Sábado, 30 de Novembro de 2013
Ó MAR

 (*)

Ó mar de mágoas da espera
do sempre, do nunca mais
mulheres lenda, mães quimera
aves negras que rezais
em cada metro de espera
em cada pedra de cais...

ó mar salgado pela dor
vertida de olhos vazios
no peito em quilha da sorte
mar de almas em estertor
onde se debruçam rios
e às vezes, se espelha a morte...

ó mar de espantos e medos
de naus, na eterna procura
Brasis de fama e dinheiro
são de escolhos teus segredos
Adamastores de aventura
Bojadores de nevoeiro!...

 Maria Mamede

(In "Banalidades" 2003)

 

(*) - "Viúvas na praia" - Lázaro Lozano (1946)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:19
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«Voiturez-nous ici les commodités de la conversation»

 

Isto disse Magdelon, a filha de Gorgibus ao seu lacaio Almanzor, a pedir-lhe cadeiras para que ela e sua prima Cathos recebessem condignamente o Marquês de Mascarille mais os seus requintes de fraseologia amorosa e auto elogiosa com que este se lhes apresentara, em aparato ruidosamente exibicionista, e posteriormente o Visconde de Jodelet, alardeando proezas bélicas, ambos em breve desmascarados pelos respectivos amos, os repudiados pretendentes das donzelas - La Grange e Du Croisy – que com aqueles seus criados combinaram a farsa mistificatória, como vingança pela indiferença das donzelas – as “Preciosas Ridículas” da peça de Molière - pretensiosas jovens provincianas, de mentes retorcidas por leituras de afectação e fantasia, com que o furioso pai e tio Gorgibus termina a sua expansão colérica final contra a ridícula afectação daquelas e contra as fantasias retóricas, e despidas de senso de certas produções livrescas da época, que Cervantes fora o primeiro a referir, relativamente ao artificialismo dos livros de cavalaria que fizeram ensandecer Dom Quixote.

Vem a evocação precedente a propósito do exemplo da prova – colhida na Internet - com que o Ministério da Educação pretende avaliar das capacidades intelectuais dos professores portugueses contratados e o desempenho das suas aulas, cilindrando-os à partida com extraordinárias propostas de questionários charadísticos, de um rebuscamento mistificatório condenável, cuja opção de resposta correcta nem sempre parece estar contida no exercício de escolha múltipla que apontam. Poderei estar enganada, mas cito o exercício 10 como exemplo que me parece incorrecto:

Item 10

A sequência abaixo é constituída por letras do alfabeto português.

A A B A C C D C E E ...

 

10. Mantendo o mesmo padrão de formação da sequência, qual das opções contém as quatro letras que permitem continuá-la?

 

(A) F E G G (B) F E H H (C) F F G F (D) F F G H

 

Tentei resolver a charada e continuei, excluindo o K, W e Y, e o ZZ sem continuador alfabético:

EEFE / GGHG / IIJI / LLML / NNON /PPQP / RRSR / TTUT / VVXV

Ora, nenhuma dessas opções aparece na escolha múltipla, o © FFGF , parecendo corresponder melhor mas não com exactidão, visto que a progressão da sequência quadripartida das letras do alfabeto nunca retoma as mesmas e o F já estava contido na sequência EEFE. Parece-me, pois, que a resposta deveria ser GGHG.

É apenas um exemplo, mas todo o teste me parece um acervo de bestialidade, afectado e insensato, com o objectivo pouco honesto de avaliar inteligências e paciências que em nada servem para avalizar das competências, mas sim para provocar chufas e risos jornalísticos e dos consequentes leitores de jornais ou ouvintes radiofónicos e televisivos sobre a mediocridade dos professores portugueses, pois acredito que com tanta pequice de prova, de propostas rebuscadas, os resultados não serão brilhantes.

Vivemos na época dos jogos de paciência, como palavras cruzadas, sudokus, e outras diversões do espírito, que a própria internet propaga, em desabono de leituras mais profundas, e por meio deles também se pretende testar a qualidade didáctica dos professores e isso é desonesto.

Como é extremamente rebuscado o texto para o tema da dissertação final, que exige algum tempo de leitura e ponderação, para, por meio de exemplos vividos ou lidos, os incluir nas conclusões de cada um, sobre a tolerância do ponto de vista da aceitação puramente cultural, de respeito pelas diferenças civilizacionais, sem fusão ideológica, caso das burkas nas escolas francesas, ou da tolerância do ponto de vista de generosidade e compreensão pessoais, modo mais comum de condução de aulas com maior ou menor liberdade e aceitação da participação discente, mesmo que esta muitas vezes desvirtue os objectivos da matéria de ensinamento:

Vendo a história, deparamos com exemplos de ambas as hipóteses: da tolerância como simples permissão do diferente, na condição de este permanecer na periferia cultural e porventura até geográfica, sem questionar e muito menos agredir o núcleo central das convicções e a organização sociopolítica dominantes; e da tolerância como abertura e assimilação do diferente, que arrasta adaptações mais ou menos profundas, tanto no interior do grupo ou do indivíduo que tolera, como no interior dos grupos que são tolerados.

Diogo Pires Aurélio, Um fio de nada, Ensaio sobre a tolerância, Lisboa, 1997

 

11. Escreva um texto em que exponha a sua opinião sobre as eventuais implicações das duas conceções de tolerância apresentadas no texto, transpondo-as para um contexto escolar.

Fundamente a sua opinião através de uma linha argumentativa clara e coerente.

