Sexta-feira, 31 de Julho de 2009
CRÓNICA DO BRASIL

 

INFELIZMENTE NÃO HÁ NADA A FAZER!
 
O céu estrelado por sobre mim e a lei moral dentro de mim.
Immanuel Kant
 
Este país é agora adulado por dois extremistas fascistas, um de direita e outro de esquerda, qual deles o pior, e que o diabo escolha se for macho suficiente: um, ministro dos negócios estrangeiros de Israel, Avigdor Lieberman, racista e extremista, que vem pedir ao nosso big kxk que não dê muita ênfase à visita do presidente do Irão, Mahmud Ahmadinejad, extremista e racista – amigo dos peitos do Chavez –, que decidiu que a sua primeira visita, após tomar posse para o segundo mandato, seja ao Brasil, para, em primeiro lugar mostrar ao mundo que há um país importante que louva o resultado daquelas malditas eleições, e ao mesmo tempo pedir ajuda para ver se o Brasil também “malha” nos sionistas!
Não há melhor interlocutor para os receber e deixar que ambos chorem no seu ombro, do que o nosso big sheriff! Como jamais fez alguma coisa pelo país sendo seu máximo dirigente, nem reformas básicas, nem investimento em infra-estruturas, nada, e com o desastre que tem sido a actuação do nosso (deles!) ministério das relações exteriores, o resultado destas duas famosas visitas... vai ser zero.
Zero para eles e abaixo de zero para o Brasil. Uma beleza, ou uma vergonha, recebermos dois indivíduos que são, cada um no seu extremo, o oposto da democracia, dos direitos humanos, da dignidade? País nenhum os recebe, e eles vêm procurar apoio no Brasil!
Sérgio Vieira de Mello*, um dos grandes e esquecidos homens deste país, tristemente assassinado num ataque com carro bomba na loucura do Iraque, em Bagdad, onde estava como chefe da missão da ONU, disse um dia, numa aula no Instituto de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Genebra:«...uma das dificuldades insolúveis mais antigas e mais profundas do pensamento e do comportamento humano é a tensão, a incompatibilidade, o choque entre a moral e a política». E continua: «Que a política seja, por essência, distinta da moral, está mais do que claramente demonstrado pela existência da história. Mas essa incompatibilidade seria a confirmação cínica da inevitabilidade do mal, e do mal absoluto da história. Sem dúvida alguma, a escolha mais fácil, mas também a mais irresponsável, é aquela em que tudo, absolutamente tudo, pode ser rediscutido. Tal posição é manifestamente insustentável».
Sérgio Vieira de Mello
(Rio de Janeiro, 15 de Março de 1948 - Bagdad, 19 de Agosto de 2003)
 
Esta linha de pensamento define os grandes homens, talvez os homens normais. Estes não discutem nem ética nem moral. Elas são intrínsecas ao carácter do homem, com «H» maiúsculo, que o distingue das bestas, grandes ou menos grandes.
O espectáculo a que, cada vez mais profundamente estamos a assistir neste país, é de uma degradação impressionante. Não escapa governo, nem senado, nem câmaras, sejam elas de deputados federais, estaduais ou municipais, nem polícia, nem tribunais. Nada! Tudo se vende, tudo se compra, tudo se corrompe.
Imagino que quem aqui não viva possa fazer a pergunta: «Como é que o país sobrevive e ainda progride?» É que, apesar de tudo, são quase 200 milhões de habitantes que todos os dias têm que lutar para sobreviver, alguns para vencer e, por muito que o (des)governo se ausente e descomande, que o senado se corrompa até à vergonha absoluta, que os tribunais castiguem o ladrão de galinhas e deixem impunes os «colarinhos brancos», aliás «colarinhos de ouro», o país tem que crescer.
A leitura de qualquer jornal, diário, é pior do que tratamento de choque! Choque de pouca-vergonha, de violência, de impunidade e sobretudo o choque do descaramento com que tudo se embrulha e discute e rediscute, como se roubar aos biliões os dinheiros públicos, corromper a todos os níveis, fosse coisa de somenos. Como disse Sérgio Vieira de Mello, isto é insustentável. Este grande brasileiro não viveu o suficiente para ver o seu país degradar-se moral e eticamente até ao mais baixo nível, o que lhe teria sido doloroso, como é para todos nós. Uma vergonha.
Vê-se o presidente defender com todos os meios – $$$ – de que dispõe, e parecem ser infindáveis, os agora seus correligionários que ainda há poucos anos eram os mais ferozes adversários políticos, que ele insultava em comícios chamando-lhes de ladrões! Mas hoje precisa deles na chamada «base» para sustentar a sua inépcia!
Um ex-presidente da República, que consegue extorquir das formas mais absurdas verbas fabulosas para enriquecer mais ainda, a ele e a família! Que inclusive «esquece» de participar no seu imposto de renda mais uma «casinha» em Brasília avaliada em 5 milhões de reais!
Ver outro ex-presidente que foi corrido por indecente e má figura, a quem o actual, na época, se atirou como hiena a carniça, ser tratado como grã-senhor, abraçando-se ambos com sorrisos de «velha e longa amizade»! Para «nós» (eles) os donos do poder, a sociedade dominante, tudo. Para o resto, o povo imbecil que vota sem ter a mínima noção do que está a preparar para si próprio, o desprezo, o cinismo, o abandono. Referindo uma vez mais Sérgio Vieira de Mello: «...como sociedades diferentes podem desenvolver tamanha desconsideração implacável pela vida humana!»
Perdeu-se totalmente o senso. Qualquer senso. Não há moral nem ética, muito menos vergonha.
A tal lei moral, de que fala Kant é ignorada. Só o céu continua estrelado! Porque os corruptos ainda não conseguiram apoderar-se dele!
 
* ler: Sérgio Vieira de Mello - Pensamento e Memória. Org. Jacques Marcovitch, EDUSP e Ed. Saraiva, 2004.
 
Rio de Janeiro, 24 de Julho de 2009
 Francisco Gomes de Amorim

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:03
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