Domingo, 31 de Janeiro de 2010
A GERAÇÃO DO ECRÃ

 

 Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.

Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os Morangos com açúcar, só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.
Os Protagonistas: Morangos com açúcar
 Engenheiro australiano cria morangos em forma de coração
 Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos – bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo e o caso arrumava-se.

Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a Sr.ª ministra - que não entra[1] numa escola sem avisar - é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas).

Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo e foi levado à televisão e agora, sim, sabemos finalmente que a violência existe!

O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.

Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador.

Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar.

Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs.

E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano.

E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.

Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido.

Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho.

E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.

A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam Contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.

A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.

A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento.

E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.

E nós deixamos. 
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Alice Vieira


[1] - Texto escrito durante a vigência do Governo anterior; entretanto a Ministra mudou; a violência não.


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:04
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Sábado, 30 de Janeiro de 2010
MEDIDAS DE POLÍTICA PARA 2010

 

7ª RESPOSTA
 
Procuro responder dando algumas sugestões para se desanuviar o ambiente económico:
  • Contenção da Despesa Pública – não crescer acima do crescimento nominal do PIB
  • Investimento Público – há que definir opções, sendo certo que Aeroporto + TGV + Auto-estradas, entre eles há que escolher o que será eliminado. Eu escolheria Auto-Estradas, por ser aquilo que o país menos precisa, dado já dispor de uma razoável rede das ditas. Fasearia a construção do TGV – linhas Lisboa – Porto e Porto – Vigo (ou mandaria esta linha às malvas, pois não tem qualquer tipo de justificação económica, apenas para ligar as redes espanhola e portuguesa).
  • Voltar a desenvolver um culto de apoio à INDÚSTRIA – actividade que Portugueses e Europeus cada vez mais desdenham. E com isto quero também dizer que as Tecnologias de Informação são uma indústria, o Software é uma indústria, etc. Voltar a uma política agressiva de captação de investimento estrangeiro (Norte Americano, Europeu ou Japonês, Chinês só em última instância).
 
Miguel Allegro de Magalhães   

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:05
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
burricadas 63

 

lá vamos, cantando e rindo
 
v        Não há discussão sobre o tema do casamento que não desagúe no argumento de que a Família é o único e definitivo esteio da Sociedade. Como poderia, então, a Sociedade sobreviver ao colapso da Família?
v        É claro que as Sociedades modernas devem mais à divisão do trabalho e à segurança jurídica do que à Família. Mas isto não invalida que a integração de novos membros numa comunidade pré-existente não seja uma questão deveras importante: nenhuma comunidade viverá para contar se não se renovar simultaneamente no plano demográfico e cultural.
v        Admitindo a bondade do argumento: de que “Família” estamos a falar? E que forma de a constituir, que tipo de matrimónio temos em mente?
v        Os Romanos, previdentes, não faziam a coisa por menos: três, talvez quatro tipos. Confarreatio (uma solenidade que veio inspirar o casamento cristão), usus (ou união livre), coemptio (baseado nas arras a pagar pelo marido) - e o raptus que, após o episódio das Sabinas, ficara mal visto, apesar de nunca ter perdido os seus adeptos. E Roma gerou um Império, sustentou-o durante vários séculos, preocupou-se com o Direito e conheceu diversas formas de divisão de trabalho.
v        Na Índia Védica, era a Sociedade que desenhava os tipos de matrimónio e não o contrário: para os sacerdotes, o ritualizado casamento brahma; para os guerreiros, os expeditos ragsava (rapto) e gandharva (união livre); para mercadores e produtores, o prático asura (compra da noiva). E dessa Índia distante veio-nos, entre outros tesouros culturais inestimáveis, o 0 (invenção genial quando há que descrever, com um módico de palavras, uns tantos à nossa volta).
v        Os nossos avós medievais pouco se afastaram do que se pode designar, com propriedade, por modelo indo-europeu de matrimónio: o casamento ritualizado, que servia às mil maravilhas para a alta nobreza, em complicadas manobras diplomáticas, reforçar o poder, preservar a riqueza e assegurar a linhagem; o rapto, onde a cumplicidade da noiva levava a melhor sobre a oposição da sua parentela; a união livre, ou barregania, ora diletantismo de poderosos, ora recurso de infanções e cavaleiros para se ligarem às grandes linhagens e, assim, ascenderem na escala social; e a compra da noiva, muito em voga entre mercadores e vilãos com cabedais. O povo, povo, esse vivia a sua vida sem se preocupar por aí além com modelos sociológicos.
v        Para uma Igreja que queria, à viva força, ser o referencial supremo dos comportamentos humanos, só um tipo de matrimónio interessava: justamente aquele onde intervinha, não tanto para selar a vontade dos noivos, mas, acima de tudo, para validar o pacto entre duas linhagens e condenar eficazmente quem o violasse.
v        A vontade que, no modelo indo-europeu (e, por consequência, romano-germânico), era a causa constituinte e a condição de validade do matrimónio, tornava-se até dispensável no modelo canónico. Para a Igreja, essencial era o seu ritual e a sua bênção.
v        Não foi fácil à Igreja impor aos povos da Europa a sua visão do casamento. Tudo começou, talvez, com o II Concílio de Latrão (1139), aquele mesmo que estabeleceu também o celibato dos religiosos (regulares e seculares). E, entre combates ideológicos e violências várias, esta era ainda uma questão longe de estar resolvida por todo o séc. XVI.
v        Como é bem de ver, não foi a Família que resulta do casamento canónico a servir de matriz às Sociedades humanas que vinham do fundo dos tempos – e das quais provimos. Como também não era esta a Família que estruturava as Nações europeias na época medieval (a Canção de Guillaume Le Maréchal (séc. XII) é disso um belo exemplo).
v        A Família que foi moldando paulatinamente Sociedades e mentalidades, à medida que ia integrando uma demografia em expansão, é a Família cognática, ou alargada – quase sempre com epicentro no lado materno. Um modelo que, forçoso é reconhecê-lo, conviveu ao longo da História com todos os tipos de casamento que referi mais acima.
v        Acontece que o dito argumento pressupõe um modelo de Família completamente diferente: a Família agnática, circunscrita ao casal e à sua prole. Esta, sim, a imagem decalcada do casamento canónico que a Lei, para facilitar a prática governativa, erigiu em modelo único.
v        É um fenómeno relativamente recente (alguns qualificam-no de “burguês”, por o considerarem coetâneo da 1ª Revolução Industrial e da criação do Estado Moderno) – e as Sociedades actuais pouco lhe devem em termos históricos.
v        Pressionada pela ideologia religiosa, esmagada por Estados que tudo queriam administrar e regulamentar, fragilizada por taxas de fertilidade que diminuíam a olhos vistos, a Família cognática estilhaçou-se - e dela já nada resta. Mas muitos de nós ainda lhe sentirmos o aconchego, num passado não tão distante assim (pelo menos à escala da História).
v        Resta saber quem a substituirá na nobre missão de integrar na civitas a geração seguinte (e os imigrantes que cheguem). A Família agnática não será certamente, por não ser suficientemente diversa nem estar suficientemente disponível – além de o fenómeno da imigração lhe escapar por completo.
v        Diversidade, disponibilidade, integração cultural e cívica, não dependência de vínculos biológicos – é a Escola que vem imediatamente à ideia. Eis uma das instituições que moldam as Sociedades estruturando-as em Estados politicamente organizados.
v        Por cá, legisladores e governantes, ao incómodo de criarem um quadro propício ao surgimento de Escolas que cultivem a diversidade, que se mostrem plenamente disponíveis, que se dediquem à integração cultural e cívica das novas gerações, que sejam as lídimas sucessoras das Famílias cognáticas, têm preferido o ingrato papel de “patrão dos professores”. Um patrão simpático, um tanto mãos-largas, que lhes garante emprego para a vida, remuneração upa, upa e reforma certinha.
v        Por isso, os sucessivos Governos/patrão, em vez de, como lhes competia, regularem e supervisionarem as escolas quanto ao modo como estas exercem o seu múnus: (1) vêem-se confrontados com conflitos sindicais em que os professores/empregados nada arriscam porque nada têm a perder; (2) à imagem dos outros patrões, têm por objectivo prioritário (a que subordinam tudo o mais) manter pacíficas as relações laborais; (3) e, para que cada professor tenha alunos que lhe justifiquem o estatuto, seja qual for a qualidade do ensino que ministre, proíbem a liberdade de escolha e não tiram partido da disciplina do mercado (mercado que deviam regular, o que não fazem).
v        Não surpreende, pois, que o ensino a todos os níveis esteja como está: num desgoverno. E que Portugal não se preocupe com a matriz do seu futuro.
 