 

Se o objectivo da prova é o de excluir professores, deve obter pleno êxito, neste tipo de ratoeira infame. Os professores contratados já passaram os seus múltiplos exames, certamente que das suas componentes específicas.

O que o Ministério da Educação devia fazer era dar-lhes tempo para se prepararem para as suas aulas e não afundá-los em sucessivas reuniões de vácuo, conducentes, as mais das vezes, ao vácuo do “bavardage inutile”. E impor regras de disciplina mais eficazes para que a educação cultural possa ser efectivamente realizada.

 

 Berta Brás

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:16
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CONVERSAS DE ESPLANADA EM LISBOA

 

 

O MAU DA FITA

 

 

Empregado de mesa – Bom dia! Fazem favor.

Eu – Bom dia! Para mim é um café e um croquete.

Ele – E para mim... tem Moscatel ou Favaios?

Empregado de mesa – Temos ambos.

Ele – Então... traga-me um Moscatel, por favor; o Favaios fica para amanhã.

Empregado de mesa – E o café do Senhor é normal, cheio, italiana?

Eu – Normal. E o croquete também.

Ele – Croquete normal?

Eu – Sim, de carne de vaca. É que aqui também fazem de leitão, de peru, sei lá mais do quê... qualquer dia até fazem de baleia, canguru, tubarão ou dinossauro.

Ele – É a crise.

Eu – Qual crise?

Ele – Esta, por que estamos a passar.

Eu – Não estamos a passar por crise nenhuma. Acho mesmo que a crise foi a que nos atirou para o buraco. Agora já não estamos em crise; estamos a tentar sair do buraco para que o despesismo nos atirou.

Ele – Devemos viver em mundos diferentes.

Eu – Não, não, vivemos exactamente no mesmo mundo. Só temos diferenças de semântica.

Ele – Porquê?

Eu – Porque Você chama crise ao «desmanchar da feira de vaidades» em que estávamos e para mim isso é a correcção dos vícios em que muitos tinham caído. Os «vaidosos» e os «viciosos» é que estão a ver a vida a andar para trás e acham-se em crise. Quem conteve o consumo dentro da razoabilidade dos rendimentos próprios, quem se relaciona com o Estado apenas na qualidade de Contribuinte, quem produz bens ou serviços transaccionáveis, não tem motivos de grande preocupação. Mas quem esticou a corda que a banca lhe lançou acumulando créditos à habitação, ao consumo duradoiro e por aí fora; quem perdeu o emprego nalgum dos Sectores de bens não transaccionáveis ou do comércio importador; quem depende do Estado-patrão; quem tirou cursos que não se enquadrem no novo modelo de desenvolvimento... ah! esses têm todas as razões para se preocuparem. Direi mesmo mais: para se preocuparem muito!

Ele – E isso não é crise?

Eu – É uma crise a nível individual, micro económico, não macro. A nível macro estamos a corrigir os erros em que tínhamos caído. O que eu aceito é que se diga que há muita gente com problemas mas esses são uma parte. A outra parte é constituída por todos os que trabalham nos sectores exportadores, por exemplo. Mas há mais...

Ele – E apesar disso tudo, a dívida continua a subir e só se ouve falar em austeridade, austeridade e que a culpa é da Merkel.

Eu – A dívida... qual delas?

Ele – Mas há mais do que uma?

Eu – A pública e a privada. A dívida externa total é a soma de todas as dívidas ao estrangeiro sejam elas do Estado, dos bancos, das empresas e dos particulares. Habitualmente medida pelo PIB, tínhamos no final de Dezembro de 2010 uma dívida externa bruta total de cerca de 230% (396 mil milhões de euros). Mas considerando o valor líquido e não o bruto, ficávamo-nos pelos 104%.

Ele – E hoje?

Eu – No fim de Junho passado tínhamos uma dívida bruta total de cerca de 236% do PIB com a pública a representar cerca de 86% e a banca 62%. Mas em 2006 a pública era de pouco mais de 50% e a dos Bancos rondava os 100%.

Ele – A pública a subir e a da banca a descer. Porquê?

Eu – Porque enquanto o Estado tiver um Cêntimo de défice vai ter que ir aos mercados pedir esse Cêntimo emprestado para cobrir o défice e porque a banca estrangeira fechou a torneira à portuguesa e esta só poderia continuar a funcionar se começasse a amortizar as montanhas de dívidas que tinha lá fora.

Ele – E por que é que o défice público cresceu tanto no primeiro ano deste Governo?

Eu – Porque o Governo anterior praticava uma política de desorçamentação de modo a esconder a realidade e este Governo andou quase um ano só à procura desses buracos para os voltar a meter no Orçamento. E depois veja bem o que para aí vai de discussão política por causa da redução do défice...

Ele – É que essa redução está a ser feita à custa dos pobres enquanto os ricos só fazem é aumentar as fortunas.

Eu – Quais pobres?

Ele – Os que recebem pensões de miséria, os funcionários públicos...

Eu – E quais ricos?

Ele – Os banqueiros.

Eu – Muito bem! Não discuto que o poder de compra de uns e outros é muito diferente. Mas veja lá a «coisa» de outro modo. Cerca de 70% da despesa pública corrente é com vencimentos de funcionários e com pensões. Tudo o resto não passa de 30% e comparadas com as correntes, as despesas de investimento são uma brincalhotice de crianças. Agora imagine que a Nação lhe pedia a si para resolver o problema do défice. Você ia preocupar-se com os 30 ou com os 70%?

Ele – Com os 70%, claro!

