Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
POSTAIS ILUSTRADOS - XVI

 

 
Miguel Ângelo
 
Anno Elécti. - III
 
 
 
Naquele tempo, (ou era uma vez, se quisermos contar às criancinhas), do período de euforia e de saneamento em saneamento lá íamos cantando e rindo, com um brinquedo novo nas mãos – o prec* – mas de que depressa nos cansámos; e, nesta festa estonteante, foram surgindo de mansinho Leis instaladoras da nova elite, sub-reptícias, tratando do futuro dos Eleitos. Ainda, recentemente, ouvi um comentário de café – uso em que somos diligentes – que reforça o que o Povo diz na rua e que passo a reproduzir: “Fizeram e fazem Leis só para eles”. Os Eleitos são os únicos responsáveis pelo descrédito em que caíram junto dos seus eleitores. E, talvez propositadamente ou não, estrategicamente pensada ou não, as sucessíveis Leis de implantação do sistema político foram almofadando o caminho dos novos senhores. Ninguém pensou, por exemplo, ab initio, em limitar os mandatos. E se alguém pensou não o disse, com medo de desagradar ao novo Poder instituído. Todos conhecemos os resultados desta “benfeitoria”. A Assembleia ficou com lugares reservados sem tempo limite de ocupação para alguns e a hipótese de ser renovada com novos rostos, novos ideias, pessoas mais jovens na política partidária diluiu-se e passou a ser dependente da vontade de quem estava no topo das listas e dominava o aparelho partidário. Há Eleitos que se mantêm nas cadeiras de São Bento desde a Assembleia Constituinte, ou seja, há 35 anos !!! Não há necessidade de nomeá-los. O Povo conhece-os. A quantas reformas terão direito, meu Deus? Também, a prática de substituição dos mandatos na Assembleia da República, adoptada para os Eleitos é esclarecedora. Acrescida da não limitação dos mandatos, este regime de substituição dos Deputados por outros Eleitos é o ouro sobre o azul para Suas Excelências. Entram na Assembleia eleitos nas listas dos partidos com o compromisso de nos representar por uma legislatura, para alguns saírem logo a seguir para membros do Governo, Administradores de Empresas Públicas e outros cargos públicos, normalmente, bem remunerados. E quando lhes termina a comissão o que é que acontece? Voltam tranquilamente, ao lugar que lhes está reservado, por direito. Direito? Sim, direito, porque o ditado popular de “foste ao ar perdeste o lugar” não é aqui aplicável. Também estas questões do princípio da legitimidade e verdade da representação democrática deviam ter sido acauteladas. Os trabalhos da Assembleia iniciam-se com uns e quando estamos a meio da legislatura, a Assembleia já tem outro rosto. E a ética do compromisso democrático eleitoral? E a verdade da representação conferida pelos eleitores? Onde se situam? É preciso responder-vos? Mas falemos doutras coisas, por exemplo, da noção de responsabilidade política dos nossos Eleitos? O recente episódio de alguns Senadores Britânicos, descobertos em acções cuja integridade foi posta em causa, teve como consequência o pedido de demissão do Presidente, que assumiu as responsabilidades políticas de tão vergonhosa situação. Lembrei-me, de imediato, do exemplo dado pelos nossos lídimos representantes com as viagens fantasmas e com o inquérito parlamentar que se lhe seguiu? E outros inquéritos parlamentares? Que consequências políticas tiraram destes, os nossos Eleitos? Podem ter tirado, mas não me lembro de coisa alguma, provavelmente, porque não foi dada suficiente publicidade a esta matéria, a das consequências, claro! Já agora acrescentemos a estas benfeitorias, a benesse do estatuto de aposentações privilegiado? Já alguém, nos mais altos escalões da vida político-partidária levantou a sua voz e teve coragem para denunciar estas mordomias? E tentar corrigir? Não digo que não tenham benefícios por servirem a Nação. Devem tê-los! A Democracia exigi-o! Mas era necessária esta descarada vantagem em relação ao cidadão comum, quando há tanta gente a viver abaixo do limiar da pobreza? Os nossos Eleitos, esta minoria privilegiada autoconvictamente esclarecida, impôs a todos nós: um sistema político e eleitoral que contempla a classe política com benesses que constituem situações de privilégio que colectivamente pagamos. Resta-nos pedir contas. E como as pedimos? Usando o voto com inteligência, porque, afinal de contas, ainda é a nossa arma. Vamos, pois, todos votar, para lhes demonstrar que não estamos contentes com isto e que é preciso mudar. No próximo e último texto desta série, satisfarei o pedido do Senhor Primeiro Ministro: vou apresentar algumas sugestões aos Eleitos. E já agora concluo com uma citação de Miguel Angelo, autor da pintura acima, e... um génio: “Muito ganha aquele que aprende, quando perde”.
*Processo revolucionário em curso
 
 
 Luís Santiago

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Quinta-feira, 28 de Maio de 2009
HERÓIS DE CÁ - 9

FASCISMO NUNCA MAIS!

