novos edifícios económico-políticos e sociais que procurem abrigar novos conceitos de humanismo e integridade comportamental.
 
Nesta Parte (III) e recapitulando o que escrevi nas linhas de último período do texto anterior, ainda falarei de vendedores de mitos e receitas milagrosas que proliferam por aí, como moscas, em livros vendidos aos milhares. Mas, antes disso, inclino-me perante a genialidade de John Steinbeck [1], que através de 2 livros fabulosos [2], nos retrata a sociedade americana, na era da Grande Depressão. Tomei contacto com este escritor americano, por tê-lo lido no meu primeiro ano da Faculdade de Direito, ao ter sido referenciado pelo Senhor Professor Marcelo Caetano no Manual de Ciência Política e Direito Constitucional [3]. Mas, abordarei ainda algumas das palavras de Bento XVI, para terminar as referências à Encíclica e chegar a conclusões numa IV Parte, onde aproveitarei para analisar, mais especificamente, os comentários que me foram sendo feitos ao longo desta série de textos sobre a Encíclica Caritas in Veritate.
 
Ora, ao longo de seis capítulos o Papa percorre a sociedade humana, reportando-se ao seu desenvolvimento e ao uso da tecnologia; à inter ajuda dos membros desta sociedade humana como Família Global; aos direitos e deveres [4]; à fraternidade; ao nosso tempo e ao ambiente [5]. Fiquemo-nos por agora, com a palavra de Bento XVI:
 
 
“Perante o crescimento incessante da interdependência mundial, sente-se imenso — mesmo no meio de uma recessão igualmente mundial — a urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeirainternacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações. De igual modo sente-se a urgência de encontrar formas inovadoras para actuar o princípio da responsabilidade de proteger e para atribuir também às nações mais pobres uma voz eficaz nas decisões comuns. Isto revela-se necessário precisamente no âmbito de um ordenamento político, jurídico e económico que incremente e guie a colaboração internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos.” [6].
 
O espaço obrigou-me a deixar o lucro e a espessura humana dosproblemas para o próximo e último texto desta III Parte.
(Continua)
 
 Luís Santiago
 
[1] Prémio Pulitzer, pelo romance Vinhas da Ira, editado em 14 de Abril de 1939;
[2] The Grapes of Wratth: As “Vinhas da Ira”; Of Mice and Man: “De Ratos e Homens”;
[3] “No romance de Jonh Steinbeck, As Vinhas da Ira, há, no capítulo 17, uma sugestiva descrição do modo como, num comboio de emigrantes para o oeste americano, espontâneamente se iam formando as convenções sociais, as regras de conduta e as sanções, sob pressão da simples necessidade da vida em comum” “Manual de Ciência Política e Direito Constitucional”, pág. 4, nota em rodapé, Tomo I, 6ª Edição, reimpressão de 1972, Coimbra Editora;
[4] “Hoje muitas das pessoas tendem a alimentar a pretensão de que não devem nada a ninguém, a não ser a si mesmas. Considerando ser titulares de direitos... os direitos pressupõem deveres, sem os quais o seu exercício se transforma em arbítrio”. Encíclica Caritas in Veritate, Capítulo IV DESENVOLVIMENTO DOS POVOS, DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE, Ponto 43;
[5] “As modalidades com que o homem trata o ambiente influem sobre as modalidades com que se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama a sociedade actual a uma séria revisão do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que daí derivam. É necessária uma real mudança de mentalidade que nos induza a adoptar novos estilos de vida, nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens para um crescimento comum sejam os elementos que determinam as opções dos consumos, das poupanças e dos investimentos”, idem, Ponto 51;
[6] Ibidem, Ponto 67, Capítulo V – A COLABORAÇÃO DE FAMÍLIA HUMANA.