Eu – E que fazia? Aumentava ou reduzia o bolo?

Ele – Sim, tinha que reduzir mas cortava nos de cima e não nos de baixo.

Eu – Então isso significa que Você faria exactamente o mesmo que o Governo está a fazer. Os de cima reduzem muito mais que os de baixo e os mais baixos de todos ficam na mesma e nada reduzem. Mas é claro que os jornalistas não gostam de dizer isto.

Ele – E os juízes e outros do género? Já viu as reformas douradas que eles têm? E os políticos?

Eu – E os impostos que essa gente passou a pagar? Disso também os jornalistas não falam... Porquê?

Ele – Porque são da Oposição?

Eu – Sim, também. Mas o mais grave é a falta de seriedade, o mau jornalismo, a desinformação, pugnarem pela criação dum ambiente de crispação. Alguns desses jornalistas estão-se mesmo nas tintas para a Oposição. O que eles querem é vender mais jornais e revistas e isso faz-se com sangue, não com notícias azuis. Sabe o que acho deles? Que são um bando de malfeitores, uns delinquentes. E olhe que fico muito satisfeito ao saber que Você, afinal, faria o mesmo que o Governo está a fazer.

Ele – Não há perigo de eu ir para o Governo.

Eu – Mas ainda não acabámos. Que tal a questão dos ricos?

Ele – Ah!, sim, os banqueiros. Mas com o entusiasmo da conversa vou mandar vir mais um copo. Olhe! Faz favor?

Empregado de mesa – O Senhor chamou? Mais um Moscatel?

Ele – Não, não. Agora vai ser um Favaios, por favor.

Empregado de mesa – Muito bem, trago já.

Eu – Estes tipos não aprenderam nada porque de certeza que não tiveram ninguém que os ensinasse. Um barman ou um empregado de mesa nunca refere «mais um» em voz alta. Ninguém à volta tem nada que saber se Você vai tomar «mais um» ou «mais cinquenta». É «um» que traz e ponto final. A conta que apresenta no final é que há-de referir quantos Você tomou. As Escolas de Hotelaria ainda têm muito que fazer...

Ele – Realmente, tem razão também nisso.

Eu – Mas voltando aos ricos, tenho a dizer-lhe que prefiro não ser banqueiro. Já viu o sarilho em que eles andam metidos desde que o Bill Clinton entornou as finanças todas?

Ele – O Bill Clinton?

Eu – Sim, ele e não a Merkel.

Ele – Vai ter que me explicar isso como se eu fosse uma criança pequena.

Eu – Sim, com certeza. Mas se não se importa, vou deixá-lo tranquilamente a tomar o seu «abafado» e continuamos amanhã. Pode ser?

Ele – Muito bem! Então, amanhã começamos com o Bill Clinton em vez da Merkel.

Eu – OK! Até amanhã. E desculpe esta saída rápida mas tenho a família já à espera.

Ele – Até amanhã.

 

Novembro de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:36
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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013
O RECURSO À VIOLÊNCIA POLÍTICA É CONSTITUCIONAL?

 

 O recurso à violência enquanto instrumento de acção política será constitucional?

 

Por paradoxal que pareça, a conferência que [em 21 de Novembro passado] reuniu umas centenas de pessoas em torno de Mário Soares em defesa da Constituição não teve tempo, nem agenda, para discutir esta questão. Mas devia.

 

Quando Mário Soares diz que Cavaco Silva deve demitir-se da Presidência enquanto pode "regressar a casa sossegado", não está a deixar no ar apenas mais um aviso: está a verbalizar uma ameaça. Soares não apelou à força da rua e não será Soares a pegar num pau para afastar Cavaco de Belém, mas, num tom algures entre o desejo e a advertência, foi dizendo que a permanência do Presidente acabará por "gerar uma onda de violência" que o obrigará a renunciar. Se por acaso alguém ficou com dúvidas sobre até onde ia o aviso de Mário Soares, Vasco Lourenço tratou de as desfazer: "Eles ou saem enquanto têm tempo ou qualquer dia vão ser corridos à paulada".

 

Não se sabe se na mente de Lourenço passa a imagem de um golpe militar ou de uma rebelião civil que assalte o Parlamento com o apoio da polícia. Sabe-se, sim, que há quem pense neste país que a defesa da Constituição exige a queda do Presidente através de meios não previstos na Constituição e que esse supremo objectivo há-de ser conseguido tarde ou cedo, a bem ou a mal. Não estando previstas para breve essas coisas aborrecidas nas quais o povo submisso elege "Cavacos" e "Passos", restam duas possibilidades: ou os violadores da Constituição saem a bem ou o povo correrá com eles "à paulada".

 

O ar que se respirou na Aula Magna teve um perfume da Primeira República. Dizer que por ali se viu "Mário Soares no seu constrangedor percurso actual" reunindo "um leque de múmias ressentidas com a evolução da política", como o fez José António Lima, no Sol, é excessivo. Todas as evoluções da política dispensam o conformismo e há "múmias" cuja inteligência, lucidez e sentido da História fazem hoje muita falta. Pacheco Pereira, por exemplo, faz muita falta. E Soares também, desde que se embrulhe o seu radicalismo numa aura romântica, que fica bem a um homem com o seu passado, e se perceba que é mais dado a exaltar valores do que a propor as condições para os concretizar.