 

 

 

 

Conta-se que Dino Grandi[1]– Ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália sob a égide de Mussolini e Presidente do Grande Conselho Fascista – terá chegado a dizer que «fascismo é a prática do improviso resultante da prodigiosa imaginação do Duce».
 
Toda a teorização é balofa perante esta definição.
 
O conceito de Estado, a subjugação da pessoa, o corporativismo, etc., foram «coisas» que Mussolini empiricamente fez para controlar o Poder e depois foi à procura duma justificação teórica. A verdade, contudo, terá estado na boca de Grandi. E só na dele.
 
Ora, se o pensamento crítico se caracteriza fundamentalmente pela ultrapassagem dos limites definidos pelas opções tradicionais contidas no dogma, estamos neste caso perante a imposição de uma situação dogmática – o Poder pessoal de Mussolini – cujos limites são ab initio desconhecidos mas a quem posteriormente (depois da imposição consumada) se procura atribuir algum enquadramento histórico e definir conteúdos. E isso é feito de preferência num plano abstracto para desse modo se pintar um cenário de teorização. Uma impostura em que são as consequências que definem a causa; inversão lógica, empirismo grosseiro. Total ausência de valor científico e processo repulsivo para qualquer hipótese de um eventual enquadramento académico.
 
O capricho do ditador, a ausência de norma que pudesse condicionar esse capricho, eram a pedra fundamental do regime fascista; o contrário do Estado de Direito, o oposto integral da equidade. Apenas uma regularidade: a arbitrariedade.
 
Nesta mesma categoria se enquadraram Hitler, Staline, Franco, Bocassa; Helena Ceauscescu, Chiang Ching (última mulher de Mão Tsé Tung) e Eva Péron cujos maridos oficialmente detinham o Poder mas que, afinal, eram elas a exercer com a maior impunidade. Abstenho-me de citar outras más fortunas que a Humanidade suportou…
 
Todos estes pesadelos alcançaram o Poder e definiram um dogma que consistia na sua própria detenção desse mesmo Poder. Baniram o pensamento crítico e quando ele ousou mostrar-se liquidaram-no tão radicalmente quanto julgaram necessário para a manutenção do dogma. A essência da missão era a manutenção do Poder e para que isso acontecesse tudo se justificava. Não olhar a meios para alcançar o objectivo, eis uma característica da prática fascista.
 
Passados aqueles ditadores em revista, reconhecemos-lhes uma característica comum: baixíssima intelectualidade. Apenas Franco possuía alguma instrução.
 
Todos aqueles casos malévolos foram revolucionários e invocaram a revolução para manterem viva a chama do Poder. Mas a partir do momento em que um novo padrão se define, a revolução morre e a vida passa a pautar-se nessa nova conformidade.Eis por que não faz qualquer espécie de sentido a gritaria tão habitual do género A revolução continua!Ora, se impuseram o seu padrão e o conservaram, então deixaram de ser revolucionários e passaram a ser conservadores – conservadores do seu próprio padrão, o vitorioso. Assim se cai no fascismo, o tal que não tem lado direito ou esquerdo e que se define apenas pelo capricho em total antinomia com o Estado de Direito.
 
Por tudo isto, clamo: - FASCISMO NUNCA MAIS!
 
Logicamente, excluo Salazar da categoria que venho referindo. E faço-o por várias razões a que me referirei mais logo…
 
Lisboa, Maio de 2009
 
 Henrique Salles da Fonseca


[1] - Mordano, 4 de Junho de 1895 — Bolonha, 21 de Maio de 1988

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CRÓNICA DO BRASIL

 

A farra das famílias dos (des)governantes a devorarem os incautos
 
Auto - flagelação
 
... a revolução deixou as coisas como as achou,
e não mudou senão os homens.
Se a antiga aristocracia histórica pesava sobre a nação,
a nova aristocracia da nação pesa dobrado.
François Guizot
 
