Domingo, 30 de Junho de 2013
CHEGOU O OUTONO ESPERADO!

 

 

O Brasil vive uma nova estação, o Outono de 2013.

 

Outono, estação que faz a transição entre o calor e o Inverno, vem dar o tom em novos tempos, quando a natureza se refaz a seu modo. Quando folhas velhas caem, para que nasçam novas, na sequência elementar da vida.

 

Nós todos desta Nação vemos e sentimos agora, com delicioso sabor, as mudanças que chegam e se aconchegam no seio do nacionalismo, para ficar.

 

Estes novos tempos possuem nomes, endereços, formas e características próprias.

 

Esperança ainda que tardia, brademos bem alto e bom som.

 

Fomos ao longo de anos e anos, o país do futuro.

 

Um futuro que se perdia e ainda se perde a cada amanhecer, nas filas intermináveis dos hospitais, sob a dor de irmãos desafortunados. E se vendo impotentes, passar a chance de cura e salvação, onde se morre sem nenhuma assistência, onde cidadãos do bem são tratados como animais.

 

Um futuro que se perdia e ainda se perde nas salas de aulas, sucateadas, poucas, diante da real necessidade, com mestres que deveriam ser respeitados por sua abnegação, serem vilipendiados por salários medíocres e de forma brutal e desumana, serem aterrorizados por alunos inescrupulosos.

 

Mas são de menores, à margem das leis e protegidos por defensores do nada. Há de se pensar na redução da maioridade imediatamente. O povo clama e exigirá.

 

Um futuro que se perdia e ainda se perde, na insegurança instalada de norte a sul, onde bandidos e facínoras possuem benesses inexplicáveis, amparados por leis imbecis, fazendo a todos, seus reféns.

 

Futuro também no abandono das forças militares do glorioso Exército Nacional, que sempre honraram a Nação e de policiais federais, militares e civis, ardorosos defensores da população, que sempre estão à disposição da sociedade, na defesa de um bem divino chamado “vida”, objecto tão descartável neste momento nacional.

 

O que se falar do futuro que se perde na covardia de se locomover para o dia a dia do trabalho e casa, na busca da sustentação ao lar, em transportes colectivos miseráveis, qual carregamento de porcos, passagens caras e que merece toda nossa repulsa?

 

E este volume de dor e sofrimento, se alastra mais ainda, quando vemos mistos de políticos e bandidos, ditos mensaleiros, não serem punidos com a força da lei, da ordem e da moral. A nação clama e exige prisão já.

 

Futuro que se perdia e ainda se perde e continua a ver o amanhecer cinzento dos aposentados, ilustres e dignos construtores de uma verdadeira e honrada Nação, serem esquecidos e vilipendiados pelo Governo Federal. Que país é este, que despreza quem o criou e o fez crescer?

 

Que futuro é este que protege, por bolsas duvidosas, pessoas que se aproveitam do statu quo oficial, para criar bolsões constantes de miséria, comércio de drogas e prostituição? Trabalhar para quê, pois temos o paternalismo covarde e crescente nos trópicos?

 

E nossa indignação cresce mai, ao vermos que tanto dinheiro público se faz jogado nos bueiros oficiais, da covardia nacional, do desrespeito, da malversação, do roubo às claras e engendrados na calada da noite, em gabinetes pomposos ou salas de hotéis cinco estrelas.

 

Um país que se vangloria de três eventos bilionários seguidos, subserviente a determinações estranhas, que exigem mudanças nas pessoas e ordens internas à custa da dor, do abandono, da desordem, da indigência de enorme fatia da população, agora aturdida e vendo onde se meteu. Tudo à custa de imagens políticas duvidosas.

 

As manifestações que se alastram pelos quatro cantos do país são nada mais que o reflexo e resultado da sequencia desastrada de actos perniciosos que agora se aproximam do fim.

 

Foi preciso que um ministro das leis, mineiro, negro, homem de brio e bem ganhasse notoriedade por sua correcção de postura, para que algo começasse a acontecer na terra de ninguém.

 

As passagens dos transportes colectivos foram a gota d'água.

 

Um fanático e membro do governo perguntou, “segundo a mídia diz”: mas o que está havendo, o que eles querem?”

 

Perguntas que não devem ser respondidas diante de tamanha mediocridade.

 

Ao contrário do que se disse em Brasília, não são somente estudantes, como se a expressão "só estudantes" fosse pejorativa ou questionável.

 

Não, Senhores, vocês estão cegos, junto aos estudantes que desfilam as suas reacções, estão aposentados, professores, profissionais liberais de toda a ordem, empresários, servidores públicos numa grita nacional uníssona.

 

Não há como voltarmos atrás.

 

Agora, faltam manifestações para a saúde, a educação, segurança, ordem geral, gasto público honesto, respeito às instituições e muita cidadania e punição aos bandidos, doa a quem doer.

 

A luta deve continuar com foco também no fim do voto obrigatório, que faz a cada eleição, a alegria e a riqueza dos currais eleitorais, antro de corruptos e inimigos da Nação decente.

 

Mas antes de tudo, manifestações gerais com civilidade, disciplina, organização sem desordem, sem vandalismo, mostrando a todos que os tempos são outros.

 

Excluam os anarquistas, entregue-os sim aos policiais e marchem com estes defensores, que também sofrem como todos nós.

 

O mundo assiste perplexo ao Brasil a sair da inércia e saltar para o futuro. A Nação cansada e explorada, dá hoje o seu grito de "acordei".

 

Muitos Verões, Invernos e Primaveras se passaram, tecendo teias e cultuando poeira de tempo, nos limites dos Outonos, que chegariam, tínhamos certeza.

 

Chegou finalmente o Outono verde e amarelo de 2013.

 

Agora, é prosseguir na caminhada, pois o povo possui a força que muda a Nação, constrói novos rumos e desenha horizontes esperados.

 

Estamos começando a ter de novo orgulho de dizer "sou brasileiro".