 

Portugal, diz Soares, está "a caminho de uma ditadura", mas não nos explica que regime nasceria na sequência de uma revolta violenta. Uma democracia popular, como as que tanto combateu no passado? O problema é que, se abdicar de um discurso panfletário, Soares corre o risco de cair no torpor que hoje contamina o seu partido. A menos que ouse dar a resposta à pergunta de um milhão de dólares que o PS não é capaz de dar: deve ou não deve o país recusar a austeridade da troika e pagar os custos respectivos, que podem passar pela renegociação da dívida e pelo regresso ao escudo?

 

Estando dependente da ajuda financeira externa e das suas imposições, o cenário de mudança proposto por Mário Soares e pelos que acorreram à Aula Magna não acontece com uma simples mudança de rostos. Portugal pode e deve ser mais bem governado, mas nenhuma governação radicalmente alternativa será viável sem que a troika se vá embora. Alguém acredita que o FMI, o BCE e a Comissão Europeia iriam perdoar a um novo Governo e a um novo Presidente, eventualmente surgidos na sequência de uma acção violenta, cortes nos salários e nas pensões? Em tempos, seria possível lançar uma mensagem ao internacionalismo socialista e esperar que daí viessem apoios, como aconteceu tantas vezes no passado. Infelizmente, hoje o discurso da austeridade banaliza-se perante "a crise generalizada da social-democracia, depois de capturada pelo pensamento único do liberalismo conservador de Thatcher e de Reagan", como escreve no Sol Vicente Jorge Silva.

 

Mais do que frustração, a nova ameaça de Mário Soares é um sintoma de impotência. A violência surge na política quando a política fracassou. As ditaduras também – Salazar chegou às Finanças depois de o Estado ter sido confrontado com uma proposta de empréstimo humilhante. Sem uma narrativa europeia capaz de mudar a austeridade punitiva do Sul da Europa, um futuro diferente impõe opções mais drásticas do que os cortes do orçamento ou a mudança de caras na política. Defendê-las e lutar por elas é legítimo. Admitir sem censura actos de violência capazes de levar à mudança de Governo não é. Por todas as razões e mais uma: é inconstitucional.

 

Durante quatro anos, note-se bem, quatro anos, a direcção do Instituto de Medicina Legal andou a insistir com os ministros da Justiça e das Finanças para que exarassem um despacho que fixasse as suas remunerações. Durante quatro anos, os apelos esbarraram na indiferença burocrática dos dois ministérios. Um dia, cansados de esperar, a direcção decidiu fazer a sua interpretação da lei e fixou os salários que iriam receber. Dois anos e duas inspecções depois, os ministérios da tutela dão conta de que este procedimento não estava conforme à lei e não só o revogaram como impuseram a demissão do presidente do instituto.

 

Esta história é exemplar e mostra até que ponto o Estado se está a tornar ingovernável. Com o aperto da crise, a administração central tornou-se um big brother que tudo quer saber, que tudo quer controlar. A vida das repartições, das autarquias ou das universidades tornou-se um inferno burocrático. Milhares de trabalhadores gastam milhares de horas por ano a verificar procedimentos, a colocar carimbos, a anexar papéis, a pedir orçamentos para alimentar a gula controladora do Estado desconfiado e centralista.

 

Não, desta vez a culpa não é da troika. Nem sequer de uma cultura política inspirada nos supostos méritos da nomenklatura. Quem cometeu este dano ao Estado foi uma geração que se diz aberta à gestão, às empresas, à concorrência e a todo esse palavreado da moda. Hoje o Estado já não só duvida das pessoas; duvida, acima de tudo, dele próprio.

 

Durante a fase de apuramento, a selecção nacional de futebol arrastou-se. Com excepção dos jogos com o forte do grupo, a Rússia, a equipa deu de si uma imagem de pedantismo e de cansaço. No play-off com a Suécia não havia tempo para o laxismo, nem para a distracção, nem para pensar nos jogos do final de semana do Porto, do Benfica ou do Manchester. Era preciso correr, e os jogadores correram. Era necessário arriscar, e a equipa arriscou. Era preciso espírito de sacrifício e a selecção teve-o. Era indispensável rasgo e talento e nos dois jogos ficou claro que não foi por falta de categoria que Portugal teve de jogar o play-off para ir ao Mundial.

 

É impossível não considerar este comportamento da selecção como uma metáfora do país. Por cá, a normalidade da vida raramente produz melhorias incrementais. Pelo contrário, acentua a propensão para o laxismo. Nos próximos meses jogar-se-á o play-off do ajustamento e ver-se-á se Portugal é capaz de mostrar a fibra e a competência da selecção. Sabemos que não há na política nacional nenhum Ronaldo. Resta-nos acreditar no colectivo, que, apesar de desmoralizado, vai dando alguns sinais de que é capaz de competir.

 

24/11/2013

 

 Manuel Carvalho



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:39
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PRAZERES DA MELHOR IDADE?

 

de RUY CASTRO

 

A voz em Congonhas (Aeroporto em São Paulo) anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.".

Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" - algo entre os 60 anos e a morte.

Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa.

Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.

Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais.

Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.

Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.

Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boémia carioca, o rapaz perguntou: "Voltando da farra, Ruy?". Respondi, eufórico: "Que nada! Estou voltando da farmácia!".

E esta, de fato, é uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.

Primeiro, a aposentadoria é pouca e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução.

Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te dê uns 60 anos.

Olha... a analise dele é rápida. Leva uns 20 metros e, quando pára, tem a discussão se você tem mais de 60 ou não.

No outro dia entrei no ônibus e fui dizendo:

- "Sou deficiente".

