Domingo, 12 de Julho de 2009
HERÓIS DE CÁ - 19

 

 OUTRAS VISÕES - V
 
Ajoelhados os EUA em Paris com a assinatura dos Acordos de Paz no Vietname, seguia-se Portugal na agenda comunista. Mas, ao contrário dos EUA no Vietname, Portugal não estava nem pouco mais ou menos a perder a guerra no Ultramar, com excepção da Guiné-Bissau. Mais: Portugal tinha instalado um sistema mercantilista que economicamente lhe permitiria sustentar indefinidamente o esforço militar a que já se habituara. Portanto, se não era no teatro das operações militares nem pela via da exaustão económica que o comunismo tomava conta do Império Português, só tinha uma via a seguir: a subversão geral da sociedade portuguesa e das Forças Armadas em particular.
 
A propaganda das “virtudes” doutrinárias, os sacrifícios da clandestinidade, os séculos de prisão que os seus militantes tanto gostam de somar e apregoar, a vitimização dos seus lutadores a favor da liberdade de coarctarem a liberdade de quem não pensasse como eles, nada funcionava para levar a população portuguesa a aderir massivamente[1] à causa comunista e ao PCP. Perante tal alheamento, não era azado o momento para acusar os portugueses de pequeno burgueses, mesquinhos, ignorantes, caprichosos, egoístas ou vaidosos. Era necessário apanhá-los de surpresa e, à boa maneira totalitária, domá-los. Como? Dominando as próprias Forças Armadas. A vitória comunista em Portugal não iria ser conseguida nos campos nem nas fábricas mas nos quartéis!
 
Escola Prática de Infantaria no Convento de Mafra: aqui assentaram praça em 1970 muitos comunistas vindos do exílio
 
Mas como todas as vitórias têm a sua dose de sorte, também o PCP viu facilitada a concretização da subversão das Forças Armadas Portuguesas quando se lhe deparou «de mão beijada» um conjunto de Capitães reivindicando o monopólio profissional que sentiam ameaçado pela formação in vitro de milicianos como Comandantes de Companhia (nome técnico para Capitães). Esta foi a cereja cristalizada no cimo do bolo formado pela subversão da sociedade civil que o PCP vinha há décadas tentando. Havia urgentemente que «apoiar» esse conjunto de militares profissionais politicamente ingénuos mas operacionais para que o resultado fosse o desejado pelos adeptos da tenaz.
 
Eis como em Abril de 1970 dei por mim na recruta em Mafra rodeado de retornados do estrangeiro a quem subtilmente fomos «tirando nabos da púcara» suficientes para percebermos que «o caldo se ia rapidamente entornar». Cultos, alguns mesmo raiando a erudição, todos politizados, subtis, cautelosos...
 
Bastou que alguns desses dissessem umas «coisas» para que os politicamente ingénuos os seguissem. Eis como aquilo que começou como um movimento reivindicativo de índole profissional da classe dos Capitães se transformou numa hidra que abocanhou desde Sargentos a Coronéis. A isso chamaram MFA - Movimento das Forças Armadas.
 
Os evolucionistas que depositávamos esperanças na acção democratizadora de Marcello Caetano não tínhamos estrutura que nos enquadrasse politicamente pois nada tínhamos a ver com a Acção Nacional Popular, estávamos isolados e quase não nos conhecíamos uns aos outros. A solução era aguentar o máximo de tempo possível para que a Ala Liberal na Assembleia Nacional conseguisse fazer algo de jeito antes que a guerra no Vietname fechasse portas e virasse a atenção dos comunistas para Portugal.
 
Não conseguiu.
 
Julho de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca


[1] - Expressão típica do léxico comunista que um português normal refere como «maciçamente»

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 15:00
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2 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 12 de Julho de 2009 às 20:04
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Uma análise clara e séria, de quem viveu os factos que relata, e nos leva aos bastidores dos factos que vivemos, graças a esses "capitães de proveta", como tão bem define. Gostei a valer. Obrigada.
Berta Brás


De Henrique Salles da Fonseca a 12 de Julho de 2009 às 22:07
RECEBIDO POR E-MAIL:

Muito interessante.
É importante que partilhe este seu conhecimento por dentro de um momento histórico.
Rui Coelho


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