 

Outono: tempo de transformação, de preparo para novas vidas.

 

 Geraldo «Gêgê» Angelino

Bacharel em Direito



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:36
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A LAVAGEM DA HISTÓRIA

 

 

O relativismo assumiu a forma de um movimento chamado «pós-modernismo» o qual tem ampla influência nas ciências sociais, nomeadamente na filosofia e na história

 

Os conceitos essenciais do pós-modernismo tendem para tudo definir como «um texto»[1] e colocar «o significado» como a matéria essencial desses textos e de quase tudo o que eles, pós-modernistas, tocam. Aqui chegados, pretendem descodificar esse significado dedicando-se àquilo que denominam a «desconstrução do significado» pois partem do pressuposto de que «é suspeita a ideia de realidade objectiva», ou seja, tudo é «relativo»[2].

 

A situação assim criada pelo relativismo, especialmente na esfera moral, gerou uma enorme crise de valores no âmbito da qual os pós-modernistas afirmam que o que hoje nos parece errado pode-se ter justificado nos contextos relativos à ocorrência. Assim, porque não reconhecem a existência de conceitos éticos (nem morais) absolutos: o «bem» e o «mal» variam no espaço e no tempo.

 

Rompendo com as certezas do modernismo racionalista, resta a dúvida de como o relativismo permite (ou não) que se possa atingir a certeza objectiva das grandes questões que se deparam a uma sociedade e do valor ético (e moral) que se pode dar a um conhecimento que decorre do pensamento racionalista.

 

A título de exemplo e para que melhor se compreenda onde o relativismo nos conduz, bastará referir as tentativas pós-modernas de “lavagem” de dirigentes moralmente tão condenáveis como Hitler ou Estaline.

 

Lisboa, Junho de 2013

 

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Fernando Martins – HISTORIOGRAFIA, BIOGRAFIA E ÉTICA, in “Análise Social”, nº 171, Verão de 2004, pág. 391 e seg.



[1]  Mais vulgarmente, o contexto

[2] Conceitos fundamentais para um pós-modernista: o «contexto», o «significado», a «desconstrução», o «relativismo».



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:51
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MEMÓRIA PORTUGUESA NO MUNDO

 

Hoje transcrevo do Jornal de Letras, um texto de G. Oliveira Martins. Homenagem a um grande português e um grande amigo.

Rio de Janeiro, 29 de Junho de 2013

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

*  *  *

 

 

António Pinto da França (1935~2013)

 

Posso dizer sem receio de exagero que António Pinto da França (APF) foi um dos melhores cultores da memória portuguesa no mundo. Francisco Seixas da Costa também não teve dúvidas. É uma perda irreparável. Inesperadamente deixou-nos, num desses acidentes domésticos que tornam perigosas as nossas casas, por mais acolhedoras que sejam.

 

E a verdade é que as casas deste embaixador de excepção sempre foram muito acolhedoras, graças às qualidades hospitaleiras de Sofia e António. Quem tenha estado na Quinta da Anunciada Velha em Tomar, a usufruir da principesca forma de receber dos Pinto da França, jamais esquecerá. Naquele local de muita História, a casa da quinta tomou-se um fantástico repositório das andanças pelo mundo dos proprietários. E recordo um dia em que pudemos celebrar lá a relação Luso-Indonésia, com vários protagonistas de um percurso muito complicado, em que foi possível superar dificuldades e vicissitudes e regressar a uma amizade genuína de dois povos tão distantes e próximos.

 

Há um ano estávamos a preparar a viagem do Centro Nacional de Cultura (CNC) a Minas Gerais e a sua ajuda foi preciosa. Com ele pudemos afinar os pormenores de maior requinte, porque ele conhecia o que de melhor havia na especificidade de cada identidade, de cada singularidade. Havia nele uma espécie de íman que o fazia aproximar-se naturalmente das referências antigas e da gente interessante. E se falo do Brasil, é porque foi a última ocasião em que pudemos trabalhar juntos. Mas antes houve os anos em que fomos pondo de pé, contra ventos e marés, e sempre graças à sua persistência, sensibilidade e conhecimento, a amizade entre Portugal e a Indonésia, numa relação apaixonada que APF trazia consigo desde o tempo em que, de 1965 a 1970, foi encarregado de negócios em Jacarta.

 

Desse período, veio não apenas o enamoramento pela Indonésia, mas também um conhecimento profundo sobre a história, a antropologia, a geografia da terra e dos afectos.

 

Quando se falava dessa amizade, os olhos iluminavam-se-lhe. E depressa nos sentimos envolvidos pelas referências, pelos objectos, pela descrição das personagens e das suas pequenas histórias. Leia -se A influência portuguesa na Indonésia. Está lá tudo o que deve estar. Há uma história comum a contar, de um encontro e de um diálogo. E quando fomos de ilha em ilha, de comunidade em comunidade, percebemos o porquê do enamoramento do diplomata que depressa se tomou embaixador dessas longínquas paragens onde quer que estivesse. Quando um povo chega tão longe, em condições tão precárias, ditadas pela distância e pelo esgotamento, só pode singrar, se ganhar o respeito dos novos interlocutores. E um dia o Sultão de Ternate dizia-nos que tinha boas memórias dos portugueses, enquanto missionários e mercadores, muito mais do que se fossem apenas guerreiros ou administradores. Afinal, as primeiras tarefas, mais do que as segundas, obrigam à proximidade e à confiança, sem o que não pode haver sucesso na palavra e na troca.

 

APF dedicou-se a tentar descobrir esses factores de ligação, essas pedras de toque, desde as imagens e monumentos até aos usos e costumes e à língua. Que é o património etimologicamente senão esse múnus que se transmite através da memória por diversas gerações? A referência patriarcal é um elo e uma metáfora. E num momento em que tanto se fala de memória histórica e de mundo que o português criou, devemos lembrar a sua lição extraordinária, segundo a qual não há transmissão sem troca.