Janeiro de 2010
 
 A. Palhinha Machado


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:32
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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
OBSTÁCULOS AO DESENVOLVIMENTO

 

 
 
 
O trágico terramoto no Haiti atraiu as atenções mundiais para a história daquele martirizado povo. Os pobres haitianos não precisavam de mais esta tortura;  já sofriam desmesuradamente antes do abalo os ter privado em muitos casos de vida e noutros  das sua casas e dos seus haveres terrenos. E porque tem sofrido tanto tal povo?
 
Mark Danner, na sua obra intitulada Haiti, look to History, not to Nature,   diz-nos algo sobre o assunto. No século XVIII, o Haiti, então chamado de Saint-Domingue, era governado pelos franceses e constituía a mais próspera colónia no Novo Mundo. Dotado de solo altamente fértil produzia regularmente abundantes colheitas de açúcar de excelente qualidade e tinha-se constituído em pólo de atracção de milhares de colonizadores franceses. O país tornou-se independente em 1804 por obra de uma revolta de escravos comandada por Toussaint Louverture que derrotou as tropas de Napoleão. Spartacus foi finalmente vingado, enquanto a França perdia a sua melhor fonte de abastecimento de açúcar. Napoleão resignado optou pela promoção doméstica da cultura da beterraba. Os EUA – ao tempo de cultura esclavagista –,   receosos de contágios psicológicos impôs  o isolamento da nova república. (O reconhecimento só viria com Lincoln em 1862 mas as relações comerciais continuaram até hoje fortemente condicionadas). Os revoltados ficaram pois donos de riquíssimas terras mas privados de mercados para o seu produto, ou seja, condenados à pobreza. Na circunstância, a  elite mulata que tinha comandado a  revolução valeu-se de outro meio: apossou-se do estado e pôs a máquina fiscal e o aparelho repressivo a trabalharem para seu benefício.   (Lá, como noutras paragens e noutros tempos). O resultado local foi a violência perpétua; a pilhagem passou a ser a actividade económica determinante. Como fundo cultural a nova sociedade adoptou o vodoísmo - culto do fatalismo,  da futilidade e da irresponsabilidade - entendido por todos. O primeiro presidente, Dessalines, auto proclamado "imperador Jacques I", tinha uma máxima: -"depena a galinha mas não a faças gritar". O  desenvolvimento não aconteceu.
 
