Quinta-feira, 31 de Maio de 2012
ESGOTAMENTO DA CAPACIDADE DE ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS

 

 

Todo modelo de crescimento (caso brasileiro) baseado no aumento do crédito passa por esse tipo de esgotamento, haja vista que o governo está tentando fazer um sub-prime de juros no Brasil para aumentar a capacidade de endividamento das famílias. Em algum momento esse modelo explode.

 

O Brasil já passou esse tipo de crescimento (excesso de crédito) no período dos governos militares com um crescimento médio na base de 10% ao ano, onde os governantes afirmavam que o Brasil era uma ilha de prosperidade cercada de crises por todos os lados, porém, quando a crise chegou no Brasil no início da década de 1980 ficamos patinando na maionese por mais de 20 anos (com inflação e crescimento baixo).

 

Todo esse excesso de moeda e crédito é gerado pela emissão de dólares falsos para sustentar as guerras do Iraque e Afeganistão, na crise da década de 1970 foi gerada pela emissão de dólares falsos para sustentar a guerra do Vietname. Leia abaixo artigo do mestre Eugénio Gudin que é por si só explicativa.

 

 Ricardo Bergamini

 

O PENSAMENTO DO PROFESSOR EUGÉNIO GUDIN

 

Artigo publicado no jornal "O Globo" do Rio de Janeiro, edição de 17/09/73

 

A DESORDEM MONETÁRIA INTERNACIONAL

 

O pecado original que deu lugar à crise monetária internacional que ainda perdura foi, como se sabe, o de terem os Estados Unidos abusado do privilégio de que gozava o dólar, de ser também moeda internacional, como tal recebido e aceito pelo mundo afora. Os Estados Unidos esbaldaram-se despejando dólares no mundo através da guerra do Vietname e de enormes investimentos na Europa, além do fluxo habitual de turismo. A enorme massa de dólares que ficou ricocheteando pela Europa de país a país tem grande responsabilidade na inflação que se infiltrou na Europa onde atingiu 7% e 8% e mais ao ano, em países de ordem monetária tradicional como Suíça e Alemanha Ocidental.

 

O que há de curioso na presente conjuntura é que o dólar se depreciou muito mais internacionalmente do que dentro dos Estados Unidos. A taxa de câmbio atual do dólar em termos de marco alemão (Julho de 1973) é de apenas de 2,38 marcos por dólar, mas um dólar nos Estados Unidos tem um poder de compra equivalente a 3,17 marcos. Igualmente, a taxa de câmbio na Suíça é de 2,86 francos suíços por dólar, entretanto um dólar compra nos Estados Unidos o equivalente a 3,90 franco suíços.

 

É um caso típico de desvio da paridade do poder de compra, oriundo de itens outros que não os referentes a mercadorias, especialmente transferência de capitais.

 

A inflação nos Estados Unidos, a partir de 1965, foi em parte uma inflação de demanda oriunda de vastos défices orçamentários (RS$ 25 biliões em 1972, ora estimado em US$ 15 biliões para 1973), e em outra parte, uma inflação de custos por elevação excessiva de salários em anos recentes (ferroviários 42% em 42 meses, siderúrgicos 30% em 3 anos, General Motors, etc), além da inflação de carácter internacional oriunda das recentes desvalorizações do dólar que encarecem os preços das mercadorias importadas.

 

Mas a inflação na Europa, oriunda basicamente da expansão de crédito vinda do excesso de dólares flutuantes, não ficou atrás da dos Estados Unidos.

 

O actual desequilíbrio monetário internacional é devido muito mais aos movimentos de capitais do que às disparidades inflacionárias entre os Estados Unidos e a Europa. Os Estados Unidos, aparentemente mais preocupados com sua actividade económica interna do que com seu balanço de pagamentos, mantém taxas de juros reputadas baixas, pouco atraentes portanto para dinheiro do exterior. Por outro lado, a falta de confiança no dólar fez com que a esperada repatriação de dólares depois da desvalorização não se verificasse. A demanda de dólares por parte das empresas americanas e das empresas multinacionais, bem como dos árabes do petróleo, não tem correspondido à expectativa.

 

Do lado das mercadorias (balanço de comércio) a situação está melhorando com o grande encarecimento dos artigos importados à nova taxa cambial; por exemplo, um Volkswagen que custava US$ 1.900,00 passou para US$ 2.300,00. Os algarismos do balanço comercial continuam a melhorar conquanto as exportações não tenham tido o impulso que se poderia esperar. Por outro lado, a importação de petróleo cresceu em volume e em preço; os turistas americanos continuam a voar para o exterior mesmo com preços vinte e cinco por cento mais altos; 600 mil militares no estrangeiro e os empresários americanos continuam a exportar capitais.

 

Em artigo escrito, neste jornal, em Setembro do ano passado, sobre a crise monetária internacional, eu dizia:

 

"O problema não é fácil nem de rápida solução. Exige muito tempo, talvez anos para sedimentar-se em um consenso generalizado”.

 

A hipótese de nova volta ao padrão-ouro está fora de cogitação. A crise actual, se de um lado desprestigiou o dólar, serviu, de outro, para mostrar como o ouro é sujeito às influências da especulação e das variações do volume produzido, o que o torna impróprio para servir de padrão de valor para todas as moedas.

 

Donde se vê que as perspectivas de curto prazo não são animadoras. Nem o projecto Nixon round, de reduções tarifárias, nem a reunião de Nairobi do FMI, em Setembro, nem a Comissão dos Vinte (nem que fossem 40) solucionarão o caso.

 

O único remédio é o esforço persistente - sobretudo dos Estados Unidos - para restabelecer a confiança no dólar e o equilíbrio de seu balanço de pagamentos, ao nível da taxa cambial que for.

 

Vencida essa primeira etapa é que se poderá organizar um novo esquema monetário internacional.

 

  Eugénio Gudin


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 20:20
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Heresias - VI

A ARITMÉTICA DO DESEMPREGO

 (*)

“Que horrível surpresa! Desemprego nos 15%! Quem poderia imaginar?” diz o pessoal do Governo.“Malandros! Que só espalham desgraças!” ouve-se para as bandas da Oposição.

v     Não me parece que esta desgarrada entre lamentações e imprecações leve longe. Interessante, sim, seria ter uma ideia, não tanto do que nos espera, mas daquilo que deveríamos razoavelmente esperar.

 

v     Para tal, o ponto de partida será 2006 (o último ano das “vacas gordas”). Ignorando, porém, o malabarismo estatístico que exclui dos números do desemprego todos aqueles que desistiram já de procurar trabalho. Aqui o que interessa é a população residente em
Portugal, em idade de trabalhar e que tenha alguma vez procurado trabalho remunerado (excluo, pois, as “fadas do lar” full-time).

 

v     Vou repartir essa população (a população activa) pelos seguintes grupos:

-          Grupo A – população que trabalha para satisfazer a procura externa – quer directamente, quer ao longo da cadeia de produção (incluindo o turismo que nos visita, naturalmente);

-          Grupo B – população que trabalha para satisfazer a procura interna (incluindo a população empregue na função pública) – de novo, quer directamente, quer ao longo da cadeia de produção;

-          Grupo C – população sem trabalho (excepto a que transita entre empregos).

