Quarta-feira, 29 de Julho de 2009
As uvas da nossa vinha

 

 
Quando criança, vivi numa aldeia portuguesa com fruta, que eu arrancava directamente das árvores, subindo às macieiras, cerejeiras, colhendo os abrunhos de um pequeno abrunheiro do nosso quintal, na casa alugada.
 
Mais tarde, em Moçambique, eram bananas, papaias, mangas, laranjas, goiabas, ananases, as frutas da terra, mas tinha saudades da fruta da minha aldeia. Havia também uvas, peras, pêssegos, maçãs, fruta bonita importada da África do Sul, de clima temperado como o nosso aqui. Mas o sabor não era o mesmo do da encantada infância.
 
Recuperei esses sabores quando retornei, porque eram bons ainda os produtos que chegavam do campo aos mercados. Mas a entrada na “Europa” criou entraves à fruta e a tantos produtos da nossa praça. A nossa fruta não tinha tamanho suficiente para ser vendida nos mercados europeus, incluindo o nosso. Pagou-se aos camponeses para abandonarem as hortas, Portugal caiu na modorra produtiva.
 
Houve laranjas e tomates destruídos nas ruas, porque não vendáveis nas praças, Portugal secou nos campos. Preservaram-se, contudo, apesar das destruições impostas, vinhos da nossa lavra, alguns com direito a prémios internacionais. Vinho é sempre algo a preservar e não houve Europa que no-lo fizesse dispensar.
 
As praças abundaram em fruta estrangeira, do tamanho próprio, calibrado, das suas clonagens esterilizadas, sem o sabor do nosso solo não artificial e do nosso sol criador, mas com o tamanho necessário para as nossas importações de povo que se abotoou com a côdea do servilismo, deixando os campos maninhos donde lhes viera antes o proveito, sem saudades das terras verdes de outrora, os velhos cada vez mais velhos, os filhos e netos optando pelas cidades de mais cultura e possibilidades de sobrevivência.
 
Abriu uma loja da fruta aqui perto. E oh surpresa! A proveniência da fruta, tirando as bananas e as papaias, diz “Portugal”. E também os feijões e os nabos e os grelos. Comi uva da nossa! E figos, e pêssegos, retomei os velhos sabores do passado.
 
 Que se passou? Será que já se pode trabalhar a terra para vender ainda que só como produto caseiro? Serão novas as directivas impostas pela União Europeia, envergonhada com a sua política de intrusão anterior na vida económica dos povos da sua esfera política?
 
Mas se se quiser que o nosso povo trabalhe agora, que envelheceu com direito a vencimento e a reforma, o nosso povo dirá, gasto, solitário e indiferente: Vai tu.
 
Porque deve ser muito difícil limpar os campos maninhos, endireitar, de novo, a nossa vinha, para vender as suas uvas, bem mais saborosas do que as de importação.
 
Destruir é imediato, a reconstrução muito mais penosa.
 
Berta Brás
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:53
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5 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 29 de Julho de 2009 às 11:05
O modelo de desenvolvimento económico português começado a implantar depois da derrota comunista em 1975 assentou sobretudo nos Serviços em detrimento da produção agrícola ou industrial. A transformação da CEE em UE (o tristemente famoso «aprofundamento europeu») veio dar a machadada final no que restava de alguma produção. Restou a economia de subsistência que o avançar da idade dos artesãos e subsistentes se encarregou de «arquivar».
Foi com gáudio que os comerciantes importadores se depararam com tal situação e, vai daí, foi fartar vilanagem até à exaustão dos recursos próprios do sistema bancário. Nada tardou para que o endividamento sobre o exterior chegasse ao absurdo actual. Estamos numa situação que põe em causa a soberania nacional e urge dar a volta ao processo. Os comerciantes não importam porque os Bancos já não têm mais crédito sobre o exterior.
Valha-nos a capacidade de improviso do portuguesinho valente que se desenrasca nas situação de aflição.
A solução de fundo passa pela mudança radical do nosso modelo de desenvolvimento. Sobre isso meditarei por escrito e voltarei aqui para expor o que me é dado pensar.
Continuemos...
Henrique Salles da Fonseca


De Adriano Lima a 29 de Julho de 2009 às 12:51
Para além das questões económicas subjacentes, foi agradável ler esta crónica, cheia de frescura bucólica e incitando ao regresso à natureza pura e incompurscável. Mas será que essa antureza ainda existe? Será que ainda é possível recuperá-la?