 A primeira intervenção americana, sob forma de um desembarque de marines, veio em 1915 para exigir o pagamento de dívidas contraídas nos bancos americanos (e para impedir também que os alemães se aproveitassem da desordem ali reinante para instalar uma base militar na vizinhança do território americano). Em 1957, o Presidente Duvalier conseguiu impor a sua autoridade internamente  e, aproveitando a revolução cubana de 1959, manobrou os americanos em termos de anticomunismo e conseguiu criar um fluxo de ajuda externa que tornou o Haiti o maior recipiente de ajuda externa americana  na região. Todavia dessa ajuda nada chegou às mãos do povo e pouco ou nada foi usado em projectos susceptíveis de criar riqueza interna (lá, como noutras paragens e noutra épocas).   A tendência predadora do estado haitiano acentuou-se. Já antes do terramoto a  economia se encontrava destroçada. O país permanecia extremamente pobre, sendo o mais pobre da América e de todo Hemisfério Ocidental. 50,2% da população é analfabeta e a expectativa de vida não ia além dos 51 anos. A renda per capita local equivalia a  cerca de um terço da renda da favela da Rocinha, do Rio de Janeiro. Mas isso não deprimia os haitianos graças ao  orgulho que o  seu passado lhes inspirava.
 
Para melhor apreciação fornecem-se alguns índices da economia haitiana antes do terramoto.
 
 
Economia do Haiti
 
 
 
 
 
 
Banco Central
 
Bolsa de Valores
 
 
US$ 11,59 biliões ( (2008)
% de cresc. do PIB
2,3% (2008)
PIB per capita
US$ 1300 (2007)
 
 
 
 
População abaixo da linha de pobreza
80% (2004)
Força de trabalho
3,6 milhões (1995)
 
 
Desemprego
2/3 da população no desemprego ou subemprego[1] (2008)
 
 
 
554,8 milhões f.o.b. (2007)
 
 
 
 
1 844 milhões (2007)
 
 
 
 
Finanças públicas
Dívida externa
US$ 1463 milhões (2008)
Receitas totais (US$)
330,2 milhões (2004)
Despesas (US$)
529,6 milhões (2004)
 
 
 
 
Ajuda económica anual recebida
US$ 150 milhões (2004)
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
+++
 
Parece interessante comparar estes dados com os relativos a outras economias da região, como a do Haiti, inicialmente fundadas na monocultura do açúcar.
 
Cuba foi colónia de Espanha até 1898, esteve depois sob ocupação americana e tornou-se independente em 1902. Em 1959, optou pelo marxismo e sofreu  imediatamente o embargo norte-americano. A república marxista  viveu desde então sustentada pelos subsídios de Moscovo em volume que se estima da ordem dos US$ 300 milhões/ano.   Com a queda do muro de Berlim em 1989, o auxílio russo extinguiu-se  e o governo cubano  viu-se obrigado a abrir gradualmente economia à iniciativa privada. Esta responde hoje por cerca de 20% do PIB. O  produto  per capita dos cubanos atingiu em 2006, US$ 4.100 ou seja um nível mais de 3 vezes superior ao do Haiti.   O índice de pobreza em Cuba era então o sexto menor dentre os 102 países em desenvolvimento pesquisados pela PNUD, organização especializada da ONU.
 
A República Dominicana, que partilha com o Haiti a ilha Hispaniola, esteve sob ocupação espanhola até 1865 e longo tempo depois  sujeita a intervenções americanas ou a ditaduras apoiadas por Washington, atingiu finalmente o estágio democrático em 1978, ano em que tomou posse o primeiro governo eleito pelo voto popular. A propriedade encontra-se parcelada. O catolicismo tem forte implantação popular e inspirou  ali a vontade de "criar confiança" que caracteriza o comportamento dos dominicanos.   Com uma força de trabalho sensivelmente igual à do Haiti, a economia dominicana apresentava em 2007 um per capita de US$ 9200 ou seja 7 vezes superior ao do seu vizinho vodoo instalado a Oeste da ilha e duas vezes superior ao do cubano marxista. A população abaixo da linha de pobreza situava-se em 42% (2004),   portanto cerca de metade do índice haitiano. A ajuda externa recebida totalizou em 2005, US$ 79 milhões, ou seja menos de metade da ajuda "doada" ao Haiti. Não há pois relação directa entre ajuda concedida e resultados obtidos.
 
O Barbados, membros da Comunidade Britânica, constituiu-se em regime parlamentar em 1966, regime que se tem mantido estável desde então.   A cultura local é de cunho protestante – sentido de responsabilidade, respeito pela propriedade e iniciativa privada.   O país regista o maior índice de desenvolvimento da região. O PIB per capita situava-se, em 2007, nos  US$19 700[1] (mais de 10 vezes superior ao do Haiti) e o PIB total registava um crescimento anual de 4% (o dobro daquele). O desemprego cifrava-se nessa data em 10,3 % da população activa (oito vezes menos do que o índice haitiano). O sector mais desenvolvido da economia era o dos serviços que absorvia 75% da mão de obra. Esta era a única economia da região em que o turismo já produzia mais receita do que  o açúcar. Gradualmente, o país tornou-se auto-suficiente em petróleo e criou uma pequena indústria para abastecimento local. Em Barbados, a população abaixo do nível de pobreza é não existente.  
 
Verifica-se pois que o Haiti, apesar de ter sido o primeiro a tornar-se independente, de ser dotado da melhor terra da região  e de receber maior ajuda per capita do que qualquer  dos outros territórios insulares das Caraíbas, não se desenvolve. É o mais pobre de todos e, ao que tudo indica, continuará a sê-lo. Por seu turno, o Barbados, menos dotado de recursos agrícolas e que tardou a descolonizar mas aprendeu a dar liberdade à iniciativa privada, é o mais evoluído de todos e continuará a sê-lo.  Temos portanto que não são a ajuda externa e a abundância de recursos naturais  os factores que respondem pelo desenvolvimento e felicidade dos povos. Obstáculos de outra natureza neutralizam tais vantagens.
 