A flagelação é prática conhecida desde a mais alta antiguidade, usada não só como penitência ou mortificação por almas perseguidas pelo demónio da ira, da vingança e da tentação da carne, como para infligir aos condenados penas corporais, quase sempre em público para exemplo, sendo, como é óbvio e tradicional serem os escravos os mais castigados.
Ainda hoje se pratica, sobretudo pelos muçulmanos que açoitam, sempre na via pública, os condenados pela sharia, como por aqueles que se querem purificar das vis tentações terrenas. Também se encontram esses loucos em penitência, arrastando-se, os joelhos sangrando em cima de calçadas pedregosas.
Mas há hoje em dia ainda outro método de permanente castigo, mais moderno, sempre actualizado, de que o cidadão comum, mesmo de consciência tranquila e dever cumprido, não consegue livrar-se: tomar conhecimento do noticiário do que se passa no país! Não se trata de lavagem de cérebros, mas de achincalhar a ética, a dignidade e consciência de cada um: ler o jornal ou ouvir o noticiário! À medida que as notícias e os comentários se sucedem sente-se, muito profundamente, uma terrível sensação de castigo permanente, de condenação aos infernos, de tristeza, de impotência perante o poderio da nomeklatura que se assenhoreou desta terra, sem que se possa vislumbrar, por pouco que seja, o fim deste anátema, o de se ter eleito, para destruir o país, a camarilha que por lá se enfarta!
Não há uma obra pública, umazinha só, que não seja superfacturada, como as sedes dos tribunais de toda a espécie e em todo o país, compras de material de escritório para repartições que chegam a custar 600% mais do que paga um cidadão em qualquer loja, deputados bêbados e sem carta de condução a circular na cidade a 200km/h, matar dois indivíduos e sair dando risada, é o ver assumir cargos de senadores e deputados indivíduos alguns com uma dúzia ou mais de processos a correr nos tribunais por corrupção, homicídios, formação de quadrilha e outras barbaridades, é o assistir à discussão de quotas para diferentes RAÇAS entrarem nas universidades, quando o conceito de raça está mais do que abolido em todo o mundo, é a obrigatoriedade de todos os alunos de qualquer escola se identificarem indicando em ficha própria a sua cor e raça, é o analfabeto kxk a trocar a directoria do Banco do Brasil para, em oito, entrarem sete filiados do PT, com a indicação expressa de terem que baixar os juros, e uma semana depois eles aumentam, é o ministro da fazenda, que há dois dias dizia que o PIB deste ano deveria ficar entre 0 e 2% e ontem afirma que deve chegar a 4%, são as contas públicas que nos mostram que o gabinete do presidente, perdão, do dono do Brasil gasta quase 50% mais do que o dos EUA, e 1.500% mais do que custa ao Reino Unido manter a família real, é a notícia de que a tal presidência vai comprar, além do Airbus novinho que lá tem, mais dois aviões para... para quê mesmo?, é o resultado da independência da reserva da Raposa do Sul, com a finalidade (!?) de preservar a cultura indígena, e para ser exclusivo uso destes, que querem agora produzir, associados aos terroristas do MST, em escala de agro negócio o mesmo arroz que produziam os brancos que de lá foram corridos, é a confirmação oficial do apoio a este grupo terrorista, cujos membros, centenas de milhares, vão começar a receber subsídio do Bolsa Família porque se descobriu que o governo, à sorrelfa, repassava milhões para essa gente através de ONGs escusas, e assim dirá estar a auxiliar os mais desfavorecidos, é também a criação duma CPI para investigar a super poderosa Petrobrás, que o governo já avisou que vai torpedear, tendo o cefalópode manifestado a sua indignação dizendo que esta CPI era uma traição ao país (não dá sequer para acreditar), mesmo tendo vindo a lume, pela Receita Federal, que a dita Petrobrás tinha encapado mais de 4 biliões de impostos, é enfim uma torrente de disparates, de crimes contra a nação, de ladroagem, de corrupção, de sem vergonhice, que faz desaparecer a res publica nos bolsos deles, enquantoflagela a consciência daqueles com um mínimo de raciocínio, e que procuram lutar para elevar a dignidade deste país, parecendo loucos Quixotes contra esses infames moinhos de vento negro.
 
Rio de Janeiro, 20 de Maio de 2009
 Francisco Gomes de Amorim

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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009
HERÓIS DE CÁ - 8

 

TOMÁS DA FONSECA - IV
 
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Abel Salazar com Tomás da Fonseca
 
Chegado à vida com o propósito de contribuir para a modernização da sociedade portuguesa, trazia na sua bagagem uma forte moral cristã, uma opinião muito negativa quanto à acção social da Igreja e um empenhado anti-clericalismo, uma Fé totalmente abalada e uma profunda adesão ao conceito republicano da «liberdade, igualdade e fraternidade».
 
Com forte pensamento crítico sobre os dogmas nacionais, não hesitou em colaborar na busca de novos caminhos que conduzissem Portugal ao ressurgimento. Mas considerando que o dogma fornece coordenadas que permitem a exploração de vias potencialmente caóticas, nunca abdicou da ética por que se regeu desde a infância e navegou com relativa serenidade por entre os escolhos do nihilismo revolucionário em busca das novas regularidades por que pugnava.
 
Assim, firme na defesa das suas ideias e munido de uma coragem moral que desafiou todas as vicissitudes, teve um papel preponderante na geração que fez a República sempre lutando pelos Direitos do Homem como eles muito mais tarde haveriam de ser universalmente declarados pela ONU[1].
 
Em 1910 foi Chefe do Gabinete do primeiro Presidente do Ministério republicano, Dr. Teófilo Braga e em 1916 foi eleito Senador pelo Distrito de Viseu.
 
 
Em 1918, por se opor à ditadura de Sidónio Pais, foi preso durante dois meses na cadeia civil de Coimbra em simultâneo com o seu cunhado José Lopes de Oliveira, período em que se dedicou a ensinar as primeiras letras aos presos de delito comum analfabetos seus companheiros de cela.
 
 
Professor de raros recursos pedagógicos, a sua ligação ao ensino foi um acto contínuo e em 1922 publicou o livro “História da Civilização” que pouco depois foi adoptado como livro escolar. Dentre as grandes questões a que nunca se furtou, ficou famosa a polémica que desenvolveu com João de Deus Ramos sobre o ensino religioso nas escolas.
 