De Henrique Salles da Fonseca a 29 de Julho de 2009 às 18:45
RECEBIDO POR E-MAIL:

Para Salles da Fonseca: O seu comentário analisa com lucidez e objectividade os porquês das "vinhas da nossa ira". Esperemos, pois, a continuação.

Para Adriano Lima: Duas respostas para a sua pergunta - uma positiva, outra negativa: Terreno ainda existe, gente não. (Num post anterior eu sugeria que se empregasse gente formada e não, sem trabalho, no cultivo dos campos e limpeza dos bosques, a ganhar os mesmos vencimentos que teriam se estivessem a trabalhar nos respectivos empregos da sua formação. Seria uma medida de possível recuperação e consciencialização para salvar o país, um "improviso" espectacular, semelhante ao dos navegantes do passado. Com menos riscos, mas talvez uma glória maior, porque centrada no próprio país, e na valorização pessoal, tão necessária para quem geralmente atamanca, ou "improvisa" sobre o joelho.)
Berta Brás


De Manuel Alves a 3 de Agosto de 2009 às 15:47
Não se preocupem com a produção nacional seja do que for.
O que nos resta do território português e o mar adjacente estão destinados aos tubarões (leia-se: todos aqueles que desde o princípio da nossa Nacionalidade têm tentado directa e indirectamente ocupar Portugal ou extorquir tudo quanto nele tenha valor).
Não nos venceram pelas armas mas venceram-nos pela propaganda anestesiante dirigida a um Povo ingénuo; venceram-nos pela fartura ilusória de bens materiais estranjeiros que puseram à disposição e avidez do Povo e, actualmente vencem-nos pela Economia, consumida que está a "herança de Salazar" a que muitos chamaram "pesada herança do fascismo" (leia-se moeda forte apoiada em toneladas de reais lingotes de ouro).
Quanto ao Povo que aqui tem vivido, está mergulhado há trinta e cinco anos em propaganda e deseducação no desamor pela Pátria e seus sagrados valores, só lhe resta mesmo é "emalar a trouxa e zarpar" para novas formas de escravidão, ainda que munido de diplomas "à bolonhesa".
O nacional saloiismo ignorante , a preguiça e principalmente os corruptos vendidos aos interesses internacionais (leia-se BILBERG) são as causas mais profundas da desgraça a que chegamos.
Desde 1777 até aos dias de hoje, só dois nomes, quais David contra Golias, tiveram a ousadia de enfrentar os tubarões apenas munidos de uma firme vontade pessoal e um amor inabalável a este torrão sagrado.
Um, torpedeado por Sociedades secretas que representavam os interesses internacionais, mais não pôde do que ter de partir para o exílio com pouco mais que a roupa do corpo.
Quase um século depois, o outro foi derrotado apenas pela morte inevitável.
Este, tudo fez, lutando contra ventos e marés, para equilibrar um barco em vias de naufrágio, e quando o tinha em boa rota, viu-se na contingência de ter de sacrificar parte duma geração, numa guerra contra os maiores piratas do mundo.
Certamente que cometeu erros mas deixou à posteridade dos seus compatriotas que o contestavam (e que nunca foram capazes de o vencer enquanto vivo), uma obra ímpar, que só por má fé ou ignorância pode ser contestada.
Não devemos ficar de braços cruzados e em qualquer parte onde esteja um Português honrado deve, por todos os meios, lutar pelo enaltecimento e valores da Pátria Portuguesa,
A BEM DA NAÇÃO.


De Henrique Salles da Fonseca a 18 de Agosto de 2009 às 18:26
RECEBIDO POR E-MAIL:

Felizmente que vão aparecendo "vozes" via Internet, que, sabendo analisar os quês e os porquês da nossa história, o fazem, sobretudo, com aquilo que tem faltado à maioria de uma população educada no obscurantismo da visão sectária, sem ideal nem respeito pelo solo sagrado da sua Pátria: um real amor, fortalecido por um conhecimento real: tal o que transparece no comentário de Manuel Relvas. A minha gratidão por isso.
Berta Brás


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