 

v     O Grupo C, obviamente, não contribui para o PIB (esqueçamos, por momentos, a economia paralela) – e, em 2006, andaria pelos 7% da população activa. Por esse tempo, o número de funcionários públicos seria um pouco mais do dobro do número de desempregados.

 

v     Desconheço estatísticas “por fileira” (que, forçosamente, teriam de assentar na contagem, não de cabeças, mas de tempos trabalhados por destino da produção: procura interna/procura externa), mas a cobertura das importações pelas exportações na Balança
de Bens e Serviços pode dar uma pista: o Grupo A seria 55% do Grupo B.

 

NOTA: A BTC não serve tão bem para este efeito porque inclui transferências unilaterais e outros movimentos transfronteiriços que, ou não têm origem na esfera real da economia (logo, no emprego), ou envolvem uma parcela insignificante da população activa.

 

v     Assim, a traço largo, quando a crise nos bateu à porta, a população activa teria mais ou menos a seguinte composição: Grupo A, 33%; Grupo B, 60% (14%-15% na função pública); Grupo C, 7%.

 

v     Desconheço o que possa ser visto como uma distribuição harmoniosa entre os Grupos A e B. Mas numa economia que tem de importar muito do que come, quase toda a energia que usa e boa parte das matérias que transforma (para além de outros bens e serviços cuja procura é mais “elástica”), seria de esperar que o Grupo A (o que gera haveres sobre o exterior) tivesse muito maior peso. Desde logo, porque o consumo de alimentos e de energia (que há que comprar no exterior, recordo) é proporcional, não à população que trabalha, mas à população total – e não varia tanto assim com as flutuações do rendimento disponível.

 

v     Chegou-se a este ponto da maneira mais displicente que é possível imaginar:

-          Os Bancos a privilegiarem o financiamento da procura interna e as actividades orientadas para satisfazê-la (construção,
habitação, distribuição) – o que não dava um trabalho por aí além;

-          Os Governos, iludidos pelos impostos indirectos que cobravam, iam expandindo a Despesa Pública – sem perceberem que as receitas fiscais provinham (e dependiam), em larga medida, da procura interna que o crédito bancário estava a alavancar.

 

v     Mas nem os Bancos se limitavam a reciclar a liquidez da economia, nem os Governos se limitavam a gastar as receitas fiscais que cobravam. Uns e outros, a partir de 1997-99, endividavam-se despreocupadamente no exterior. Os Bancos para concorrerem entre eles por quota de mercado – no financiamento da procura interna, obviamente. Os Governos para fazerem mais umas obras destinadas à procura interna – ou para aumentarem os quadros da função pública.

 

v     Os Bancos poderiam ter-se atido aos recursos financeiros internos? Poderiam. Mas teriam de reduzir os empréstimos às importações e de remunerar melhor os depósitos – e veriam, então, os seus Balanços expandir-se, inevitavelmente, ao ritmo do PIB. Que, diga-se de passagem, era bastante vagaroso. Logo, “no big results, no big bonus”.

 

v     Os Governos poderiam ter optado por orçamentos equilibrados? Poderiam. Mas haveria menos obra para mostrar – e mais desassossego nas hostes dos respectivos partidos. E não poderiam ter optado por emitir Dívida Pública cá dentro? Poderiam. Mas teriam de sofisticar os empréstimos internos e de remunerá-los melhor – o que poria frontalmente em causa a “paz podre” que, a tão duras penas, os Bancos tinham conseguido instalar no mercado da captação do aforro. E não teria o mesmo glamour,

 

v     Deste modo, Governos e Bancos, cada um à sua maneira, endividavam-se no exterior para despejar liquidez sobre a procura interna, estimulando-a em crescendo: (i) gastos públicos, subsídios vários (em dinheiro e em espécie), serviços tendencialmente gratuitos - à conta dos Governos; (ii) endividamento - cortesia dos Bancos. Tudo empolava o rendimento disponível que a estabilidade cambial convertia em sucessivos acréscimos de poder de compra – e que a propensão para importar (elevada), por sua vez, convertia em deficits da BTC.

 

v     E aqui, sim, a BTC dá uma pista do excesso de procura interna: ano após ano, mais de 10% do PIB. Ora, este excesso tem de ser: (i) primeiramente, sustido - para travar o crescimento da Dívida Externa; (ii) depois, revertido – para que a Dívida Externa (a do Estado e a dos Bancos) retorne a um volume que possa ser gerido.

 

v     Isto significa uma quebra na procura interna (e do correspondente rendimento disponível) a dois tempos: (i) de imediato, uma quebra absoluta não inferior a 10% do PIB; (ii) ao longo de vários anos, um crescimento entre 2%-3% abaixo do crescimento do PIB (o que pode significar uma contracção também).

 

v     Nada de surpreendente. No rescaldo de uma “bolha” de crédito bancário (e as receitas fiscais também “surfavam” esta “bolha”), um tradicional processo de desendividamento: do Estado (mais carga fiscal, menos gastos públicos), dos Bancos (ou reforçam Capitais Próprios ou fecham para obras), das Empresas (alguns casos de recapitalização, muitos casos de insolvência) e das Famílias (insolvências e mais insolvências).

 

v     Tudo isto augura tempos difíceis: (i) para os Bancos – a verem o crédito malparado a arrastar rio abaixo os seus preciosos Capitais Próprios; (ii) para os Governos – porque as receitas fiscais, em valor absoluto, descem para um nível bem mais modesto, inferior às grandes rubricas orçamentais consideradas politicamente intocáveis.

 

v     Balanços dos Bancos a encolher, Despesa Pública a encolher – a liquidez que circula na economia só não encolherá também se a procura externa (e com ela o rendimento gerado no Grupo A) compensar, expandindo-se aceleradamente (acima de 30%/ano, mas a que o investimento directo estrangeiro daria uma ajuda). O que, convenhamos, não acontece de um dia para o outro.

 

v     É o Grupo B que irá sofrer por inteiro o choque da contracção da procura interna e os efeitos da redução da liquidez em circulação. Tudo aponta para que, sem o apoio financeiro da troika, a redução da procura interna (por via conjugada da tributação, da queda nos salários e do desendividamento) se situaria, no imediato, em 10%-12% do PIB. O que, traduzido em desemprego, corresponderia a 17%-20% da população activa – e que só a emigração poderia atenuar.

 

v     Assim, como não parece sensato
esperar que o nível de desemprego estrutural (os tais 7%, à partida) baixe durante o processo de ajustamento “macro”, a taxa de desemprego que deveríamos esperar, sem troika, oscilaria entre 24% e 27% da população activa (que só a expansão do rendimento gerado pelo Grupo A, o investimento directo estrangeiro e a emigração poderiam puxar para baixo). A par da Espanha, da Grécia e da Irlanda, aliás.

 

v     Até que ponto o pacote financeiro que a troika vai entregando às fatias amortecerá este choque? Não sei responder.

