Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009
PALHINHA...

... uma família açoriana que fez diferença.

 

          

As ilhas dos Açores ficaram por longos anos esquecidas nas brumas do oceano e do tempo.   Isoladas, passaram por muitas carências, e entre elas a falta de assistência médica permanente. Apesar de tudo, consta nos Anais do Município da Horta (Marcelino Lima)  que a vila  recebeu, por ordem do rei D. Manuel,  o Venturoso, um médico em 1517. Depois deste, muito esparsamente, outros chegaram para dar assistência à nossa gente.

 

Mas,  marcada na história da ilha ficou a presença de um médico que trouxe alivio para as doenças que acometiam a cidade da Horta naquele tempo. Gonçalo Rodrigues Palhinha chegou ao Faial em 1799, recém-formado pela Universidade de Coimbra,  para prestar serviços médicos. Era natural de Elvas, Portugal Continental, onde nasceu a 22/8/1770.   Casou na Horta, na igreja da Praia do Almoxarife, berço da minha família por séculos, em 4/8/1806, com a faialense D. Ana Isabel Teles, da romanesca família Valadão.

 

Nesse mesmo ano do seu casamento, recebeu junto com outras autoridades do Faial, uma comissão enviada pelo Príncipe Regente D. João, encabeçada pelo cirurgião Estanislau José Coelho (Actas da Câmara da Horta, liv. XIV, fl.192) que vinha para implementar a vacinação contra a varíola, doença que assolava a ilha e que quando não matava deixava marcas para sempre. A vacina do médico e pesquisador inglês, Edward Jenner, que ainda encontrava desconfiança por parte de alguns países, no Faial, foi introduzida com sucesso,  sem maior resistência.

 

Anos mais tarde, com o falecimento de Gonçalves Maurício, encabeçou o partido médico então existente.   Em 1823, representando a Câmara, junto ao governo, pediu a criação de um segundo partido para assistir a população da ilha.

           

Em 1842 a Câmara nomeou e pagou para os dois partidos médicos,  então já presentes  na Horta, os doutores António Maria de Oliveira e João de Almeida Lima  a manutenção dos serviços profissionais que constavam de visitas semanais às freguesias do campo.

 

Nos tempos antigos, epidemias e pestes grassaram nesta ilha do Faial por falta de serviços profiláticos de higiene e de sanidade pública. À Horta, porto de apoio marítimo no oceano Atlântico Norte, chegavam navios de todos os lados do mundo, trazendo consigo ares de novidades e  também de doenças. Isso provocou uma preocupação e  atenção especial  do serviço de Sanidade Publica, que passou a ter mais controle na entrada de embarcações vindas de fora e cuidados com as normas de higiene da cidade.

 

Depois de anos de serviços à comunidade faialense, o estimado profissional passou com alguns familiares à cidade de Angra, na Terceira,  onde faleceu a 22/11/1824.

           

No Faial, Gonçalo Rodrigues Palhinha teve com sua mulher dois filhos:

            D. Mariana Palhinha, nascida na Horta e falecida em Angra, e João Teles Peixoto da Silveira Guterres, nascido na Horta e falecido também  em Angra. Fora do casamento foi pai de D. Luísa Teles, freira do Convento de São João na Horta e D. Jesuína Teles Peixoto Palhinha, nascida no Rio de Janeiro.

 

Muitos dos descendentes dessa família açoriana, nas ilhas,  e no Continente, foram homens e mulheres importantes, pesquisadores, advogados, jornalistas, botânicos, políticos, altos funcionários do governo, que prestaram serviços relevantes à terra onde nasceram. Como por  exemplo, o neto do estimado médico, que teve o mesmo nome, Gonçalo Rodrigues Palhinha, que foi entre outras coisas, escrivão da Fazenda em Angra, delegado do Tesouro em Ponta Delgada. Inspector da Fazenda em Guarda, Portalegre, Santarém e Porto, no Continente.    Em Lisboa ainda existem muitos descendentes desse prestigioso médico, marcantes presenças nas áreas da Cultura e Ciência da capital portuguesa.

 

             

Nos Anais do Município da Horta, o nome de Gonçalo Rodrigues Palhinha  está registado para sempre como um homem que ajudou, com seu trabalho e competência, a tornar melhor a vida dos faialenses.

 

              

                 Maria Eduarda Fagundes

                       Uberaba, 22/08/09

 

 

 


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Domingo, 30 de Agosto de 2009
CRÓNICA DE VIAGEM – 2

 

 
ROMÉNIA
 
    
    Transposta a fronteira terrestre e já em território romeno, os sentidos estão agora virados para a interiorização de outra realidade nacional e desde logo o guia introduz dois temas pendulares: a queda do consulado de Ceausescu e o ressurgimento económico do país; a lenda de Drácula e a sua exploração no turismo nacional.
    A cidade de Timisoara foi a primeira etapa do nosso percurso, mas com paragem justificada apenas para o almoço e uma breve visita à catedral ortodoxa local. Cidade industrial e a segunda maior do país, Timisoara não suscitaria qualquer interesse no nosso roteiro se não revestisse hoje um certo simbolismo político para a actual Roménia. Foi onde, em 1989, nasceu a onda revolucionária que haveria de propagar-se a Bucareste e ao resto do país, provocando a queda de Ceausescu e a sua execução (quase) sumária, sem que o ditador tivesse tempo para se redimir. À entrada da cidade, os degradados blocos habitacionais da classe operária são os vestígios ainda remanescentes da era industrial de Ceausescu, no seu sonho invasivo de uma Roménia auto-suficiente, desatrelada de Moscovo. Mas o paradigma da auto-suficiência cairia por terra quando as tecnologias industriais entraram em obsolescência, criando estrangulamentos insuperáveis na economia e detonando uma situação social que já vinha sendo fermentada por uma política interna marcadamente repressora.
    Desmantelados os alicerces do antigo regime, a Roménia empenhou-se logo na reconversão e modernização do seu tecido económico e das suas infra-estruturas rodoviárias e de telecomunicações, criando condições para a sua adesão à União Europeia, que ocorreria em 2007. De então para cá, o esforço continua em crescendo, mas não sendo fácil ultrapassar os antigos estrangulamentos da sua economia e os problemas da corrupção na máquina estatal e do mau funcionamento da justiça e do fisco.
 
