Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017
LIDO COM INTERESSE – 72

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Título – O SAMURAI NEGRO

Autor – João Paulo Oliveira e Costa

Editora – Temas e Debates - Círculo de Leitores

Edição – 1ª, Maio de 2016

 

Romance histórico escrito por um Professor (universitário) de História, tem naturalmente fundamento histórico relevante. Envolto em trama romanesca, faz com que a leitura seja menos académica, mais leve.

 

A componente romanesca consiste na história de Carlos, um príncipe do Congo, de Pedro, um luso-brasileiro e de Ana, uma japonesa. No Japão, os dois amigos deparam-se com uma civilização diferente mas que os atrai, em especial por causa de Ana.

 

A componente histórica refere-se aos negócios que correm pela feitoria portuguesa de Nagasáqui, base a partir da qual os jesuítas espalham a religião católica sob o olhar algo apreensivo de Roma devido às adaptações introduzidas nos ritos para melhor compreensão dos japoneses. Ao Padre Visitador Alessandro Valignano, incumbido pelo Geral jesuíta de verificar se havia desvios de doutrina, o Autor chama Giuseppe para que se não diga que está aqui a debitar uma aula de História. E é dali, Nagasáqui, que parte a «nau do trato» com prata para ser vendida na China e ali aporta a mesma nau com sedas e porcelanas chinesas para serem vendidas no Japão.

 

De volta à «capa e espada», são os piratas cruéis, os mercadores gananciosos, as mulheres enigmáticas, os samurais disciplinados, os missionários e espiões, os grandes generais e os poderosos senhores feudais que se cruzam com crentes de todas as religiões vivendo paixões intensas, ambições e ciúmes, desejos de vingança e tudo o mais que possa interessar numa história romanceada baseada na História. Interessante, sem dúvida, para quem queira dar um giro pelo entrelaçamento que efectivamente houve entre Lisboa, Goa, o Sul da China e todo o Japão.

 

Foi aqui que fiquei a saber da «ilha dos coelhos gigantes». Se o leitor quiser saber do que se trata, leia o livro.

 

Julho de 2017

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Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:59
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LIDO COM INTERESSE – 17

 

 

 Amos Oz - Contra o fanatismo.jpg

Título: Contra o Fanatismo

Autor: Amos Oz

Tradutor: Henrique Tavares e Castro

Editores: ASA Editores; PÚBLICO, Comunicação Social

Edição: 1ª, Abril de 2007

 

 

Pequeno livro para meter num bolso sem deformar a vestimenta, consta de três conferências proferidas pelo Autor em 2002, tudo em 95 páginas de leitura muito fácil e agradável.

 

Nunca tinha ouvido falar deste escritor israelita mas uma coisa tenho desde já por certa: não me vão escapar os próximos livros dele com que me cruze.

 

Se me ponho a dissertar sobre o livro, corro o risco de produzir um texto mais longo que o original e com a diferença de que serei enfadonho onde o Autor é interessante, vago onde ele é preciso. Portanto, opto por algumas transcrições que me parecem elucidativas da qualidade do escritor.

 

Da contracapa extraio que Amos Oz nasceu em Jerusalém numa época em que a cidade estaria dilacerada pela guerra e que por isso mesmo observou em primeira mão as consequências nefastas do fanatismo. Neste livro oferece-nos uma visão única sobre a verdadeira natureza do fanatismo e propõe uma abordagem racional que permita resolver o conflito israelo-palestiniano.

 

Da natureza do fanatismo – conferência proferida em 23 de Janeiro de 2002 em local não identificado

 

(…) Conheço bastantes não-fumadores que o queimariam vivo por acender um cigarro ao pé deles! Conheço muitos vegetarianos que o comeriam vivo por comer carne! Conheço pacifistas (…) desejosos de dispararem directamente à minha cabeça só por eu defender uma estratégia ligeiramente diferente da sua para conseguir a paz com os Palestinianos. (…) a semente do fanatismo brota ao adoptar-se uma atitude de superioridade moral que impeça a obtenção de consensos. (…) o culto da personalidade, a idealização de líderes políticos ou religiosos, a adoração de indivíduos sedutores, podem muito bem constituir (…) formas disseminadas de fanatismo. (…) A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar. (…) O poeta israelita Yehuda Amijai (…) afirma: «Onde temos razão não podem crescer flores.» (…) julgo ter inventado o remédio contra o fanatismo. O sentido de humor é uma grande cura. Jamais vi (…) um fanático com sentido de humor (…) Ter sentido de humor implica a capacidade de se rir de si próprio. (…) Todo o sistema político e social que converte cada um de nós numa ilha (…) e o resto da humanidade em inimigo ou rival é uma monstruosidade. (…)

 

Da necessidade de chegar a um compromisso e da sua natureza – conferência proferida em data e local não identificados

 

(…) O conflito israelo-palestiniano não é um filme do Faroeste selvagem. Não é uma luta entre o Bem e o Mal, mas antes (…) um choque entre quem tem razão e quem tem razão (…) (…) luto como um demónio pela vida e pela liberdade. Por nada mais. (…) isto me distingue do pacifista europeu normal que insiste em que o Mal supremo do mundo é a guerra. (…) a guerra é terrível se bem que o Mal supremo não seja a guerra mas a agressão. (…) quando percebemos a agressão, temos de lutar contra ela, venha de onde vier. Mas só pela vida e pela liberdade, não por territórios extra ou recursos extra. (…) Não acredito que o amor seja a virtude com a qual se resolvem os problemas internacionais. Precisamos de outras virtudes. (…) sentido de justiça, (…) senso comum, (…) imaginar o outro (…).

 

Do prazer de escrever e do compromisso – conferência proferida em 17 de Janeiro de 2002 em local não identificado

 

(…) se eu sou de um país em que toda a gente discute sobre tudo, porque não poderei eu fazê-lo também? (…) (…) Israel não é um país nem uma nação. É uma feroz e vociferante colecção de discussões, um eterno seminário na via pública. (…) Existe um impulso anárquico, não só em Israel, mas julgo que também na herança cultural judaica. Por alguma razão os judeus nunca tiveram Papa (…) esta veia anárquica de discussão é a cruz da nossa civilização (…) (…) O contrário de comprometer-me a chegar a um acordo é fanatismo e morte. (…) E quando digo acordo não quero dizer capitulação (…) quero dizer procurar encontrar-se com o outro em algum ponto a metade do caminho. (…) Se há uma mensagem metapolítica nos meus romances (…) é a necessidade de optar pela vida rejeitando a morte, pela imperfeição da vida rejeitando as perfeições da morte gloriosa.

 

Lisboa, Maio de 2007

 

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 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:35
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