Contando com o apoio de Francisco Grandella, promoveu a instalação de inúmeras escolas primárias de modo a combater o analfabetismo, causa por que pugnou até ao final da vida.
 
Feroz opositor das ditaduras, foi perseguido pelas suas ideias políticas liberais durante o consulado salazarista. Os seus livros foram alvo de censura e proibição. Contudo, nas mais 12 vezes que foi encarcerado não voltou a ser misturado com presos de delito comum e muito se ria com o facto de os próprios guardas prisionais à socapa lhe pedirem autógrafos em exemplares escondidos dos seus livros. Nunca foi torturado e a família sempre foi autorizada a visitá-lo.
 
Associá-lo a qualquer regime totalitário como o PCP[2] tentou, é denegri-lo, apanhá-lo à traição, não respeitar os seus ideais de liberdade absoluta, democracia pluralista, cultura crítica e anti-dogmática.
 
A título póstumo foi-lhe concedida a Ordem da Liberdade[3] e essa, sim, não se confunde com qualquer opção autocrática, monolítica ou obscurantista.
 
Maio de 2009
 
Henrique Salles da Fonseca
 
ALGUMA BIBLIOGRAFIA:

AGIOLÓGIO RÚSTICO, I. Santos da Minha Terra – Contos inspirados em figuras da sua terra natal, Mortágua.
ÁGUAS NOVAS – Peça em 4 actos. "Na esperança de que possa servir de refrigério, tanto aos humildes que têm fome de pão, como aos vencidos com sede de justiça".
ÁGUAS PASSADAS – Compilação de textos sobre a luta anti-clerical.
BANCARROTA – Exame à escrita das agências divinas.
OS DESERDADOS – Poesia, com um prefácio de Guerra Junqueiro.
FÁTIMA – Cartas ao Cardeal Patriarca de Lisboa
FILHA DE LABÃO – romance.  
GUERRA JUNQUEIRO – Como ele escrevia. Considerações sobre o manuscrito de "Os Simples"; cartas inéditas.
A IGREJA E O CONDESTÁVEL – Uma das suas mais procuradas obras.
MEMORIAS DUM CHEFE DE GABINETE – Segundo Lopes de Oliveira, encontram-se nesta obra "não só lembranças do seu passado, da sua nobre vida, mas também eloquentes páginas da própria história da República.”
A PEDIR CHUVA... – Palestra a propósito do uso das orações destinadas à imploração das chuvas em tempo de seca, integrada na «Biblioteca de Fomento Rural»
O PINHEIRO – Palestra aos seus vizinhos da Montanha, 1948, sobre a boa utilização das florestas em Portugal.
O SANTO CONDESTAVEL. Alegações do cardeal diabo – Um dos seus mais polémicos estudos históricos dedicado "Á memória dos mártires que a Inquisição queimou nas fogueiras acesas pela Igreja"
 


[1] - 10 de Dezembro de 1948
[2] - Partido Comunista Português
[3] - Diário da República, 2ª Série, 12 de Dezembro de 1984

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Terça-feira, 26 de Maio de 2009
Pirataria de hoje e de ontem

  

 
 
 
Notícias veiculadas recentemente na mídia têm levado a público o retorno de uma actividade milenar: a pirataria. O palco, o mar, lugar de difícil controle, os actores, os somali, povo sofrido que passa por enormes dificuldades de pão e de governação desde a queda da ditadura de Mohamed Siad Barre em 1991. Dizem que o que fazem no mar é consequência dos problemas que passam em terra. Porém, não deve ser essa a saída. Seria corrigir um erro com outro erro. Provavelmente a resposta seria devolver-lhes a cidadania. E para isso seria preciso muito trabalho e vontade política, coisa que vai contra interesses de gente que não se importa com a miséria que aflige esse povo.
 
Segundo Peter Lehr, especialista em estudos de pirataria da Universidade St. Andrews na Escócia, a actividade começou com assaltos a cargueiros de um pequeno número de pobres pescadores que viram suas águas contaminadas e sua comunidade arrasada. Com o sucesso da empreitada, passaram a ser patrocinados, com armas sofisticadas, por homens sem lei, que viram a oportunidade de ganho fácil. Hoje, com tanto lucro, são os piratas que financiam os homens de guerra da Somália. Nas cidades base das operações piratas, EYL e HARARDERE, mansões e carrões são ostentados pelos somalis que se utilizam desse meio de vida, contrastando enormemente com o resto da população que vive na pobreza, à espera de ajuda externa. (Revista Veja 22 abril/2009, pg 82).
 
Mas a costa berbere (Tunísia, Argel e Marrocos) tem história antiga de pirataria. Do século XVI ao século XVIII, essa gente cruenta e destemida frequentou as águas do Mediterrâneo e do Atlântico, à caça de riquezas e de cristãos. Pilhavam e levavam cativos para o comércio de escravos ou para futuro resgate, em geral pago pela Fazenda das Coroas Cristãs, pela Igreja e pelos próprios reféns ou /e família.
 