 
Telhado típico generalizado na medieval Sibiu
 
    Nota-se que o turismo é uma das apostas nacionais. Quem visitar pela primeira vez a Roménia não deixará de regressar, eis o lema do governo e das entidades privadas, que, em parceria, vêm empreendendo um esforço visível na recuperação do parque hoteleiro e na construção de novas e mais modernas unidades com que, no conjunto, visam alterar o panorama de oferta. Em Sibiu, em Sighisoara, em Targu Mures, em Bistrita, em Humorulai, em Brasov e na capital Bucareste, para não falar nas localidades junto ao Mar Negro, que não se incluíram no nosso roteiro, o turismo é, com efeito, um sector em crescendo na economia romena
    Em particular, a Roménia não descura a importância do turismo cultural, possuindo mais de 3000 museus, locais arqueológicos, castelos e palácios, igrejas e mosteiros antigos, fortalezas e monumentos bem conservados. Foi gratificante visitar o Museu Nacional da História da Roménia, em Bucareste, que reúne peças que remontam à antiguidade dos dácios e aos antepassados romanos, atravessando a Idade Média até à época moderna. Este museu possui ainda um fabuloso tesouro em ouro que se reporta a importantes achados arqueológicos. Junta-se a isso tudo ainda a Coluna de Trajano, cópia fiel do original da Praça do Capitólio de Roma, cujo valor é de grande simbolismo nacional por assinalar o nascimento do povo romeno quando Trajano conquistou a Dácia e a partir daí nasceu este povo por simbiose étnico-cultural entre e dácios e romanos.
    Outra riqueza patrimonial reside na arte sacra. Desde mosteiros a igrejas e catedrais, a diversidade é grande e com predomínio do estilo bizantino. Por únicas na Europa, são património da humanidade pela UNESCO os mosteiros medievais de Bucovina (palavra que significa faia, árvore abundante na região) – Humor, Voronet, Sucevita e Moldovita – com os seus exteriores e interiores pintados com frescos dos séculos XV e XVI e que se mantêm bem conservados apesar das intempéries. Embora não tão antigas nem constituam património da humanidade, são também dignos de interesse os mosteiros de Agapia e Varatec. O primeiro é simplesmente lindo e resplandece na abundância variegada das flores que o ornamentam, tratadas pelas suas 400 monjas. Neste mosteiro funcionam variadas manufacturas de bordados, rendas e mantas, e ainda confecção de iconografias, tudo a cargo das monjas, cujo labor o turista pode apreciar directamente, mas sem fotografar as artífices. O segundo mosteiro, com 800 monjas, também muito atraente e florido, tem um importante museu que vale a pena visitar.
 
 
                                                          
Mosteiro de Voronet
 
    De entre as cidades medievais visitadas, destaco a de Sibiu, cujo centro histórico começou a ser restaurado há algum tempo, podendo-se já apreciar os antigos edifícios com toda a frescura devolvida pelo restauro, sem transgressão da sua traça original. Vale a pena percorrer a pé as ruas e praças medievais dessas cidades, onde as marcas do passado se mantêm intactas convidando-nos a momentos de pausa silenciosa para melhor sentir os ecos guardados nas vetustas pedras. Realce ainda para as praças e largos do centro histórico, bastante acolhedores e equipados com confortáveis cafés, restaurantes e esplanadas, onde o turista se sente bem e não dá por desperdiçada a passagem pela urbe. O mesmo acontecerá em Bistrita e Sighisoara, cujo aproveitamento turístico será pleno logo que forem concluídos os programas de restauro que estão em curso.
    Quanto à lenda de Drácula, é precisamente em Sighisoara, uma cidade medieval da Transilvânia, que entramos na senda do famoso vampiro. Nesta cidade existe um edifício medieval que é tido como o local de nascimento do príncipe Vlad Tepes, o personagem da história romena no qual o escritor irlandês Bram Stoker se inspirou para escrever o seu romance em 1897. Essa sinistra figura da história romena e as lendas sobre vampiro que parece terem sido introduzidas no país pelos ciganos, constituíram o caldo de cultura em que se baseou o escritor para perpetuar um mito que, nos dias de hoje, é sabiamente explorado na Roménia para fins turísticos, como é prova essa casa medieval onde nasceu Vlad Tepes. Nela funcionam um restaurante e bares onde se respira uma atmosfera soturna quanto basta e com enfeites draculianos. Almoçámos no lugar, mas, como o preço estava incluído no pacote de viagem, ficámos sem saber se o nosso sangue foi ou não sugado pelo dito cujo.
    O rasto de Drácula voltámos a reencontrá-lo em Bistrita, no sopé dos Cárpatos, no restaurante onde jantou Jonatham Archer, o advogado inglês que viajou de Londres para negociar com o Conde Drácula a venda de um palácio que este queria adquirir na capital inglesa, sem o causídico saber que estava a lidar com um vampiro. O Jonatham Archer comeu ao jantar uma espetada de boi e bebeu um vinho que o escritor diz que “fazia picos na boca”, ementa que, ao que parece, o restaurante recria para fazer jus à ficção literária. Mas a nossa decepção foi não termos sido contemplados com a ementa de espetada. Sim o vinho, mas nem eu nem os meus companheiros sentimos os tais “picos na boca”. Diria que era qualquer coisa parecida com um mau vinho verde português. De resto, o ambiente do restaurante é completamente draculiano, com pinturas sinistras, morcegos e gatos embalsamados, podendo-se até vestir de Drácula para a fotografia da praxe.
 
Edifício (em Sighisoara) onde nasceu Vlad Tepes (Drácula)
 
    Mas, deixando por agora Drácula refugiado no seu esquife entre o nascer o pôr-do-sol, confesso ao leitor que um dos meus grandes deleites nesta visita à Roménia foi o espectáculo da natureza e a imersão no mundo rural profundo. Tal só é ainda possível na Roménia porque o progresso, como todas as coisas, pode ter duas faces distintas. A ainda escassa rede rodoviária obriga necessariamente a atravessar povoados rurais, seja através das planícies do Danúbio seja serpenteando os Cárpatos, dando assim ao turista o privilégio de contemplar quadros de um bucolismo que são um autêntico bálsamo para quem se sente cansado do progresso e sua superabundância. Já é pouco frequente nos campos mecanizados da Europa Ocidental ver camponeses cavando a terra com enxada, galinhas à solta junto das habitações, carroças carregando bilhas de leite, fardos de palha ou produtos agrícolas. Depois, há uma sagração generalizada das flores, que são uma constante no embelezamento criativo de tudo o que é presença humana. E tudo é de um intenso verde perene, que se mantém inalterável mesmo no pico do Verão, porque as chuvas não cessam na estação mais quente, ainda que entrecortadas.  
    Mas Drácula regressa e vai fazer das suas na réplica de um castelo de linhas antigas erigido num dos cumes da Transilvânia. Tudo preparado para que o turista experimente um pouco do fantástico que habita o seu imaginário. Após percorrer estreitos corredores soturnos, entra-se no compartimento de um figurado mausoléu no centro do qual está um caixão preto. Nas paredes, pinturas sinistras dão o tom adequado ao ambiente. Às tantas, apagam-se as luzes e, apenas à chama bruxuleante de uma vela, alguém da casa levanta a tampa do caixão e de um salto, como que impelido por uma mola, um “Drácula” ejecta-se e dilui-se na escuridão envolvente. Ninguém se apercebe efectivamente se ele se volatilizou ou se desapareceu, minguado, pela frincha de algum refúgio secreto. As mulheres não se contêm e soltam um grito estridente, já sem discernirem entre a realidade e a fantasia. Logo a seguir, à saída pelo mesmo corredor de entrada, braços esticam-se inesperadamente de buracos dissimulados nas paredes e agarram os transeuntes na semi-escuridão, com o sexo fraco a perder de novo as estribeiras. E assim o Drácula regressa à sua eterna condição de morto-vivo, sem que alguém lhe tenha conseguido cravar um punhal de prata no peito. Na visita ao belo castelo medieval de Bran, voltaríamos a ouvir falar de Vlad Tepes, mas apenas como sua provável residência temporária.
    Pouco espaço me resta já para falar da capital Bucareste, onde, por má sorte, fomos bafejados por uma chuvinha incómoda. Referi anteriormente o importante Museu Nacional e mal ficaria se não referisse o Palácio do Parlamento, antes chamado Casa do Povo (Casa Poporului), mandado construir por Ceausescu, que é o segundo maior edifício estatal do mundo, a seguir ao Pentágono. Salta à vista um certo vazio de recheio interior a contrastar com a dimensão dos seus espaços monumentais, onde, não por acaso, não figura nem o nome nem retratos do estadista que mandou construir o colosso, talvez numa tentativa de o apagar da memória colectiva para esconjurar os males nacionais. Como se isso fosse possível, como se a história não o venha um dia a colocar no seu lugar, para o bem ou para o mal. Os dois dias de permanência em Bucareste talvez eu não os tenha vivido com maior intensidade porque a imersão no interior do país deve ter-me consumido as energias mentais e esgotado as reservas de emotividade. Bucareste é conhecida como a “Pequena Paris do Leste” e a razão se deve à arquitectura dos seus edifícios do século XIX, muito semelhantes aos seus contemporâneos de Paris. A Avenida da Vitória, os seus parques e jardins, os seus museus e os seus teatros tornam Bucareste uma bela e atraente cidade, com uma vida nocturna também animada. E, a propósito, seria imperdoável não falar do animado jantar em que participámos na Cervejaria Caru’cu Bere, com música e dança ao vivo, numa das zonas mais movimentadas da capital. Refira-se que a cidade está neste momento em franca remodelação urbanística e com o concurso de empresas portuguesas como a Soares & Costa e a Mota-Engil, cujos estaleiros vimos montados. É natural que a breve trecho essas empresas ajudem a enterrar os molhes de intrincados cabos aéreos (telefónicos e eléctricos) que neste momento são uma verdadeira aberração na capital.
  País com enormes potencialidades agrícolas e turísticas, detentor de importantes recursos energéticos de petróleo e gás natural, a Roménia vai certamente reerguer-se de décadas e décadas seguidas do imobilismo de uma errada política de centralismo estatal. Esperemos que o faça sem perverter a sua mais funda identidade. Ao exprimir-me assim, lembro-me destas palavras do escritor romeno Eugéne Ionesco: “Mergulha, sem limites, no espanto e na estupefacção; deste modo podes ser sem limites, assim podes ser infinitamente”.
 
