Quinta-feira, 23 de Julho de 2009
EU ASSUMO!

 

 
O drama da diferença e da repressão de uma singularidade genética
 
1. Peço que me desculpem os leitores mais conservadores, a quem esta minha confissão pública possa chocar.
Peço que se acolha esta minha declaração com tolerância, que é a virtude cívica que se define como indiferença ante o bem e o mal, e que, por isso, proíbe terminantemente qualquer imposição ou condenação em termos morais.
Peço para mim e para todos os que sentem na pele o estigma de uma excepção que nos foi imposta pela natureza, à revelia da nossa vontade, uma plena integração social, pondo assim termo à injusta discriminação a que fomos expostos e que continuamos a padecer.
Peço e exijo que, em nome da igualdade, se nos aceite como somos: iguais na diferença e diferentes na igualdade.
2. Desde que tive consciência desta minha particularidade de género, experimentei a segregação a que todos os que partilhamos esta condição somos, por regra, expostos. Com efeito, qualquer tímida manifestação desta nossa anormalidade – que o é, convenhamos, em termos estatísticos – é logo censurada por severos olhares que, não obstante a sua mudez, nos gritam o drama da nossa reprimida singularidade genética.
Mas hoje, finalmente, graças à abertura e compreensão dos nossos governantes, que parecem não ter outra preocupação que não seja a de pôr termo a estas injustiças atávicas, tomei a decisão de me assumir publicamente: sim, sou canhoto! Afirmo-o pela primeira vez sem complexos, diria que com orgulho até, disposto mesmo a desfilar numa triunfal canhotos’ pride parade!
3. Cônscio de que a democracia está incompleta enquanto não nos forem dados os mesmos direitos que já usufruem os dextros, não posso deixar de fazer algumas reivindicações. A saber:
Exijo que o Estado financie as operações de mudanças de braços e mãos, pernas e pés, de todos os canhotos que queiram mudar de género!
Exijo que todas as cadeiras dos anfiteatros tenham igualmente amplos os apoios dos dois braços, e não apenas o direito, como pretende a maioria fascizante dos dextros!
Exijo que nós, os canhotos, tenhamos direito a carros com o travão de mão à esquerda e os pedais invertidos (com perdão!), pondo assim termo à imposição, por parte da indústria automóvel, de um único modelo comportamental!
Exijo que as autarquias reconheçam o nosso inalienável direito a circular pela esquerda, criando um itinerário alternativo canhoto (IAC)!
Exijo que seja despenalizada, para os canhotos, a condução em contra-mão e que sejam imediatamente amnistiados todos os esquerdinos que, por este motivo, já foram hipocritamente condenados por tribunais dominados pelos dextros!
Exijo que o trecho bíblico que coloca à esquerda de Deus os condenados e à sua direita os bem-aventurados, seja alterado, de modo que se não possa associar aos esquerdinos nenhuma humilhante inferioridade de género.
Exijo que a expressão «cruzes, canhoto!» e outras análogas sejam criminalizadas, pelo seu evidente cunho canhotofóbico.
E, claro, exijo também o direito à adopção de crianças dextras por casais esquerdinos!
4. Graças ao carácter fracturante desta minha proposta, que suponho também assumida por todos os outros cidadãos da mesma condição, quero crer que será acolhida favoravelmente por todos os partidos políticos que têm pugnado pela igualdade de género. Afinal de contas nós, os canhotos, também somos de esquerda, não é?
  P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Voz da Verdade, 20090621
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 12:37
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2 comentários:
De Adriano Lima a 23 de Julho de 2009 às 22:30
Comecei a ler o texto e a minha primeira reacção foi pensar que o problema da homossexualidade estava a ser trazido a este blogue. E já tinha engatilhado a resposta que é simplesmente esta: nada contra os homossexuais desde que assumam a sua diferença na intimidade dos seus lares e sem publicidades chocantes aos olhos e ouvidos daqueles que o não são e que, por isso, praticam a sua normal sexualidade sem exibicionismos e sem atentar contra os direitos dos outros.
Quanto aos canhotos, confesso que eu também pertenço ao grupo, mas só dos membros inferiores, o que me deu a faculdade de um bom pé esquerdo a jogar futebol, mas longe de ser um ex-Roberto Carlos do Barcelona ou um Cardoso do Benfica. Nunca percebi como os meus pais (devem ter sido eles) me inibiram de ser canhoto de mãos, contrariando a minha genética. Talvez tenha sido quando comecei a aprender a escrever. No entanto, sempre desconfiei de que nunca foi propriamente resolvido o problema genético, visto que, a qualquer reacção instintiva que requeira o uso do braço, é o esquerdo o solicitado. Comecei a aperceber-me disso quando, muito jovem ainda, me iniciei no boxe. O braço esquerdo era efectivamente o que reagia mais célere e com mais força pujante. Houve um dia, ainda na verdura dos meus 20 anos, muito mais impulsivo do que agora sou, tive de reagir a um grave insulto verbal e o braço esquerdo foi o que avançou para o desferimento de um murro que derrubou literalmente o suposto adversário. Nessa altura, percebi que eu era verdadeiramente canhoto de mãos. Agora só preciso do braço para escrever e faço-o com a mão que os meus progenitores entenderam devia ser amestrada, talvez pelo “preconceito” sobre que o autor escreveu com muita graça e arte neste blogue. Canhoto de pés e dextro de mãos, melhor do que ninguém estou em condições de conviver harmoniosamente com uns e com outros e ser intermediário negociador em todas as questões que possam provocar desentendimentos e discórdias.

Adriano Lima


De maria teresa a 24 de Julho de 2009 às 01:31
Sou dextra mas depois de ler este engraçadíssimo "manifesto" fiquei tristíssima por não ser esquerdina.
Parabéns ao autor pelo seu humorismo, pelo seu suspense , que nos leva a pensar noutros manifestos, por vezes, tão exagerados e tão fora da realidade.


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