Sábado, 1 de Agosto de 2009
ASSIM FALAMOS - 1

 

 
Vão haver acórdos, dissestes bem
 
            Três erros, um talvez menos grave do que os outros, mas todos ferindo um qualquer ponto sensível da nossa alma. Com raiva. Porque são constantes, os media utilizam, as pessoas repetem a cada passo, brinca-se na revista com os dislates de cariz popular ajavardantes e os erros gramaticais vão-se insinuando cada vez mais fundo na língua, a ponto de pessoas com responsabilidade intelectual os utilizarem.
 
            Perdoa-se facilmente o calão, é até “porreiro” e muito “bem” usá-lo, mas certos erros de acentuação ou de morfologia dão imediatamente a noção de deficiente estudo gramatical na escola, de falta de leitura, da permissividade ao erro como estratégia pedagógica.
 
            É o caso do plural “acordos” cuja sílaba tónica tenho ouvido tantas vezes com oaberto. De facto, há em português inúmeras palavras que alteram no plural o timbre da vogal tónica, caso de “ôsso”/“óssos”, “sôgro”/“sógros”, “jogo”/“jógos”. A esse fenómeno fonético se chama “metafonia”, e, para amenizar a leitura destas notas, lembro António Gedeão, e a primeira estrofe da sua “Impressão Digital”, expressiva do conceito de relatividade próprio da diversidade humana:
 
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos
Não vêem escolhos nenhuns.”
 
No exemplo citado, a sílaba tónica do plural das palavras olho e escolho, pronuncia-se com o aberto.
 
            O mesmo não acontece com o plural de acordo, piolho, bolo, namoro, piloto, estojo, etc. Há imensos exemplos de excepção à regra da metafonia, como se pode ver, por exemplo, na gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra (“Nova Gramática do Português Contemporâneo”). Mas enquanto ninguém pensa em abrir o o tónico no plural de repolho, de lobo, de estojo, mais os outros exemplos citados, com o danado do “acordo” até advogados lhe abrem o o tónico no plural: acórdos. Não é. É acôrdos, acôrdos, acôrdos, irra! acôrdos!
 
            Os outros casos são constantes, ainda hoje ouvi na TVI o “vão haver” da nossa melancolia. Porque haver, significando existir, é um verbo impessoal, tal como nevar, chover, saraivar que ninguém pensa em conjugar nas várias pessoas, a não ser por metáfora: “vai haver”, “houve”, “haverá”, “há”, haja”, houvesse, “houver” ... ocasiões, factos, dias, tempestades, o que for, que esteja no plural, que serve de complemento directo e não de sujeito. É um verbo sem pessoa, sem sujeito, fica sempre no singular, como o il y a francês, il pleut, il tonne... É indigno esse erro!
 
            Bem assim a segunda pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo, que nunca leva s, ao contrário dos outros tempos verbais, com o s de proveniência latina: tu comes, tu estavas, tu dirás, queiras tu se puderes.... Resulta de um tempo latino do sistema do perfeito que não leva s na segunda pessoa do singular: fecisti > fizeste; fuisti > foste; dedisti>deste; amavisti> amaste.
 
            E já agora: Na segunda pessoa do plural do mesmo pretérito perfeito, ao contrário de outros tempos verbais em “eis” (fazeis (vós), fazíeis, fizéreis, fareis, faríeis, fizésseisnão é -steis- (vós) amásteis, fizesteis, comesteis, dançásteis, fôsteis, etc, mas (vós) amastes, fizestes, partistes, fostes, na segunda pessoa do plural, de sujeito vós (Latim amavistis, fecistis, fuistis...)
 
            Como é possível que não se insista em combater estes erros e tantos outros no ensino básico?
 
            A língua é algo de precioso que deveríamos cultivar com amor e não acanalhar como fazemos constantemente. Merece o nosso respeito, segundo os acordos com o fechado que devíamos aprender todos, tal como bebemos o leite materno da infância. Mesmo que os vamos adaptando aos acordos linguísticos próprios da evolução das línguas, ou dos interesses políticos, que, todavia, deverão preservar o bom senso e o bom gosto em função de valores como a decência. Se é que esta ainda conta.
                                                                                                                 Berta Brás