[1] Em 2008 o PIB per capita português era de US$ 23.041,00
 
Estoril, 27 Janeiro 2010
 
 Luís Soares de Oliveira

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:53
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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
GENES PORTUGUESES

 

 
 
Genes portugueses são muito diversificados, indica estudo de Investigadora do Porto.

Os genes portugueses são muito diversificados e além das linhagens genéticas europeias, os portugueses têm genes vindos de África, de acordo com estudo publicado no livro “O Património Genético Português”, de Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro.

De acordo com Luísa Pereira, professora no Instituto de Patologia Molecular e uma das autoras, o livro debruça-se sobre as diferenças nos genes dos portugueses e não nas diferenças que se detectam a olho nu.

Como exemplo, é referida a região sul de Portugal, onde a população não é necessariamente mais escura, mas onde há mais incidência de genes africanos do que no resto do país.

Onze por cento da população do sul de Portugal, que são tipicamente portugueses, têm uma linhagem sub-sahariana, disse Luísa Pereira.

Para além das diferenças entre regiões, as autoras do livro focaram atenções em duas localidades: enquanto em Mértola, na região do Alentejo, sul do país, se prova que a prolongada presença de mouros deixou marcas genéticas fundas, vê-se que a comunidade cripto-judaica de Belmonte – no centro de Portugal e cidade onde nasceu Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil – teve origem em pouquíssimas mulheres.

"Quando estudámos essa comunidade (Belmonte), vimos que actualmente cerca de 96% dos indivíduos de Belmonte partilham a mesma linhagem materna", disse Luísa Pereira.

Os descobrimentos portugueses também tiveram impacto nos genes de outros povos, sendo que aqui o que se observa é que quem espalhou os genes nacionais foram os homens.

Segundo Luísa Pereira, Cabo Verde tem uma elevada percentagem de linhagens paternas europeias que vão decrescendo para São Tomé, Angola e Moçambique.

A investigadora sublinha ainda que Espanha, apesar de ter tido escravos africanos, não é tão influenciada geneticamente por eles como Portugal. 

 
Montpellier, 29 de Outubro de 2009
 
Casa Amadis

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:11
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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
CONVERSA DE BISTURI

 

 
 
IPO, Lisboa, anestesia local para tirar uma excrescência com aspecto benigno que sem autorização se me implantara nas costas.
 
Conversa da enfermeira para ver se eu me sentia bem: - Então o Senhor Henrique onde trabalha?
Resposta do Senhor Henrique, eu: - Não trabalho em lado nenhum; estou reformado.
Continua ela: - Tão novo?
Continuo eu: - Obrigado pelo piropo. Bem se vê que não dorme comigo…, sim reformado. Trabalho só para mim. Só faço o que quero.
Diz ela: - Mas que rica vida!
Atalha o cirurgião, meu conhecido da banda de fora do hospital, antes que a conversa descambe: - Aqui o Senhor Doutor o que gosta é de estudar e escrever.
Continua ela: - Então o Senhor reformou-se para estudar em vez de passear?
Continuo eu: - Ah sim, passeio todos os dias mas a cavalo para não gastar as solas dos sapatos.
Diz ela: - Mas gasta as ferraduras do cavalo… E que estuda o Senhor Henrique?
Digo eu: - Várias coisas. Agora estou a estudar o conhecimento, a certeza e a verdade.
Aflita, acode ela: - O Senhor Henrique está a sentir-se bem?
Descontraído, respondo: - Oh Senhora enfermeira, esteja tranquila. Não estou a entrar em transe nem a tresloucar por efeito da anestesia. Na verdade é isso mesmo que estou a estudar – o conhecimento, a certeza e a verdade.
Atónita, pergunta ela: - Mas isso estuda-se?
Pergunto eu – O que é o conhecimento?
Duvidosa, responde ela: - Os conhecimentos são as pessoas nossas conhecidas…
Quase a rir, digo eu: - Não, o conhecimento, no singular, é o que nós sabemos.
Diz ela: - Ah sim! Eu sei que a vida está cara e que no Sábado fui ao cinema com o meu marido.
Digo eu: - E eu sei que as linhas da oferta e da procura se cruzam num ponto e que é aí que os preços se formam. Está a ver? A Senhora sabe coisas que eu não conseguiria imaginar e eu sei outras que à Senhora não interessam. E, no entanto, estamos aqui na mesma sala, a meio metro de distância um do outro e cada um de nós é o centro dum Universo que cada um de nós julga infinito e que até há momentos se ignoravam por completo…
Desconfiada da minha sanidade mental, diz ela: - E é isso que o Senhor Henrique estuda?
A gostar do rumo da conversa, digo eu: - Isso é o universo do conhecimento mas estudo-lhe também a origem; não a dimensão nem o conteúdo.
Diz ela a gozar dirigindo-se ao cirurgião: - Oh Senhor Doutor. Da próxima vez temos que ter mais cuidado com o tipo de anestesia que damos a este Senhor…
Informa o cirurgião: - Não vai haver mais anestesia porque isto já está a chegar ao fim.
Ainda a tempo, pergunta ela: - E que mais é que o Senhor disse que está a estudar?
Já a sentir que me estavam a pôr o penso, respondo: - A certeza e a verdade.
Receosa, diz ela: - Até estou com medo de perguntar o que isso é…
Já de pé e a sorrir, informo: - A certeza é um valor relativo e a verdade é um ponto no infinito.
A caminho da porta, recomenda-me ela quase em surdina: - Olhe! O Senhor trate-se!
 
Abraços a quem me fez bem!
 