O motorista me olhou de cima em baixo e perguntou:

- "Que deficiência você tem?"

- "Sou broxa!"

Ele deu uma gargalhada e eu entrei.

Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo...

Eu disse bem baixinho para uma delas:

- "Uma mentirinha que me economizou R$ 3,00, não fica triste não"

Bem... fui até a pedra do Arpoador ver o por do sol.

Subi na pedra e pensei em cumprir a frase. Logicamente velho tem mais dificuldade.

Querem saber? Primeiro, tem sempre alguém que quer te ajudar a subir: "Dá a mão aqui, senhor!!!"

Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça.

Sentar na pedra e olhar a paisagem.

É, mas a pedra é dura e velho já perdeu a bunda e quando senta sente os ossos em cima da pedra, o que me faz ter que trocar de posição a toda hora.

Para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos se não, nada vê.

Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz:

- "O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair."

Resmungo entre dentes: ..... "só se cair em cima da sua mãe"... mas, dou um risinho e digo que esta tudo bem.

Esta titica deste sol esta demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e o sol nada.

Vou pensando - enquanto desço e o sol não - "Volto de metrô, é mais rápido..."

Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá está um puto de um guarda que fez curso, sei eu em que faculdade, que tem um olho crítico que consegue saber a idade de todo mundo.

Olha sério para mim, segura a roleta e diz:

- "O senhor não tem 65 anos, tem que pagar a passagem."

A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.

Com os pés doendo fico em pé, já nem lembro do sol, se baixou ou não, dane-se. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos...

Lá estou eu mergulhado em meus profundos pensamentos, uma ligeira dor de barriga se aconchega... Durante o trajeto não fui suficientemente rápido para sentar nos lugares que esvaziavam...

Desisti... lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dei de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava... Me senti o máximo.

Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem.

Quando já contente, pelo menos com o flerte, ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou.

É agora...

Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho) ela pegou na minha mão e disse:

- "O senhor não quer sentar? Me parece tão cansado?"

Melhor Idade??? Melhor idade é a puta que o pariu...

 

MAU HUMOR
(O AMOR)

 Ruy Castro


Algumas mulheres permanecem na memória de um homem, mesmo que ele as tenha visto por um único segundo, atravessando a rua. (Rudyard Kipling)

Nunca tenha filhos. Só netos. (Gore Vidal)

Algumas pessoas têm aquele rosto que, depois de visto, nunca mais é lembrado. (Oscar Wilde)

Cuidado com o homem que não devolve a bofetada: ele não a perdoou, nem permitiu que você se perdoasse. (George Bernard Shaw)

Sexo é bom. Mas o poder é melhor. (Jiang Qing)

A proteção mais infalível contra a tentação é a covardia. (Mark Twain)

A virgindade é curável, se detectada cedo. (Henny Youngman)

Algumas mulheres se acham tão lindas que, quando se olham no espelho, não se reconhecem. (Millôr Fernandes)

Quem tem mulher bonita, que vá enviuvar em Belo Horizonte. Mas nunca deixar uma viúva em Ipanema ou no Leblon. (Antonio Maria)

O zangão é a prova de que o golpe-do-baú sai caro. (Fernando Pessoa Ferreira)

O problema das crianças é que elas não são descartáveis. (Quentin Crisp)

A vida é dura. Os homens não gostarão de você se você não for bonita - e as mulheres não gostarão de você se você for. (Agatha Christie)

Não se ama duas vezes a mesma mulher. (Machado de Assis)

A melhor maneira de segurar os filhos em casa é fazer do lar um lugar agradável — e esvaziar os pneus do carro. (Dorothy Parker)

Sou judia. Não faço ginástica. Se Deus quisesse que fizéssemos flexões, espalharia diamantes pelo chão. (Joan Rivers)

Todo homem tem o direito de ser imbecil por conta própria. (Ivan Lessa)

Quando se tem vinte anos, a gente vive querendo saber quem transa com as garotas de vinte. Aos trinta, descobre. (Ziraldo)

Pode-se ver um monte de sujeitos inteligentes com mulheres burras, mas você dificilmente verá uma mulher inteligente com um sujeito burro. (Erica Jong)

Não confio em produto local. Sempre que viajo levo meu uísque e minha mulher. (Fernando Sabino)

Depois de quatro drinques, meu marido se torna um chato. E, depois do quinto, eu desmaio. (Joan Rivers)


As frases acima foram coletadas, traduzidas e editadas por
Ruy Castro.
Constam do livro "O Amor de Mau Humor", Companhia das Letras – São Paulo, 1991, págs. diversas.

 

Ruy Castro é jornalista e escritor que podem encontrar no Facebook.

 

 

Rio de Janeiro, Novembro de 2013

 

 Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 06:59
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Quinta-feira, 28 de Novembro de 2013
O V IMPÉRIO DO PADRE ANTÓNIO VIEIRA

 

 

Às vezes ouve-se falar do V Império de António Vieira, como sendo uma construção puramente espiritual ou mística, isto é, nada de material. António Vieira era muito inteligente para se meter por essa via irreal e, pelo contrário, era muito político, conselheiro de D. João IV e muito interessado no sucesso da Guerra da Restauração cuja conclusão era ainda, pode-se dizer, aleatória.