 Após o descobrimento do caminho marítimo para Índias, as rotas e as paragens das naus, abarrotadas de riquezas, ficaram muito visadas. Portugal e Espanha eram as vitimas preferidas daqueles tempos. Os motivos eram vários.  A disputa pela soberania nos mares, a expulsão dos mouros e judeus da Espanha, com a formação de um grupo de gente sem eira e nem beira, a eterna guerra entre cristianismo e o islanismo, a “exclusividade” na exploração das riquezas do Novo Mundo.
Quando os paises ibéricos passaram a ser regidos pela mesma Coroa, os portugueses passaram também a sofrer ataques dos inimigos dos Filipes. Eram os protestantes do norte, os mouros e judeus do mediterrâneo, que passaram a espreitar e a assaltar as rotas atlânticas e a periferia portuguesa, ponto  mais vulnerável e desprotegido do reino. Foi assim que os Açores se
tornaram alvo da pirataria. Quando não conseguiam a gorda presa que vinha das Índias ou das Américas, os piratas, que ficavam longos períodos à espreita no mar, às vezes contentavam-se em saquear as desprotegidas ilhas, quando estas não se associavam a eles, com ajuda de água e víveres. Como no caso exemplar da Ilha das Flores, quando o capitão-mor Tomé de Fraga deu sua filha em casamento, por amor ou por necessidade, ao corsário Peter Easton, quando este frequentava  as águas florentinas. E o que dizer de um vigário do Corvo, que à troca de generosas moedas de ouro, não hesitou em desobedecer às ordens régias e abasteceu o navio do pirata Almeidinha.
 
Os tempos passaram, os danos materiais e humanos foram imensos, mas a pirataria continua sendo o recurso marginal de
românticos, governos e empresas, para explorar os mais vulneráveis, para atingir os seus intentos ou chegar ao lucro fácil, sempre sob a égide da coação e do medo.
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 12/05/09
 
Dados:
Revista Veja 22/04/09
O Faial e a Periferia Açoriana (dos séculos XV a XIX)
Ilha das Flores: da redescoberta à atualidade (Francisco Antonio Nunes Pimentel Gomes).
 

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Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
O PORTUGUÊS DE OLIVENÇA

 

 
O dia amanheceu sem nuvens significativas e o Sol pareceu querer saudar o evento. E não era para menos!
 
Em 28 de Fevereiro de 2009, a Língua Portuguesa manifestava-se livremente em Olivença graças à iniciativa, ao esforço, à coragem de uma associação oliventina, a Além-Guadiana.
 
Não por acaso, jornais e televisões estavam representados. E talvez por acaso, pois outra razão seria insustentável, não estavam órgãos de comunicação portugueses, empenhados com outras realidades informativas…
 
A Jornada sobre o Português Oliventino decorreu na Capela do vetusto Convento português de São João de Deus. Num clima de alguma emoção, estava a fazer-se História… e quase 200 pessoas foram testemunhas disso!
 
Falou primeiro o Presidente da Junta da Extremadura espanhola, Guillermo Fernández Vara, oliventino, assinalando que, na sua casa paterna, o Português era a língua dos afectos. Uma herança que ele ainda conserva, apesar de já ser bem crescidinho… e Presidente duma região espanhola.
 
De certa forma, estava dado o mote. O Presidente da Câmara de Olivença, Manuel Cayado, falou em seguida, realçando o amor pela língua portuguesa, e acentuando o papel de Olivença como ponto de encontro entre as culturas de Portugal e Espanha.
 
Joaquín Fuentes Becerra, presidente da Associação, fez então uma breve intervenção, insistindo na natureza cultural da Jornada.
 
Juan Carrasco González, catedrático, falou das localidades extremenhas, quase todas fronteiriças, onde se fala português, com destaque para Olivença, e defendeu que tal característica se deveria conservar.
 
Usou depois da palavra Eduardo Ruíz Viéytez, director do Instituto dos Direitos Humanos do Conselho da Europa, que defendeu as línguas minoritárias e explicitou a política do Conselho da Europa em relação às mesmas. Informou que o Conselho da Europa já pedia informações ao Estado Espanhol desde 2005, sem que Madrid desse resposta. Em 2008, graças à Associação Além-Guadiana, fora possível conhecer detalhes, com base nos quais o Conselho fizera recomendações críticas.
 
Seguiu-se Lígia Freire Borges, do Instituto Camões, que destacou o papel da Língua Portuguesa no mundo, com assinalável ênfase e convicção. Tal discurso foi extremamente importante, já que, tradicionalmente, em Olivença, se procurava menorizar o Português face ao "poderio planetário" do castelhano…
 
Uma pequena mesa redonda antecedeu o Almoço. Foi a vez de ouvir a voz de alguns oliventinos, num Português bem alentejano no vocabulário e no sotaque, em intervenções comoventes, em que não faltaram críticas e denúncias de situações de repressão linguística não muito longe no tempo.
 
À tarde, falaram Domingo Frade Gaspar (sobre a «fala galega», na raia extremenha) e José Gargallo Gil (de Valência, a leccionar em Barcelona), que continuaram a elogiar políticas de recuperação e conservação de línguas minoritárias. O segundo sublinhou a existência de fronteiras e do de seu estatuto de lugar de encontro e de compreensão de culturas diferentes, embora não como barreiras intransponíveis.
 