 Tomar, Agosto de 2009
 
Adriano Miranda Lima

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Sábado, 29 de Agosto de 2009
O Inglês no Português

 

 
Como se eu tivesse culpa
 
            Li um artigo de Jorge Miranda, professor Catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa sobre “Mestrados em Inglês?”, no “Diário de Notícias” em 3 de Agosto. Protesta contra a proposta da União Europeia de tornar a língua inglesa como língua oficial dos mestrados de Bolonha, além de outras considerações que faz sobre os mestrados em si.
 
            Também vi na Internet comentários pró e contra. Um dizia que porque não em “Xinês”?, e via-se que estava zangado, mas não há razão para zangas, quando se escreve assim em português, isto é, tanto lhe deve fazer, “cela lui est égal” como ao Meursault.
 
            E a minha amiga :
            - Ai, a língua vai ao ar! Troca-se tudo e não se leva a mal. E vai ser mais e mais e mais, e nós não temos a mínima força. Lá aparece um ou outro a defender...
            Ainda por cima, ela diz as coisas sempre numa entoação extremamente vigorosa, que me deixa caída e com peso na consciência. Como se eu tivesse culpa. E como, por vezes, no momento, estou a levar a bica à boca, lá me cai um pingo com o sobressalto. Tento justificar:
            - Que o Inglês é uma língua poderosa, isso é mais que sabido, basta-lhe a língua e o porte e o mundo que os Ingleses construíram, pelo mundo fora, para lhes dar direito à universalidade linguística.
            Como me estava a correr bem o discurso, continuei com digno saber:
            - Ainda bem que os Chineses não se lembraram – ainda! – de impor a sua, que parece que é a língua mais difundida. Mas eles são pacatos, até ver, diz-se, sem o que, lá teríamos nós que aprender a desenhar, da direita para a esquerda, os seus logogramas, no caso da escrita.
            - E no caso da fala, nem se fala, se tivéssemos que o aprender. Então é que era o caos. 
             - Pois, mas antigamente foi o Latim, foi um ver se te avias de estudiosos do Latim e de línguas que se forjaram a partir do Latium onde aportou o troiano Eneias, depois de despedaçar o coração da rendida e depressiva Dido.
            - Nunca ouvi falar.
            - Hei-de trazer-lhe a “Cantata de Dido” de Correia Garção. Foi a fundadora de Cartago, que se apaixonou por Eneias e se suicidou quando ele se fez à vela direito ao Lácio. Vem na “Eneida”. Acaba assim, a cantata, muito bonita:
 
Dido e Eneias - ópera de Henry Purcell
 
 
“...Dido infelice
Assaz viveu;
D’alta Cartago
O muro ergueu.
Agora, nua,
Já de Caronte,
A sombra sua
Na barca feia
De Flegetonte
A negra veia
Sulcando vai.” 
 
Eu costumava dar isto em literatura portuguesa dantes e tentava que os alunos descobrissem o fio condutor do discurso labiríntico por ser alatinado: (“Agora, a sua sombra nua já vai sulcando a negra veia de Flegetonte na barca feia de Caronte”). É muito giro.
            - Realmente! Temos tanta coisa bela que queremos enterrar!
            Continuo, embalada, a minha lição, mas a minha amiga acha-se com direito à retribuição das suas e não se importa:
            - O latim foi permanecendo entre o clero e os eruditos, que não se davam mal nem protestavam, pois falavam entre eles e compunham obras de grande calibre, que enchem as bibliotecas dos conventos para os estudiosos modernos, se não para as moscas e a traça. Mas o latim esmoreceu e até mesmo a Igreja o sacrificou nos actos litúrgicos da missa.
            - Sim, bem me lembro! Deve ter sido pelos anos sessenta. Falou-se muito nisso, na altura. A missa agora tem menos solenidade, acho eu.
            - Eu também! Perdeu o secretismo do sagrado. Mas o efeito é o mesmo.
            A minha amiga não se conforma:
            - Agora é o Inglês! Mas ainda não para a missa.
            - Não. Fala-se nos mestrados segundo Bolonha, em Inglês e até já há adeptos da uniformidade no Parlamento Europeu.
            - E nem avisam, nem consultam os outros povos da União, ao que consta!
            - Ah! Mas nós, não tarda, estamos lá caídos! Já cá temos o Acordo! Porque não o Inglês nas nossas Universidades? Mesmo no ensino do Português e seus escritores, porque não os havemos de fazer em Inglês? Para estrangeiros também, que somos muito tímidos.
            - Pois é! A nossa língua vai mesmo ao ar!
            - O que eu não entendo é o pedantismo disto tudo. Se nem o português aprendemos convenientemente, como temos a pretensão de aprender um inglês capaz?
            - Também pouco importa. Isto está por pouco, que o que nós não aprendemos é nada.
                                                                                                                                                      Berta Brás
 


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 12:04
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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
CRÓNICA DO BRASIL

 

                                            
UM GRITO DE ALERTA
 
 
 
Era mais de meia-noite quando o telefone tocou. Sonolento, meu marido atendeu. O plantonista de um hospital da cidadezinha onde temos fazenda falou, preocupado. Um funcionário nosso, que estava em férias na cidade, passou mal e procurou o Pronto-socorro. Foi-lhe dado um diagnóstico de possível obstrução intestinal aguda. Talvez um volvo. Mas o jovem médico que o atendeu não tinha como fazer os exames adequados, pois o hospital onde ele estava não oferecia laboratório, aparelho de RX funcionando e nem vaga para internar o paciente. Depois de recorrer a outros hospitais da rede pública inutilmente e das súplicas do paciente, o plantonista informado que meu marido trabalhava em um Hospital Escola do governo, resolveu recorrer a ele.
 
