Segunda-feira, 13 de Julho de 2009
POSTAIS ILUSTRADOS XIX

  

TEOLOGIA DA ECONOMIA II
Parte I
Prólogo [1]
 
 
Observa atentamente, e verás a corrupção que se esconde
sob essa leve capa de dignidade[2]. Desde que o dinheiro
(que tanto atrai a atenção de inúmeros magistrados e juízes
e tantos mesmo promove a magistrados e juízes!...), desde
que o dinheiro, digo, começou a merecer honras, a honra
autêntica começou a perder terreno[2].
Séneca, in “Cartas a Lucílio”
 
 
Votos não são autocolantes que se colem no peito de qualquer um”. Escrevi em Setembro de 2008, num texto intitulado, Economia Implosiva. Nesse mesmo texto afirmei, ainda, que: “A omnipresença do Estado implode aeconomia. É um dos factores principais duma conta onde a ordem dos factores não é arbitrária. Entendeu-se e incutiu-se, por exemplo, desde há trinta anos, na nova cultura democrática, que o Estado era o nosso Paiprovidencial que tinha sempre dinheirinho disponível para pagar os prejuízos de alguns, substituindo-se a uma política de seguros, obrigatória, enérgica, coerente e honesta” [3]. Em Maio de 2006, escrevi um texto intitulado Teologia da Economia [3]; texto esse em que tratava com ironia o tema das várias doutrinas económicas, referenciando, preferencialmente, os “pais” dessas doutrinas, de uma forma resumida. Com algum sarcasmo, apontei a trindade que está no centro das preocupações filosóficas de todos os teóricos: O Dinheiro, o Poder e o Povo, sendo que este último é, na perspectiva de muitos e na minha, também, o “elo mais fraco”.
 
E é curioso, pois este “elo mais fraco” está na génese daqueles que vivendo “aparentemente” no seu seio, são legitimados, no modelo democrático, para se sentar no Poder, por procuração de voto. O Povo, que é a chave do Poder e escolhe quem o representa e governa, delega esse privilégio numa elite que, emergindo do seu meio, se apropria do direito de fazer Leis e as faz, mormente, em proveito de uma cadeia de interesses que não têm nada a ver com os interesses do Povo; usando como escudo e arma o Estado, para impor o que consideram ser melhor para os interesses deste (do Estado) enquanto Entesuprapartes”, mas, em que o interesse da parte maioritário é relegado para um plano muito abaixo do superior interesse da Nação; conceitos, propositadamente vagos, para se for molestado esse interesse, justificar o uso da força para o repor.
 
Não vos faz lembrar nada, este relacionamento?
 
Claro! É isso mesmo, há uma evidente similitude entre o exercício do poder dos accionistas (o “Povo”) e o exercício do poder das administrações dos bancos (os “Governos”), em que a intervenção dos accionistas durante o período do mandato destas é praticamente inócua, onde sobrevive uma teia de “servos da gleba” e “escravos”, os depositantes, que perdem contacto com o dinheiro, que foi ganho por estes e em teoria, só em teoria, é deles; e sobre o qual deixam de exercer qualquer poder [4].
 
TLC
 
Sobre todas estas questões, ou tratando partes destas, brindou-nos Bento XVI com uma nova Encíclica: “Caritas in Veritate”, na esteira da preocupação humanista da
Populorum Progressio” de Paul VI. Fugindo às questões da infalibilidade da palavra do Sumo Pontífice, representante de Cristo na Terra, que interessa exclusivamente à discussão teológica, como ciência e doutrina da Igreja Católica; debate por onde não pretendo por ora entrar; tomo nota, com alguma esperança, de que Bento XVI, nos trouxe uma perspectiva social da evolução de pensamento económico, a que não são alheios sentimentos e factores como a Caridade e a Moral; elementos essenciais de uma nova visão do Mundo Humano e dos seus conflitos e conexões de interesses.
 
A prospectiva dos Homens na sua individualidade e sociabilidade numa era actual de perigosa e evidente desagregação do tecido social; era essa dita moderna, mas com princípios e práticas do Homo Neanderthalensis! A globalização cria-nos a visão do Mundo num tempo espacial único e isso dá-nos a informação em tempo real do que se passa mundialmente. Esta informação, em vez de ser usada em benefício da Justiça e da Paz, antes pelo contrário, sublima em nós, humanos, o egoísmo e a ganância. Na era da descoberta do genoma do Homo Sapiens Erectus, os cientistas deviam maravilhar-nos com a investigação de uma vacina contra os malefícios do “vil metal”, expressão usada por Séneca nas cartas acima referenciadas de que transcrevi um excerto.
 
O desenvolvimento do pensamento económico futuro devia enquadrar-se no priorado das boas Emoções e dos bons Sentimentos, em detrimento da Razão fria, pura e dura.
 
A Vida, em cada instante, faculta-nos as escolhas e as oportunidades...
 
 Luís Santiago
 
[1] Do teatro grego, elementos elucidativos da trama que se vai desenrolar, Dicionário Houaïss;
[2] Sublinhado meu;
[3] Os textos podem ser consultados no blogue “Quadratura do Círculo” da SIC;
[4] Ler “Os Dez Mandamentos do Banqueiro” da autoria do Dr. Palhinha Machado, neste blogue.
 

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:05
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2 comentários:
De maria teresa a 13 de Julho de 2009 às 09:53
Dr. Luís Santiago

Interrogo-me:
O que são boas(?) Emoções e bons (?)Sentimentos aplicados no desenvolvimento do pensamento económico futuro?
A Razão não deve existir em todos os quadrantes da nossa Vida?
Sem ela não cairíamos no Caos e na Utopia?

Nem sempre , “a Vida , em cada instante, nos faculta as escolhas e as oportunidades…” ou então seremos nós que não sabemos ler esses sinais?

Maria Teresa (completamente leiga nos assuntos económicos)


De Luis Santiago a 13 de Julho de 2009 às 15:03
Minha Amiga Drª Maria Teresa, As suas interrogações são legítimas, mas vai ter algumas das suas respostas nas partes seguintes deste tema, em que procurarei abordar com algum pormenor dúvidas que a mim mesmo se levantam, comprometendo-me a tentar, o mais possível, esclarecer o sentido das minhas palavras.


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