Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
HERÓIS DE CÁ - 17

 

 OUTRAS VISÕES - III
 
 
No início da década de 70 do séc. XX os trabalhos ciclópicos espreitavam o Governo Português. Haveria Homem para lhes fazer frente?
 
Estava Marcello Caetano numa posição de funâmbulo circense tentando garantir a manutenção do modo imóvel de vida a que Salazar conduzira Portugal enquanto os seus esperançosos apoiantes lhe pedíamos o desmantelamento controlado do Estado Novo sem sofrermos o aperto da tenaz soviética e eis que a direita mais conservadora chefiada pelo Almirante Américo Tomaz lhe impõe residência fixa durante uma semana no Palácio de Queluz. Assim, sem mais explicações para além de que a ordem era para parar com essa «coisa» de mudanças.
 
Verdade ou mentira, foi a notícia que circulou cá por fora dos círculos do Poder e todos acreditámos que a «guerra» estava perdida: a direita radical não admitia sequer o velho estratagema de mudar alguma coisa para que tudo continuasse na mesma; queria tudo na mesma e ponto final na evolução na continuidade de que Marcello Caetano falava nas suas «Conversas em família» no horário mais nobre do praticamente único canal da RTP[1].
 
 
 
A mudança de nome de União Nacional para Acção Nacional Popular e de PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) para DGS (Direcção Geral de Segurança) foi isso mesmo: mudança de nome.
 
Conta-se que na apresentação de cumprimentos ao novo Presidente do Conselho, o então Director Geral da PIDE, Major Silva Pais, terá sido aconselhado por Marcello Caetano a ir primeiro cumprimentar o respectivo Ministro, o do Interior, antes de o cumprimentar a ele próprio, Chefe do Governo. A ser verdadeira, a história significava a «descida de Divisão» a que a Polícia política estava a ser conduzida deixando de reportar directamente ao Presidente do Conselho como sucederia antes com Salazar, para passar a despachar com o Ministro da respectiva tutela. Logo na tomada de posse e eis que a direita mais radical se sentia a tomar um duche de água fria.
 
«Vendo o filme ao contrário», dá hoje para compreendermos como a direita conservadora cerrou fileiras logo no início do primeiro Governo post-Salazar com vista a impedir quaisquer mudanças no Regime[2].
 
Marcello Caetano ainda terá conseguido encorajar uns quantos «jovens amigos» que na Assembleia Nacional constituíram a «ala liberal» dentro do Partido único mas pouco ou quase nada se conseguiu para além duma crescente procura dos Diários da Assembleia Nacional onde nos deliciávamos com os diálogos travados entre os «jovens amigos» de Marcello Caetano e os outros Deputados a quem ele nunca chamou de seus inimigos mas que cá fora todos sabíamos que o eram. Nunca antes nem nunca mais depois desse período o Diário da Assembleia Nacional teve tanta procura pelo público em geral uma vez que era a única publicação portuguesa que à época não era submetida à Censura Prévia. Os censores tinham sérios problemas em truncar as transcrições amiúde feitas pelos jornais, semanários e revistas de grande circulação pois afinal aquele era, constitucionalmente falando, o lugar apropriado para a discussão política. E as notícias que nos chegavam cá fora eram suficientes para percebermos que nada mudaria sem que se tivesse que fazer algo mais do que falar, falar, falar…
 
Iniciativas económicas que se pretendiam estruturantes como o Pólo Industrial de Sines mostraram-se mais demoradas na produção de resultados palpáveis do que a própria durabilidade da situação política. O mesmo se diga relativamente à abertura do Ensino Superior à iniciativa privada com Évora a dar os primeiros passos que bastante mais tarde – em 1979 – haveriam de conduzir à reabertura da Universidade pública [3].
 