 

Nesse tempo, os estudiosos de história pensavam que tinha havido 4 impérios, já todos caídos: 1- o dos Assírios; 2 - o dos Persas; 3 - o dos Gregos; 4 - o dos Romanos. O 5º teria que ser português, porque Portugal se espalhava pelo mundo em virtude das Descobertas e conquistas do século anterior; e porque o P. António Vieira, versadíssimo nas escrituras e biografias dos Santos, chegara à conclusão que o 5º Império só podia ser português. E governaria esse império o Encoberto, que muitos supunham ser o desaparecido D. Sebastião, que haveria de aparecer um dia, mas nunca apareceu. Mas isso não era óbice para o jesuíta que viu que esse Encoberto só podia ser o rei português, D. João IV. Mas para isso era preciso resolver favoravelmente a Guerra da Restauração. E como resolver esse problema, se a sorte das armas era muito incerta e pendia para o lado castelhano? António Vieira achou que se podia acabar com a inimizade entre Portugal e a Espanha, casando D. Teodósio, o príncipe herdeiro, com a princesa Maria Teresa, filha do rei Filipe IV de Espanha, e herdeira do trono por falta de herdeiro varão. Com esse casamento seria D. Teodósio herdeiro do império espanhol, acrescido do império português, e Lisboa seria a capital do 5º Império, sonhado por Vieira.

 

Mas os homens põem e Deus dispõe. D. Teodósio morreu tuberculoso, em 1653, com 19 anos, Maria Teresa acabou rainha de França, e nasceu um filho-varão póstumo a Filipe IV em 1661. A guerra da Restauração teve de resolver-se pelas armas e o V Império sonhado pelo P. António Vieira nunca se fez.

 


Joaquim Reis



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:30
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SE BEM ME LEMBRO

 

Lembro-me. A notícia trouxe-ma o pai do João, noite alta: “O Kennedy foi assassinado”. A minha exclamação foi de horror sentido: “Oh, meu Deus! E os filhos são tão pequeninos!”. O resto da noite foi passada quase toda em conversa, no desgosto de tão inesperado acontecimento. Mas, no dia seguinte, havia os meus filhos – o João nasceria daí a seis dias, faz hoje 50 anos, a ele dedico este texto, com ternura e o bolo de laranja do seu gosto – e havia a escola, e a casa, os horrores da vida devem ser superados pelas tarefas diárias, acabei por adormecer. No dia seguinte, na esplanada da Praça 7 de Março, em Lourenço Marques, o pai do João contava, com ar sorridente, aos amigos com quem discutia os rumores – não só os das saias de Elvira, a evolução fizera-se em larga escala, desde o “Fradique Mendes”, pelo menos entre a rapaziada interessada, já dos tempos do liceu Salazar de Lourenço Marques - contava ele da minha exclamação nocturna, prova de uma sensibilidade talvez de tontice, quando os colegas dissertavam de preferência sobre os desígnios do homem que tantas inovações introduzira no seu país e no mundo. Mas todos me olharam sorrindo, a história fora contada com certo encanto, ficou-me na lembrança, embora intimidada pelo reconhecimento da insignificância da frase, na dimensão da política.

Mas o horror dessa morte e de tanta gente da sua família, posteriormente, aparentemente perseguida pela ferocidade do destino ou da insídia humana, formou marco na evolução da história, que me fez recordar outros momentos fatais inesquecíveis - a morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa, quando eu estava a dar uma aula no liceu de Cascais e um aluno desvairado entrou na sala com a notícia, falando em sabotagem… Ou no 11 de Setembro de 2001, quando tomava café no Café do meu filho Luís e as imagens com a notícia começaram a sair no ecrã da televisão, mostrando repetidamente a penetração e a saída dos aviões nas duas torres com as explosões e o rastro de fumo, e outra e outra vez, e a agonia do que se pensou imediatamente que iria passar-se e já estava a passar-se… Ou ainda, tempos antes, em 24 de um tal Abril, quando soube logo pela manhãzinha, pelo telefonema em assustada surdina, da Flávia, nossa amiga de então, que houvera um golpe militar que derrubara o governo de Marcelo Caetano e de Américo Tomás e eu mal ligara ao caso, indo para as aulas, que iniciavam, imediatamente, o seu percurso de desestabilização e alvoroço progressivos, na liberdade, no desinteresse e na indisciplina.

Todavia, a imagem de Kennedy não era totalmente despida de zanga, no meu foro íntimo, embora lhe admirasse o garbo e a mocidade da mulher, figuras constantes do jet set e da amenidade de trato. A verdade é que a liberalização democrática, proposta por aquele, tendo efeitos sobre a discriminação racial no seu país, como de justiça, aliás, tivera largas consequências sobre os movimentos de libertação no ultramar, que começáramos a viver, sucessivamente alarmados. Guiné, Angola, Moçambique – após a independência da Argélia, pela França - eram terreno de luta que movimentou a pronta reacção de Salazar, defensor ferrenho do seu legado pátrio ultramarino.

Intimamente pensava que o apoio aos movimentos de libertação deviam começar, a serem honestos, pelos países independentes de que americanos, nortenhos, centristas ou sulistas, eram igualmente usurpadores, autónomos desde tempos recuados, mas igualmente ocupantes indevidos, se o éramos os que não gozavam de autonomia. Em África nós trabalhávamos, com o pensamento em pátria, como se trabalhava nas Américas do Norte, do Sul e do Centro, pátrias independentes, em territórios que amávamos como nossos, na igualdade condicionada pela educação, que íamos fornecendo a todos os que conseguiam aceder a ela. Como aqui. Não com o esplendor das riquezas e poder das tais Américas independentes, mas gradualmente proporcionando cultura e estatuto a todos os que os podiam adquirir. As aulas que dei à noite – juntamente com os demais colegas - ajudaram na formação de tantos daqueles.