 

 

 A. Palhinha Machado

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:38
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Quarta-feira, 30 de Maio de 2012
OS ARROTOS DAS NOSSAS AMBIÇÕES

 

 

A minha amiga há muito que não se exprimia com tanta cólera, de tal modo se “espremeu” na crítica, com o recorte do jornal a confirmar:

 

- Menu muito rico, próprio de país muito rico. Como é possível? A gente olha para aquilo e diz assim: “Não pode ser verdade”. Mas está assinado por fulana e fulana.

 

Espreitei o artigo que ela me trouxe e as fulanas assinantes chamam-se Raquel Oliveira e Sónia Trigueirão, como confirmei para a minha amiga, que continuou:

 

- Mas a Troika que está cá a ver as borradas também sabe disto? Abrem o concurso, escolhem a empresa. Estas duas jornalistas tiveram acesso e vá de publicar o artigo, que é digno de espanto.

 

- Ora!

Está de acordo com a nossa dignidade – explico, generosamente, que considerações é o que nós acima de tudo prezamos, como já várias vezes tenho referido na referência ao Damasozinho Salcede (o que é indício de uma cultura extremamente parcimoniosa na questão dos referentes) o qual de ninguém admitia desconsiderações, e com muita razão. Ainda hoje mesmo, sofremos desse sentimento de inferioridade e vexame, como mal que mergulha fundo, creio que nas nossas raízes históricas, geográficas e sociais, de tal modo enviesadas que as suas ramificações resultaram num posicionamento caudal relativamente ao posicionamento estrangeiro. É o que sobressai nos dizeres da heroína do “Eixo do Mal”, troçando pelo facto de ninguém lá de fora nos prezar, passarmos sempre despercebidos e quem sabe se altivamente marginalizados pelos deputados dos outros países europeus. E assim se vê que somos todos uns Damasozinhos Salcedes, que vivemos no terror das humilhações, mesmo os ou as que se pretendem demarcar do povinho ignaro. Como nos tempos de Eça, vivemos sob o culto da admiração pelos povos cultos, embora nos digam que a isso se chama provincianismo, mesmo nos Eças da nossa praça.

 

Eu, por mim, confesso (e desculpe-se-me tão acentuada redundância) o meu sentimento de inferioridade, essencialmente provinciano, não passa de uma admiração sem limites pelos outros povos que investiram em educação, acompanhada por uma sentida inveja e pesar, pela consciência de que jamais os alcançaremos, por não termos educação suficiente para nela investirmos, e mesmo que a tenhamos, os que poderiam nela investir já não encontrarão a resposta adequada a essa justa ambição de transformação, pelo estreitamento cada vez maior dos interesses culturais da nossa juventude mandriona e indisciplinada que nas queimas das fitas universitárias culmina em espectáculos degradantes de bebedeiras descomunais de jovens em vias de se iniciarem no mercado de trabalho, pelo menos dantes era assim na questão do mercado.

 

Vejamos o recorte da notícia saída no Correio da Manhã:

 

Fornecimento de Refeições

 

MENU DE LUXO NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

 

Perdiz, porco preto alimentado a bolota e lebre são alguns dos produtos exigidos pelo Caderno de Encargos do concurso público para fornecer refeições e explorar as cafetarias do Parlamento. Das exigências para a confecção das ementas de deputados e funcionários constam ainda pratos com bacalhau do Atlântico, pombo torcaz e rola, de acordo com o documento a que o CM teve ontem acesso. O café a fornecer deverá ser de “1ª qualidade” e os candidatos ao concurso têm ainda de oferecer quatro opções de whisky de 20 anos e oito de licores. No vinho, são exigidas 12 variedades de Verde os meus preferidos - e 15 de tintos alentejanos e do Douro. É também especificado que o mesmo prato não deve ser repetido num prazo de duas semanas. O Caderno de Encargos do concurso, que termina em Junho, estabelece que a qualidade dos produtos vale 50%, o preço 30% e a manutenção 20%.

 

De lamber e chorar por mais. E percebi o porquê da exclusão da gravata – não sei se chegou a ser decretada, como medida capital de um governo disposto a trabalhar, segundo informou, na altura. Uma medida de extremo alcance, como expliquei à minha amiga ainda afrontada: a exclusão da gravata possibilitava os arrotos dos afrontamentos provenientes da ingestão dos pitéus do concurso.

 

Há sempre uma lógica para as medidas de longo alcance. Quanto menos gravata maior a extensão dos arrotos. As comidas são um índice de civilização e requinte. Os imperadores romanos até vomitavam para ingerirem mais a seguir, nas suas refeições orgíacas. E os chineses, com os seus arrotos educativos, chegam cada vez mais a todo o lado, acompanhando-os.

 

Sem gravata, com tais menus, é um fartote de arrotos, como medidas de salvação nacional.

 

Se bem que a bolota de que os porcos do menu se alimentaram em vida deva ser um bom exemplo para o corte nas gorduras que os do governo prometeram, expliquei à minha amiga com ponderação. É meio caminho andado para a dieta nacional de povo gordo, a precisar de bolota para a supressão prometida das gorduras. O governo começa por mostrar o caminho. O porco de bolota para ele ainda. Para o povo a bolota, qualquer dia.

 

 Berta Brás


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:51
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GUERRA ESTÚPIDA PERDIDA

(*) 

Depois da Guerra pior que antes da Guerra – veja-se Iraque

 

O colonialismo moderno apenas acrescenta ao antigo a qualidade do seu cinismo. Não faz guerra, encontra-se simplesmente em “missão”. Intervém, não em nome do petróleo e das matérias-primas mas em nome da democracia, dos direitos humanos, da defesa de grupos ameaçados, em prol da estabilização. “Arranja” até aliados dentro das sociedades islâmicas que lhe pedem ajuda. Assim, o zé-povinho continua consolado nas suas quintas a queixar-se do colonialismo de antanho e distraído do colonialismo moderno de que vive também. Para branquear o próprio rosto, no Afeganistão e no Norte de África, fala de conversações com talibans moderados, com islamitas mitigados e quejandas, como se houvesse moderação e esta fosse possível num sistema político-religioso déspota.

 

Os 28 ministros da defesa dos 28 países da aliança, na sua reunião de 3.02.12 em Bruxelas, persistiram em continuar a guerra, que apelidam de “missão”, até 2014. Os falcões da guerra gostariam de ver a permanência da Nato no Afeganistão ainda por mais tempo. Agora trata-se de ver quais os países que abandonam primeiro o Afeganistão, para não ficarem todos na História como renitentes do fracasso. Falam de já terem entregado 21 das 34 províncias às forças de segurança afegãs mas na realidade isso só se concretizou em 8.

 

Durante e depois das guerras só ganha a indústria da guerra e seus adjuntos. Facto é que a Nato perde todas as guerras em terrenos muçulmanos. A ganância do petróleo turba-lhe a razão.

 

Quando se encontram encurralados pelo sistema muçulmano, então falam de guerras e guerrilhas tribais, de Talibans e de terroristas. Esquecem que o sistema muçulmano é, na sua essência, um sistema político e social de guerrilha ad intra e ad extra perpetuado pela religião.

 

Em dez anos de intervenção a Nato não conseguiu sequer criar alternativas ao cultivo da droga no país. O Afeganistão continua a produzir 90% do ópio para o consumo a nível mundial.

