Terça-feira, 28 de Julho de 2009
POSTAIS ILUSTRADOS XXII

 

TEOLOGIA DA ECONOMIA II
Parte III
(Continuação)
Tudo e Nada
 
 
“Há quem passe pelo bosque e apenas veja
lenha para a fogueira”. Leon Tólstoi
 
 
 
A Encíclica caiu no seio do G8 alargado.
 
Teria sido a sopa que caiu no mel? Ou o contrário? Quem sabe? São misteriosos os desígnios do Vaticano! A agenda emparelhou com a intenção e conteúdo da “Caritas in Veritate”. Foi clarividente e oportuno! Um outro Homem, há 34 anos, Valéry Giscard d’Estaing, presidente da República Francesa, apadrinhou e levou a cabo uma reunião de chefes de Estado, dos países economicamente mais fortes do mundo, para discutir uma agenda política comum, nomeadamente, os assuntos de ordem internacional que poderiam influenciar e afectar as políticas internas e, estas, vice-versa, influenciar e afectar as relações internacionais.
 
Esta visão é agora repetida, num outro plano, por Bento XVI, chamando à colação os temas que um grupo de poderosos países de indefectível e determinante influência vão analisar e que não podem eximir-se de ver as árvores do bosque e que estas (as árvores), no Mundo de hoje, não são lenha para a fogueira dos problemas económicos, políticos e sociais com que se debate a comunidade internacional.
 
As Igrejas do Mundo também devem fazer cimeiras deste género (I8) para dar uma “mãozinha” ao esforço do G8 e colocar os seus fiéis no caminho de uma ajuda efectiva aos seus semelhantes, atingidos pelo infortúnio da miséria e da enorme humilhação da fome injusta, mas solucionável. Esperemos que de L’Aquila, surja um furacão de vontades unânimes e sob a sombra das Igrejas que o actual Sumo Pontífice terá a humildade, caridade e dever de fazer congregar à sua volta, tenha ficado a semente de uma nova era, recolhendo os frutos do longínquo 1975 [1], e que os temas tratados, não sejam pura e simplesmente ignorados, ou postos em movimento com a lentidão que é peculiar nas teias burocráticas dos Governos das Nações.
 
 
É preciso lançar o alerta da premência e consciencializar todos para a urgência da defesa dos valores humanos em prol da sobrevivência da nossa própria Humanidade!
 
Viajemos, então, pelo pensamento de Bento XVI: “O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar. O objectivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza.[2]
 
O que Bento XVI nos quer dizer é que o fim aceitável do lucro, numa economia capitalista, não deve ser enriquecer uns quantos, mas enriquecer a Comunidade para que deva ser redistribuído. E, mais adiante, escreve o Santo Padre, o seguinte: Actualmente o quadro do desenvolvimento é policêntrico. Os actores e as causas tanto do subdesenvolvimento como do desenvolvimento são múltiplos, as culpas e os méritos são diferenciados. Este dado deveria induzir a libertar-se das ideologias que simplificam, de forma frequentemente artificiosa a realidade e levar a examinar com objectividade a espessura humana dos problemas”.[3] Acutilante! Atendendo que na extensa Agenda do G8 se incluiu, tendo em conta o cenário de agitação internacional, a análise do recente golpe militar que teve lugar nas Honduras e os distúrbios causados pelo resultado do processo eleitoral iraniano, em matéria de política internacional, bem assim, a preocupante agitação que decorre dos recentes testes bélicos ocorridos na Coreia do Norte e as violentas agitações de natureza político-religiosa ocorridas na China. Por outro lado, em matéria social, o espectro da fome faz também parte dos pontos da Agenda, já que a segurança alimentar também é matéria fundamental, cuja existência, mormente nas regiões da África profunda e entre os movimentos de refugiados originários de conflitos regionais, exige ser discutida.
 
Hodiernamente, mesmo com os altos níveis de produção de cereais, o problema da fome é cada vez mais preocupante. Novos apoios a programas de controlo de natalidade; novos modelos de distribuição da produção agrícola e as ajudas com carácter de urgência aos países mais necessitados, constituídos, também, pontos cruciais desta panóplia de debates, são realidades que não têm fácil solução.
 
Outro antigo, mas não menos importante tema de reflexão é a questão ambiental, sabido que, do Protocolo de Kyoto não se conseguiu ainda a unanimidade na redução dos índices de emissão de CO2 e isto é um ponto fulcral para que o aquecimento global e outras catástrofes naturais sejam evitados. Mas, no próximo texto, abordarei com mais pormenor, a questão do lucro e a espessura humana dos problemas, tópicos que são essências para uma melhor identificação do pensamento de Bento XVI, em contraste com as receitas milagrosas para estes tempos conturbados da Crise que nos oferecem certos “autores” e cujos livros vendem milhares de exemplares. É assim! Em terra de cegos quem tem um olho é rei e há que aproveitar a onda da crise, vendendo sonhos e disparates aos incautos sequiosos de encontrar uma panaceia para a sua falta de dinheiro.
 
Os Homens não têm mesmo juízo e continuam sempre a bater no mesmo, sem descanso, e sem qualquer resquício de sensibilidade. É o salve-se quem puder, mesmo que isso equivalha a destruir tudo...
(continua)
 
 Luís Santiago
[1] A primeira reunião teve lugar em Rambouillet , nos arredores de Paris, a 15 de Novembro de 1975;
[2] Encíclica Caritas in Veritate – CAPÍTULO II – O DESENVOLVIMENTO HUMANO NO NOSSO TEMPO, Ponto 21;
[3] Idem, ponto 22.