Apesar de não estar de plantão e de saber que o hospital aonde ele trabalha também estava superlotado, mandou que trouxessem o rapaz de qualquer jeito. Ele precisava ser atendido, era uma urgência.  Decisão arriscada que deixou meu marido extremamente preocupado, pois seriam duas horas de viagem cruciais para a vida do paciente.  Finalmente, pelas quatro da madrugada, quando Aparecido chegou ao hospital da nossa cidade, conseguiu ser atendido, agora pelo meu marido, pois os plantonistas estavam ocupados com as vítimas de um acidente. Ali mesmo, no tumulto do corredor, sobre uma maca, foi examinado. Depois de mais espera na porta do RX, e da colecta de sangue, recebeu a medicação venosa de sustentação.   Os exames foram feitos e para sorte do rapaz a suspeita diagnóstica não foi confirmada. Era uma oclusão intestinal parcial e passageira, que foi resolvida com medidas clinico-terapêuticas.
 
Esse é um quadro que se repete quotidianamente no serviço público de saúde: falta de hospitais, leitos, material, especialistas, vagas em UTIs, aparelhagem de RX e cardiografia funcionando adequadamente. Evasão de profissionais, salas de espera abarrotadas de gente, filas intermináveis para marcação de consultas (a longo prazo) nos ambulatórios das Unidades de Atendimento.  E o governo, maquia a realidade, dizendo que o país tem falta de profissionais, colocando aonde pode, técnicos no lugar de médicos, liberando de vez enquanto verbas para algum programa de saúde populista, que não resolve nada, fazendo um atendimento de saúde barato, gerenciando mal o pouco dinheiro despendido.
 
No Brasil há 350 mil médicos actuantes (17/ 10 mil habitantes), segundo o Conselho Federal de Medicina, distribuídos irregularmente, de acordo com a região mais ou menos evoluída.  Não há deficiência de profissionais como diz o governo. E sim salários aviltantes, condições de trabalho deficitárias, inseguras e estressantes, que afastam os novos profissionais do serviço público. Não é de estranhar que os jovens médicos, mais realistas e menos idealistas, procurem especialidades mais valorizadas, atreladas ao mercado de trabalho, que lhes dêem melhor qualidade de vida. O profissional antigo, dedicado, romântico, que ia à casa do paciente, que conhecia a família e recebia uma galinha como pagamento, quando o paciente não podia pagar, está praticamente em extinção, mesmo no interior do país.
 
 
Na área da saúde, o serviço público está falido, sucateado, sem profissionais especializados, sem hospitais suficientes e aparelhados, tudo porque os nossos governantes tratam a saúde do cidadão brasileiro de forma leviana, como moeda de troca em campanhas políticas. No final, quem fica penalizada é a população mais carente, que é a maior parte da sociedade brasileira, que morre à míngua,  sem o devido atendimento, e vê o país no vergonhoso penúltimo lugar em investimento na saúde, no Continente.
 
 
 Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 21/08/09
 
Foto:
Fonte: Internet.
Alguém oferecendo seus préstimos...
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:55
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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
CRÓNICA DE VIAGEM - 1

 

 
PARTE I - SÉRVIA
 
    Quem vai em visita turística à Sérvia, Roménia e Bulgária parte com a expectativa de ainda encontrar restos visíveis ou imaginários da história recente que consciências subitamente iluminadas resolveram virar do avesso. A expectativa acaba, nestes casos, por oscilar entre o olhar turístico e a realidade objectiva, com erros de avaliação sempre possíveis quando o rigor analítico se porfia com o registo mais epidérmico. Mas não se pode ignorar esta verdade: a história dos povos passa por encruzilhadas onde só os próprios podem avaliar os seus ideais e confrontá-los com a justeza de cada passo dado. O turista só tem de afastar o preconceito mental ou cultural se quiser apreender um pouco da alma dos povos. Acontece que estes países da Europa do Leste podem parecer, no imediato, arredados dos padrões turísticos normais, mas é exactamente a demanda do desconhecido que esteve subjacente à minha escolha, convencido de que, para além da simples fruição das coisas, há um turismo que nos interpela como seres humanos e estabelece permutas e simbioses que só nos podem valorizar.
    Foi por pensar assim que, no mês de Julho, fiz uma visita de 12 dias à Sérvia, Roménia e Bulgária, englobados num único roteiro turístico, a cargo da Agência de Viagens Pinto Lopes. No trajecto entre o aeroporto de Belgrado e o centro da cidade, a primeira impressão não é muito favorável logo que o visitante se depara com fileiras de prédios uniformes na sua fealdade e tristeza. Autênticos caixotes de betão, na sua maioria degradados, foram uma constante da arquitectura das cidades comunistas, quando se tratou de encontrar solução rápida e económica para alojar populações rurais destinadas à mão-de-obra requerida pela expansão industrial. Pesava sobremaneira a padronização e o benefício social. 
    Mas, ultrapassados os prédios inestéticos dos arrabaldes, entra-se numa cidade de bela arquitectura, carismática e monumental, onde o antigo se mistura com o moderno. Cidade vasta e bastante populosa, das mais antigas capitais europeias, dividida pelo rio Danúbio e seu afluente Sava, é na margem esquerda deste que se ergue a "Nova Belgrado", com as suas amplas avenidas e modernos prédios de habitação, hotéis e zonas comerciais. O que particularmente seduz o visitante e o tolhe de agradável surpresa é a enorme quantidade e diversidade de bem apetrechados cafés, esplanadas e restaurantes surgidos nos últimos anos. Abundam sobremaneira na rua Kneza Mihailova e suas ramificações, uma das mais concorridas, e seduzem o turista pelo requinte e luxo das suas formas. Vedadas por artísticas cercas de madeira, ornadas de flores e apetrechadas com mesas cobertas de frescas toalhas e confortáveis cadeiras de palhinha, as esplanadas são um regalo e um retempero para as pernas após severa caminhada pelas ruas.
 E, quando a noite cai, a animação ganha outra fremência nas ruas e avenidas, ficando repletos os restaurantes, bares e esplanadas. Engrossando a alegre multidão, tivemos ocasião de jantar na típica Scadalla ao som de música de violino, e convém dizer que foi num domingo, com um movimento tão intenso nas ruas que parecia não haver trabalho no dia seguinte. Não consegui saber se esta animação é moda antiga da cidade ou se ganhou renovado alento depois dos últimos conflitos, como forma de esconjurar temores ainda não de todo diluídos nos espíritos. Não deixei de pensar no actual deserto de vida nas zonas históricas das nossas cidades, mormente aos fins-de-semana. É que, lamentavelmente, aos poucos vemos esvaziar-se a alma das nossas cidades, pois que a sua memória histórica, cultural e artística não resistirá à sangria contínua da presença humana.
 