 

O mundo que o português criou é, por isso, o mundo que outros criaram connosco. Daí esse sortilégio de partir e de ser capaz de ver de fora.

 

E o embaixador ensinou-nos, por isso, que a noção de "influência" nunca pode resumir-se a uma dominância ou a uma aceitação passiva.

 

Quando duas culturas entram em contacto urna com a outra, o resultado é o nascimento de uma terceira realidade. E se Portugal é denominador comum, o certo é que as novas realidades escapam-nos necessariamente, e aí está a sua riqueza. Só é possível sermos autênticos no tocante ao diálogo cultural, tomando-o verdadeiro intercâmbio e criação. Só assim poderemos superar desconfianças e suspeitas, através de um conceito novo e universalista de património cultural criador.

 

Que é o barroco brasileiro senão algo de totalmente novo que resulta de um encontro com realidades inéditas e com uma natureza diferente e inesperada? Que é o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda senão quem reúne idiossincrasias contraditórias - de carga positiva e negativa?

 

Hospitalidade e hostilidade. Agostinho da Silva falava de cultura de paradoxos. Eis por que razão falamos de várias culturas da língua portuguesa e de encontro da língua numa cultura de várias línguas. Poderá parecer estranho tudo isto, para quem não tenha conhecido António Pinto da França.

 

     Guilherme d’Oliveira Martins



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:40
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Sábado, 29 de Junho de 2013
INTEMPORAIS

ANTÓNIO FRAGOSO

PEQUENA SEQUÊNCIA PARA PIANO

 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 20:11
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HISTORIA DA RESIDÊNCIA DOS PADRES DA...

 

...COMPANHIA DE JESU EM ANGOLA

 

DOS SOCORROS QUE FORÃO A CONQUISTA DE ANGUOLA

 

1.° O governador Paulo Dyas de Nabaes trouxe setecentos homens de guerra, gente mui honrrada, e luzida no anno de 1575.

 

2.° No anno de 1578 veo o Capitão António Lopez Peixoto sobrinho do Governador com quatrocentos soldados, muitas munições e fazenda que mandou a sua custa António Dyas de Navaes pae do dito Governador.

 

3.° No anno de 1579 vierão duzentos soldados que também mandou o pae do dito Governador e pêra este socorro mandou emprestar o Cardeal Dom Anrique que então governava, vintadous mil cruzados.

 

4.° No ano de 1584 trouxe o capitão João Castanho Velez duzentos homens a custa de sua magestade. Veo nesta frota o desembargador João Morgado de Reizende com os ofícios de Provedor da Fazenda e provedor das minas com muitos instrumentos pêra as beneficiar (1).

 

5.° No anno de 15&6 mandou sua Magestade ao Capitão Jacome da Cunha com noventa soldados (2).

 

6.° No anno de 1587 vierâo obra de cento e cincoenta soldados Tudes­cos, framengos, e castelhanos os quaes morrerão de doença antes de pode­rem peleiar.

 

No anno de 1592 mandou sua magestade por Governador deste Reyno Dom Francisco Dalmeida com seiscentos soldados, e muita fazenda pêra pagamentos.

 

Podemos acrescentar a este numero outros soldados que em diversos tempos vierâo, que forão por todos dous mil» trezentos e quarenta pouco mais ou menos.

 

Destes morreriâo em guerra obra de quatrocentos e cincoenta, os mais fallecerão de doenças, ou se forão pêra diversas partes.

Avera oie nesta conquista, contando os que estão no arraial, em dous presídios, e nas duas villas, pouco mais de trezentos homens de poleia (3).

 

DAS VICTOR1AS QUE DEOS DEU AOS PORTUGUEZES

 

l.o Não podia El Rey de Angola com hum Soba levantado o qual lhe tinha desbaratado alguns exércitos que contra ele mandara, e os vencendores pera porem espanto aos emigos, tinhão feitos valados dos osos, e cavei­ras dos mortos ao longo dos caminhos. Aiuntou o Rey outra vez contra este Soba hum campo de obra de seiscentos mil homens, e por estar amigo com o Governador pedio lhe socorro. Deulhe o Governador cíncoenta arcabuzeiros; marchando o campo do Rey diante, e chegando aos valados das cavei­ras de seus parentes desacorçoarão, e pedirão aos nossos tomassem a vãoguarda, fizerão no assi, chegarão ao imiguo, desbaratarãono, sem fiquar nenhum soldado ferido. Os da parte do Rey saquearão ao arraial e seguirão aos contrários. Aconteseu esta vitoria no anno de 1577.

 

2.o No anno de 1579 estando o Governador Paulo Dyas no Anzele terra da província da liamba com obra de cincoenta homens somente, foy sercado de hum grosso exercito por ordem de El Rey de Angola por a ocasião que se dirá no capitulo seguinte. Couza que se não esperava por correrem os nossos em amizade com o Rey, e com todo o Reyno. Defendeuse o Governador muy valorosamente pondo grande terror aos imigos, com os tiros dartelharia. Matou lhes o seu capitão, pello que logo levan­tarão cerquo. Dahi por diante mandou o Governador ao capitão, e sargento mor Manuel João a destruir aquela província. Matou e cativou muita gente, tomou muitos mantimentos, com que se sustentava nosso campo.

 

3o No anno de 80 indo o Governador ao longo do rio Coanza para cima com duzentos e noventa portuguezes, com duas galeotas, hum caravelão e outras embarcações menores, pretenderão estorvar-lhe a pasagem alguns Sobas visinhos ao rio. Aloiouse em terra o arraial, e fazendo volta sobre os imigos o capitão Manuel João com cento e sesenta homens os destruiu e queimou algumas três legoas de povoações, e tomou cem pesas vivas. Durou o saco 15 dias com que ficou o arraial provido de gado, sal, azeite e muitos outros mantimentos.