 

Depois de 10 anos capitula a Nato como capitulou a Rússia. Quem se mete com os muçulmanos apanha. Não precisam de guerra, basta-lhes a guerrilha. Os nossos antepassados lusitanos usavam a mesma estratégia contra os Romanos e estes só depois de 200 anos de luta conseguiram dominar os guerrilheiros de Viriato mas só depois de ajudados pela traição.

 

As direcções da Nato admiram-se das forças de segurança afegãs que formaram terem no seu meio homens bomba que repetidamente assassinam os colegas ocidentais à margem das áreas de batalha. Falta-lhes a fé!...

 

A derrota da Nato no Afeganistão é mais uma depois da do Iraque. O problema é que depois da guerra o Ocidente continuará a despender como continuam a pagar caro a “paz muçulmana” no Kosovo.

 

Actualmente encontram-se 130.000 soldados estacionados e desesperados no Afeganistão. Quebram-se a cabeça não compreendendo como é que tanto poder militar não consegue ter a força para dominar o terrorismo. Equivocam-se ao pensar que este, é o fruto de algumas cabeças desorientadas e não a flor da seara muçulmana, como nos mostra a história contemporânea e a história da sua origem.

 

Em 2014 os soldados da Nato retirar-se-ão mas para não darem a impressão de capitulação continuarão a pagar quotas elevadas de “reparação”. A sociedade civil herda os encargos de “reparação” além das famílias de soldados destrocadas pela dor e pelas mortes.

 

Cabul é uma cidade de muros intra muros

O «negócio» dos islamitas é assassinar e meter medo

 

Em Cabul, até os hotéis, onde vivem estrangeiros, fazem lembrar prisões. Encontram-se cercados por arame farpado para que os jornalistas, que vivem da informação guerreira, possam, em paz, mandar mensagens optimistas para a opinião publicada nos países da Nato.

 

Quem não trabalha para o estrangeiro não precisa de muros, dizia, há dias, um jornalista afegão numa reportagem sobre o Afeganistão no ZEIT. Apesar de tudo, a pobreza e a ideologia vivem mais recolhidas em Cabul.

 

A sociedade islâmica, geralmente, prescinde duma ordem que não seja assegurada pelo poder das mesquitas ou que não se encontre nelas. Por isso uma ordem civil forte com polícia e militares submetidos a um governo neutro é combatida por um sistema que se quer revolucionário islâmico com expressão política às sextas-feiras depois das orações nas mesquitas.

 

Os militares ocidentais não patrulham a cidade para que a cor das suas fardas não provoque o sentir islâmico. Os soldados ocupantes são tolerados pela população para lhe possibilitarem a segurança nas visitas aos familiares que vivem a 30 km de Cabul, para localidades mais longe torna-se impossível a protecção.

 

Grande parte do Afeganistão é inacessível devido ao perigo de ataques. É mais cómodo para os soldados viverem no gueto e deslocarem-se de avião ou de helicóptero. Cada soldado ocidental morto constitui um perigo porque um acumular-se de tais notícias poderia acordar o povo e este poderia começar a perguntar-se sobre as razoes da presença estrangeira no Afeganistão. Isto contrariaria a estabilidade da opinião pública a manter pelo sistema dos países da Nato. Por isso a melhor informação é não haver informação, como acontece relativamente ao Kosovo. Para evitar mais mortos as forças militares estrangeiras limitam-se a viver em guetos dentro do grande gueto. Um compromisso de sistemas no grande sistema.

 

Naturalmente que o negócio dos islamitas é assassinar e meter medo às pessoas. O caos e os atentados (guerra civil) são o húmus que permite aos mais fortes o domínio da natureza e da cultura. Por isso odeiam como a peste qualquer tentativa de organização estatal que não assente nem assegure a defesa dos mais fortes. A renúncia ao direito de defesa e de vingança individual em benefício duma supra-estrutura Estado, como acontece nas sociedades ocidentais constitui um absurdo.

 

Também é verdade que o Afeganistão, antes da invasão ocidental só conhecia a ilegalidade, a pobreza e a guerra. Agora tem uma organização policial mas o Estado não funciona. A constante é a guerrilha cultivada à sombra das mesquitas. Desde 1996, aquando da conquista do Afeganistão pelos talibans, vive-se em guerra civil.

 

A intervenção da Nato teve a vantagem de dar a provar os benefícios da paz a alguns. Uma geração de crianças, que cresce agora à margem da guerrilha, aprende a gostar da paz. Isto é positivo muito embora o medo continue uma ameaça contínua.

 

Os povos muçulmanos ainda têm uma grande caminhada a fazer em direcção à sociedade civil. Esta porém só poderá ser fomentada através dum sistema militar ditador como aconteceu na Turquia. Todas as outras estratégias têm-se revelado como perda de tempo. Para isso teria uma classe militar laica de constituir uma sociedade económica forte. A longo prazo talvez conseguissem criar biótopos sociais desejosos duma liberdade não açamada à religião. (O exemplo da Turquia já se encontra em perigo).

 

O Ocidente, que só percebe da sua ideologia, não aprende e por isso estará condenado a seguir apenas os seus meros interesses económicos e estratégicos dando uma no cravo e outra na ferradura.

 

De resto, o Ocidente continuará a lançar trigo nos moinhos do islamismo em troca de petróleo e de matérias-primas. Este só pode ser reformado com uma força interna que opere à altura e com os mesmos meios da estratégica muçulmana.

 

 António da Cunha Duarte Justo

 

(*)http://www.google.pt/imgres?q=afeganist%C3%A3o&um=1&hl=pt-PT&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=YHq1PwGNFz7C9M:&imgrefurl=http://www.jagostinho.com.br/%3Fp%3D10016&docid=vz1DAEEWZrvakM&imgurl=http://www.jagostinho.com.br/wp-content/uploads/2009/11/CRIAN%2525C3%252587AS-NO-AFEGANIST%2525C3%252583O.jpg&w=356&h=500&ei=VcfFT5elD4nN0QXSzsjwBQ&zoom=1



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:56
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Terça-feira, 29 de Maio de 2012
MOÇAMBIQUE - VOO PARA A LIBERDADE

 

 

Um livro a não perder.

 

De vez em quando recebo um inesperado presente! Desta vez foi um livro sobre uma tremenda aventura vivida por um grupo que não conseguia sair de Moçambique, logo nos princípios da sua independência.

 

Escrito por um ex-Comando (parece que os Comandos nunca ficam “ex”!) e depois piloto militar e comercial, o Cor. Jorge Cruz Galego
descreve uma aventura que merece ser lida.

 

No livro “MOÇAMBIQUE – VOO PARA A LIBERDADE”, relata como, semi-presos em Moçambique, conseguem sair do país e levar com eles seis aviões. Um feito e tanto.

 

Um relato em que se vê uma perfeita organização numa altura em que Moçambique vivia uma fase de total despotismo e anarquia.

 

 

 

 

 

 

O livro, publicação da Associação dos Comandos, pode ser adquirido através da internet neste site

 

http://www.associacaocomandos.info/joomla/index.php?option=com_virtuemart&page=shop.browse&category_id=5&Itemid=134&vmcchk=1&Itemid=134

 

 

O lema desta Associação – Audaces Fortuna Juvatestá perfeitamente adequado a este feito!