 
Esplanada em Belgrado
 
    É evidente que os dois dias passados em Belgrado não foram de molde a poder aprofundar o olhar sobre a cidade e as suas gentes, mas deu para perceber que se circula na cidade sem qualquer preocupação com a segurança. O pouco tempo disponível apenas permitiu visões panorâmicas aqui e além colhidas e visitas pré-programadas aos locais de maior interesse turístico, como a fortaleza Kalenegdan, a Catedral Ortodoxa e o Mausoléu de Tito, entre outros. A fortaleza situa-se numa área enorme sobranceira aos rios Sava e Danúbio. Ela funcionou como principal núcleo estruturante da defesa da região até ao século XVIII. Actualmente, abriga um jardim zoológico, museu, área de lazer, restaurante e café, mas nele se sente ainda o pulsar da história da Sérvia nos seus momentos mais altos e mais críticos. Dentro do forte ergue-se o monumento "Vitória", num plateau de onde se pode avistar a confluência daqueles dois rios. Erigido para comemorar o triunfo dos sérvios na Guerra dos Balcãs em 1913, este monumento é o corolário simbólico de todo um conjunto que, indiscutivelmente, constitui um dos ex-libris da cidade.
 
 Belgrado, descaindo-se sobre o Danúbio
 
    Portanto, é extremamente favorável a impressão que Belgrado exerce sobre quem a visita. Mas o que causa um impacto deveras desagradável, pela sua memória trágica e ainda bem fresca, são os prédios esventrados pelos mísseis disparados pela NATO em 1999, por ocasião do conflito do Kosovo. Justas ou não as razões da agressão bélica à Sérvia, cada um fará as extrapolações políticas que entender, mas sem se ater a juízos apressados e sem se abdicar de folhear a história do país e da região. A minha reacção imediata foi de veemente repulsa ao recordar que os ditos ataques cirúrgicos causaram a morte de centenas de civis inocentes, incluindo mulheres e crianças. Não é difícil constatar, mesmo para um leigo, que os ataques visaram alvos situados em artérias centrais da cidade, lugares, avenidas e ruas especialmente povoados e movimentados, nos quais seria irrecusável a probabilidade de sérios danos colaterais. Dói à nossa consciência moral imaginar que, nas vésperas do século XXI, bombardeiros e mísseis de cruzeiro sulcaram o céu de uma linda cidade europeia e ceifaram vidas humanas.
 
Fortaleza de Kalenegdan
 
Além de que não se pode esquecer que esteve iminente a destruição da mais importante ponte da cidade, sobre o Danúbio, mesmo depois de a saber ocupada por populares com o intuito de dissuadir os atacantes. Sabe-se que a acção só não foi executada porque os franceses se recusaram liminarmente a ser cúmplices daquilo que seria uma verdadeira tragédia humanitária. Então, os americanos não se atreveram e tiveram de enfiar a espada na bainha. Honra à França e sua consciência civilizacional, sem desprimor para a América, que em momentos-chave da história da humanidade soube estar à altura. 
     Interpelando o guia turístico sérvio sobre o interesse do povo sérvio numa adesão à União Europeia, foram estas as suas palavras: “Nós desejamo-lo porque somos europeus de consciência assumida, mas exigem-nos sempre condições inaceitáveis. Primeiro, foi a entrega de Milosevic, agora é o reconhecimento da independência do Kosovo e isso o povo sérvio não compreende e não aceita”. Para os sérvios, que libertaram o território do poder bizantino em 1208, Kosovo foi o “centro cultural, religioso e político do reino sérvio”. É onde existem importantes mosteiros da igreja ortodoxa sérvia e onde foi travada a célebre batalha do Kosovo contra os turcos, cujo significado histórico e simbólico é sumamente importante para a nação sérvia. Desde o fim da 2ª Guerra Mundial que Kosovo passou a ser uma província da Sérvia, com uma situação política de semi-autonomia.
    A verdade é que o problema do Kosovo é mais um episódio da história confusa e tumultuosa dos Balcãs, ao longo dos séculos marcada a ferro e fogo. Esperava-se que os alvores de um novo século trouxessem luz clarificadora à consciência do mundo dito civilizado, despertando novas sensibilidades políticas e humanísticas para a busca de justas soluções geopolíticas. Mas o direito internacional continua a ser manipulado por conveniências espúrias que muitas vezes ignoram os interesses vitais dos povos e minam a paz. Foi assim que, com o desmembramento da antiga URSS, emergiram nos Balcãs novos países, alguns de fraca capacidade económica, outros ajudados pela conivência pouco esclarecida de grandes potências europeias, com a Alemanha à cabeça, que sempre se opôs à formação da "Grande Sérvia" que era o sonho desmedido de Slobodan Milosevic. E o que se seguiu não podia ter sido mais trágico. Com efeito, a precipitação no reconhecimento dos novos países deu origem a calamidades humanitárias que já não imaginávamos possíveis em solo europeu. E a política externa de Bush seria mais tarde a cereja em cima do bolo envenenado que é a questão do Kosovo. Por todas estas convulsões, nos espíritos mais lúcidos e conscientes do povo sérvio tanto pode radicar uma sincera vontade de enterrar definitivamente o passado como de nunca abdicar daquilo que consideram direitos históricos, como é o caso do Kosovo.
    Se o sérvio com quem conversei reclama a plena condição europeia do seu país, um direito natural consagrado pela geografia e pela história, no seu pensamento estava subliminar o campo de luta que a Sérvia escolheu no conflito da II Guerra Mundial: ao lado das democracias ocidentais, contra a Alemanha nazi. Diferente da Roménia e da Bulgária, hoje membros da União Europeia. Diferente também da vizinha Croácia, outro país que preferiu alinhar ao lado do Eixo na II Guerra Mundial, e que, em princípio, verá em breve aprovada a sua entrada na União Europeia. Os sérvios não esquecem que centenas de milhares de compatriotas seus pereceram em campos de concentração às mãos de croatas coligados aos nazis. Veja-se assim o quão fundo mergulham as raízes dos ódios insanos que nos estarreceram no último conflito nos Balcãs. Veja-se como não se pode dissociar a geopolítica de uma correcta leitura da história.
    É verdade que forças servo-bósnias cometeram horrendos crimes contra a humanidade no triste episódio do genocídio de Sobrenica. Tanto que o primeiro-ministro sérvio, Mirko Cvetkovic, afirmou que julgar os responsáveis por esse genocídio é uma condição necessária para a reconciliação nos Balcãs. Não é difícil imaginar uma espinha cravada na alma do povo sérvio, por culpa própria mas também por contingências da história. Os governos pós-Milosevic vêm dando sinais claros de um virar de página e a nação esforça-se para recuperar a sua economia dos graves prejuízos causados pelos últimos conflitos e pela destruição de muitas das suas infra-estruturas económicas. Uma das apostas é o turismo, com o parque hoteleiro a ser restaurado e remodelado e outros equipamentos a emergirem com uma boa qualidade de oferta. É sinal óbvio de abertura ao exterior e desejo de convivência cosmopolita, rompendo com as clausuras do passado. Reportando-me de novo às palavras de Mirko Cvetkovic, acho que a integração da Sérvia na União Europeia será outro contributo importante para ajudar a cicatrizar feridas antigas e convocar todos os europeus para o mesmo espaço de valores civilizacionais. A Sérvia pertence ao mundo ocidental.
    Foi com esta impressão que deixei Belgrado a caminho da Roménia, em viagem de autocarro através das extensas planícies do Danúbio, onde o trigo, o milho e a beterraba se perdiam de vista no horizonte, de um verde igual à cor da esperança. 
 