 

4.o No anno de 81 destruio o nosso exercito a hum poderoso Soba por nome Songa na província da Quiçama, e sogeitou ao serviço de sua Magestade toda aquella província que he de gente mais belicosa que ha no Reyno de Anguola. Foi por capitão António da Costa parente do Governador.

 

5.o No mesmo anno de 81 estando os nossos no Mocumbe terra da província da Quiçama iunto do rio Coanza, os mandou o Rey cerquar com hum grande exercito. Saiolhes a nossa gente ao encontro huma madrugada, mataria obra de quinhentos, e os mais fugindo se matavão com facas pêra hirem fazendo caminho rompendo pellos dianteiros como tem em custume. Acharão hum Soba emforcado entre dous ramos de huma arvore. Dos nossos nenhum morreo.

 

6o No mesmo anno de 81 foi destruído pellos nossos hum poderoso fidalgo na província da liamba por nome Anguola Quichaito e o Governador pôs outro em seu lugar. Foi por capitão António da Costa parente do Governador que então servia de Ouvidor Geral.

 

7o No mesmo anno de 81 passou a liamba o capitão mor do campo Luiz Sarrão, destruio alguns fidalgos com os quaes nunca pode entrar exer­cito de El Rey de Anguola por estarem fortes em matos de muitos espi­nhos. Dos nossos foi Deos servido não ser nenhum morto nem frechado.

 

8o O capitão do campo Luís Sarrão por mandado do Governador Paulo Dyas passou outra vez a liamba na era de 82 com oitenta soldados a so­correr alguns Sobas que estavão por nós porque o Anguola mandara sobre elles hum grande exercito que os deitou de suas terras e pôs outros nellas. Os imigos sabendo a ida do capitão se poserão em fugida sem aguardar o ímpeto dos nossos, tornarão os Sobas amigos a suas terras e de novo se vierão sogeitar a obediência de sua Magestade outros trinta e quatro, e com isto ficou quasi toda a liamba conquistada e também a Quiçama como esta dito. E oje em dia o estiverão, se ouvera nesta conquista copia de gente de modo que huns andarão no campo ganhando terras de novo, e outros em presídios conservando o ia ganhado.

 

9o Na era de 83 deu nosso Senhor aos Portuguezes a nomeada vitoria que chamão de Talandongo na provinda do Mosseque a qual socedeo desta maneira. Mandou o Governador seu exercito a tomar as minas de prata de Cambambe, de caminho destruirão a hum poderoso imiguo por nome Bambantungo e poserão outro na terra, e o arrayal se aloiou en Talandongo que na lingoa quer dizer terra donde se vee a cidade do Rey, muito fresca de bons ares de muitos palmares e fruitas. Chegou o Governador e fundou ali huma cidade com seus fortes a que pôs nome nova Gaza obra de huma legoa das minas de Cambambe. Estando aqui aloiado o Governador Paulo Dyas, com seu capitão mor Luis Sarrão e todos os mais Portuguezes, que não passavão de cento e vinte, senão quando aos 2 de Fevereiro da dita era que he dia da purificação de nossa Senhora dece sobre elles o mais grosso exercito que dizem aiuntou nunca Rey algum de Anguola. Serião hum conto e duzentos mil homens, tomavão três legoas de terra cubrindo montes, e vales, e vinhãose chegando a Cidade repartidos em três esquadrões. Os nossos confiados no favor da Virgem gloriosa sairão ao encontro aos imiguos acompanhados de muitos escravos seus e gente de alguns Sobas que estavão da nossa parte, repartidos em outros três esquadrões cometerão aos contrários antes de acabarem de deser dos outeiros e isto com tanto esforço que matandolhe hum capitão os puzerão em fugida, seguirão o alcance e fizerâo nelles grande estrague. Dos portuguezes morrerão somente sete, dos imigos huns se matavão na fugida e outros se fazião em pedaços pelas rochas. Morrerão obra de Quarenta mil. Em memória desta mercê de Deos tomarão os Portugueses por avogada desta conquista a Virgem nossa Senhora com titulo de nossa Senhora da Vitoria, a que fazem festa no dito dia e a Maçangano puzerão nome a villa da Vitoria (4).

 

10o Entrou o demónio em hum preto Cristão filho de hum Soba, foi se ter com El Rey de Anguola e prometeulhe que se lhe dese hum grande exercito e algumas espingardas elle lhe entregaria todo o nosso campo. O Rey parecendolhe bem a promessa aiuntou outro poder maior de gente que o sobre dito, porque dizem chegaria a hum conto e quinhentos mil homens. Deulhe mais quarenta espingardas e meio alqueire de pólvora mesturada com carvão. Não foy este exercito demandar ao Governador que estava em Maçangano, mas foi cometer o capitão mor do campo André Ferreira Pereira, que andava conquistando a província de liamba com cento e trinta soldados, e com obra de oito mil frecheiros dos Sobas que da nossa parte peleiavão. Esta província estava rebelada por se ter o Gover­nador retirado de Cambambe pêra Maçangano. Sabendo o capitão mor que estavão ia perto saiolhes ao encontro repartindo sua gente em três esqua­drões, como vinhão os imiguos. Quis Deos que aquella madrugada cahío emtre os dous campos huma névoa tão espessa, que nem os nossos virão a inumerável multidão dos imiguos, por não desacorçoarë, nê elles quão poucos erão os nossos por não cobrarem mor animo. Deu o capitão mor sobre elles com tanto valor e esforço que os pôs em fugida, de modo que ainda que por duas vezes se reformarão com brados de seus capitães sempre forão desbaratados. Morreo nesta batalha a flor dos fidalgos de Anguola os quaes vinhão apostados a não tornarem a ver orrosto a seu Rey sem vitoria. As cabeças dos três capitães com muitas cargas de narizes forão mandadas a esta Loanda. Os despoios forão muitos assi de fato, como de mantimentos. Os nossos seguindo a vitoria conquistarão mais de cincoenta Sobas, e chegarão até o rio Lucalla, oito ou dez legoas da corte do Anguolla. Aiuntou logo o Rey outro exercito, mas também foi pello nosso des­baratado. Não se concluio desta feita a conquista deste Reyno por falta de gente e pólvora (5).