Seguiu-se Manuela Barros Ferreira, da Universidade de Lisboa, que relatou a experiência significativa de recuperação quase milagrosa do Mirandês, a partir de uma muito pequena comunidade de falantes, já convencidos que aquela língua tinha chegado ao seu fim. O exemplo foi muito atentamente escutado pelos membros do Além-Guadiana.
 
Falou finalmente o Presidente da Câmara Municipal de Barrancos, a propósito dos projectos de salvaguardar o dialecto barranquenho e de o levar à "oficialização".
 
No final, foi projectado um curto filme sobre o Português oliventino, realizado por Mila Gritos. Nele surgiam oliventinos a contar a história de cada um, sempre em Português, explicando os preconceitos que rodeavam ainda o uso da Língua de Camões e contando histórias pitorescas. A finalizar o "documentário", uma turma de jovens alunos de uma escola numa aula de Português pretendia mostrar para a câmara os caminhos do futuro.
 
Deu por encerrada a sessão Manuel de Jesus Sanchez Fernandez, da Associação Além-Guadiana, que ironizou um bocado com as características alentejanas do Português de Olivença, comparando-o com o pseudo superior Português de Lisboa.
 
A noite já caíra quando, com muitos cumprimentos e alegres trocas de impressões finais, os assistentes e os promotores da Jornada abandonaram o local, convictos de que tinham assistido a algo notável.
 
Estremoz, 28 de Fevereiro de 2009
 Carlos Luna
 
In Boletim do Grupo dos Amigos de Olivença – Maio de 2009
 
 

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Domingo, 24 de Maio de 2009
HERÓIS DE CÁ - 7

TOMÁS DA FONSECA - III

 

 cm-mortagua.pt

Busto de Tomás da Fonseca

frente à Câmara Municipal de Mortágua

 

 

Recordações de Tomás da Fonseca
 
Caro Henrique
No escorço biográfico sobre a figura de teu avô - Tomás da Fonseca - apontaste a erudição e a afabilidade como aspectos dominantes da sua personalidade. Frisaste assim as facetas que o tornavam imediatamente estimado. Porém, a sua personalidade era tão rica que poderias ter continuado a adjectivação por muito mais tempo. 
 
O que eu sempre admirei nele foi o amor à verdade; a disposição infatigável e heróica de combater sistematicamente a mentira, sob toda e qualquer forma como esta se apresentasse. E fazia-o sozinho. Tal atitude e tamanho zelo chamava-os ele a si e não os impunha como obrigação aos outros. Sabia melhor do que ninguém a que penas e tormentos os cultores da verdade se sujeitam. Lembro, a propósito, que no dia do meu casamento com a sua neta Maria me chamou de parte e indagou:
- Luís, tens uma quinta?  
- Não.
– Então não te esqueças deste meu conselho. Neste país só pode ter opinião quem tem uma quinta que lhe garanta o sustento próprio e dos seus.
E assim pôs-me à vontade.
 
+++
 
O conhecimento que travou com Guerra Junqueiro no último Verão antes de acabar o curso no Seminário teve decisiva influência na sua formação e na orientação que viria a dar à sua vida. O poeta era adepto incondicional do cientismo histórico de Ernesto Renan que incutiu no espírito do seu jovem discípulo. Tudo isto se passou em 1908. Tomás da Fonseca optou por não continuar os estudos no Seminário e dar curso à sua aspiração de acabar o com obscurantismo que “mantinha o povo português, escravo duma cultura exausta, cheio de fome, privado de liberdade, fanatizado, inconsciente e miserável”. Vê-se assim precocemente metido nas andanças do republicanismo e fá-lo sobretudo para levar a educação ao povo dos campos. Começou a dar forma a este seu empenho logo junto dos pastores que apascentavam os rebanhos de seu pai, lá pelos altos do Caramulo. Foi em atenção a eles que escreveu os “Sermões da Montanha”.
 
Cedo, porém, transferiu-se para Lisboa para dar curso a acções de muito maior envergadura, agora em colaboração com os primeiros governos do novo regime republicano. E neste afã empregou o melhor da sua juventude. O 28 de Maio de 1926 viria mais tarde marginalizá-lo na política. Não desistiu porém da luta. Recorreu à palavra: - escrevia livros e assim continuava o seu magistério moral.
 
A resposta calorosa que obteve tanto em Portugal como entre os emigrados portugueses no Brasil mostra que Tomás da Fonseca conhecia bem a pureza e seriedade da alma do povo português.
 
+++
 
Sempre achei curioso que enquanto combatia o obscurantismo confessional, Tomás da Fonseca não se esquecia que a mente humana não dispensa mitos. Um dia, na sua casa-biblioteca, em Mortágua, levou-me a ver a colecção de Bíblias, “provavelmente a maior do país”. Já não me lembro do número de exemplares que tinha reunido mas tenho ainda presente o espectáculo de prateleiras e prateleiras recheadas com edições das sagradas escrituras feitas em todas as épocas e nas mais variadas línguas. Tomás da Fonseca olhava-as com enlevo.
 