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:56
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5 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 29 de Julho de 2009 às 09:47
RECEBIDO POR E-MAIL:

São textos poderosos, na força que pretendem imprimir, contra a injustiça do mundo. Poderiam ser, de facto, mel, o mal é que os da sopa não vão em doçuras.
Berta Brás


De Adriano Lima a 29 de Julho de 2009 às 14:07
Queixamo-nos, e com justa razão, da fome no mundo, das injustiças entre os homens e as nações, dos desequilíbrios que minam a reconciliação e a solidariedade entre os povos, das doenças que ceifam vidas no mundo subdesenvolvido, da irracionalidade que gera guerras incompreensíveis, das soluções de paz que não trazem nenhuma luz aos problemas.
Foi sempre assim ao longo da história da humanidade, por mais que filósofos e homens de ciência façam o diagnóstico e produzam ideias. É já um chavão dizer que a crise da economia é apenas um reflexo da ausência de valores humanos, mas é uma verdade irrefutável e já não é mau reconhecê-lo.
Assim, entramos num círculo vicioso em que os valores não se reformulam por si próprios, através da reflexão filosófica, e a economia e tudo o que ela representa de sustentabilidade na sobrevivência humana, acarreta, por seu turno, novos e mais complexos problemas sobre a tentativa de o homem melhor se conhecer e se reencontrar, na medida em que gera desconfianças e acicata incompreensões.
Como o autor diz, e bem, “os homens não têm juízo”. Não têm juízo, como certamente nunca o tiveram, o que desde logo nos confronta com uma fatalidade: a existência humana é mesmo assim; o homem não foi concebido para ter uma existência em harmoniosa identificação com a natureza. Desta maneira, o homem está predestinado a viver em contínuo sofrimento e desacerto com o mundo. Alguns, numa perspectiva religiosa, poderão pensar que desse sofrimento resultará a purificação e a salvação, restando saber se neste ou noutro mundo. Ou então Heidegger é que está certo quando procura mostrar que a relação com tudo o que existe é atrelada ao tempo da sua ocorrência. Para ele, o significado autêntico e único do ser é aquele que se cinge à sua temporalidade própria. Portanto, “a espessura humana dos problemas” se calhar não é aquela que julgamos.






De maria teresa a 29 de Julho de 2009 às 18:28
Luís
Como sempre o seu parecer toca em assuntos de extrema actualidade mas de difícil resolução e uma das razões dessa dificuldade, é que ela depende e muito de actos cívicos humanos e da luta pela qualidade de vida.
A questão ambiental, por exemplo, é vital para a sobrevivência das espécies. Todos sabemos que em termos geológicos estamos numa interglaciação , a Natureza está provocando o aquecimento global do planeta, levando à fusão dos "gelos" e fazendo com que as águas comecem a aumentar de volume mas, não está só, infelizmente, o Homem está a dar-lhe uma enorme ajuda, principalmente, pós revolução industrial. O aumento da temperatura média, o tão proclamado aquecimento global, deve-se a causas naturais e a causas antropogênicas que são principalmente três: emissões de CO2 para a atmosfera devidas à queima de combustíveis fósseis, o desflorestação e a emissão de gases por efeito de estufa.
Este assunto é demasiado complexo e não há um total consenso entre a comunidade científica, o que se pode afirmar é que: a disputa a nível político e social tem a ver com o saber -se o que pode e deve ser feito, e que medidas tomar em termos de custo/benefício ( o lucro ), para tentar reduzir ou reverter o aquecimento futuro, ou para lidar com as suas esperadas consequências.

Maria Teresa Monteiro


De Henrique Salles da Fonseca a 29 de Julho de 2009 às 23:44
Prezados Autor e Comentadora:
O aquecimento global é uma mentira, não está a acontecer e o Protocolo de Kioto é uma fraude.
Pelo contrário, estamos a encetar uma mini-glaciação.
Para melhor esclarecimento queiram ler «A verdade sobre o efeito estufa» da autoria de Yves Lenoir (Editorial Caminho), ecologista francês que foi adjunto do Ministro francês do Ambiente Brice Lalonde.
Mas se quiserem saber tudo mais proximamente, vejam aqui neste vosso blog a ligação directa aos «Mitos Climáticos» do nosso "colega" Eng. Rui G. Moura.
Não acreditem na propaganda dos interessados na venda de equipamentos ditos «amigos do ambiente». Trata-se de um lobby não credível.


De Henrique Salles da Fonseca a 30 de Julho de 2009 às 12:02
RECEBIDO POR E-MAIL:

A sã doutrina é essa: «o objetivo do lucro não deve ser enriquecer uns quantos, mas enriquecer a comunidade para que deva ser redistribuído». Porém, os agentes económicos parecem continuar indiferentes ao empobrecimento alheio. Com efeito, constata-se que os agentes financeiros, criadores dos produtos tóxicos causadores da crise de 2007/9 que privou de emprego e reduziu à miséria milhões de indivíduos, respondem à crise inventando novos tóxicos para enriquecer rapidamente à custa dos incautos. O novíssimo high frequency trading »HFT» mostra para onde se caminha. Graças a poderosos computadores de alta frequência, alguns bancos operadores conseguem lançar ordens de compra e venda na Bolsa com antecipação de poucos minutos sobre as ordens do corretores o que lhes permite apurar lucros fabulosos com margens unitárias mínimas. Ganham os bancos de investimentos e quem perde ? Como sempre, o “dentista belga”, ou seja o aforrador-investidor privado e o beneficiário dos fundos de pensão. Temos pois mais do mesmo.

Luís Soares de Oliveira


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