O traidor que deu o alvitre ao Rey também ouve seu merecido castigo porque sendo tomado vivo lhe cortarão a cabeça, e pêra terror dos outros, lhe queimarão seu corpo. Morreo com muitos sinaes de arrependimento de seus peccados e muito pesante da traição que tinha cometida, e confessadocom hum Padre de S. Francisco que andava no arraial por nome Frei João.

Aconteseu esta vitoria dia de S. luís Rey de França a 25 de Agosto de 85 na liamba em huma terra que chamão Casicola.

 

11a. No anno de 89 rebelou contra Sua Magestade hum Soba pode­roso na liamba por nome Mosengue Azenza e fez rebelar a outros que ia estavão sogeitos. Foi contra elles o capitão mor André Ferreira Pereira deulhes batalha e desbaratouos. Cativou mais de 500 peças e ouve mui grande despoio, muitos vestidos de seda, armas de Portugal, porcelanas. escritórios, muita fazenda e mantimentos.

 

(1) Acerca dos dois socorros de 1578 e 1579 há dúvidas e divergências nos escrito­res das coisas de Angola. Vejam-se Feo Cardoso, Memórias, páginas 129 e. seguintes; Lopes de Lima, Ensaios, Parte I, página XIII, 89; Alberto de Lemos, Historia de Angola, páginas 137-138; Felner, Angola, páginas 138-139. O Catalogo dos Governadores de Angola, do século XVIII, está, neste passo, de acordo com o nosso manuscrito do sé­culo XVI.O socorro de 1579, em que iam os missionários Baltazar Barreira e Frutuoso Ri­beiro, partiu de Lisboa a 20 de Outubro de 1579 e aportou a Luanda em 23 de Fevereiro de 1580. Cf. Boletim da Sociedade de Geografia, IV, páginas 349-350, carta de Frutuoso Ribeiro, de Luanda a 14 de JS^arço de 1580; Franco, Synopsis Ann. 1579, n.° 6; Zma-gem da Virtude... Évora, página 97.

(2) O Padre Diogo da Costa, em carta de S. Tomé a 19 de Junho de 1584, tem que a armada saiu de Lisboa a 25 de Janeiro de 1584, e o Padre Baltazar Afonso acrescenta que os soldados seriam por todos duzentos. Bolefim e volume citado, páginas 374-375. Cf. Lopes de Lima, página XV; Felner, oô. cíí.» página 148.

(3) Franco na Synopsis Ann., 1586, n.° 2, escreve, não sabemos com que fundamento, que na armada de seis navios foram em 1586 para Angola 300 soldados.

(4) No manuscrito original estão escritos è margem, por todo este capítulo, em alga­rismos os inúmeros que no texto se designam por extenso.

(5) Conta esta célebre vitória o Padre Baltazar Barreira, testemunha presencial, em carta de 20 de Novembro de 1583. Cf. Boletim citado, págs. 371-372.

(6) Esta memorável vitoria é referida pelo Padre Baltazar Barreira em carta de 27 de Agosto de 1585, dois dia depois da batalha. Boletim da Sociedade de Geografia, IV, págs. 37&.380.

 

Rio de Janeiro, 18 de Julho de 2011

 

 Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:22
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ABERRAÇÕES É CONNOSCO

 

É de Vasco Pulido Valente, o artigo «Uma aberração» saído no Público de 22 de Junho. Trata da formação “política” das juventudes partidárias, ao que parece, apenas instigadas a uma autopromoção futura que as catapulte ao poder, para isso enredadas na teia de ligações próprias de cada partido, venerando os chefes e limitando a sua visão do universo cultural à doutrinação fanática do seu partido:

Um grupo de oito deputados, todos presumivelmente produto da JSD, resolveram perguntar ao ministro da Educação quanto custavam os sindicatos de professores, supondo que para demonstrar que o Estado não conseguia suportar essa tremenda despesa. O que tem feito este governo e esta maioria quase não merece comentário. Mas não deve haver um único Parlamento no mundo civilizado em que esta cena espontaneamente se passasse. Gente como os meninos da JSD não está na Assembleia da República, está num jardim infantil muito bem guardado à espera de chegar à idade adulta. Era possível escrever tratados sobre a ignorância, a inanidade e o ridículo dessas criancinhas, se o esforço aproveitasse alguma coisa aos pobres portugueses que as vão aturando e, já agora, a elas próprias.

De qualquer maneira, vale a pena investigar quem as preparou para as responsabilidades que hoje são as delas. A JSD (de resto como a JS e a JP) admite militantes desde os 14 aos 30 anos. Por outras palavras, pega num adolescente, ou num pré-adolescente, e daí em diante não o larga até ele se tornar num homem ou numa mulher. Isto lembra regimes de má memória que faziam o mesmo: a ditadura de Salazar, a de Mussolini e a de Hitler para já não falar dos “Pioneiros” da URSS e da Europa de Leste. “Juventudes” deste género sobrepõem à educação da família uma educação política forçosamente facciosa e com certeza não lhes custa formar segundo as suas conveniências criaturas que não chegaram ainda à maturidade fisiológica, intelectual, moral ou profissional. ´´E um exercício de abuso de menores, que a lei não condena.

Imersos na intriga perpétua da instituição pelo favor do “chefe” ou de alguma facção transitoriamente dissidente, adquirem depressa uma cultura muito próxima da cultura dos bas-fonds e um saudável desprezo pela realidade. Seria sem dúvida um serviço ao país proibir as “juventudes” dos partidos de receber membros de menos de 18 anos e de os conservar para além dos 25: como quem reprime uma tendência antidemocrática e deletéria numa sociedade equilibrada ou, pelo menos, que se esforça e gostava de ser melhor do que parece.