+++
 
A par de uma cultura vastíssima, Tomás da Fonseca era praticante e defensor da vida sã e simples. Muito antes de ser moda, já ele se empenhara de alma e coração na luta contra o tabagismo, – outra actividade que, no tempo, lhe granjeou a hostilidade dos poderosos.
 
Sabia também que a liberdade exige frugalidade. Evitava o luxo – e até o conforto – para não cair na armadilha. E assim permaneceu toda a sua vida: - simples, austero e livre. Era trabalhador incansável mas nunca se furtou ao convívio jovial e frequente com os amigos que tinha por toda a parte. E assim nos alegrou a vida.
 
Foi sorte, muita sorte, tê-lo conhecido.
 
24 de Maio de 2009
General Domingos de Oliveira - A bem da Nação Luís Soares de Oliveira
 
 
P.S.
Guardo comigo um exemplar dos “Inéditos de Gusmão”, impresso no Porto, em 1841, que o teu avô me ofereceu. É um documento notável que nos revela El-Rei D. João V visto e descrito pelo seu Escrivão da Puridade, no melhor estilo picaresco. Se um dia tiveres espaço no teu blogue, poder-se-ia nele reproduzir algumas das melhores passagens do livro.
 

 

 


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Sábado, 23 de Maio de 2009
ACADEMIA GALEGA DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

 

 

 

 
DISCURSO NA SESSÃO INTER-ACADÉMICA NA
ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA
 
José Martinho Montero Santalha
Presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa
http://www.aglp.net
info@aglp.net
 
 
 
Em nome da Academia Galega da Língua Portuguesa, que tenho a honra de representar neste acto, queria começar agradecendo à Academia das Ciências de Lisboa o convite a participar nesta sessão inter-académica, e nomeadamente ao Prof. Artur Anselmo, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia.
 
A «Academia Galega da Língua Portuguesa» constituiu-se no passado ano 2008 em Santiago de Compostela. E sente-se altamente honrada de ser acolhida aqui de maneira tão cordial, como uma irmã mais nova que começa a dar os seus primeiros passos, quase sem outros méritos que a esperança que a move e a sua entrega à causa da língua comum.
 
É uma entidade surgida da iniciativa privada e define-se a si mesma como instituição científica e cultural, que tem como fins fundamentais o estudo e a promoção da língua da Galiza, entendida como uma modalidade do idioma que no mundo se conhece como «língua portuguesa»: uma iniciativa que nasce com modéstia mas também com generosa vontade de trabalhar pela nossa cultura e nomeadamente pela nossa língua, e com o propósito de reger-se pela atitude científica e pelo rigoroso amor à verdade.
 
A ideia de criar uma Academia Galega da Língua Portuguesa procede do professor Carvalho Calero, e é oportuno lembrarmos aqui o seu nome, porque ele teve a honra de estar ligado a esta Academia das Ciências que tão generosamente nos acolhe na sua casa. Foi Carvalho Calero o primeiro que, já na década dos oitenta do passado século, formulou a necessidade de constituir uma Academia Galega que, tanto na sua concepção como na sua prática, mantivesse de modo inequívoco a unidade linguística da Galiza com os outros países de língua portuguesa. A AGLP surge assim com o desejo e com a esperança de ser e aparecer – especialmente perante o resto do mundo lusófono mas também perante o resto do mundo todo – como um estandarte do carácter lusófono da Galiza e da sua pertença à Lusofonia, e isso já desde o seu próprio nome.
 
Doravante a Lusofonia tem na Galiza uma instituição com quem poder contar para a colaboração em todos os assuntos de língua, em representação (que não pretende possuir nenhuma exclusividade) da cultura galega mais genuína.
 
A GALIZA, UM PAÍS LUSÓFONO
 
A Galiza é um país de língua portuguesa, um país lusófono: embora muitos dos demais lusófonos o ignorem, fala uma forma de português que os galegos denominamos por vezes «galego» ou mesmo «língua galega», e este factor linguístico é, ademais, o principal sinal de identidade colectiva da Galiza como povo diferenciado dentro do Estado Espanhol, no qual se integra como comunidade autónoma, dotada de governo próprio e de amplas competências políticas em diversos campos.
 
É verdade que a maioria dos lusófonos nem sequer sabe que a Galiza é um país lusófono. Os próprios meios de comunicação lusófonos, mesmo os de Portugal, não costumam considerar os galegos como irmãos de língua, mas, simplesmente como “espanhóis”. Muitos portugueses que visitam a Galiza, vão ali como se fossem a qualquer outra região da Espanha, e para entenderem-se com os galegos esforçam-se por falar castelhano.
 
Algo similar, de resto, acontece também entre a gente comum da Galiza: embora todos sintam uma certa comunidade afectiva com Portugal, normalmente falarão castelhano tanto quando visitem Portugal como quando na própria Galiza se encontrem com visitantes lusófonos. Ora, esta situação vem provocada pela falta de comunicação ao longo dos séculos e pela escassa informação no tempo presente. E deve-se certamente também a essa falta de informação que não seja mais intenso o interesse e o sentimento de solidariedade dos demais falantes de português para com a Galiza, se exceptuarmos uma minoria de estudiosos – felizmente crescente de ano em ano.
 
