Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
A ÉTICA DE ARISTÓTELES

 

Aristóteles
Aristóteles
Busto de Aristóteles no Museu do Louvre.
Nascimento 384 a.C.
Estagira, Calcídica
Morte 322 a.C.
Ocupação Filósofo e Professor
Escola/tradição Escola peripatética, Academia de Platão, Realismo, Fundacionalismo
Principais interesses Política, Metafísica, Ciência, Lógica, Ética
Idéias notáveis Lógica, Biologia, Doutrina do meio-termo, Metafísica, Razão
Influências Parmênides, Sócrates, Platão, Heráclito
Influenciados Alexandre Magno, Al-Farabi, Avicena, Averróis, Alberto Magno, Copérnico, Galileu Galilei, Ptolomeu, Tomás de Aquino, e a maior parte da filosofia islâmica, filosofia cristã, filosofia ocidental e a ciência em geral
 Wikipédia

 

 

 

Passam-se dias, meses, anos, décadas, séculos, e o ser humano, imperfeito por natureza, repete-se nos mesmos erros, nos mesmos sentimentos, para o bem e para o mal. Avançam as civilizações, nas ciências, nas tecnologias, transformam-se as formas de ser e de estar em sociedade, mas o homem continua a cometer os mesmos erros, sem emenda, e pior, aduzidos de refinamentos e de falsidades disfarçadas por máscaras cada vez mais sofisticadas.
 
Porque não aprende o homem, com a experiência, a capacidade de correcção? Porque é que a lei, as regras e os princípios são rapidamente colocados de parte, dificilmente se elevando, e facilmente o ser humano se alicia no incumprimento, no vício, na inveja, na gula, na soberba, e na ganância?
 
Já no séc. IV a.C., Aristóteles, reflectindo sobre a natureza dos homens e preocupado com o seu aperfeiçoamento, sobretudo através dos jovens, escreveu na Grécia um Tratado sobre a ética, Ética a Nicómaco.
 
Segundo Aristóteles, a actividade jurídica e a política estão unidas à moral, uma vez que o fim último da política é a virtude, isto é, a formação moral dos cidadãos, e o fim último do Estado é proporcionar o conjunto dos meios necessários a essa formação. Nesta perspectiva, o Estado é também um organismo moral, condição e complemento da actividade moral individual. Moral e política serão a mesma coisa? Não. A Política destina-se à educação da colectividade (moral social), enquanto a ética se destina à educação individual (moral individual).
 
É por isso que o Estado é superior ao cidadão, a colectividade ao indivíduo, o bem comum ao bem particular. Só através do Estado se realiza a satisfação de todas as necessidades, pois o ser humano, sendo naturalmente um ser vivo social (da polis, ser político), não pode aperfeiçoar-se sem o apoio da comunidade.
 
Para Aristóteles o ser humano é, por natureza, um ser vivo político. Assim: necessita, por natureza, de viver em comunidade e a plena realização da sua humanidade só é possível e realizável através da comunidade social e política que na Grécia era a Cidade-Estado (polis).
 
Relendo o Tratado da ética de Aristóteles e ponderando sobre a actualidade da problemática que ele nos transmite, não podemos deixar de nos questionarmos: como é possível que tendo já sido escrito há cerca de 2.400 anos, seja pleno de bom senso e de pertinência para os dias de hoje? E como é possível, que ainda assim, passados tantos séculos, o homem continue tão imperfeito, tão incorrecto, tão corrupto, violando regras de bem-estar social, pisando princípios básicos de saber-ser e de saber-estar, tanto individualmente quanto em sociedade?
 
Tal como já nos deixou escrito Aristóteles, repetimos, há cerca de 2.400 anos atrás, também nós reconhecemos que a existência de regras morais é insuficiente para que os seres humanos optem por uma via de boa conduta e daí que a necessidade das leis, do legislador e da política, seja mais do que nunca, a valia de lutar pela melhor condução das sociedades.
 
Todavia, como também ele nos diz, no domínio da acção, não basta que reconheçamos teoricamente o que é a virtude, é necessário que a ponhamos em prática. Dada a nossa natureza, tem de existir sempre um esforço humano para nos tornarmos pessoas de bem, tem de existir um esforço constante de aperfeiçoamento que só se torna efectivo através do exemplo que cada um de nós, e o próprio Estado em sociedade, conseguir deixar às gerações vindouras, e nós cremos que aqui reside a nossa luta, na elevação da política do rigor da legislação e do cumprimento das leis, ao patamar de onde nunca se deve desviar.
 
Aveiro, 12 de Maio de 2009  
 
  Susana Barbosa
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:07
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1 comentário:
De Adriano Lima a 26 de Junho de 2009 às 21:47
Cumprimento a igníssima autora deste lúcido artigo.
Concordo consigo. Pelos sinais que a civilização moderna nos dá, temos de concluir, de facto, que a natureza humana ainda permanece no mesmo estádio biológico que suscitou Aristóteles a escrever o seu tratado de ética. Pelos vistos, o Estado não tem sido capaz, em nenhum dos modelos que a História até hoje nos forneceu, de em si mesmo encarnar os paradigmas ético-morais que, por função, devia instilar nos cidadãos, como propunha Aristóteles. As sociedades contemporâneas mostram que a Ética do Estado é facilmente subjugada pelas urgências do Poder, e não é de esperar outra coisa se o Estado é constituído por homens que não são propriamente escrutinados pela sua envergadura ético-moral mas sim pela sua capacidade de luta pela ascensão social e pelo poder, com tudo o que isso pode revestir de positivo mas também de negativo.
Jean-Paul Sartre afirmou que “o homem não é outra coisa que aquilo em que ele se torna”. Isto quer dizer que a realidade humana, logo a ética e a moral, é construída histórica e socialmente pelas relações colectivas dos seres humanos nas sociedades onde nascem e vivem. Mas a ética e a moral que estas geram têm de ser vistas como valores relativos, com a importância que têm dentro da sociedade. Portanto, o conceito de virtude é variável, e decerto que não é o mesmo no tempo de Aristóteles e no tempo de Obama. Não creio, pois, que haja um consenso universal sobre as virtudes humanas, que no espaço e no tempo têm variado com os povos, as suas culturas e as suas crenças.
Portanto, se a nossa atitude é de descrença sobre o estado da evolução moral do homem, ou as culpas têm de ser assacadas às sociedades e aos Estados, ou o problema reside verdadeiramente na própria natureza biológica do homem. A ser assim, talvez o ser humano venha a evoluir por uma interdependência dos factores biológicos e antropo-socilógicos. Com estes últimos a determinarem, sim, a evolução biológica, mas, vista natureza desta, os 2300 anos que nos separam de Aristóteles são um tempo sem significado.


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