Lisboa, Janeiro de 2010
 
Henrique Salles da Fonseca

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:16
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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
Aerodinâmica – 5

 

O catarro matinal, feroz e dominante, acentuou-se com a gravidade da situação. O cronista estava em apuros e emperrava na prossecução de uma linha de ideias suficiente coerente. Precisava de apanhar ar fresco para revitalizar o seu corpo. Abria a porta de acesso ao terraço e enxotava um pombo raquítico. A cadeira de verga, bolorenta e desfiada nas costas, ainda aguentava o peso de um homem mortificado. A vista sobre a cidade era reconfortante, porque lá fora havia casos semelhantes de angústia, pequenas histórias engrandecidas pelos próprios, ignoradas pelos outros. Os pensamentos acompanhavam o cigarro que morria lentamente como sempre. A folha de papel trazida pelo vento dava sinal de vida, como uma bandeira de rendição num dia de vento moderado, um salvo-conduto para autorizar a passagem numa zona de guerra ou num texto. O cronista reparou na folha. A caligrafia arbustosa povoava intensamente o papel. A distância entre as palavras era semelhante à utilizada por si, a mancha desenhada pelas linhas era um pouco menos densa, penetrante e misteriosa. Pegou na folha e olhou para trás para certificar-se que ninguém estava na sala, como se o autor da mensagem pudesse ainda estar na sala ou na casa de banho a vasculhar por detrás do espelho, mas não havia ninguém, e a folha não estava assinada. As ideias estampadas no papel pairavam, suspensas e voláteis, facilmente tomadas pelo cronista se assim o desejasse. A primeira frase suficiente para cativar o cronista numa espécie de feitiço. A amostra colhida na primeira leitura, revelava qualidades ao alcance de poucos escritores. A redacção com indícios de imortalidade, nascida a partir de uma condição nocturna repartida ao longo de uma vida. Como se um enjoo continuado molestasse o suficiente para produzir um corrimento, uma cascata de prémios conceptuais. Apercebendo-se da grandeza do texto, e do acaso que trouxera até si este telegrama, o cronista dirigiu-se apressadamente para o interior do apartamento para resguardar o seu acto invasivo e voyeurista, de olhares indiscretos da cidade. Na sua mente, já estava cravado um esquema de desvio, de rapto ou sabotagem. O texto era perfeito e poderia ocupar o espaço vertical atribuído pelo semanário. O espaço era um terreno livre mas ensanduichado entre um ensaio sobre auto-ajuda e um poema de índole religioso. O conteúdo da mensagem era tão universal que facilmente contagiava qualquer discussão ou condicionava as emoções. Um laivo de consciência obrigava o jornalista a submeter-se a um pequeno exame de consciência. O alibi que precisava, determinava que realizasse uma pequena busca para encontrar o autor da página orfã. Começou a bater terreno. Dirigiu-se novamente ao terraço, encostou-se ao limite do varandim e olhou para baixo para a rua. Transeuntes apressados faziam-se à vida e nenhum deles parecia ter perdido alguma coisa. Olhavam todos em frente ou ocasionalmente para a calçada incompleta a que faltavam pedras como a um desdentado contente, mas nunca para cima. Essa evidência era a prova suficiente para ilibar o cronista do relatório de perdidos e achados. A folha estava livre e disponível para qualquer fim decidido nos confins do apartamento. A coisa podia morrer ali sem que ninguém soubesse, a cesta ao canto era um corredor da morte ansiando pela recliclagem do papel, a conversão das folhas em florestas virgens povoadas de editores unicórnicos, ceptros em formas tipográficas com grande predominância de forquilhas endiabradas. Ao longe as forquilhas lembravam a letra E ao alto, virada para os céus, gloriosa por destronar a ordem alfabética. O cronista divagava como se drogado pelo efeito bélico da injecção da página descoberta no terraço. Era uma dose de cavalo. Tinha havido um acto de transgressão, uma invasão salutar da propriedade. O convite tornara-se irrelevante à luz de uma força maior que impõe a sua vontade. A natureza é assim mesmo – vento sem bazófia, verdade soprada. É só vê-la e agarrar com dois finos dedos a matéria imposta sobre a milimetria do perfil. Bastava agora encenar a aparição milagrosa da crónica. O director editorial havia feito um ultimato irreversível há algumas horas atrás, e o cronista sabia que poderia levantar suspeitas se o texto fosse entregue instantaneamente. Para entregar a revelação e não criar suspeições teria de viver uma vida inteira e renascer. Calcorreando as linhas deitadas na folha de papel, paralela sobre paralela, escadaria penosa para chegar lá e rolar. O texto teria de ser copiado para um ficheiro e entregue na redacção. Essa operação neutralizava o cunho caligráfico, a pequena mancha de café e o espirro do autor disparado sobre a folha de papel reciclado. O cronista lia, transcrevia, colava e calava. Decerto que os outros iriam comentar a invulgaridade do texto e a surpresa que constituia o novo estilo literário do cronista, que passou despercebido anos a fio. Era esta a lufada de ar que desejava, mas nunca imaginava que a entrega ao domicílio fosse possível, a solução directa e imediata, aterragem sem aviso no terraço. O autor não era religioso e a intromissão divina era algo em que não acreditava. A mensagem contida na folha não lembrava o estilo literário de ninguém. O cronista havia lido todas as obras de referência e a personalidade daquele texto era única, incomparável e instransmissível. Ninguém deveria saber da proveniência da carta entregue pelo anticiclone com vento moderado de sul. A prática do roubo não era inaudita no mundo da meteorologia. Não seria a primeira vez que um vento demove alguém dos seus intentos. E não seria o único elemento natural a oferecer dilemas à humanidade. A arca de Noé já havia demonstrado como dilúvios podem alterar a ordem e o sentido de pertença. O crime... pensava o cronista – não será meu, mas sim de quem abandona os seus. A folha desgarrada quis seguir o seu destino e quem escreve deve ter mais cuidado para não perder os seus filhos. O escrito na folha não era intelectual ou centrado sobre dilemas pessoais. O texto roubado era muito maior do que a sua imaginação. Estavam em causa questões verdadeiramente filosóficas e assolavam o seu espírito de qualquer pessoa perto ou distante. O estampado na folha aproximava-se mais da forma de um manual de instruções, do cálculo geométrico traçado ou de uma experimentação de física. A linguagem eleita era universal, facilmente entendida nos confins do mundo. O crime dava esta dimensão higiénica às ideias. A infecção corroía a sua alma, mas não o suficiente para impedí-lo de assinar um texto criado por alguém desconhecido. Esta confissão no silêncio não era dele. Provavelmente seria o vento a sussurar. O cronista era agora um novo género de escritor. Um leitor amordaçado, perseguindo rotas e compassos de espera, planando pelos ares em puro deleite, mas que nada lembra. Quem cala é porque não sente o que criou ou porque não sabe tudo. O vento daquele Domingo não tinha vindo em vão e desacompanhado. O relâmpago empoado bateu com suavidade na testa do homem. A memória desvaneceu-se por alguns instantes, mas tinha conseguido chegar a casa, despir o sobretudo angustiado, respirar e enfrentar o manifesto da improbabilidade. Vinha mais leve. Afinal a folha voara com a derradeira mensagem. Sofisticada e livre. Agora lembrava-se. Tinha sido ele naquela esplanada ventosa de Domingo e agora entendia o que havia escrito.
 