 
Tomar, Agosto de 2009
 
 
Adriano Miranda Lima
 

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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
“O ser humano foi malfeitinho”

 

 Banquete dos Deuses - Frans Floris, 1550
Museu Real de Beslas Artes, Antuérpia
Imagm de
Web Gallery of Art
 
 
Julgava eu que a razão da observação, não em tom carinhoso, aliás pouco costumeiro nela, mas em tom muito irónico, dizia respeito às nossas mazelas de povo sujeito a um triste panorama de desequilíbrios, ou, mais elegantemente, de “décalages” embrutecedores – sociais, económicos, culturais, policiais, jurídicos, prisionais, hospitalares, fenomenais, em suma – que mesmo sem estetoscópio – fonendoscópio em designação mais preciosa – ela vai descortinando no seu dia-a-dia atento às entaladelas, de hoje em dia, da maioria.
 
Não dizia respeito. Tratava-se apenas das quatro refeições que ingerimos diariamente e que obrigam a uma sobrecarga de carregos e gastos, para manter uma casa a girar com o dinamismo necessário.
 
E assim: - O ser humano foi malfeitinho. Porque come demais. A vida da mulher é uma calamidade. A mulher que tem filhos, que trabalha, tem uma vida sacrificada. E a razão principal é essa. Comemos demais.” 
 
         Utilizei o lugar comum sobre os que às vezes nem uma refeição ingerem, eu própria também atenta às “décalages” sociais e não só às nacionais mas também às internacionais, mas não lhe interessaram, de momento, as misérias dos esfomeados, sabendo, embora, que muitos são, manifestamente apoiada a sua confiança na erradicação da fome, nos povos ricos que enviam os cereais – e as armas, estas como medida profiláctica que fará reduzir o quantitativo dos sacos dos comestíveis a enviar.
 
Estava cansada de compras, preferia não ter que fazer nada, sobretudo em termos de alimentação do corpo, mais votada ao alimento espiritual que a imprensa escrita, falada e visionada nos carreia em exagero sem tréguas, provocando a revolta nas falas.
 
Eu não se me dá o alimento, às vezes mesmo num excesso condenável, como o colesterol acusa. Mas gosto de repartir com os que me são queridos. Tenho mais jeito para doçuras, o que se vê no meu feitio acomodatício, ela prefere os salgados, mas a elegância física revela que nem mesmo nesses se apoia, sempre parca e disciplinada.
 
“O ser humano malfeitinho porque come demais?”
 
Tem razão, a minha amiga. Mas esqueceu-se de expor sobre as comezainas que a cada passo têm lugar no convívio humano, sobretudo no votado às altas lides de governação, de qualquer coisa que seja – nação, banca, empresa nacional ou particular, disputas pelo guinness book – e de que Vieira aponta mesmo a antropofagia no magnífico “Sermão de Santo António aos Peixes”, de que não resisto a trazer à luz o intróito – “Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos.... - e o seu final de desmesura triunfalmente conceituosa e actualidade perfeita: “enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra e já o tem comido toda a terra”.
 
Estamos lá todos. O Padre António Vieira bem sabia, génio de predestinação.
                                                                                                            Berta Brás


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:46
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Terça-feira, 25 de Agosto de 2009
A CULTURA NO FUTURO DAS CIDADES – 4

 

 
 
 
 
Finalmente a cidadania e a conclusão
 
Surge assim a importância essencial das organizações de cidadania em geral, de âmbito local ou internacional que equilibram e complementam as organizações políticas, partidárias e corporativas que a experiência tem demonstrado serem insuficientes para a defesa dos interesses do País e por isso terem que ser complementadas com a participação operacional de todos aqueles que querem ter voz activa, sem os compromissos de luta pelo poder e por interesses próprios que sendo ambos necessários e fatais introduzem sempre distorções características da natureza humana.
 
Na verdade a evolução dum povo depende exteriormente da sua interacção com os seus vizinhos, com uma noção de vizinhança muita larga, e internamente da interacção das suas elites com a restante população e das características de ambas.
 
Mas se as elites não se mostrarem à altura necessária e suficiente para a resolução dos problemas existentes, o que fazer? E como?
 
E assim fica a capacidade de actuação da cidadania com parte do peso da responsabilidade de realizar as mudanças indispensáveis. Muito aproximado do que aconteceu na crise de 1383-1386.
 
E para terminar, afinal o que poderei sugerir para a previsão do futuro próximo?
 
Estas previsões sempre houve tendência para serem aproveitadas para impressionar as populações e já que se torna difícil convencê-las com razões, sempre é mais fácil meter-lhes medo e assim com frequência são apocalípticas. E de facto podem sê-lo.
 
Mas julgo preferível ir pelo caminho da previsão condicionada: grande desenvolvimento em tecnologias no campo da genética, das nanotecnias, dos materiais…e doutras inovações ainda desconhecidas.
 
Política nacional: as previsões a nível nacional não são famosas, a nossa riqueza continua a cair como tem acontecido desde há cerca de 40 anos mas estão surgindo jovens promissores e deveremos corrigir a actual Constituição que tem a particularidade de ser bi-presidencialista e pouco operacional.
 
Política internacional: parece certo não haver tão cedo nenhuma potência dominante como aconteceu com a Inglaterra no século XIX e os EU no século XX pois agora temos a China, a Índia, a Rússia, o Japão, o Brasil e a Europa mais no comercial que no político porque para isso acontecer seria preciso haver uns Estados Unidos da Europa e os europeus não são capazes de tal proeza.
 
Energia: vai custar mais cara quer por razões ecológicas quer pelos custos de produção pelo que teremos que nos adaptar a transportes mais caros e a mudanças nos sistemas de produção e distribuição e a dar mais importância à mão-de-obra. A falácia do hidrogénio não passa disso porque ele só serve para transportar energia e não como matéria-prima.
 
Matérias-prima/manutenção e reciclagem: a carência de matérias-prima e o aumento do custo da sua extracção vai reforçar o que se disse no item anterior com ênfase nestas actividades.
 
Mão-de-obra: a gestão dos recursos humanos vai ter que mudar pois há que se adaptar aos enormes volumes de mão-de-obra e à necessidade de resolver as questões de produtividade simultaneamente com o combate à precariedade e ao desemprego que estão na origem de grandes convulsões sociais.
 
Pobreza/Riqueza: o facto de haver cerca de metade da população mundial com nível de extrema pobreza obriga a encarar esta questão de forma imediata e eficaz pois não se trata de acabar com os ricos mas sim de acabar com os pobres o que só será possível com um sistema de gestão mundial que equilibre os principais interesses de toda a população.
 
Alimentação/fome: está na mesma linha de pensamento e acção que o anterior com a agravante de que a fome tem efeitos muito rápidos e a alimentação está ligada à gastronomia e aos excessos alimentares que dificulta a adopção de sistemas inteligentes de gestão da produção que é naturalmente limitada, além do espectro da especulação.
 
Segurança /liberdade: a facilidade de comunicação veio aumentar as necessidades de combater a insegurança daí resultante o que obrigará a meios mais apertados de vigilância o que significará mais restrições e até eventualmente menos liberdade. Trata-se de um equilíbrio difícil de atingir onde a cidadania terá, e já tem, enorme importância.
 
Educação: para que seja possível a mudança de quantidade para qualidade é indispensável alterar o actual equívoco prestando a devida atenção aos sistemas de enquadramento e aos exemplos dados pelos mais velhos e mais importantes, o que na prática inclui quase toda a gente menos as crianças (e mesmo nestas só as mais novas).
 