Quanto ao Ultramar, alguma coisa foi tentada no sentido de uma maior autonomia de cada Província Ultramarina a ponto de que ainda se passaram a intitular «Estados» mas – como nas demais alterações – tudo se resumiu a mudança de nome e apenas isso. Quando imaginávamos que se seguiria uma evolução no sentido do modelo britânico da Commonwealth of Nations em que o próprio Banco de Portugal mantivesse uma posição central na política monetária de todos, eis que mais uma vez tudo se gorou e a direita radical impediu qualquer evolução.
 
Estavam os campos definidos: a «ala liberal» da ANP (em que sobressaía Francisco Sá Carneiro) apoiante de Marcello Caetano, do lado evolucionista; os ultras (em que sobressaía Francisco Casal Ribeiro) apoiantes do Almirante Américo Tomás, do lado conservador.
 
Alguns factos mereciam preocupação e ponderação por parte dos evolucionistas:
 
  • O fim da guerra no Vietname;
  • O aparecimento do «Movimento dos Capitães»;
  • A ordem que o PCP deu aos seus jovens militantes no exílio para que ingressassem nas fileiras das Forças Armadas.
 
Já lá vamos...
 
Julho de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca


[1] - O Canal 2 da RTP foi criado em 1968 por «ordem» de Marcello Caetano assim como a própria RTP nascera pela sua mão quando era Ministro da Presidência de um Governo de Salazar. Nesses tempos as emissões televisivas eram limitadas a algumas horas diárias.
[2] - Os salazaristas referiam-se ao Regime (com maiúscula) como o correspondente ao Estado Novo de 1926 corporizado na Constituição de 1933 por antinomia à República de 1910 corporizada na Constituição de 1911.
[3] - Fundada em 1559 pelo Cardeal D. Henrique antes de subir ao Trono e extinta pelo Marquês de Pombal em 1759 com a expulsão dos Jesuítas.

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:47
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3 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 3 de Julho de 2009 às 17:09
RECEBIDO POR E-MAIL:

Excelente. Bom fim-de-semana.

Rui Coelho


De Adriano Lima a 3 de Julho de 2009 às 22:07
Como vou de férias para o estrangeiro dentro de algumas horas, não tenho muito tempo mas ainda me sobra algum para dizer alguma coisa sobre esta evocação do consulado Marcelista. Tudo o que aqui está dito não colide com o que o próprio Marcelo Caetano, indirectamente, confessa no seu livro "minhas Memórias de Salazar", livro que eu por acaso só pude ler no ano passado.
Parece ficar subjacente uma ilação. Se Marcelo ficou com os pés algo atados por acção velada da direita radical, não será caso para duvidar se o próprio Salazar teria efectivamente o pleno mando sobre os homens fortes do regime? Salazar tinha os motivos que tinha para se agarrar ao poder. Porventura terá sofrido aquela sedução pelo poder a que poucas criaturas resistem. Mas mais nehum interesse o movia, o que já não se pode dizer das figuras que o rodeavam e sustentavam verdadeiramente o Regime.
Assim, um 25 de Abril era inevitável para quebrar os estrangulamentos do país.
Bem lembra o Doutor Salles da Fonseca que o PCP se empenhou em infiltrar filiados seus nas Forças Armadas. Comprovei-o, e pessoalmente sofri-lhe os reveses. Aquando do 25 de Novembro, as forças vencedoras foram generosas para com os desavindos. Muito disso se deveu às qualidades de liderança de Jaime Neves, sem o que não teria sido possível evitar uma retaliação que faria correr algum sangue nacional. Há tempos, um amigo militar, em conversa informal, achava que ficaram contas por ajustar e que hoje anda por aí quem finge viver em democracia mas não abdica do seu emperdenido proselitismo.


De Henrique Salles da Fonseca a 4 de Julho de 2009 às 09:54
RECEBIDO POR E-MAIL:

Uma boa leitura, ainda mesmo para os que nasceram antes de 1974, que ficam a compreender melhor os bastidores dos acontecimentos que viveram.
Berta Brás


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