Domingo, 26 de Julho de 2009
David e Golias

 

 Confronto em África
 
O livro de Witney Schneidman, “Confronto em África”, editado em português pela Tribuna, 2005 - de que só agora tomei conhecimento –, constitui excelente exemplo de objectividade e exactidão (quase [1]) em matéria de relato histórico. Diria mesmo que no que toca ao braço-de-ferro luso-americano suscitado por John Kennedy e continuado posteriormente por  diversos grupos americanos constitui a melhor peça de toda a abundante literatura produzida sobre o assunto. A luta entre Kennedy, Presidente da nação mais poderosa do mundo, e Salazar, chefe de um governo falho de força militar moderna visível, está magistralmente descrita e mostra como o pequeno David soube usar a sua “funda” diplomática para "cegar" o gigante Golias e frustrá-lo nos seus intentos.
    
Schneidman fez parte da direcção do State Department durante a administração Clinton e posteriormente especializou-se em assuntos africanos. Além de um doutoramento nos EUA, tem um mestrado na Universidade de Dar-es-Salaam. Reúne pois fortes credenciais para se ocupar destas matérias. Eu sinto-me em boa posição para poder avaliar da veracidade do relato e da lucidez da conclusão pois testemunhei os principais factos registados pelo autor. Estava como observador no Conselho de Segurança das NU quando o delegado da Libéria propôs – com geral surpresa – uma reunião do dito Conselho para se ocupar da situação em Angola [Fevereiro 1961]. Até aí, pensava-se que em Angola estava tudo sossegado. [Na realidade, tinha havido um ataque às prisões em Luanda mas a notícia de tal feito não chegara Nova York.] O pedido da reunião foi  pois o toque da trombeta  anunciador do início das hostilidades no terreno e de tudo o mais que aconteceu dentro e fora do território. Pouco depois,  fui eu transferido para Washington que Kennedy transformara em quartel-general das cruzadas em que se empenhou contra Salazar, Fidel Castro e Ho Chi Minh. Posteriormente fui nomeado chefe da repartição política África-Ásia (ao tempo designada por Negócios Políticos Ultramarinos) onde continuei a acompanhar até 1965 a luta diplomática suscitada pelo Império Português.  
 
Como Schneidman regista, as campanhas em que Kennedy se empenhou foram-lhe funestas. Os sucessores de Kennedy afastariam a questão portuguesa da Casa Branca e Nixon – que se rendeu a Ho Chi Minh – acabaria por apoiar a posição portuguesa em África.
 
O relato de Schneidman sobre a evolução da situação no terreno já não me parece tão exacto como a sua narração do processo diplomático. O autor fala de grande actividade militar em Angola nos anos 1972 /73, enquanto eu, que viajei intensamente por toda Angola nesse tempo, não notei ali o menor sinal de agitação. Actividade militar havia em Moçambique e na Guiné. Diria contudo que o autor está certo quando aponta a chegada à Guiné do míssil russo Sam 07 como o facto que tornou irreversível a vitória final dos movimentos nacionalistas africanos. A tecnologia não cede o seu lugar.
 
Havia muito a referir sobre tudo isto; entendo porém que não nos devemos enfronhar demasiado nas brumas do passado. Daí não vem grande benefício. O passado não explica o presente. Quem diria que este nosso presente seria o futuro daquele passado? De tudo o que aconteceu eu guardo o sentimento gratificante de que, numa determinada altura, a minha vida se cruzou com o destino histórico do meu país e isso conferiu-lhe transcendência. Se foi uma hora  gloriosa ou uma hora triste é secundário. O que ficará para a história é a forma como se viveu o momento e não me resta dúvida que, sob a batuta de Salazar,  o fizemos com dignidade.
 
Morrer sim, mas devagar.
 
Estoril, 25 de Julho  2007
 
General Domingos de Oliveira - A bem da Nação Luís Soares de Oliveira

 

1] As pequenas falhas que notei na parte diplomática não têm consequência de maior. Garin não era o embaixador em Washington em 1961 (p. 59). O convite para encontrar os estudantes angolanos na Universidade de Lincoln foi dirigido a Teotónio Pereira e este embora não tenha comparecido pessoalmente enviou-me a mim – ao tempo 1º Secretário da Embaixada – para o representar. A Universidade convidou o Rev. Mac Veigh, ex-missionário em Angola e realizou-se  uma sessão de apresentações e debate da situação angolana perante os corpos docente e discente da Universidade. Nunca me esquecerei de tal experiência. Acabou bem. No final, no Campus, os estudantes angolanos rodearam-me e, entre outras coisas, queriam saber se o Benfica tinha ganho a Taça dos Campeões europeus. “Ganhou”, disse-lhes eu e a notícia produziu vibrante manifestação de regozijo. O corpo discente da Universidade olhou-nos com espanto e indisfarçáveis sinais de receio. A conversa decorria em português e os doutos professores não sabiam do que falávamos.


tags:

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:34
link do post | comentar | favorito
|

2 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 26 de Julho de 2009 às 23:22
RECEBIDO POR E-MAIL:

Eu também me lembro de que estava em Lourenço Marques quando Kennedy foi assassinado, e senti vivamente a sua morte, pensando nos filhos que estávamos habituados a ver, tão bonitos e frágeis e agora órfãos. E no entanto, eu sabia que partira dele a defesa da negritude como natural detentora dos territórios africanos, apoiado nas filosofias que o declaravam, e que os nossos males dele provinham. Lembrava com rancor que pela ordem de ideias da atribuição dos territórios aos seus aborígenes, Américas e Oceanias deveriam abandonar os seus espaços territoriais aos índios primeiros, desses continentes. Mas convulsões maiores ou menores, sempre houve na Terra, devido a ambições, irracionalidades, falhas na honradez. Aquela em que vivemos agora aqui, não passa de uma mísera consequência da convulsão maior que Salazar conseguira suster com a coragem da sua honradez, enquanto teve forças para isso e de que Kennedy fora o primeiro grande responsável. Mas "Golias" e "David" não importam mais hoje, ambos desaparecidos, e as tragédias e as comédias seguem o seu percurso.
Berta Brás


De Adriano Lima a 28 de Julho de 2009 às 22:11
Li com muito agrado esta peça, que nos incita a ler a obra a que se refere.
Os que, levianamente, procuram ridicularizar Salazar, considerando-o um provinciano e um político de trazer por casa, nem com o ruído que produzem conseguem abafar a verdade sobre a sua verdadeira estatura política.
O meu sentimento é o mesmo do Senhor Embaixador. Concordante ou não com a política do Estado Novo, a verdade é que havia um espírito de missão nacional que nos impelia.
Eu não estava em Angola em 1972 e 1973, mas sim em Moçambique, mas sei que Angola estava mais ou menos pacificada naqueles anos, em parte devido à crise interna que o MPLA então atravessava. E de tal maneira que o 25 de Abril lhe foi providencial.


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


artigos recentes

O FILHO DAS SALSAS ERVAS

FRASE DO DIA

RESTAURADORES DA SOBERANI...

OLIVARES, ESSE DEMOCRATA

FRASE DO DIA

CARTA DE UN MINISTRO AL R...

LIDO COM INTERESSE – 74

PERU – 12

PERU – 11

PERU – 10

arquivos

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

tags

todas as tags

links
Contador

contador de visitas para site
blogs SAPO
subscrever feeds