Salazar protegeu os seus territórios, defendeu-os corajosamente contra os opositores. E foi esteio, igualmente, do governo sul africano e das Rodésias, enquanto durou. Hoje a África é palco de luta vária, de fome, sofrimento, crime e maior exploração e governação ditatorial do que dantes, todos o sabemos.

Mas Kennedy outras coisas fez, boas e más, e o texto de Vasco Pulido Valente no-lo refere com saber maior. “Símbolos”, eis como se intitula o seu artigo do “Público”, de 22 de Novembro, no quinquagésimo aniversário do assassinato de Kennedy:

«Toda a gente na minha geração se lembra do exacto momento em que soube do assassinato de Kennedy. No meu caso, estava num café à espera dum amigo, e, ao balcão, meia dúzia de cavalheiros com gravatas discutiam a notícia que a Emissora Nacional acabara de dar: ainda bem, diziam eles, que em Portugal não havia coisas dessas. Mas, para mim, foi um choque pessoal, como se o tivesse conhecido. Porquê? Não por razões políticas, com certeza (um assunto a que voltarei). Mas porque o homem, em 1963, representava a modernidade. Depois dos “velhos” que vinham da guerra e das suas disciplinas – Truman, o de Hiroxima, e Nagasaki, e Eisenhower, o da guerra da Coreia – aparecia como o representante de um novo mundo, próspero e pacífico, sem a sufocação das regras que o século XX herdara do século XIX.

O sentimento foi tão geral, que a Livraria Moraes, do António Alçada Baptista, editou logo dois livros sobre o presidente morto: um ensaio biográfico e uma antologia de discursos, que traduzi (à pressa e mal) e a que juntei um prefácio ignorante e pretensioso. A revista “O Tempo e o Modo” , em que o João Bénard da Costa mandava, também resolveu fazer um número especial, por puro sentimento e pela suposição pateta de que o gesto incomodaria muito Salazar. Ainda por cima, as trapalhadas da investigação do assassinato – a direcção e a quantidade de tiros (dois, três, quatro, oito), a prisão de Oswald, um pobre-diabo a roçar o louco obsessivo, e a expeditiva liquidação de Oswald por um dono de um cabaré com ligações à Máfia – permitiam especulações sem fim e ajudavam a refulgir a nossa virtude democrática.

A excitação nunca passou destas superficialidades, porque, fora o espectáculo, John F. Kennedy , infelizmente para ele e para o mundo, era um Presidente medíocre. Excepto o tratado com a URSS sobre a limitação de experiências nucleares na atmosfera, falhou persistentemente no resto. Autorizou a expedição à Baía dos Porcos, uma aventura que fortaleceu Fidel. Na “cimeira” de Paris, querendo mostrar moderação, convenceu Khrutchov da sua fraqueza e provocou indirectamente a “crise dos mísseis”. Não conseguiu que o Congresso passasse as leis contra a segregação e as leis sociais, que só depois Lyndon Johnson veio a impor. E, pior ainda, liquidou o Presidente do Vietnam do Sul e inaugurou a presença militar americana numa região em que não havia nada a ganhar. Mas Jack e Jackie não deixaram por isso de ser um símbolo para os milhões que nasceram durante a guerra ou logo a seguir a ela: o símbolo da juventude e do poder.»

Penso que muito pouco tempo esteve Kennedy na sua Presidência para provar cabalmente das suas capacidades. Mas imperou no casal e nos filhos a simpatia que a beleza e a juventude sempre atraem. Como sucedeu com a Princesa Diana. Com Grace Kelly. Com Marilyn. Com Elvis. Com Sá Carneiro, de quem tanto se esperava e tão pouco tempo pôde provar os seus méritos. Com Nicolau II e a família inocente. Com D. Carlos e Luís Filipe…

Ao contrário do que diz o poeta, quando Deus quer, mesmo que o homem sonhe, a obra não nasce. Ou fica só em botão. E isso é sempre injusto. Como os desastres no mundo.

Mas o efeito Kennedy permanece, na lembrança e na repercussão. Deus e os homens o quiseram.

 Berta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:45
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TÁCITO E SÓCRATES

 

in «A TIRANIA DE NERO», ed. Seara Nova, 1948

 

 

O crime público não tem recurso senão na audácia.

(pág. 11 op. cit.)

 

 

A grandeza do escândalo é o último prazer de quem abusou de todos os outros.

(pág. 12 op. cit.)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:38
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Quarta-feira, 27 de Novembro de 2013
MEUS OLHOS


Sou pássaro mudo
Negros

meus olhos
desfiam ocasos
no céu
que se turva
O dia
morrendo
nos teus

Deixa nuvens
penduradas nos raios do luar
que chegou

Enquanto os meus
desafiando estrelas
abraçam a alva

 Maria Mamede


(In “E POR FALAR EM OLHOS” – 2011)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:24
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DIA DE ZUMBI OU DIA DE RACISMO?

 

20 de Novembro, o Brasil tem mais feriado: o Dia da Consciência Negra!

 

Talvez para que os negros saibam que são negros, os brancos, brancos, e os resultado de cruzamentos que são... gente! O que significa esta comemoração? Creio que ninguém sabe exactamente o que é, mas arranjou-se um mito, meio falso, para enaltecer a população descendente de africanos, e os seu “inventores” tentarem apanhar mais uns votitos.