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:54
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8 comentários:
De Adriano Lima a 1 de Agosto de 2009 às 16:39
Perfeitamente de acordo, dr.ª Berta Brás. É um escândalo a forma como se hoje se maltrata a nossa língua. De entre os erros comuns, há alguns que são inaceitáveis, como os aqui denunciados. Dizer “vão haver” é um erro que já ouvi na boca de políticos e advogados. E há outros que também me irritam particularmente. É o emprego incorrecto da palavra “moral”, feminizando-a, quando se lhe quer dar o significado de “estado de espírito”. Com frequência repórteres e comentadores da nossa praça, e até pivots de telejornal, vêm dizendo: “a moral dos nossos soldados” ou “a moral dos nossos jogadores”, em vez de “o moral”, confundindo o uso da palavra com o seu outro significado: normas de conduta.
Outro erro também frequente é “precaridade”. Curiosamente, havia um sindicalista da nossa praça que frequentemente cometia tal erro, visto que essa palavra costuma ter uma utilização privilegiada no mundo sindical (precariedade dos trabalhadores). Mas sucede que esse sindicalista, hoje licenciado e parece que doutorado, percebeu o erro e hoje utiliza correctamente a palavra (precariedade). Mas fiquei mesmo completamente baralhado quando, um dia, o nosso cardeal patriarca cometeu o mesmo erro do sindicalista. Ora, se há quem não pode minimamente cometer erros do género é essa personalidade. Mas admito que tenha sido apenas um lapsus linguae cometido por quem muito melhor do que eu conhece a etimologia da nossa língua. Gostaria de ter estudado latim, como ele, mas quem ia para a área de ciências ficava apenas pelas declinações que se aprendiam até ao antigo 5º ano.
Creio que o panorama vai ser cada vez pior, por tudo o que sabemos. Alguns poderão relativizar a importância do fenómeno, mas como pode ser se a língua é a marca mais distinta da nossa identidade, merecendo assim ser defendida, preservada e acarinhada?


De Henrique Salles da Fonseca a 2 de Agosto de 2009 às 01:01
RECEBIDO POR E-MAIL:

Era bom que muitas mais pessoas se debruçassem assim, com a mesma seriedade e o mesmo rigor sobre o tema do levantamento das incorrecções linguísticas que semeiam oralidade e escrita nos media. Obrigada pelo seu texto de alerta.
Berta Brás


De Manuel Alves a 11 de Agosto de 2009 às 00:22
Senhor Adriano Lima
Concordo com o seu texto.
Não deixo, contudo, de referir que, de acordo com os meios de que disponho, um tanto antigos é certo, verifico que Precaridade " e "Precariedade" se equivalem
Quer no Dicionário Complementar da Língua Portuguesa de Augusto Moreno quer na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira está explícito que ambas as formas são correctas.
Nesta última obra lê-se ainda: "... obs. ling . Cândido de Figueiredo prefere "Precariedade", também registado exclusivamente no Vocab . Resumido da Academia das Ciências de Lisboa. O Vocab . da Academia, de 1940, regista somente Precaridade ".
Por último leio apenas Precaridade " no Vocabulário apresentado no Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa de Magnus Bergstrom e Neves Reis, na sua 19ª Edição.
A menos que tenha havido alteração significativa que desconheço, cá em casa vence a maioria!
Minhas Saudações.


De Adriano Lima a 12 de Agosto de 2009 às 19:12
Caro Senhor Manuel Alves, este diferendo sobre a palavra “precariedade” não justificará talvez que eu lhe roube o seu tempo, mas queria dizer mais alguma coisa. É certo que eu também conheci um dicionário em que aparecia “precaridade”. Mas como a maior parte dos dicionários consagra “precariedade” e não a outra forma, quero crer que terá havido erro ou simples lapso na forma dada à palavra naquele documento. Daí o nunca ter levado a sério nesse ponto particular.
Veja que a regra prevalecente (explícita ou omissa) é que todos os adjectivos com acentuação esdrúxula terminados em “rio” acabem em “riedade” quando tomam a forma substantiva. Exemplos: solidário-solidariedade; contrário-contrariedade; voluntário-voluntariedade; vário-variedade; notório-notoriedade; obrigatório-obrigatoriedade. Desta maneira, não se percebe por que “precário” haveria de dar lugar a “precaridade”.
Tomam sim a terminação em “ridade” os adjectivos terminados em “ar”, de acentuação aguda, quando recebem a forma substantiva. Exemplos: vulgar-vulgaridade; par-paridade; singular-singularidade; regular-regularidade; complementar-complementaridade. Não me ocorrem neste momento mais exemplos semelhantes, até porque os creio diminutos, mas é óbvio que “precário” não é o caso. De facto, repito, por que haveria esta palavra de renegar a sua família para se encostar a outra que lhe é estranha? Acho que se algum capricho gramatical tivesse consagrado o estranhíssimo fenómeno, a gramática teria de estabelecer a respectiva excepção à regra.
Acrescento que não sou gramático nem linguista. O que sei de português aprendi-o apenas na 4ª classe (a antiga), e quando muito até ao 5º ano do liceu, pois a partir daí deixei de ter a disciplina em causa. Por isso, haverá certamente quem possa esclarecer isto melhor e até deitar por terra a minha argumentação, que é mais instintiva que científica.