Organização do trabalho e das reformas: como corolário do que atrás foi dito é essencial rever tudo o que existe pois é forçoso ter um conceito de trabalho que permita prolongar a vida produtiva de cada um, porque se não for assim não haverá dinheiro para pagar as reformas, não será possível aproximarmo-nos do pleno emprego nem dar possibilidades de mínima realização pessoal à maioria da população.
 
No caso da nossa cidade,Tavira, a previsão optimista é finalmente termos desenvolvimento náutico que atrairia muitos interessados todo o ano e não apenas mês e meio como tem sido a ideia do Sol e praia e tornar esta cidade um pólo de excelência da náutica de recreio dando-lhe a vida que todos ambicionamos com a criação de numerosos postos de trabalho bem valorizados e o fim dos muitos fogos devolutos.
 
 
Tudo problemas de gestão, difíceis de resolver com certeza, mas possíveis e na minha opinião a única solução para pôr de lado as visões apocalípticas. Gestão que não seja apenas para dar lucro pelo lucro mas que contribua de facto para melhorar as condições de vida de todos e assente nos três pilares essenciais: a sabedoria, o poder e a caridade.
 
Para já temos um tempo magnífico e como já passámos por fases bem mais complicadas, havemos de descobrir como continuar a viver e tenho esperança que seja com a maior participação das organizações de cidadania.
 
Muito obrigado pela vossa atenção.
 
FIM
 
Tavira, 8 de Agosto de 2009
 José Carlos Gonçalves Viana


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:05
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A CULTURA NO FUTURO DAS CIDADES – 3

 

 
AGORA TRATEMOS O FUTURO
 
Quando se fala em futuro há uma falácia que surge imediatamente: não é possível prever o futuro. O que se demonstra ser totalmente falso pois estamos constantemente a prevê-lo ou não fosse o presente apenas a passagem do passado para o futuro. Na verdade tudo o que estamos a ver e a ouvir é sempre passado de forma que tudo o que pensamos fazer “agora” no momento a que chamamos presente é de facto futurologia a curto prazo. O que se passa com a previsão do futuro é qual o prazo até onde é sensato e aceitável prever.
 
Convém agora examinar como pode evoluir a realidade e quais as causas de anomalias às nossas previsões que são baseadas no conhecimento do passado e no que temos vontade (mais do que desejamos) que aconteça.
 
Na maior parte dos casos extrapolamos as tendências do passado recente e as informações das previsões meteorológicas e das bolsas, além dos programas da TV e os espectáculos em que estamos possivelmente interessados e do que temos registado nas nossas agendas. Por vezes programamos as férias, quem as tem programáveis, e na altura de escolher o curso em que nos iremos inscrever podemos tentar prever como será a actividade que iremos realizar e por aí fora durante toda a nossa vida vamos prevendo e revendo previsões umas vezes com algum sucesso outras vezes para esquecer.
 
Mas a História ensina-nos que a realidade sempre foi muita mais variada. Com efeito os acontecimentos mais influentes na vida dos povos de que temos notícia como foram a invenção da imprensa que permitiu o início da globalização do conhecimento, o desenvolvimento das ciências que levou ao início da globalização mundial, a invenção do telescópio, da máquina a vapor, da lâmpada eléctrica, do telefone, das vacinas, das “microchips”, dos materiais de construção modernos e tantos outros mais e ainda as muitas descobertas científicas que revolucionaram as energias e a medicina, não foram previstas.
 
Tudo isto aconteceu fora das previsões feitas no esquema normal de nos basearmos apenas na evolução mais ou menos recente.
 
Conta-se a história de um responsável pelo registo de patentes nos EU nas vésperas do aparecimento do telefone e da lâmpada que teria proposto fechar o dito registo porque já estava tudo inventado.
 
Para complicar mais esta questão temos ainda que chamar a atenção para o facto de algumas destas invenções e descobertas terem tido aplicações com efeitos extremos, isto é, muito boas e muito más como foi o caso, por exemplo, da dinamite e da energia atómica, a segunda muito criticada por ter sido o meio que provocou a morte a 200 000 pessoas e a primeira nada criticada mas tendo sido o meio usado para matar muitos milhões.
 
Portanto não nos devemos preocupar com as novas invenções mas antes com a existência de condições para elas acontecerem e principalmente com o que devemos fazer para evitar grandes erros cujos resultados são previsíveis. O conhecimento da evolução da Terra e do Universo também nos ensina que há numerosos fenómenos que constituem ameaças à nossa vida e para efeitos de previsão podemos classificá-los em três categorias:
1ª Aqueles em que nada podemos fazer além de rezar e portanto não vale a pena entrar com eles na previsão, excepto aprender a rezar;
2ª Aqueles para os quais podemos prever defesas para minorar os estragos e desenvolver métodos de previsão que ajudem como acontece com os tremores de terra, com os tsunamis e com os furacões e algumas mudanças climáticas;
3ª Aqueles em que as causas são de origem humana como a poluição e o crescimento populacional e aqui está a área onde a humanidade pode e deve actuar a fim de melhorar o nível de qualidade de toda ela e permitir a sua sobrevivência.
 
Em resumo temos uma participação activa na definição do nosso futuro pois a nossa vontade é sem dúvida um factor essencial e tão essencial que ninguém se deve furtar a assumir a responsabilidade que lhe cabe nas decisões quanto às escolhas do futuro que se pretende ter.
 
E agora é a vez da Cultura
 
Não a do Ministério respectivo que introduziu a distorção do sentido da palavra, tal como aconteceu na Educação com os péssimos resultados à vista, mas aquela que, dentro do conceito filosófico, corresponde às actividades essenciais, às crenças, atitudes, instituições, comportamentos básicos, regras morais, valores e capacidade de adaptação ao ambiente, das populações e em especial das elites que as dominam e orientam e assim conduzem os seus destinos influenciando o tratamento da 3ª categoria das ameaças conforme atrás examinámos.
 
O desenvolvimento deste tema levar-nos-ia a gastar o tempo todo e por isso limito-me a focar um aspecto fundamental da história de Portugal que ilustra de forma lapidar a importância da Cultura na vida de um povo.
 
Descobrimentos portugueses - Museu de Marinha, Lisboa
 
Se olharem para um mapa da Europa, Portugal fica no extremo esquerdo inferior, longe do centro europeu, portanto obviamente periférico como se ouve dizer muitas vezes como desculpa para o atraso que nos assola há tanto tempo.
 
Com o desenvolvimento da Marinha portuguesa no século XV o mapa que passou a ser tratado pelos portugueses foi o mapa-mundo em que Portugal figura no seu centro, deixando pois de ser periférico e se tornar num país central, à escala mundial.
 
Isto resultante de termos então uma Cultura de inovação, espírito científico e tecnológico, audácia, capacidade empresarial e operacional, definição do essencial e haver responsáveis mais voltados para as obras que para os papéis.
 
Após 1974 até cerca de 95 fomos destruindo a Marinha que tínhamos e transformámo-nos novamente num estado periférico de que tínhamos iniciado o afastamento em 1945, (quando foi dado o impulso para a sua criação) sem que os muitos economistas e políticos de excelente nível que temos tivessem dado conta disso e feito alguma coisa para alterar esta rota de colisão em que temos andado.
 
Há pois actividades e atitudes componentes da Cultura que são essenciais para a identidade, para o desenvolvimento e até para a sobrevivência de um povo da mesma forma que as há que são exactamente contrárias a estes objectivos como sejam: a proliferação de estabelecimentos de vida nocturna para jovens menores, o baixo nível da sua educação global, o deficiente funcionamento da justiça, o investimento decidido na base do imediato e do mediato, a corrupção, a ineficácia, etc.,etc.. 
 