 

Há no livro uma passagem – um diálogo entre o então jovem piloto e um antigo oficial alemão que depois da II Guerra se estabeleceu,
sozinho e vivendo numa cabana na Praia das Chocas, norte de Moçambique, quando este, a propósito da situação que se estava a degenerar rapidamente logo após o 25/Abril lhe diz:

 

- Se as coisas mudarem, nunca serão melhores para ninguém!

 

- Você deve preparar-se para coisas difíceis. Vai descobrir que os bons não são os que você pensava, e que os maus vão surgir como bons. Não acredite em nenhuns!

 

- A política é uma forma de se estar na vida. E quando se é bom político, esquecem-se os preconceitos, não existe ética au­têntica e a
mentira mais evidente é a verdade mais irrefutável! -

 

- Meu caro amigo. A política e os jogos de poder destroem os melhores exércitos, eliminam os melhores generais e elegem os maiores
trapaceiros, corruptos e incompetentes. Se alguma coisa acontecer em Lisboa semelhante ao que tem acontecido, ao longo da História, como você ainda é novo, veja isso de longe!

 

- Se assim o não fizer, e por mim falo, por saber que é praticamente impossível devido à sua integridade, junte-se a eles, mas nunca
traia os seus princípios!

 

- No fim, o resultado é sempre o mesmo. Verá que, se não ficou pior do que está, ficou pelo menos bem melhor com a sua consciência.

 

Palvaras sábias que poderiam ter sido inscritas na história desde os seus primórdios, e que continuam tão atuais como o diário nascer e pôr do sol!

 

De fato a política muito mais destrói... se alguma vez conseguiu construir o que quer que seja.

 

Não precisamos ir muito longe: basta ver o que se passa na Europa e... no pais do tal futuro.

 

 

Rio de Janeiro, 26/05/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:21
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AÇORIANOS EM TERRAS BRASILEIRAS

 

 

Rugendas, Brasil séc. XIX

 

 

Seja por vocação ou necessidade, a emigração sempre foi uma sina na vida dos ilhéus açorianos.

 

Arquipélago oficialmente descoberto pelos portugueses, por volta de 1440, os Açores tiveram suas nove ilhas desabitadas paulatinamente ocupadas por portugueses do continente, madeirenses, flamengos (Brum, Bulcão, Silveiras, Dutra, Terra, Gularte ou
Goulart, Rosa, Grotas) espanhóis (Bom-Dias, Arriagas,) alguns
franceses (Berquós, Bettencourt, Labat), ingleses (Currys, Streets, Whytons), judeus (Bemsaúde) e africanos (escravos),
emigrados de outras partes do antigo Império Português, ou de terras que com
Ele tinham relações políticas de comércio, ou parentesco.

 

O ar salutar, o solo fértil, vulcânico, porém sujeito aos caprichos da natureza, e a paz reinante, longe dos movimentos geopolíticos que abalavam o mundo, proporcionavam ao longo do tempo um crescimento populacional gradativo que em momentos de crise frumentária e sísmica sofria com a falta de alimentos. Essas situações periódicas associadas à má política dos donatários (em geral gente da nobreza portuguesa), onde as melhores parcelas de terra eram doadas aos parentes e amigos, restando aos colonos, que com eles aportavam às ilhas, os piores nacos de terra, levavam a dificuldades de subsistência e a um desequilíbrio social deplorável, principalmente nas ilhas mais populosas. A emigração foi a solução encontrada e adoptada todos esses anos de existência ilhoa.

 

Para os governantes portugueses as ilhas açorianas foram uma fonte de recursos humanos que supriram as necessidades da pátria. Ocuparam espaços, desbravaram e patrulharam caminhos, defenderam fronteiras, fundaram e povoaram vilas, lutaram em frentes de guerra, foram mão-de-obra barata, silo de grãos nas boas épocas de colheita.

 

Pelas histórias contadas de riqueza e beleza, pela facilidade da língua, pelos amigos e parentes que lhes antecederam, os locais de eleição para imigração foram, nos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX, as terras brasileiras, embora o Alentejo, em grande escala, e América do Norte, em menor proporção, também tivessem sido a opção de muitos açorianos.

 

Nos últimos dois séculos os Estados Unidos da América e Canadá tornaram-se, pela prosperidade e oportunidades que ofereciam, os países de primeira escolha para a imigração dos ilhéus. No Havaí e em outros países menos procurados (Venezuela, Uruguai e Argentina) a passagem açoriana ficou marcada nas comunidades que fundou e nos descendentes que guardaram as suas raízes.

 

No Brasil chegaram com os portugueses do Continente e da Madeira como desbravadores e colonizadores para cultivar a terra, rastrear e explorar riquezas, abrir e patrulhar picadas, resguardar espaços, fundar vilas que se tornariam as futuras cidades brasileiras. Com os índios locais e negros trazidos das possessões africanas, miscigenaram-se. Na insana lida da conquista, os mais simples esqueceram raízes, porém, perseveraram na fé e nas crenças, mantiveram hábitos e costumes, legaram sua língua e cultura aos seus descendentes, participaram efectivamente na formação do povo brasileiro.

 

A emigração oficial sempre se dava com o apoio financeiro e material dos governos e contratantes de mão-de-obra que aguardavam no desembarque. Mas como tudo tem um preço, eles haveriam de trabalhar por muito tempo para pagar o investimento dos patrões, antes de conseguir a independência ou... a morte. Paralelamente à emigração regulamentada, havia também a clandestina, bastante numerosa, facilitada pela dificuldade de controlo das autoridades em policiar o entorno marítimo das ilhas, pelo isolamento do arquipélago, pela escuridão oportuna da noite, e pela ajuda de comandantes de navios que faziam vista grossa no intuito de auferir lucros mais adiante. Era a saída mais aventureira, onde à chegada não haveria nenhuma ajuda, só riscos e canseiras.

 

Nos primeiros tempos vinham poucos, esparsamente. Depois em levas mais ou menos importantes para experimentos colonizadores determinados, como em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Amapá, e finalmente em pequenos grupos familiares ou mesmo isolados para encontrar parentes ou amigos já assentados ou estabelecidos. Saídos das ilhas em barcos contratados, chegavam ao país pelos portos coloniais (Recife, Salvador, Rio de Janeiro). Em terra, migravam em diáspora, pulverizados, para os locais que lhes chamavam ou para onde eram encaminhados pelo governo. Norte (Amapá, Maranhão e Pará), nordeste (Pernambuco e Bahia), Espírito Santo, Rio, Regiões auríferas, interior paulista e mineiro, sul do Goiás, minas de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina,... Iam para onde a sorte lhes acenava.

 

Esperava-os a aventura da incerteza e aqueles compatriotas que lhes antecederam e que poderiam lhes dar apoio na difícil empresa de sobreviver numa terra estranha.