De Manuel Alves a 6 de Agosto de 2009 às 18:41
Um Povo que já nem sequer respeita a sua Língua e constantemente a abastarda, submetendo-a aos mais evidentes dislates.
Um Povo que pouco mais lê do que Jornais desportivos e Revistas cor-de-rosa fúteis quanto baste.
Um Povo cujas Figuras Públicas mais vistas mostram desleixo na sua comunicação oral.
Um Povo que despreza a Escola e seus mestres, desrespeita os valores da Família e ignora as suas raízes.
Um Povo que não se revolta contra as iniquidades a que assiste diariamente, por todo o lado.
Um Povo que por hábito não aceita a crítica mesmo quando é evidente o erro, não dando um passo para se emendar.
Um Povo que pactua com toda a espécie de falcatruas, depravações e vícios, muitos deles já enraizados nas crianças e jovens.
Enfim um Povo já se esqueceu do Decálogo e não pratica diariamente as Obras de Misericórdia.
Que merece este Povo?
Sim, pergunto: Que merece este Povo?


De Henrique Salles da Fonseca a 7 de Agosto de 2009 às 00:54
Este Povo merece:

• Não ser traído por quem inventou, aprovou e ratificou um Acordo Ortográfico pelo qual os governantes de Portugal ofereceram ao Brasil a política da língua portuguesa;
• Ser devidamente instruído na sua própria língua de modo a que não a abastarde submetendo-a aos mais evidentes dislates;
• Que o levem a subir o nível cultural de modo a que se passe a interessar por publicações menos primárias do que Jornais desportivos e Revistas cor-de-rosa;
• Que lhe sejam proporcionadas candidaturas de putativas Figuras Públicas que se preocupem sobretudo com a boa governança e se usem menos da ganância;
• Que lhe sejam de novo ensinados os grandes valores da Moral e da Ética de modo a que passem a respeitar a Escola e seus mestres, a promover a Família como célula fundamental da sociedade e lhe desperte sentimentos de gratidão para com a sua Nação;
• Que lhe seja restituída a convicção de que é um privilégio viver em Portugal de modo a que liminarmente rejeite todas as iniquidades com que depare;
• Que lhe seja devolvida a sabedoria e a sensatez de modo a que se possa auto criticar e aceitar as sugestões amigas para melhor procedimento;
• Que lhe sejam devolvidos os conceitos de bem e de mal para que possa agir contra as falcatruas, depravações e vícios que desde a tenra idade os malévolos lhe queiram incutir;
• Que haja quem o atraia para o reconhecimento do Decálogo e para a prática corrente das Obras de Misericórdia.

Este Povo merece que lhe demos aquilo que julgamos que lhe roubaram.
Sim, este Povo merece tudo isso porque é o nosso! Somos NÓS.

Continuemos...
Henrique Salles da Fonseca


De Anónimo a 10 de Agosto de 2009 às 21:05
Senhor Salles da Fonseca
Totalmente de acordo com as palavras do seu comentário.
Elas são sábias e certeiras bem como tudo o que vejo escrito de seu punho.
Espero que muitos Portugueses as leiam, nelas meditem e passem à acção, cada um no que esteja ao seu alcance.
Para MERECER é preciso FAZER POR MERECER e aí é que está o "busílis"!
Lendo Ramalho Ortigão nas Farpas, Oliveira Martins no Portugal Contemporâneo e Raul Brandão nas suas Memórias, vejo que os séculos rolam, os mais esclarecidos apontam os problemas e não saímos da "cepa torta": os maus comportamentos dos Portugueses pouco evoluem ou se agravam mesmo.
É URGENTE, é MUITO URGENTE acordar os sonolentos, gritar aos quatro ventos: PORTUGAL é para CONTINUAR,
A BEM DA NAÇÃO.


De Henrique Salles da Fonseca a 12 de Agosto de 2009 às 20:05
Prezado Senhor Manuel Alves:
Sinto-me desvanecido com o seu elogio.
Tenho Portugal como um dogma e espero ser útil na difusão deste meu conceito (constato com enorme gosto que seu também) por muito que os «politicamente correctos» internacionalistas o contrariem.
Tomo a liberdade de me servir dos seus tópicos iniciais para escrever os próximos capítulos dos «HERÓIS DE CÁ».
Atenciosamente,
Henrique Salles da Fonseca


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