Creio que tem razão na essência, Vasco Pulido Valente. Uma essência que nos define no oportunismo, na mediania intelectual, no empenho como meio ascensional, na tagarelice mexeriqueira tantas vezes malévola. Mas exagera na referência a uma “sociedade equilibrada ou, pelo menos, que se esforça e gostava de ser melhor do que parece». Nem sei mesmo a quem, com essa frase, Pulido Valente pretende lisonjear, numa banal e irrisória - por inesperada, vista a sua férula afiada - demonstração de democratismo piedoso. E apiedado , de sensibilidade ao "coitadinho".

E quando Pulido Valente coloca no mesmo plano juvenil Passos Coelho, relembro outras figuras da nossa realidade política sénior que, quer se tenham formado nas universidades do país ou de outras formas menos escrupulosas de formação superior, se pautaram pela irrelevância ou inanidade de actuações, pela pura arrogância menosprezadora que nos apouca, ou pelo descaro de comportamentos de vigaristas condecorados.

Passos Coelho, diz-se, reduziu o povo à miséria, sendo culpado de todos os males do país. Eu vejo no seu trabalho, que conheço através das mensagens positivas dos seus discursos, a figura de um homem que se rodeou de gente com um objectivo comum – o de libertar o país da dívida monstruosa, impondo ao país oneração estridente, com aumento de desemprego, abaixamento de vencimentos, crescimento de impostos…

E é nisso que se fala, e nas promessas de uma melhoria sempre adiada, pois, ao contrário do que dizem os principais do governo que vai suceder, o que sucede mesmo é o aumento do défice, o que provoca manifestações, greves arregimentadas pela esquerda histérica e histriónica, e o PS - que também é esquerda quando convém, embora com mais gravidade na compostura - esquecido daquela época do Copcom, de ressaibos stalinistas, ou maoistas, ou de outros chefes mais próximos.

Tem razão, na apreciação que faz, Vasco Pulido Valente sobre a formação de Passos Coelho. Mas eu gosto de o ouvir, assim como a alguns parceiros seus tão alarvemente caricaturados. Acredito neles, nas suas boas intenções, nos seus parcos êxitos, que todos os outros se apressam açuladamente a denegrir, desculpo a sua pouca prática política, por amor à seriedade de um objectivo honesto e corajoso que a todos devia mover. E não naquilo que fazemos – contribuir para a destruição, com a deseducação que fomentamos num povo já deseducado, contribuir para dificultar a acção económica governativa, travando o país. Mas acusando sempre, em raiva crescente, responsabilizando exclusivamente este governo, esquecidos dos precedentes.

Não me parece justo mas antes puro sofisma de mistura com muito cinismo.

 Berta Brás

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:40
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Sexta-feira, 28 de Junho de 2013
INDIGNADO!

 Indignados: Organização diz que 100 mil participaram no protesto

Estou indignado!

 

Por isso me manifesto. Estou indignado porque o sistema devia funcionar bem e não funciona; porque os políticos deviam dizer a verdade e não dizem; porque estou a sofrer e não quero. Por isso estou aqui.

 

São quase seis da manhã e toda a gente dorme no acampamento da manifestação. Mas eu não consigo dormir. Por isso me vim sentar no passeio, meio tapado pelo meu cartaz. Não consigo dormir porque estou indignado. Indignado porque a crise cai sempre sobre os mesmos, porque as promessas são sempre falsas, porque os ricos, bancários, políticos conseguem sempre escapar e é o povo que sofre pelos erros deles. O pior de tudo é a falta de esperança. Este sistema não dá esperança aos jovens.

 

A noite está fria e o cartaz não foi feito para aconchegar. Este já não é aquele que trouxe de casa. Quando cá cheguei tinha uma folha de cartolina que dizia "Nós somos os 99%", mas a rapariga da tenda ao lado perguntou a rir: "99%? Então porque somos tão poucos?". Eu disse-lhe que havia manifestações destas por todo o mundo. No protesto mundial de 15 de Outubro foram quase 1000 cidades em mais de 80 países, e está outra marcada para 24 de Novembro. Ela só sorriu mas eu fiquei a pensar. Afinal os manifestantes não chegaram a 1% da população do país. Por isso mudei o cartaz, que agora diz: "Este é o princípio do fim do capitalismo".

 

O problema afinal é mudar o sistema. Aquilo que as manifestações nos países árabes conseguiram, derrubando opressão e ditadores, temos de fazer aqui. A nossa opressão é o dinheiro e oportunismo, os ditadores são banqueiros e empresários. Quando viu o novo cartaz a Bárbara (já lhe descobri o nome) abanou a cabeça e perguntou: "E depois do fim, começa o quê?" Não respondi, e mais uma vez pensei. Afinal qual é a solução para a situação? Os jovens não têm esperança, mas os outros também não. Os ricos têm medo, os políticos andam à nora e nós protestamos, mas ninguém tem solução. Dizemos que a manifestação só acaba quando vencermos. Mas que é vencer?

 

Puxei o saco-cama para a cabeça e repeti que esta era uma tradição de família. Na véspera contara à Bárbara que há gerações de indignados na minha casa. O meu avô era comunista e acreditava no Estaline e no sistema soviético. Ficou indignado com o que disseram dele no XX congresso, e ainda mais com a invasão de Praga. Acabou por perder a esperança e sair do partido, desiludido das falsas promessas e enganos repetidos. O meu outro avô era católico. Andou deslumbrado com o Concílio Vaticano II e as reformas da Igreja. Mas depois também ele se indignou com a falta de progresso em aspectos que considerava essenciais. Acabou por perder a esperança e abandonar a fé, como um "vencido do catolicismo". Os meus pais, jovens idealistas no 25 de Abril, viveram a revolução a sério, mas também eles acabaram indignados, desenganados e sem esperança com o que aconteceu depois. Esta manifestação contra a crise mundial é a minha participação nessa longa contestação.