Esta Cultura é dinâmica, ou deve ser, pois como é ela que preside à adaptação da população à evolução da vida envolvente se assim não for isso significa a estagnação e no extremo a extinção da identidade que distingue essa sociedade das outras.
 
A palavra-chave para a sobrevivência de qualquer ser vivo, e portanto também para nós é adaptar-se, obviamente em tempo útil.
 
O exemplo do afogado é paradigmático: se queremos que alguém não se afogue temos que a ensinar a nadar antes de cair à água porque depois não dá tempo…
 
E aqui entra a importância da Educação, também outra vez não a do Ministério respectivo que é mais da Instrução, mas da autêntica pois há que adicionar-lhe o efeito dos enquadramentos e dos exemplos que tanto tem faltado e que são muito mais influentes que a própria matéria ensinada na escola.
(continua)
 
Tavira, 8 de Agosto de 2009
 José Carlos Gonçalves Viana

 

 

(continua)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:04
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Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009
A CULTURA NO FUTURO DAS CIDADES – 2

 

 
 
Como surgiram as cidades
 
Convém aqui recordar que a vida que existe na Terra, e que ao longo de milhões de anos se desenvolveu e que moldou pelo menos em parte a evolução da sua superfície, é em si mesma um milagre pois se imaginarmos um gráfico das pressões e temperaturas no universo, que variam ambas entre zero e milhões das respectivas unidades, se processa num minúsculo quadrado com apenas algumas dezenas destas unidades em cada lado.
 
O Homem desde há alguns séculos começou a ter influência no ambiente e assim que conseguiu agrupar-se e produzir mais do que consumia iniciou a construção de cidades onde se desenvolveram todas as civilizações conhecidas porque o desenvolvimento implica a existência de inúmeros especialistas das tecnologias conhecidas e a existência de massa crítica populacional só possíveis num ambiente urbano.
 
Na verdade a grande diferença da vida rural para a vida urbana reside no facto de só esta permitir a complementariedade dos especialistas e a convivência activa e produtiva entre os habitantes, assim facilitando a divulgação dos conhecimentos e o seu aproveitamento, isto é o desenvolvimento de uma Cultura correspondente à sua identidade e que com ela inter-age.
 
Verificou-se ao longo da História que muitas cidades nasceram, cresceram e desapareceram sendo neste caso substituídas por outras, atingindo-se agora um número elevado de cidades com vários milhões de habitantes cada, que precisam de receber do exterior praticamente tudo o que lhes é necessário para viver, mas fornecendo ao mundo o conhecimento e o progresso tecnológico.
 
O seu crescimento pode realizar-se por simples expansão de um centro único ou pela aglomeração de vários centros do que resultam frequentemente territórios urbanos com dezenas de km de extensão, mas sempre com redução das áreas naturais.
 
Só que neste momento e pela primeira vez na História, como a globalização está para ficar, já não está em causa a permanência ou a destruição de uma cidade mas toda a humanidade passou a ser uma metrópole dadas as facilidades existentes na comunicação, quer directa ou por sistemas de transporte de informação e assim total interdependência.
 
O que atrás foi apresentado serve para colocar agora dois pontos:
       1º As cidades não podem continuar a crescer indefinidamente o que obriga a resolver problemas de gestão bastante delicados mas inevitáveis;
       2º O paradigma do crescimento obrigatório da economia, herdado do século XIX tem que ser alterado para rigoroso critério de sustentabilidade onde a quantidade seja substituída pela qualidade.
Ou seja conseguir-se uma mudança cultural profunda.
(continua)
 
Tavira, 8 de Agosto de 2009
 José Carlos Gonçalves Viana
 
 


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:07
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A CULTURA NO FUTURO DAS CIDADES – 1

 

 
Interior do Castelo de Tavira
 
INTRODUÇÃO
 
Em primeiro lugar quero agradecer ao Elos de Tavira[1] o convite, em especial à Dr.ª Isabel Dias, simpático para mim e arriscado para vós, para estar aqui convosco neste agradável jantar e melhor ambiente e partilhar algumas reflexões sobre este tema que tem a particularidade de juntar três palavras todas elas envoltas em algumas confusões e malentendidos e prometendo esforçar-me por não ser pessimista nem excessivamente sonolento, ou seja não dormirem já, nem ficarem deprimidos no final.
 
PORQUE ESCOLHI ESTE TEMA
 
A razão de ter escolhido este triplo tema reside nos factos seguintes: estarmos a viver uma época fantástica pois no último meio século a humanidade inventou, descobriu e melhorou inúmeras tecnologias que permitem o acesso aos vastos conhecimentos existentes e a comunicação entre toda a gente esteja ela onde estiver completando assim a globalização iniciada pelos portugueses no século XV e ainda o de a população mundial ter passado de 1 bilião antes de 1900 para cerca de 7 biliões agora simultaneamente com aumentos significativos da esperança de vida.
 
Globalização esta que conforme foi demonstrado matematicamente pelo Prof. Carvalho Rodrigues foi iniciada e atingida durante o século, ou quase, em que os portugueses dominaram os mares do mundo, descobrindo todos os continentes embora dois deles (América e Austrália) mal tratados pela História, ou pelo menos pelos nossos historiadores.
 
Além disto existe uma enorme quebra na biodiversidade, consubstanciada em milhares de espécies já desaparecidas e muitas outras em vias disso, em milhões de hectares de florestas destruídas, em aumentos da percentagem de CO2 na atmosfera e aumentos da temperatura média do planeta, para ser muito resumido e, além disto, estamos a meio (talvez já com o fim à vista) de uma crise que significa na verdade o fim do capitalismo liberal após cerca de 20 anos antes se ter dado o fim do marxismo comunista, e curiosamente não resisto à tentação de acrescentar: porque essencialmente ambos pecaram pelaganância desmesurada dos detentores do poder, num caso político noutro financeiro, independentemente doutras causas sistémicas.
 
De acordo com as notícias do dia em que figuram números assustadores de algumas dezenas de contaminados com a gripe A parece que o combate a esta pandemia é o assunto mais importante mas não podemos esquecer alguns números muito expressivos indicados no relatório da Cruz Vermelha como sejam: cerca de 2,6 biliões de pessoas vivem com menos de 2 dólares por dia e 50 000 morrem por dia de miséria extrema, a malária que os portugueses tinham conseguido erradicar nos seus territórios, mata anualmente um milhão de pessoas e por aí fora.
 
E ainda uma contradição de funestas consequências: a droga, que obriga os países mais desenvolvidos a combaterem os produtores gastando milhões, enquanto estes ganham milhões a vendê-la aos primeiros e usando o mesmo sistema financeiro internacional.
 
Estamos de facto num período de profundas alterações que vão pôr à prova as capacidades de sobrevivência de toda a humanidade e em especial das suas cidades.
 
Não podemos esquecer que o primeiro dever do ser vivo é viver e para isso é preciso sobreviver pelo que as duas forças essenciais da evolução humana foram, são e serão a luta pela sobrevivência e a luta pelo poder.
(continua)
 
Tavira, 8 de Agosto de 2009
 José Carlos Gonçalves Viana


[1] - Palestra proferida no castelo de Tavira em 8 de Agosto de 2009, dia do Elismo
 


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:22
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