Terça-feira, 21 de Julho de 2009
HERÓIS DE CÁ - 23

 

 O BORRALHO E AS CINZAS
 
 
Com o Império Português entregue à URSS, pouca importância teve para os interesses soviéticos a perda de Portugal. Por isso foi Álvaro Cunhal condecorado Herói Soviético já depois de 25 de Novembro de 1975.
 
Contudo, a estratégia soviética da tenaz não viria a funcionar porque os pensadores do Kremlin não tomaram por certo em consideração alguns factores fundamentais, nomeadamente a vontade individual e colectiva dos não marxistas europeus e a estreita ligação política e económica entre a Europa e os Estados Unidos.
 
Bastaria esses dois factores para lhes deitar toda a jogada a perder mas a repetição contínua duma mentira – de que as «maravilhas» do socialismo inebriam todos os explorados pelo pernicioso capitalismo – faz com que o mentiroso acabe por se convencer de que a mentira é verdade e, portanto, esses pensadores devem ter ficado espantados quando os «explorados» não só não nos rendemos às «maravilhas» do socialismo como até o combatemos frontal e energicamente.
 
Por outro lado, tendo nós em Portugal podido contar com o inteligente acompanhamento da situação por parte do Embaixador americano, o nosso caso serviu de exemplo ao mundo como afirmação de que os EUA sabiam perfeitamente onde passava a linha do Tratado de Tordesilhas assinado em Yalta no final da II Guerra Mundial e que não tencionavam dar esse Tratado como letra morta.
 
Passada a Taprobana, chegara a altura de «repormos ordem na caserna» mas no Kremlin alguém deve ter sido obrigado a «lamber a ferida portuguesa».
 
A missão essencial que urgia cumprir consistia no retorno a um Estado de Direito e essa nova ordem jurídica teria que ter génese democrática à semelhança do Mundo Livre.
 
A actividade parlamentar tinha que ser relançada com a maior normalidade de modo a que em tempo útil se pudesse aprovar uma Constituição; os militares deveriam sair da política pois já tinham provado (e mais do que provado) que não eram garante de coisa nenhuma e, pelo contrário, se imiscuíam amiúde em matérias para que claramente não tinham preparação escolástica e muito menos mandato democraticamente referendado; o ordenamento jurídico era fundamental para que a governação passasse a ter legitimidade democrática deixando de ser feita por Governos provisórios de nomeação revolucionária; o Presidente da República teria que ser legitimado pelas urnas de voto.
 
Eis o caminho por que Portugal havia de trilhar de 1976 em diante.
 
Contudo, nem sempre as «coisas» correram como seria de esperar: a Constituição foi aprovada democraticamente com os votos favoráveis dos comunistas, dos socialistas e dos social-democratas mas com o voto contrário dos democrata-cristãos que a consideravam eivada de conceitos tendenciosos (p.ex., nela estava consignado o caminho rumo a uma sociedade socialista, sem classes) inibidores de alternativas que os eleitores no futuro pudessem preferir e dando cabimento ao Conselho da Revolução que assim via legitimada a sua existência em vez de dar o exemplo no «regresso a quartéis».
 
Mas nem tudo foram contrariedades: elegeu-se Ramalho Eanes como Presidente da República e o revolucionário que lá estava «desamparou a loja».
 
 
Todas as formas de fascismo – de direita ou de esquerda – são contrárias à dignidade humana e finalmente Portugal readquiria condições de funcionamento em quase plena legitimidade democrática. Os calores revolucionários ir-se-iam transformando em borralho e estes em cinzas para que então delas pudesse surgir uma Fénix.
 
Que Fénix? Segundo que modelo?
 
Julho de 2009
 Henrique Salles da Fonseca

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:49
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2 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 21 de Julho de 2009 às 23:18
RECEBIDO POR E-MAIL:

Eu também acreditei no General Eanes. Foi o homem certo no momento certo. Mas as cinzas mantêm-se intactas, a Fénix ficou na sua terra. Renasceu, entre nós, no século XVII, em maravilhas barrocas, mas ficou em papel. Não só não inspira os governantes, como também não a merecemos, nós, os governados, que os escolhemos e aceitamos.
Berta Brás


De Adriano Lima a 22 de Julho de 2009 às 22:36
Senhor Doutor, acerca do posterior “desinteresse” de Moscovo por Portugal, pesou também, e não tão pouco como isso, a questão geopolítica. Moscovo bem sabia os graves sarilhos em que podia meter-se se quisesse pôr a pata num país da Europa Ocidental e membro da NATO. Não me é possível recordar agora com precisão o que li acerca do assunto, mas Moscovo aconselhou Cunhal a arrepiar caminho e a portar-se com o sentido das realidades, ou seja, a meter juízo na cabecinha. Mas o que Cunhal ousou sonhar e maquinar, brincando com a nossa complacência e com a nossa paciência de Job, valeu-lhe a condecoração de “Herói Soviético”, como o Senhor Doutor aqui lembra. Condecoração que devia ser motivo de opróbrio para a nação portuguesa, mas que deve exultar a pequena coluna de saudosos soviéticos que os complacentes portugueses continuam a tolerar no seu convívio democrático.
Regressei há poucos dias de uma visita a 3 ex-países comunistas (Roménia, Sérvia e Bulgária) e o que por lá observei e senti deu-me a certeza absoluta de que hoje aqueles povos procuram exorcizar o pesadelo que os assolou durante 50 anos. No fundo, querem ser felizes, acreditando que só o conseguem enterrando bem fundo o passado. A mesma sensação tive na Rússia, na Polónia, na Hungria, na República Checa, na Eslováquia, na Estónia, na Lituânia e na Letónia. Ah, e também na ex-RDA. Posto isto, em nome de quê e por que razão continuamos complacentes? Eles podem adornar ou adaptar às circunstâncias as intenções e o discurso de sempre, ou podem fazer algumas piruetas para evitar evocações incómodas, mas o facto é que continuam exactamente os mesmos.
Há quem acredita piamente que a manutenção de certas vozes contestatárias evita o adormecimento abúlico dos governos ou, pelo menos, introduz um atestado de sanidade no nosso sistema político. Mas ouso pensar também que isso pode ser um dos principais catalisadores da nossa desunião em torno das causas essenciais. Ou seja, para mal dos nossos pecados, os “adeptos da tenaz” continuam com um poder (o de rua) que não têm noutras bandas desta Europa.
E fico-me por aqui…


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