 Escreve para o mundo. Faz um avião de papel.
 
 John Wolf
pintura de Francisco Gomes de Amorim


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A GRANDE BIRRA

 

Há mais de trinta anos que o conteúdo do discurso político fala quase exclusivamente em direitos, olvidando os deveres
 
 
Em breve iremos assistir, no nosso país, a um conflito explosivo entre o Governo e uma parte da sociedade. De um lado a necessidade do Governo aprovar um orçamento de austeridade que contrarie o crescente défice público – aumentando provavelmente os impostos e reduzindo a despesa pública –, o que irá obrigar a novos sacrifícios. Do outro lado temos uma parte da população que, nos últimos anos, se habituou a consumir facilmente, vivendo na ilusão de que a riqueza não provém do esforço e do trabalho. Este conflito não surge por acaso, uma vez que se criou a fantasia de que o bem-estar e a felicidade, em lugar de serem procurados pelo indivíduo, deveriam ser reivindicados ao Estado; tratando-se de um direito. Dito de outro modo, a sociedade infantilizou-se e o Estado assumiu um papel paternalista de quem tudo se espera.

Há mais de trinta anos que o conteúdo do discurso político fala quase exclusivamente em direitos, olvidando os deveres. Ao longo do tempo criou-se, no inconsciente colectivo, a ideia errada de que qualquer frustração do indivíduo se devia a um direito que ainda não estava conquistado e a solução libertadora residia em reivindicá-lo. Confunde-se, pois, direitos com aspirações. E, mesmo que sejam dadas todas as oportunidades, se porventura houver alguém que não alcança uma aspiração, isso raramente é atribuído a um fracasso pessoal, mas a uma discriminação, mesmo que muitas vezes nem sequer tenha havido qualquer esforço para se obter sucesso.

O profundo desequilíbrio que se criou entre direitos e deveres é uma das causas do nosso atraso e da falta de competitividade. Porém, raramente se ouve no discurso político o elogio do dever: o dever de valorizar o trabalho, ser justo, solidário, cumpridor, honesto, responsável, etc. Estas são virtudes associadas a uma visão do mundo antiquada, ultrapassada e opressora do homem. Mas, ao contrário do que se pensa, estes são os alicerces de uma sociedade madura, responsável e que se projecta não apenas no presente, mas também no futuro.

O paternalismo patológico, por parte do Estado, é inimigo da solidariedade, tornando as pessoas excessivamente auto-centradas, preocupando-se mais em exigir o que merecem do que com o que podem oferecer aos outros. Somos confrontados com uma camada social cada vez mais infantilizada, dependente de subsídios do Estado, incapaz de se bastar a si própria e de criar riqueza que possa ser partilhada com os outros. Em vez de se incitar a ambição positiva e autonomia, fomenta-se a miséria e a regressão a um estado de dependência.

A nossa sociedade não tem vindo a ser preparada para os sacrifícios que a presente crise económica irá obrigar. Pelo contrário, foi iludida com um consumismo desenfreado, sustentado por um crédito abundante que agora acabou. Com isto, disseminou-se uma síndrome de baixa tolerância à frustração, surgindo a percepção de que tudo se poderia alcançar de forma fácil e instantânea.

Diante da nossa actual realidade económica e social, é fundamental que haja coragem política para se explicar ao povo que a riqueza, a justiça e o progresso não podem ser alcançados apenas com o esforço de alguns. Todos devem participar nesse projecto; todos temos a obrigação e o dever de lutar para que Portugal se torne num país mais rico e desenvolvido. Não obstante este facto, alguém terá de reverter esta hipnose colectiva. Alguém terá de explicar que tudo foi uma fantasia; tudo foi um engano. Chegou a altura de abandonar o discurso alicerçado na esperança pueril de que tudo irá melhorar. É tempo de fazer sacrifícios. Mas, se a sociedade foi infantilizada, isso não se aceita facilmente sem que haja uma grande birra.
 