 

De repente senti um calafrio pelas costas. E se o problema não é o mundo ou o sistema, mas nós? E se a razão da nossa insatisfação não vem da realidade, que é o que sempre foi, sempre difícil e exigente? E se o mal é que somos uma família de insatisfeitos, que nunca soube dar o valor ao que têm, exigindo sempre mais? É verdade que estamos em crise, mas afinal quando é que não as houve? Porque, tudo considerado, temos muito a agradecer. Estamos muito melhor do que no tempo dos meus avós. Lembro-me como ri ao receber há dias uma mensagem electrónica demonstrando como o país está pior que no tempo do Salazar, sem que o autor notasse que o simples uso da Internet refutava a tese.

 

O Sol começa a nascer por entre as árvores e prédios. Está uma manhã linda. É bom sorver o ar fresco. No meio dos protestos é difícil dar valor a estas coisas. Quem quer mais do que tem nunca aproveita o que há. E a vida tem tantas coisas excelentes. Como a Bárbara, que ressona serenamente na tenda do lado. Nela, ao menos, tenho alguma esperança.

 

14 de Novembro de 2011

 

  João César das Neves



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:04
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ESCOLA PÚBLICA: AO SERVIÇO DAS FAMÍLIAS OU DOS LÍDERES POLÍTICO-SINDICAIS?

 

 

Espero, francamente, que o bom senso dos meus colegas, professores do ensino básico e secundário, prevaleça. Espero também que a intransigência revelada pelos líderes sindicais possa pelo menos servir para uma reflexão alargada sobre a necessidade de defender a escola pública – mas uma escola pública que esteja ao serviço dos alunos e das famílias, não dos líderes político-sindicais.

 

Aqui ficam alguns contributos para essa reflexão.

 

Em primeiro lugar, creio que deve ser elogiado o espírito de moderação e abertura revelado por Nuno Crato, ministro da Educação e Ciência. Não sendo eu especialista nestas matérias, julgo ter compreendido que o ministro foi para a mesa de negociações com duas razoáveis propostas de compromisso:

(1) Que o aumento do horário laboral, comum a toda a função pública, não incidisse, no caso dos professores, na componente lectiva, mas apenas na não-lectiva;

(2) A garantia de que o chamado sistema de mobilidade não afectaria, na prática, os professores do quadro.

Os líderes sindicais, sobretudo da chamada FENPROF, afecta ao PCP, recusaram ambas as propostas.

 

Aliás, a FENPROF anunciara a greve aos exames ainda antes de se sentar à mesa das negociações. E fez mais: quando o Ministério fez a derradeira proposta de compromisso - mudar a data do exame de dia 17, pedindo em contrapartida que os sindicatos garantissem não fazer novas greves em datas de exames - os líderes sindicais voltaram a recusar.

A conclusão é bastante clara para qualquer espectador imparcial: os líderes sindicais não queriam de facto chegar a qualquer compromisso. O seu objectivo é única e exclusivamente perturbar, e se possível inviabilizar, o sistema de exames e provas finais, num calendário bastante apertado até 18 de Julho.

Nestas condições, a atitude de compromisso de Nuno Crato não podia ir mais longe do que foi. Se aceitasse sem condições adiar o exame de hoje, todo o calendário de exames até 18 de Julho ficaria dependente das futuras decisões arbitrárias dos líderes sindicais. Os prejuízos para os alunos e as famílias seriam incomparavelmente maiores. Um clima de ansiedade e incerteza passaria a dominar todos os exames.

Qual é a razão que explica a intransigência dos líderes sindicais?

 

Não me refiro a razões de ordem pessoal e psicológica, que são para o caso pouco relevantes, algumas das quais estando obviamente ligadas à sobreposição de carreiras sindicais com carreiras político-partidárias. Também não me refiro aos privilégios de que gozam os líderes sindicais (os professores descontam os dias de greve, os sindicalistas não, sendo os seus salários igualmente pagos pelo Estado).
Também não me refiro à decisão absolutamente peculiar de um Colégio Arbitral que recusa serviços mínimos aos exames contrariando decisões anteriores, em casos idênticos, do Supremo Tribunal Administrativo e do Tribunal Constitucional. Este caso, que configura um sério desafio aos princípios do Estado de Direito, precisaria de outra crónica.

A pergunta que faço é mais estrutural: por que assistimos repetidamente, em todos os Governos, a guerras entre os líderes sindicais e os Ministros da Educação? Por que são os líderes sindicais insensíveis aos danos causados a alunos e famílias?

A resposta emerge da experiência: porque alguma coisa, na forma como está estruturada a escola pública, a torna refém dos líderes sindicais. Essa «alguma coisa» é muito simples: as escolas do sector público são centralmente dirigidas, em vez de serem dirigidas localmente e terem de responder às escolhas das famílias.

Se as escolas públicas fossem dirigidas por si próprias e tivessem de atrair a escolha livre dos alunos e respectivas famílias, toda a lógica do sistema seria alterada. Em vez de viradas para cima e para um centro decisor único – o Ministério – passariam a estar viradas para baixo e para muitos centros decisores – os alunos e as famílias. Cada escola teria um incentivo para melhorar, para contratar e reter os melhores professores, para oferecer os melhores e mais imaginativos serviços. As suas receitas passariam a vir dos vouchers que o Estado garantiria às famílias e que estas usariam na escola da sua preferência.

Não se trata de um plano utópico. Este sistema foi introduzido na Suécia, está a ser introduzido no Reino Unido, existe em pelo menos seis Estados norte-americanos, e continua a expandir-se.

O Ministro Nuno Crato teve o mérito de, ainda antes de ser Ministro, defender os professores, os alunos e as famílias contra os dogmas destrutivos do "eduquês". Teve o mérito de reintroduzir mais avaliações e mais exigência na escola pública, também em defesa dos alunos e das famílias. Deve agora ser coerente. Deve explicar aos professores, aos alunos e às famílias por que os líderes sindicais se recusaram a negociar. E deve propor a reforma do sistema educativo de forma a que a escola pública possa estar ao serviço das famílias e não dos líderes político-sindicais.