 

Oficialmente, a primeira entrada de um grupo de açorianos em solo brasileiro se deu em 1619. Foram 300 casais que vinham para se estabelecer no Maranhão após a expulsão dos franceses. Mais tarde em 1675 saíam 50 casais do Faial, vitimas do vulcão de 1672 (Praia do Norte), e que foram mantidas pela bondade do governador da ilha, Jorge Gularte Pimentel, até 1675, quando partiram para o Brasil. Chegaram ao Grão-Pará em 1676 para servir como colonos e mão de obra nas plantações daquele espaço amazónico.

 

Em 1679, na Graciosa, e em 1719, no Pico, novas erupções vulcânicas obrigaram os ilhéus sinistrados a emigrar para a América Portuguesa, desta vez para a Colónia de Sacramento. Embora não haja a certeza da chegada desses ilhéus, o certo é que há conhecida descendência açoriana em terras uruguaias. Em 1740, um destacamento militar formado com homens das ilhas açorianas se instalou no Amapá e fundou Macapá, sua capital. Em 1770 a fundação do Município de Mazagão se deu na origem de Mazagão Velho, quando a Coroa portuguesa mandou para lá 163 famílias de colonos portugueses cristãos, oriundos do Castelo de Mazagran, (El Djadidá) Marrocos, que se conflituaram com os mouros islamitas.

  • Em 1723, no sudeste, são conhecidos alguns açorianos que marcaram a região (Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, e interior de Minas), através da sua descendência. Eram ilhéus migrantes de outras partes do território brasileiro que chegavam em busca de terras e riqueza.
  • O enorme afluxo de gente que a descoberta do ouro e as disputas para a exploração do metal (Guerra dos Emboabas- luta entre os paulistas, descobridores das minas, e os portugueses e brasileiros vindos de todos os lados) proporcionou, tornou o comercio de carne e alimentos uma ocupação muito rentável. Mesmo com o declínio da produção aurífera e diamantífera, com a situação mais apaziguada, os migrantes passaram a procurar terras para o cultivo e criação de gado, era uma nova e atractiva possibilidade para conseguir uma vida mais digna e estável. O sertão estava à espera de quem tivesse força e coragem para conquistá-lo. O governo através de seus representantes políticos e militares apoiava-os, montando troços militares pelos caminhos, distribuindo terras (sesmarias) a quem se dispusesse a ocupá-las. Assim é que os migrantes brasileiros e portugueses foram empurrando os negros dos quilombos e os índios cada vez mais para o interior, destruindo-os ou assimilando-os, tomando-lhes o espaço.
  • Segundo o genealogista e historiador, José Guimarães, em São João Del Rei, por volta de 1723, é conhecida a presença das três ilhoas faialenses (Antónia da Graça, Júlia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus) que vinham para se encontrar com Diogo Garcia, seu conterrâneo aparentado e futuro marido de Júlia Maria. Dos casamentos dessas açorianas, com patrícios, se originaram os troncos de várias e importantes famílias mineiras.
  • Fato semelhante ocorreu no século XIX, no actual Espírito Santo, quando entre 1813 e 1814 chegaram quatro levas de açorianos (200 indivíduos) para fundar a colónia de Santo Agostinho (hoje Viana). Conta a história que, quando o governador, Francisco Alberto Rubim da Fonseca e Sá Pereira (1795-1890) recebia um grupo de ilhéus (da Horta-Faial), viu um dos guardas do palácio do governo, Antonio de Freitas Lira, encantado com a beleza de uma das seis irmãs faialenses (Luiza Aurélia da Conceição), tocar os cabelos da jovem, irritado, como desagravo, declarou no ato o noivado deles. Verdade ou não, o fato é que três meses depois casaram. Em breve, todas elas se transformariam em matriarcas de destacadas famílias capixabas.
  • Entre os primeiros povoadores de arraiais e vilas de Minas, Mato Grosso do Sul e sul goiano, não é difícil encontrar a presença açoriana. Pamplonas em Formiga, Botelhos em Araxá, Borges, Vilelas, no Prata. Junqueiras, Rodrigues da Cunha, Terras, Goulart, em Uberaba...
  • Mas sem dúvida alguma a maior e mais marcante leva ilhoa ocorreu no sul do país. Pode-se dizer que grande parte dos portugueses que para lá foram são das ilhas, o que se pode verificar nos arquivos legais e histórias familiares dos seus descendentes.
  • Foi um processo estimulado pela Coroa (D. João V) que por razões políticas e estratégicas visava à solução de dois problemas. Aliviar o arquipélago de gente, e ocupar e defender o sul brasileiro das investidas estrangeiras. Só para Santa Catarina, entre 1748 a 1752 foram, principalmente, das ilhas centrais do arquipélago dos Açores (Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa) cerca de 6000 pessoas. Para a época, quando o sul era pouco povoado, pode-se dizer que foi quase a translação de uma população.
  • Santa Catarina e Rio Grande do Sul são os estados brasileiros onde mais se encontram sinais desses emigrantes, seja na genética, na arquitectura, na religiosidade ou na cultura popular. Os manezinhos, descendentes dos antigos povoadores açorianos, ainda conservam alguns dos seus hábitos e costumes. Não é sem motivo que chamam a ilha de Santa Catarina (onde está a Capital Florianópolis) a décima ilha açoriana.
  • A cada situação de fome ou desequilíbrio social, a emigração era a solução. Em 1771 e 1774 saíram da Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Flores e Corvo 301 pessoas. Destino Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e Pernambuco.
  • Em 1779 e 1785 outras levas (900 casais), principalmente de São Miguel, e em menor escala do Faial, dirigiram-se para o Alentejo, desta vez com patrocínio particular (Intendente Pina Manique), porém com o assentimento da Coroa. Deixaram o arquipélago desfalcado de braços para as lavouras. Em 1800, 1807 e 1813 dá-se notícia de mais casais açorianos na Bahia. Facilitava a transferência da Coroa Portuguesa para o Brasil.
  • Mas foi após a Revolução Liberal Portuguesa, em 1820, que a emigração deixou de ser limitada pelo governo. A crescente procura de gente para a lavoura de café, e de jovens açorianas para serviços domésticos (eram solicitadas com preferências; morenas de olhos negros, claras de olhos azuis,...) pelos fazendeiros, estimulava a levas cada vez maiores de açorianos. Ao chegar, sem condições vantajosas de negociação, muitas dessas pessoas tornaram-se verdadeiras escravas brancas. As jovens rejeitadas, sem ter como se sustentar, terminavam desgraçadamente na prostituição. Inúmeras viviam em prostíbulos, morriam à míngua.

A mobilização militar também trouxe para o Brasil gente açoriana, principalmente a partir do século XVII, sob a dominação filipina. A Holanda era a maior inimiga. Em 1766 seguiram de S. Miguel para o Rio de Janeiro 400 recrutas e em 1774 a Coroa requisitava mais 600. Em 1776, foram 890. Esvaziavam as ruas de São Miguel e das outras ilhas de vadios, as cadeias de prisioneiros, de gente à toa. Ao término do tempo de serviço os soldados podiam optar por voltar ou ficar como paisanos no Brasil, com reforma. Os recrutamentos continuaram até que o decréscimo populacional quase paralisou as ilhas, em especial São Miguel, que viu em 20 anos diminuir a população em mais de 10 mil pessoas.