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:43
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4 comentários:
De Adriano Lima a 2 de Agosto de 2009 às 19:21
Apraz-nos aguardar, pois, Senhor Doutor, que os ideólogos pensem e sonhem e que os homens de acção ajam. Por outro lado, esperar que “ o desenvolvimento e descoberta de novas tecnologias ponham em pé novos edifícios económico-políticos e sociais que procurem abrigar novos conceitos de humanismo e integridade comportamental”.
Só que a história tem demonstrado a distância enorme que vai entre a ideia - sonho e a sua realização prática. A humanidade não pode queixar-se de falta de pensadores, ideólogos e santos. Se da sua existência apenas dependesse a obra feita, o homem veria resolvidos os seus principais problemas. Passar à prática concreta é que é o busílis da questão. No silêncio do claustro ou do escritório apenas se confronta com o tumulto das ideias que fervilham na mente, e surge sempre o momento em que o espírito encontra o repouso necessário para deixar sair a ideia supostamente luminosa. Mas quem dela se aproveita para transformar a realidade, logo se depara com os mais inesperados antagonismos, tal é a complexidade da natureza humana quando estão em causa problemas reais ou imaginários ligados à sobrevivência. Porque persiste uma diferença abissal entre a ideia abstracta e a realidade concreta. Na primeira, o homem age apenas num espaço interior, delimitado e inviolável, senhor de si, desligado das contingências humanas. Na segunda, o homem é colocado inevitavelmente perante os seus demónios, as suas objecções e abjecções e as suas contradições.
Ainda ontem, o jornal DN noticiava que os funcionários públicos portugueses são os que mais férias têm na Europa e os que menos trabalham. Logo a seguir, um colunista dizia que os governos não têm tido a coragem de mudar uma situação que é uma das causas dos nossos estrangulamentos crónicos. E acrescenta que os governos não se atrevem a isso porque têm a noção de que essa classe profissional representa 700.000 votos. E nessa altura ri-me ao não ignorar que se um governo quiser agir, como já se tentou, a comunicação social coloca-se velada ou estrategicamente ao lado dos contestatários ou descontentes, explorando simplesmente o lado lucrativo da notícia e muitas vezes o sórdido.
Por outro lado, não tenho grande esperança em que as “tecnologias ponham em pé novos edifícios económico-político e sociais”. Aliás, é mais ou menos isto que tem estado em discussão e sabemos que os efeitos, até aqui verificados, da expansão tecnológica sem precedentes só trouxeram novos problemas, alegadamente inesperados mas atentatórios de um equilibro comportamental sedimentado, bem ou mal, ao longo de décadas.
Volto a dizer, tudo é muito complexo e o lado mais perverso da complexidade está na própria natureza humana. A tecnologia pode evoluir em poucos anos, mas a natureza humana não se livra facilmente da sua propensão para a divisão, a discórdia, o egoísmo e o ódio.
Obrigado por estas reflexões, Senhor Doutor. E continuemos...


De Luis Santiago a 3 de Agosto de 2009 às 21:34
Meu Caro Coronel, Os pertinentes comentários que tem feito às minhas reflexões merecem uma resposta que não seja tão sucinta que a reduza a este lugar, daí ir integrá-la na continuidade destes textos. E dá-la-ei no seguimento do conceito de "espessura humana dos problemas" abordado por Bento XVI na Encíclica. Acredito que a totalidade destas reflexões venha a ter alguma influência em quem nos lê e estas palavras que nos movem tenham alguma utilidade prática. Obrigado também pelos seus comentários e continuemos este frutuoso debate, que espero não seja só académico, mas, essencialmente, produtivo e útil.


De maria teresa a 2 de Agosto de 2009 às 20:41
Luís,
Talvez seja o meu quase nulo conhecimento do conteúdo da 3ª encíclica do Papa Bento XVI, CARITAS IN VERITATE , que faz com que ao ler os seus postais ilustrados, dedicados à TEOLOGIA DA ECONOMIA, emerjam do meu EU profundo, imensas interrogações relacionadas com os problemas actuais da humanidade.
Bento XVI sintetiza a sua CARITAS IN VERITATE numa simples, mas complexa frase: "Deus é a esperança do mundo" e há quem considere esta encíclica como "um presente para o mundo pós-moderno". Na realidade a encíclica em referência, baseou-se na do Papa Paulo VI ( POPULORUM PROGRESSIO ) mas teve o cuidado de ter em conta as enormes diferenças existentes entre o "mundo" de 1967 e o "mundo" actual.
*Será que fazemos o mesmo quando discutimos temas bastante diferenciados?
*Todas as áreas do conhecimento estão a acompanhar esta modificação? São dinâmicas e não estáticas?
*Como interpretar e aplicar os novos conceitos de humanidade?
*Como definir, num mundo tão heterogéneo, integridade comportamental?
*Como promover a dignidade humana?
*O ambiente deverá ser tratado sob que ponto de vista?
*Seria uma utopia desejarmos ter ideias novas, que nos ajudassem a libertar-nos dos erros humanos e conseguirmos criar harmonia na nossa vida e na vida dos que nos rodeiam?
*Será que não despertei para a FÉ e para a ESPERANÇA?

As interrogações são muitas ..... e por muito que busque ainda não encontrei respostas que me satisfaçam.

Do pouco que sei sobre esta encíclica penso que posso inferir que se trata de uma encíclica social (refere-se à caridade na verdade ) que aparece depois da "esperança cristã" ( a 2ª ) e depois logicamente da 1ª , a caridade evangélica.

Quanto à citação que faz de um pensamento de Mathma Gandhi eu gostaria, de humildemente, acrescentar : mas dando continuidade ao que de bom teve a "velha" história.
Maria Teresa Monteiro


De Luis Santiago a 3 de Agosto de 2009 às 21:49
Maria Teresa,
A resposta que dei ao Senhor Coronel Adriano Miranda Lima é extensível também aos seus comentários, bem assim, como a todos os outros comentadores. Sim, eu já afirmei, nos PI XIX, sobre a Encíclica que: "...brindou-nos Bento XVI com uma nova Encíclica, “Caritas in Veritate ”, na esteira da preocupação humanista da Populorum Progressio ” de Paul VI." As suas questões são pertinentes e para a nossa busca, cada resposta a dúvidas trará à colação, outras. É assim a dinâmica do pensamento. Na referência a Mathma Gandhi não pretendi repudiar a História, tal com Gandhi não teve essa intenção. Pretendi que a "velha" História não seja uma base de conservadorismo defensivo mas de modernidade lutadora... Bem haja.


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