 Pedro Afonso
Médico psiquiatra


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Aerodinâmica – 4

 

A página alojada no terraço enfrentava a espera do dia, separada das suas companheiras deixadas na esplanada ventosa. Sobre o papel encontrávamos estilhaços de algo mais amplo. Como se as palavras fossem cacos de um vidro cortante, penetrando na celulose da folha para extrair a seiva de todos os livros escritos, ou o sangue de todos os escritores alguma vez procurados. Ideias chave com poder para desvendar mistérios, derrubar ministros ou sentir o derradeiro homem. O autor, desconcertado pelo extravio das suas ideias, tinha assente uma noção importante na folha perdida e fazia-lhe falta na sua vida pessoal. O assalto do vento naquele dia flatulento não vinha mesmo a calhar. O germe de uma obra substancial, um ensaio para qualquer coisa maior era agora um resquício na sua memória. Aquilo que tinha ido pelos ares era uma tatuagem irreversível mas ao mesmo tempo um tema por acabar, uma discussão com uma mulher bela ou um tira-teimas irrelevante. Uma mensagem incompleta, como todas as outras, mas pejada de revelações que poderia comprometer a humanidade. Confidências sobre a condição de alma e a frustração, redigidos num estilo apelativo para qualquer leitor independentemente da sua vontade ou idade. Esta pequena dissertação poderia tornar-se perigosa se publicada fora de contexto. O vento tinha estragado os planos de alguém com planos de algo majestoso, naquele Domingo vulgar como qualquer outro dia da semana.
 
O cronista chegou tarde. Eram duas da manhã quando rodou a chave. Largou a pasta sobre o sofá e tirou o sapato esquerdo com a ajuda do direito. Notava-se facilmente o desgaste mais acentuado no calcanhar da sapatilha esquerda. Despiu o sobretudo como se mais nada trouxesse sobre o corpo e suspirou de alívio. Cheirava a suor e tabaco. Tinha sido um dia e meio comprido, e ainda não tinha conseguido resumir os seus pensamentos a matéria que cativasse os leitores. Neste momento, estava diminuído pela opressão anónima de milhares de compradores do semanário e não tomou um duche. Sentia na pele essa tensão como se fosse um corretor na bolsa, sempre perto de um desfecho trágico e próximo de um pequeno ganho. A publicação que lhe dava emprego era o escaparate preferencial para os diferentes moldes de pensamento. As secções literárias permitiam arrumar as elocubrações por categorias. Ficção, história política, biografias ou actualidades. O caminho estava facilitado para os leitores, que não se tinham de preocupar com questões de ordem logística de pensamento. A maior ameaça residia na possibilidade do inclassificável. Um texto híbrido, indecifrável pela racionalidade, mas igualmente insondável pela alma, que atordoa o leitor deixando-o em estado de choque, paralisado ou surpreendido pela sua incontinência. A página que poderia corresponder a essa descrição continuava ao relento sem poder manifestar-se ou ser accionada à distância. O cronista que arrendara este apartamento adormecia na sala infestada de tabaco, ignorando os riscos e os perigos que espreitavam do terraço.
 
O telefone tocou às dez e quarenta e cinco da manhã seguinte. Tocou três vezes. O cronista acordou de sobressalto. Já sabia o que o esperava. Do outro lado da linha o director editorial ameaçava o cronista com palavras duras. O cuspo alojado no canto da boca revelava a ânsia e uma brancura raivosa. Faltava pouco tempo para o fecho da edição dessa semana, e a coluna deveria ser preenchida com um texto, mas nada havia a oferecer. O cronista estava a atravessar um momento difícil na sua vida, mas esse facto não servia para dirimir a sua insolvência literária.
 
Ou entrega a merda do texto ou está arrumado...
 
(continua)
 
 
  John Wolf


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:56
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UM PORTUGUÊS NA ANTÁRTICA – 4

 

Finalmentes e considerandos
 
Despertar, no “Ari Rongel” às sete e pouco, porque nos esperavam em terra (fria!) para o “matabicho” – café da manhã no Brasil e na Antárctica! Noite bem dormida, por todas as razões e até porque a véspera havia sido pesada!
 
Visão da nossa estação quase integralmente coberta de neve! Pouco mais que telhados de fora, lá vamos escada abaixo para o bote nos levar a terra. Físico recomposto, a descer, foi fácil.
 
Recebidos pelo chefe da Estação, Comandante Glénio e sua equipa, a visita às instalações foi um refrigério, passe a temperatura do clima, até porque lá dentro não havia frio. Refrigério porque é muito bom vermos que no Brasil tanta coisa funciona de modo impecável. Não me consigo conter sem dizer que isto só se passa à revelia do governo. Deo Gratias!
 
 
A Estação Comandante Ferraz como deveria estar (a neve)
 
... e como estava!
 
A sala, os dormitórios, os laboratórios, as oficinas, o ginásio, a casa de máquinas, o “supermercado”, um tanto desfalcado ao fim de quase um ano, mas onde estavam agora a chegar os convenientes reforços, tudo muito bem arrumado e organizado. O sistema de esgotos impecável. Dá prazer e orgulho ver tudo ali funcionar em magníficas condições, mais ainda sabendo do trabalho e sacrifício que isso exige.
 
Nesta altura do ano a neve deveria já ter baixado ao nível dos alicerces dos edifícios, mas, tal como na Base chilena, praticamente cobria os telhados. A entrada principal tinha uma espécie de poço cavado em escada para se poder entrar! Basta ver o ar tranquilo desta skua, deitada mesmo em frente da porta, e que à nossa passagem, a menos de um metro de distância, nem se dignou olhar para nós!
 
 
A skua... numa boa!
 
