Terça-feira, 14 de Julho de 2009
HERÓIS DE CÁ - 20

 OUTRAS VISÕES - VI

 

 

 
O imobilismo que os ultras impuseram a Marcello Caetano foi o responsável pela agudização da situação política interna portuguesa. Numa época de grandes modificações na cena internacional impunha-se uma séria adaptação de Portugal a esses novos cenários. Assim foi que se deu o que todos sabemos da física: qualquer corpo rígido parte mais facilmente do que aquele outro que possui elasticidade.
 
As adaptações eram imprescindíveis no sentido da democratização do sistema político interno e no da busca de um novo quadro institucional para a harmonia lusófona assim impedindo a comunização que se desenhava.
 
A Acção Nacional Popular, ex-União Nacional de Salazar, não fazia qualquer sentido como Partido único pois já não possuía coesão interna e simultaneamente era uma organização repulsiva para quem nada tivesse a ver com os ultras que nela imperavam. Os evolucionistas, esperançados na acção evolutiva sob a égide de Marcello Caetano, andávamos desgarrados, nunca fomos um movimento organizado porque o próprio Regime o impedia, nada pudemos fazer a não ser preocuparmo-nos vivamente com tudo o que víamos não acontecer ou acontecer ao contrário do que queríamos: completo imobilismo perante o aperto da tenaz soviética.
 
Mas a certa altura o General António de Spínola conseguiu publicar o seu livro «Portugal e o futuro» e foi então que nos sentimos um pouco mais acalentados. Alguém de dentro do establishment apresentava uma alternativa que nos parecia credível: à falta de melhor, empunhámos essa bandeira que se revelou um best seller no mercado editorial. Mas só isso porque continuámos desgarrados, sem liderança alternativa à de quem já sabíamos refém dos ultras. E víamos os comunistas a liderar esse emaranhado a que globalmente se chamava Oposição Democrática e que ipso factu – devido à liderança a que se submetera – não podia de todo ser democrática.
 
A última remodelação governamental operada por Marcello Caetano foi uma completa desilusão pois foram preenchidos lugares-chave por ministros que não sugeriam qualquer credibilidade. Imperou a sensação de que já não havia ninguém de classe que se dispusesse à governação. Foi desesperante a consciência da impotência política.
 
Até que em 16 de Março de 1974 houve uma revolta no quartel das Caldas da Rainha cuja marcha sobre Lisboa foi interrompida por forças que se lhe opuseram. Abortada a acção, ficou o aviso que os mais conservadores não quiseram interpretar. E nós a vermos como tudo ia acontecer sem nada podermos fazer...
 
Quando na madrugada de 25 de Abril tudo aconteceu, os ultras temeram e revelaram que tinham muito menos força do que aquilo que supúnhamos.
 
Diz-se que nessa altura Marcello Caetano quis entregar o Poder a Spínola. Diz-se...
 
É tarde, Inês é morta...
 
Por culpa dos ultras, vingava em Portugal um golpe de Estado comunista.
 
 
Com excepção da Guiné-Bissau, foi no Largo do Carmo que Portugal perdeu o seu Império para ser entregue de mão beijada à União Soviética.
 
Estava eu em Lourenço Marques já como civil e rapidamente confirmei que tudo era uma grande traição à minha Pátria e à Lusofonia. Meti-me no «Infante D. Henrique» e naveguei até Lisboa onde me caberia com mais lógica ajudar a “pegar o toiro pelos cornos”.
 
Julho de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:44
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4 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 14 de Julho de 2009 às 21:16
RECEBIDO POR E-MAIL:
Perdi agora um longo comentário que fiz ao seu texto sobre os meandros de Abril e já não vou conseguir reproduzi-lo. Pode, também, não gostar do comentário que vou atamancar e isso o liberta de o postar: Tive colegas - dos tempos do liceu, em Lourenço Marques - que eu sabia de esquerda de longa data, mas ignorava o papel de cada um - possivelmente eles próprios o desconheciam - na viragem de Abril. Éramos amigos, daquele tempo de alegre camaradagem que se consolidava com a formação das famílias de cada um, e os trabalhos, por vezes em comum... Depois de abril, foi a debandada, o extremar de posições, a surpresa das deslealdades, a adaptação interesseira a uma falsa democracia, os abraços acobardados à negritude, a fuga para a pátria, a começar pelos que lutaram pela sua perdição. A inutilidade arriscada das discordâncias. E o livro de Spínola, e o seu monóculo faiscante de traição aos ideais que jurara, certamente, defender.... Não, não havia hipótese de suster a derrocada. As gentes do antigamente tentaram adaptar-se, ou sofreram na pele os desmandos das novas gralhas. E as novíssimas regem-se por idênticos grasnidos.

2009/7/14
Berta Brás


De Henrique Salles da Fonseca a 14 de Julho de 2009 às 22:49
Prezada Senhora Professora Berta Brás, é claro que publico!
Só não publico comentários com expressões menos académicas (vulgo, palavrões) ou de traidores.
Comentários expressando opiniões contrárias às minhas são logicamente publicados mas até nem sequer me pareceu o caso desta sua opinião. Reconheço que Spínola era uma pessoa controversa, com qualidades e defeitos.
Continuemos...
Melhores cumprimentos,
Henrique Salles da Fonseca


De Henrique Salles da Fonseca a 14 de Julho de 2009 às 22:38
RECEBIDO POR E-MAIL:

E saiu-lhe uma pega de cernelha...
Teresa de Lemos Peixoto


De Henrique Salles da Fonseca a 14 de Julho de 2009 às 22:54
Mas em vez de um toiro bravo saiu-nos uma manada de bois ... O único verdadeiramente bravo recolheu aos curros muito rapidamente.


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