 

Criaram-se quotas para as universidades, agora discute-se se se devem reservar quotas para congressistas, abriram-se delegacias de polícia para que qualquer individuo mais ou menos escuro se possa queixar de alguém mais ou menos claro que o terá chamado de “neguinho” ou “negão” e tomaram-se outras atitudes, simplistas, bestas, sem que alguém se lembre de olhar e enfrentar a realidade com coragem.

 

É evidente que os negros ou mestiços no Brasil sofrem mais do que os brancos. Porquê? Porque o ensino para as classes menos desfavorecidas é simplesmente abaixo de lamentável. E como o pobre não tem dinheiro para pôr os filhos em colégios particulares, vai ficar – eternamente? – em situação de desfavor perante a classe mais abastada.

 

Depois criam-se sofismas para “proteger” os tais escuros, sem jamais se resolver encarar e resolver o problema de base.

 

Homenageia-se no Dia da Consciência Negra um personagem lendário, Zumbi dos Palmares, de que já muito falei, e escrevi, desde pelo menos o ano 2000, e que serve de bandeira para os que não têm capacidade, ou não querem resolver o problema de raiz.

 

Depois vêm outros mentecaptos insistir, martelar no tema de que o Brasil é país racista. Racista é a mãe deles. E eles. Hoje o homem mais querido e admirado neste país é o juiz do Supremo, Joaquim Barbosa. Preto como um tição, homem culto, valente, como poucos. E podíamos também falar no rei Pelé, Pixinguinha e tantos outros. Mas para que? Os puxa-sacos vão sempre argumentar com respostas idiotas, como: “Ah! Mas isso são esses!” Esses quem? Os homens ou as suas peles?

 

Racismo existe desde... desde há muitos milhares de anos. Sim, desde há milhares de anos, muito antes das descrições dos gregos sobre homens de uma perna só e um olho no peito que viveriam na África para “lá” do deserto!

 

Os europeus são considerados arianos, ou indo-europeus, povo que se estabeleceu no planalto iraniano desde o final do terceiro milénio a.C. e povoou a Península da Índia por volta de 1500 a.C. A sua cultura ficou particularmente expressa nos Vedas e, principalmente, no Rig Veda, considerado como o mais antigo. Por extensão, a designação "arianos" passou a referir-se a vários povos originários das estepes da Ásia Cental - os Indo-europeus - que se espalharam pela Europa e pelas regiões já referidas, a partir do final do neolítico. O termo designa ainda os descendentes dos indo-europeus que fundaram a civilização indiana, subjugando as populações locais, dando origem ao sistema de castas e, mais especificamente, às castas dominantes dos brâmanes, xátrias (militares) e vaixás (comerciantes).

 

Infelizmente o nazismo deu ao termo “ariano” uma conotação profundamente racista, inclusive não considerando os ciganos como arianos, que são talvez o grupo mais antigo que representa este povo.

 

São passados milhares de anos, 3 a 4.000, e vemos que já nessa altura os tais “arianos” subjugaram as populações autóctones da Índia. Quem eram estes? Ninguém sabe, e hoje, como é habitual, especula-se com os “povos indígenas”, os menos favorecidos, e assim na Índia haveria, ou há, milhares de etnias.

 

Mas... também há na Índia uma deusa negra: Kali! Do sânscrito Kālī, que significa, literalmente, "A Negra", e de onde vem o nome da cidade Culcutá – Kalighat ­– a cidade de Kali.

 

 

 

É uma das divindades mais respeitadas do hinduísmo. Ela é a verdadeira representação da natureza e é também considerada por muitos a essência de tudo o que é realidade e a fonte da existência do ser. Deusa da morte e da sexualidade, Kali é a "esposa" do deus Shiva, pois, segundo os Vedas, Shiva é transformado em Kali, que seria um de seus lados, para trazer o fim; segundo o tantrismo, é a divina "mãe" ou pai do universo, destruidor(a) de toda a maldade. É representada(o) como uma mulher exuberante, em uma parte da Índia; em outra, como homem de pele escura, que traz um colar de crânios em volta do pescoço e uma saia de braços decepados - expressando, assim, a implacabilidade da morte.

 

Mas Kali não é uma deusa ou deus do mal pois, na verdade, o papel de ceifadora de vidas é absolutamente indispensável para a manutenção do mundo. Os devotos são recompensados com poderes paranormais e com uma morte sem sofrimentos.

 

Kali é a destruidora ou destruidor do demónio Raktabija. E também uma das formas da deusa Parvati, esposa de Shiva. Ou, segundo alguns, o próprio deus Shiva. É coberta de cobras em vez de roupas, e tem um colar dos crânios dos seus filhos.

 

A figura da deusa tem quatro braços, pele azul, os olhos ferozmente arregalados, os cabelos revoltos, a língua pendente, os lábios tintos de hena e bétele (plantas). No pescoço, traz um colar de cabeças humanas e, nos flancos, uma faixa de mãos decepadas. Sempre é representada em pé sobre o corpo caído do esposo Shiva.

 

Apesar da aparência de malvada, Kali mostra o lado escuro da mulher ou do transgénero e a verdadeira força feminina. Kali é venerada na Índia como uma mãe pelos seus devotos e devotas, que esperam dela uma morte sem dor ou aflição.

 

De origem obscura, dos muito antigos cultos não arianos, mesmo dos Veda. Não arianos, porquê? Seriam os primitivos habitantes da Índia de pele escura, idos directamente de África?

 

Será que já nesse tempo os arianos eram racistas?

 

 

20/11/2013

 

 

 Francisco Gomes de Amorim

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:02
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