Esta skua vive à custa da Estação. Bela ave – catharata skua – chega a ter 1,40 de envergadura de asas, e voa facilmente no meio de tempestades, mas sem vento tem dificuldade em levantar vôo! Na Estação sempre aproveita um ou outro pedaço de comida que lhe dão, e então, cansar-se a pescar ou roubar ovos... para quê? Deve ser também da família do Zelaia!
 
 
Quando ela voa, é imponente!
 
Os pinguins deveriam estar de férias porque nem unzinho se dignou aparecer, assim como baleias ou focas.
 
 
Quando da instalação da Estação, lá estava um pinguim inspeccionando os trabalhos!
 
Pássaros, raros, a não ser esta hóspede skua, e leões marinhos um só de quem tentei me aproximar para o ver mais de perto, mas além do gelo estar extremamente escorregadio e irregular, o que me ia fazendo levar um tombo, fui aconselhado a não incomodar sua excelência, porque quando se zangam correm atrás da gente. E 300 quilos a pegar no meu pé... O tranquilão levantou a cabeça como a dizer-me “não vem encher”, e eu, não fui!
 
 
Ao fundo, à direita, o tranquilão!
 
Foi muito gratificante a visita à Estação Antárctica Comandante Ferraz, de quem trouxemos uma recordação de simpática atitude do Comandante.
 
Antes do almoço reembarque no navio, só que desta vez de helicóptero. Outra mordomia, que tem ainda a vantagem de se dar, mesmo pequena, uma volta por cima daquela área. Tudo é uma beleza.
 
E agora o “Ari Rongel”. Navio com 73 metros de comprimento e 70 tripulantes, do comando do CMG Capetti, tudo gente atenciosa, além da boa capacidade de carga e do transporte do helicóptero ainda tem acomodações para 22 pesquisadores, e lá estava uma leva deles, da UFRJ com seu professor.
 
 
O navio "Ari Rongel"
 
Viagem de retorno até à Base chilena cerca de 3 horas, por vezes abrindo caminho no gelo, durante a qual tivemos o prazer de compartilhar um belo almoço, com vinho, é evidente, e novamente o desembarque foi feito de helicóptero. Bem melhor do que na ida!
 
 
O helicóptero, ainda a bordo, já a aquecer os motores, vendo-se a esteira deixada no gelo
 
Durante este dia o “nosso” Hércules tinha andado a fazer treinamento de novos pilotos para se habituarem àquele magnífico aeroporto congelado, e com o dia a chegar ao fim, embarque de volta a Punta Arenas, onde ficaríamos todo o dia seguinte para que o mesmo avião estivesse a abastecer a Estação.
 
 
Despedida!
 
O avião correu mais uma vez por aquela pista gelada, seguro, e em poucos minutos já nada mais se via daquele continente!
 
Essa noite e mais todo o seguinte “dia livre” trouxe algumas vantagens: as que já referi, como a visita a La Pinguinera e à própria cidade, e o tempo que dispusemos para melhor nos conhecermos. E foi muito gratificante.
 
Não posso lembrar aqui todos os companheiros de viagem com quem mais me identifiquei, mas também não posso deixar de agradecer a todos aqueles que mais me sensibilizaram pelas suas personalidades fortes, conhecimento e sobretudo simpatia, que essa foi geral.
 
Recordo com amizade o Ministro Flávio Bierrenbach e suas oportunas intervenções sempre cheias de um delicioso veneninho e de profundos conhecimentos, em todas as áreas sobre que conversávamos, mormente na área da aviação de que é um experimentado piloto com mais de 6.000 horas de vôo, e continuando a voar, o General Aléssio Ribeiro Couto, pára-quedista, uma bela folha de serviços, modesto, porém muito culto, alegre e muito atencioso, o Dr. Paulo Leite Lacerda para quem tudo parece estar sempre bem e é uma agradabilíssima companhia, o Reitor de UFRR Professor Roberto Santos Ramos com quem tive bela troca de impressões, algumas delas enquanto voávamos com os pés congelados, mas que me fez saber o trabalho sensacional que a sua Universidade está a fazer com os índios da região, alguns deles já diplomados, e que me desafiou a assistir à próxima graduação a que eu não irei só se estiver já louco de todo (deve faltar pouco!), a Assessora Parlamentar Stephania Serzaninck, sua simpatia e seu sorriso ao ouvir os meus ácidos comentários sobre políticos, o Comandante Paulo também Assessor Parlamentar, o engenheiro Rómulo Barreto Mello, Presidente do Instituto Chico Mendes, com quem me confundiram, o tranquilo André Cabral de Sousa, a Joana da Oi que me emprestou o seu telefone para dizer para a minha família que ainda estava vivo, e, evidente os que me proporcionaram esta aventura inesquecível.
 
Vou começar pelo CMG Parpagnoli, o único que conseguia dormir dentro do avião durante todas as horas de vôo, aconchegado no seu revestimento natural um pouco inflado, mas que a todos tratava com lhaneza e amizade de longa data, o Almirante e meu xará Francisco Ortiz, Chefe do PROANTAR, outro companheiro alegre e simpático, e para terminar o responsável directo da minha participação, um amigo de há uma dúzia de anos, co-autor de um livro que ainda não escrevemos, mas que está “muito pensado”, que considero hoje da minha família, o Comandante José Robson Medeiros.
 
A este em primeiro lugar e a todos os outros, mesmo aqueles que não referi, obrigado pela aventura e pelas amizades, que são dons preciosos.
 
Ficou uma imensa vontade de repetir a dose! O que vale é que sonhar ainda é barato, e a vida em qualquer momento nos pode trazer outra surpresa! Porque não?
 

Rio de Janeiro, 26 de Novembro de 2009
 
Francisco Gomes de Amorim

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