 

17/06/2013

 

 João Carlos Espada



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:16
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O CATOLICISMO PORTUGUÊS DE ONTEM PARA AMANHÃ

 

(...)

 

Como cultura, o catolicismo enfrenta – mesmo dentro de si próprio – o enorme repto do aculturalismo difuso, marcado pela grande dificuldade de ponderação sobre tanta informação imediata.

 

Como sabemos, a cultura provém do cultivo, que dos campos passou ao espírito, permitindo reflectir e decidir com mais substância e sossego. Na habitualidade católica das famílias e comunidades, transmitiam-se noções e práticas tradicionais, bem como valorizações adquiridas. Podiam ser mais ou menos respeitadas no concreto, mas eram geralmente aceites como norma e até como ideal.

 

A última metade do século XX trouxe-nos outra coisa, especialmente no hemisfério Norte. Um crescimento inusitado de meios de toda a ordem, especialmente materiais e informativos, a revisão constante de certezas adquiridas, a desconfiança pós-moderna em relação às pré e meta narrativas, a comercialização geral e publicitária dos gostos e comportamentos…

 

Estes e outros factores dificultam ponderações comunitárias ou mesmo individuais, retraem para a sensibilidade ocasional, “cultivam” pouco ou nada as opções, reagem instintivamente às normas recebidas, desconfiam geralmente das instituições que as transportam. Como instituição quase global e mais antiga na sociedade portuguesa, o catolicismo sofre uma erosão permanente onde todos estes factores concorrem, mesmo sem verificar o que se alega.

 

(...)

 

Mais facilmente se aceita que cada um tenha ou deixe de ter esta ou aquela convicção, no descampado neutro em que parecemos estar. As afirmações definidas dalgum crente são facilmente tomadas como fanatismo ou despropósito; a proposta que faça a terceiros dum caminho religioso, uma intromissão abusiva… Não sendo esse o seu sentido original e de algum modo esquecendo o papel histórico que realmente desempenhou, a “tolerância” pode significar hoje, pura e simplesmente, “abandono de campo”, decaindo em tolerantismo.

 

(...) retenha-se a afirmação de Bento XVI no Porto, a 14 de Maio de 2010: “Nada impomos, mas sempre propomos”.

 

(...)

 

Neste hoje incerto e inevitável, o catolicismo português tenta redefinir-se e relançar-se, com algumas linhas maiores de pensamento e acção, que têm sido reflectidas e propostas em vária instâncias e grupos.

 

(...)

 

Coimbra, 28.10.2011

 

 D. Manuel Clemente
Bispo do Porto



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:59
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Quinta-feira, 27 de Junho de 2013
ADESÃO DA GUINÉ-EQUATORIAL À CPLP

 

 

Meditando sobre a questão do pedido de adesão da Guiné-Equatorial à CPLP, concluo por uma posição favorável.

Porquê?

Por várias razões histórico-políticas e realistico-imaginativas...

Historicamente, fomos nós, os portugueses, os primeiros europeus a desbravar aquela região do Golfo da Guiné e, portanto, temos toda a legitimidade para estabelecer laços preferenciais de cooperação com qualquer um daqueles países. Sucede que, entretanto, fomos substituídos em todos eles por outras potências coloniais ficando a Lusofonia ultrapassada pela francofonia e pela anglofonia. A castelofonia não vingou no Golfo da Guiné, pura e simplesmente, pelo que não apresenta qualquer sinergia real ou potencial.  Em termos de estratégia de cooperação internacional, a Guiné-Equatorial só poderia optar pela francofonia ou pela anglofonia com todos os inconvenientes que teria que enfrentar por ser mais fraco do que qualquer dos países regionalmente membros dessas tais fonias correndo quiçá riscos na manutenção da sua soberania nacional. Ou se mantinha isolada no contexto internacional ou optava pela Lusofonia.

1ª Conclusão: a adesão à Lusofonia é do interesse da Guiné-Equatorial e é mesmo a sua «tábua de salvação» (para a população nacional tanto lhe faz aprender português como 1ª língua estrangeira como lhe faz aprender francês ou inglês pois no dia-a-dia continuará a falar as línguas indígenas).

Do lado do mundo lusíada, que problemas temos se aceitarmos a adesão de um país riquíssimo em matérias-prima pelas quais temos a maior apetência? Dir-me-ão que se trata de um país em que prevalece uma ditadura, onde não são respeitados os Direitos do Homem, em que não há Sindicatos livres, em que a política de protecção do Ambiente é letra morta. O meu silêncio só será entrecortado por suspiros de nostalgia relativamente à situação angolana... Mais:  a convivência com o mundo lusíada só poderá gerar influências benéficas com vista a alguma democratização do regime político desse país.

2ª Conclusão:  a adesão da Guiné-Equatorial à CPLP só peca por tardia.

Admito que para a arrogante Espanha esta adesão da Guiné-Equatorial à esfera de interesses do desprezível Portugal e da Lusofonia possa ser um vexame histórico e que, portanto, tudo faça para que tal não aconteça;  admito que para a sôfrega França esta adesão da Guiné-Equatorial ao mundo lusíada seja uma facada na estratégia de reconstituição duma imperial francofonia (França não abandonou a cobertura do CFA pelo seu Banco central enquanto Portugal não fez algo de equiparável e perdeu a emissão monetária na Guiné-Bissau); admito que também a Grã-Bretanha esteja sequiosa do petróleo da Guiné-Equatorial.

3ª Conclusão:  todos os motivos apontados justificam a preferência que a Lusofonia deve dar à adesão da Guiné-Equatorial à CPLP.

resultado mais prosaico da minha meditação: um pouco mais de petróleo não incomodará os nossos interesses estratégicos…

 

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:16
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