 

Fugindo do serviço militar, da miséria ou por índole aventureira, a emigração açoriana foi uma epopeia que deixou rastro por onde passou. Mesmo na actualidade, em que a emigração/imigração é um fato corriqueiro num mundo globalizado, como emigrante açoriana que sou, deixo, no país que adoptei para viver, geração luso-brasileira que há de continuar no sangue e no viver as marcas que trago do meu povo.

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 28/05/12

 

DADOS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Emigração Açoriana (Luís Mendonça e José Ávila)
  • Anais do Município da Horta (Marcelino Lima)
  • Famílias Faialenses (Marcelino Lima)
  • Memória genealógica das famílias faialenses (Francisco Garcia do Rosário)
  • A Oeste das Minas. Escravos, Índios, homens livres numa fronteira oitocentista. Triangulo Mineiro (Luis Augusto Bustamante Lourenço)
  • WWW. Potyguar.com.br/Amapá/primeiros colonos
  • Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (n.º 66. 211).
  • As Famílias Portuguesas Radicadas no Espírito Santo (Artigo de Paulo Struck de Moraes Vice-presidente do IHGES)
  • Povoadores do Sertão do Rio da Prata (Benedito António Miranda Tiradentes Borges)

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:59
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Segunda-feira, 28 de Maio de 2012
AGRICULTURA, RESPOSTA PARA A CRISE ECONÓMICA

 

Queridos irmãos e irmãs:

(…)

A crise económica actual, sobre a qual se tratou também nestes dias na reunião do chamado G20, deve ser concebida em toda a sua seriedade; esta tem numerosas causas e exige uma revisão profunda do modelo de desenvolvimento económico global (cf. encíclica Caritas in veritate, 21). É um sintoma agudo que se somou a outros também graves e já bem conhecidos, como o perdurar do desequilíbrio entre riqueza e pobreza, o escândalo da fome, a emergência ecológica e, actualmente, também geral, o problema das greves. Neste quadro, parece decisivo um relançamento estratégico da agricultura. De facto, o processo de industrialização às vezes ensombrou o sector agrícola, o qual, ainda contando com os benefícios dos conhecimentos e das técnicas modernas, contudo, perdeu importância, com notáveis consequências também no campo cultural. Este parece ser o momento para um convite a revalorizar a
agricultura, não em sentido nostálgico, mas como recurso indispensável para o futuro.

Na situação económica actual, a tentação para as economias mais dinâmicas é a de recorrer a alianças vantajosas que, contudo, podem acabar sendo prejudiciais para os Estados mais pobres, prolongando situações de pobreza extrema de massas de homens e mulheres e esgotando os recursos naturais da Terra, confiada por Deus Criador ao homem – como diz o Génesis – para que a cultive e proteja (cf. 2, 15). Além disso, apesar da crise, consta que nos países de antiga industrialização, se incentivam estilos de vida marcados por um consumo insustentável, que também acabam prejudicando o ambiente e os pobres. É necessário dirigir-se, portanto, de forma verdadeiramente concertada, a um novo equilíbrio entre agricultura, indústria e serviços, para que o desenvolvimento seja sustentável, não falte pão para ninguém e para que o trabalho, o ar, a água e os demais recursos primários sejam preservados como bens universais (cf. Caritas in veritate, 27).

Para isso, é fundamental cultivar e difundir uma clara consciência ética à altura dos desafios mais complexos do tempo presente; educar-se num consumo mais sábio e responsável; promover a responsabilidade pessoal junto à dimensão social das actividades rurais, fundadas em valores perenes, como o acolhimento, a solidariedade, a partilha do cansaço no trabalho. Muitos jovens já escolheram
este caminho; também muitos licenciados voltam a dedicar-se à empresa agrícola, sentindo responder assim não somente a uma necessidade pessoal e familiar, mas também a um sinal dos tempos, a uma sensibilidade concreta pelo bem comum.

(…)

 

Cidade do Vaticano, Domingo, 14 de Novembro de 2010

 

 BENTO XVI



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:27
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Videiras resistentes ao míldio e ao oídio

 Mildio

 Oídio

 

Creio que as principais doenças da videira continuam a ser o míldio e o oídio.

 

Esses dois fungos foram introduzidos na Europa nos meados do século XIX, vindos da América e causaram verdadeiros desastres nos países europeus onde a cultura da vinha era importante. Encontrou-se forma de os combater e passou a ser possível produzir bem as uvas mas com o encargo de várias aplicações de fungicidas e com os consequentes prejuízos para o ambiente. Tal como com outras doenças das plantas, o melhor "combate" é a utilização de variedades geneticamente resistentes a essas doenças.

 

Nas publicações do INRA (o Instituto Nacional de Investigação Agronómica, da França) que já referi em artigo anterior, refere-se que o Instituto já tem em fase avançada e com bons resultados a criação de videiras resistentes ao míldio e ao oídio, obtidas por cruzamentos com diversas espécies de videiras. Logo que se confirmem os bons resultados já conseguidos e se faça a necessária multiplicação, o INRA espera lançar na lavoura e incluir no Catálogo de Variedades essas videiras.

 

Não posso deixar de lembrar que, há já umas boas décadas, o saudoso Professor do Instituto Superior de Agronomia Engenheiro Miguel Pereira Coutinho tinha trabalhos sobre videiras resistentes ao míldio que, embora em fase inicial, se mostravam promissores. Se tais trabalhos tivessem sido continuados - e também extensivos ao oídio - talvez Portugal já tivesse hoje videiras de qualidade e com essas resistências. O que isso representaria para a nossa agricultura seria uma grande economia na aquisição e aplicação dos pesticidas e uma boa contribuição para o ambiente. Do muito que se pode fazer na criação de novas e melhores variedades de videira, o único caso de grande êxito de que tenho conhecimento foi a obtenção da uva 'D.Maria', resultado de cruzamentos e selecção, trabalho do também infelizmente já falecido Engenheiro José Leão Ferreira de Almeida.

 

Termino com a mesma frase do artigo anterior: Como eu gostaria que os governantes portugueses fossem capazes de aprender estas lições!

 

 

 Miguel Mota

 

Publicado no Linhas de Elvas de 10 de Maio de 2012



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:11
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Domingo, 27 de Maio de 2012
O SER DE TER

 

Nem sempre são animais

As personagens irreais

Dos fabulistas passados.

Com humanos e duendes

A fábula que se segue,

De La Fontaine,

Cumpre a mesma função

De lição

Que as dos animais

De maior ou menor estimação

Das fábulas normais:

 

«Os desejos»

Há no Império Mogol uns duendes

Que fazem ofício de criados aplicados.

Mantêm limpa a casa, tratam do mobiliário

E por vezes da jardinagem,

Sempre com muita coragem.

Se alguém mal informado

Se mete no seu trabalho,

O caldo fica entornado.

Um deles, outrora,

Cultivava o jardim de um bom burguês,

Trabalhava sem barulho,

Com habilidade e pachorra,

Amava o senhor e a senhora

E sobretudo o jardim.

Deus sabe se os Zéfiros,

Povo amigo do demo,

Não o ajudariam na tarefa.

O duende, por seu lado,

Trabalhando sem descanso,

Cumulava de prazeres os seus amos bem-amados.

Para maiores mostras do seu zelo

Ter-se-ia mantido para sempre na mansão

Dos seus senhores,

Não obstante a ligeireza

Tão natural nos seus pares;

Mas os espíritos seus confrades

Tanto fizeram, que o chefe desta república,

Por capricho ou por política,

Mudou-o de apartamento.

Ordem lhe chegou num momento

Para, nos confins da Noruega,

Ir trabalhar e cuidar

Duma casa precisada,

De neve sempre coberta;

E de Hindu que era, virou Lapão.

Antes de partir, saudoso,

Disse o espírito aos seus hóspedes,

Melindroso:

“Obrigam-me a deixar-vos:

Não sei por quais erros meus;

Mas enfim é necessário, não posso ficar senão

Algum tempo mais, um mês,

Uma semana talvez.

Empregai-a; três desejos formulai,

Porque poderei

Três desejos satisfazer:

Três e nenhum mais».

Desejar não é uma pena

Estranha e nova aos humanos.

Estes, como primeiro voto, pedem a abundância;

E a abundância, às mãos cheias,

Em seus cofres lança a finança;

Nos seus celeiros o trigo, os vinhos nas suas caves;

Tudo de fartura rebenta. Como gerir tanta fartura

Sem impostura?

Quantos registos, cuidados, tempo vário

Lhes foi necessário?

Ambos ficam embaraçados de modo extraordinário.

Os ladrões contra eles conspiraram,

Os grandes senhores empréstimos lhes pediram,

O príncipe de impostos os taxou.

Ei-los que estão

Infelizes até mais não

Pelo excesso de fortuna que os esmagou.

“Tirai-nos destes bens a influência importuna -

Disseram - Felizes os indigentes

Tão pouco importantes!

A pobreza vale mais do que tal fortuna.

Retirai-vos, tesouros; fugi.

E tu, deusa do belo espírito,

Companheira da serena alegria,

Doce mediania, volta depressa.”

A estes dizeres a mediania regressa.

Com ela, eles entram em graça,

Ao fim dos dois desejos, tão desastrados que foram,

Como são todos aqueles que sempre ambicionaram

E em quimeras perderam

O tempo que a trabalhar deviam

Ter estado,

O duende riu com eles do tempo mal empregado

No recente passado.

Para aproveitarem a sua generosidade,

Quando estava prestes a partir

Pediram, como terceiro desejo,

A sabedoria, para sua felicidade.

É um tesouro que, pela sua ligeireza

Não embaraça

Nem permite a trapaça.

 

Aqui está mais uma fábula de um saber universal

Que não tem uma aplicação geral.

Qual de nós era capaz

De desdenhar assim uma fortuna

Tão oportuna?

Até porque logo pensaríamos

Em escondê-la em qualquer paraíso fiscal

Que nos impedisse

De pagar as taxas que o Estado nos exigisse!

Que agora já não é como antigamente,

Tempo vulnerável e inclemente.

E também porque hoje em dia a sabedoria

Jamais seria suficiente a uma áurea mediania

Que não faz préstimo nem causa alegria.

Porque a maior virtude

Consiste em acumular riqueza,

Não só pela incerteza

De um futuro inseguro,

Como pelo esplendor

Que resulta do ter

Mais do que do ser.

Na safra do saber ter

A ninguém já importa o saber ser.

Embora me pareça que o ser

Se define melhor com o ter.


 Berta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:14
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E SE KANT SOUBESSE ARITMÉTICA?

 

 

As guardiãs do templo encarregavam-se de transmitir aos crentes as respostas dos deuses. Faziam-no por palavras vagas e sentidos amplos de modo a que todas as realidades que no futuro o problema respondido pudesse assumir ficavam cobertas pelas sábias respostas. Os deuses nunca se enganavam e o comércio divino ficava assegurado.

 

Embuste puro.

 

A clareza da comunicação está na razão directa da seriedade do comunicador e só embusteiros podem afirmar que a clareza se confunde com inocência.

 

Antes de agarrarmos na caneta (ou de começarmos a mexer os dedos sobre o teclado), temos que definir exactamente o que queremos dizer. Em primeiro lugar, temos que saber como a «história acaba»; a escrita é a construção do silogismo que conduz à conclusão. Se assim não for, a divagação impera, a leitura cansa, os jogos de palavras ridicularizam o escritor, a mensagem esvai-se e corre-se o risco da crítica de que andamos por cá apenas a consumir oxigénio.

 

«E tudo esprimido, deu em nada» – eis o que muito me apetece dizer quando leio certos filósofos que mais parecem pitonisas ou holandeses errantes ao leme de navio fantasma: parece não saberem onde querem chegar, não têm rota definida, jogam com as palavras como se fossem poetas, escrevem frases longuíssimas que parecem destinadas a levar o leitor à errância. E aplicam palavras de quilo demonstrando grande erudição.

 

Nós, os leigos que pagamos impostos, ficamos espantados com tanta sapiência, gastamos o chão a caminho dos dicionários da nossa própria língua e chegamos ao fim com a consciência de grande ignorância, se não mesmo de estupidez: fé no oráculo e espanto frente à pitonisa.

 

E, contudo, as coisas podiam ser muito mais fáceis. Corria-se o risco de perda do encanto perante raciocínios de grande erudição sobre conceitos tão gerais que só um deus concebe mas, em compensação, haveríamos de perceber a filosofia com relativa facilidade, a escrita enxuta seria a norma e a transparência dos raciocínios atrairia mais crentes.

 

E como os maiores filósofos da História tinham outras profissões que não essa de andarem pelos jardins a filosofar, aqui fica a sugestão para quem se profissionalizou nesses pensamentos que de tão elevados ninguém de bom senso lhes chega: agarrem num desses filósofos e decomponham-lhes as frases de modo inteligível pelo comum dos mortais.

 

Mas antes de iniciarem a tarefa, vão aprender um pouco de aritmética e de matemática elementar.

 

Todos sabemos que uma frase tem que ter sujeito, predicado e complemento directo mas caso este falte, conclua-se a frase com reticências para que tudo fique na tal vacuidade tão ao vosso gosto, filósofos de profissão.

 

E se se considerar que uma vírgula corresponde ao sinal mais (+) somando duas ideias e o «e» corresponde ao sinal vezes (x) misturando duas ideias, tudo se torna mais lógico e enxuto. E não hesite em fazer frases curtas apenas com uma ideia pondo os conceitos complementares entre parênteses ou mesmo em notas de rodapé.

 

Prezado jovem filósofo de profissão: se tiver inquilinos que lhe paguem rendas confortáveis, agarre-se à “Crítica da razão pura” do seu mestre Kant e pode ter a certeza de que fica com trabalho para o resto da sua longa vida. Não ficará na História como um grande produtor de filosofias novas mas as hostes que lhe pagam as rendas hão-de ficar-lhe agradecidas por ter desmantelado um mito. Mas não explique, traduza apenas.

 

E se Kant soubesse aritmética? Eventualmente, os crédulos transformavam-se em crentes.

 

Lisboa, Maio de 2012

 

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:29
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