O português da Galiza: uma situação paradoxal
 
A situação que apresenta a língua portuguesa na Galiza é paradoxal.
 
Por um lado, a língua portuguesa debate-se ali entre grandes dificuldades, até o ponto de que a sua própria sobrevivência se nos apresenta incerta. Mas, por outro lado, a Galiza encerra ainda uma parte do mais autêntico tesouro do idioma, vivo não só na sua tradição literária e popular mas também na fala habitual de muitos galegos, como consequência do facto de ser a língua «nativa» do território, ou, como diz o nosso Estatuto de Autonomia, «a língua própria».
 
As causas que determinam a situação presente do português da Galiza compendiam-se numa: a nossa história plurissecular de dependência com respeito à Espanha, que teve uma consequência no terreno linguístico - o espanhol, apesar de ser originariamente uma língua estrangeira no território galego, foi a única oficial da Galiza durante séculos e até há poucos anos; agora é co-oficial juntamente com o português da Galiza, mas continua gozando, de facto, com muitas vantagens sobre a língua nativa.
 
Uma história tão longa explica a complexa situação linguística da Galiza e que para muitos lusófonos se torne dificilmente compreensível. Factores concretos de desorientação são fundamentalmente dois: por um lado, o predomínio linguístico espanhol (não só no uso falado mas também no sistema ortográfico que se vem empregando mais comummente), e, por outro lado, nos últimos anos a tentativa, por parte dalguns galegos, de “independizar” do português a língua da Galiza, com a pretensão de fazer dela uma língua distinta.
 
Apesar de todos os condicionalismos históricos que propiciavam o obscurecimento da unidade linguística galaico-portuguesa, na cultura galega existiu sempre uma parte muito qualificada, e até maioritária, que mantinha a consciência da identidade lusófona da Galiza, em consonância aliás com o que afirmavam os grandes mestres da Filologia Românica: desde o Padre Feijoo no século XVIII, passando por grandes vultos da nossa cultura como Manuel Murguia, Castelao, Guerra da Cal ou Carvalho Calero, até aos dias de hoje, em que mantêm essa consciência muitos galegos, de todas as ideologias e de todas as classes sociais.
 
A consciência da Galiza em Portugal
 
Felizmente, também no mundo lusófono não faltaram, nos tempos modernos, testemunhos da consciência de que a Galiza fazia parte da “casa comum” linguística.
 
Primeiramente, nos filólogos. Baste-nos lembrar, entre outros, os nomes de Leite de Vasconcelos, Lindley Cintra ou Celso Cunha (para citarmos só pessoas falecidas), que incluíram, de pleno direito, o território galego na área de língua portuguesa, como uma forma mais de português.
 
Também no terreno literário as produções modernas dos escritores galegos foram consideradas repetidamente como parte das literaturas de língua portuguesa. Já o fez Teófilo Braga em 1877 incluindo vários poetas galegos contemporâneos, ao lado dos portugueses e brasileiros, na sua antologia de poetas em língua portuguesa que intitulou Parnaso Português Moderno.
 
Com alcance geral, Jacinto do Prado Coelho incluiu a literatura galega, em plano de igualdade junto com a portuguesa e a brasileira, no seu grande Dicionário de Literatura, fazendo notar a presença galega até no mesmo título da obra: Dicionário de Literatura: Literatura portuguesa, Literatura brasileira, Literatura galega, Estilística literária.
 
E é bem conhecida a longa entrega de Rodrigues Lapa à causa da cultura galega e à defesa da pertença do território galego ao mundo lusófono. O grande mestre não ficou só em afirmações teóricas, mas procurou reflectir a unidade linguística também na prática. Assim, na sua popular Estilística da língua portuguesa aduziu abundantes exemplos literários de autores galegos, considerando-os membros de pleno direito da literatura em português.
 
O léxico galego
 
O «Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)» significou, em certa medida, a acolhida ao português galego por parte da restante comunidade lusófona. Uma delegação galega participou nesse acordo (como também, pouco antes, no Acordo do Rio de 1986), e foi essa a primeira vez em que isso acontecia, dado que, por razões diversas, quase sempre de ordem política, nos acordo ortográficos anteriores da língua portuguesa a voz da Galiza estivera totalmente ausente.
 
No texto do Acordo está prevista, como é sabido, a elaboração do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa.
 
Com o intuito de realizar essa tarefa para a área galega, como um primeiro passo, a Academia Galega da Língua Portuguesa elaborou uma escolha de particularismos lexicais galegos que propõe para serem integrados no Vocabulário Ortográfico Comum (e com a esperança de que, no futuro, se integrem também nos dicionários da língua comum).
 
Em geral, os vocábulos propostos não figuram nos mais comuns dicionários gerais publicados em Portugal e no Brasil. Como referência fundamental tomamos o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea desta Academia das Ciências de Lisboa, coordenado pelo académico João MalacaCasteleiro.
 
Cumpre advertirmos, no entanto, que, dadas as especiais circunstâncias sociais em que a língua se vem desenvolvendo na Galiza, esse contributo lexical não pode deixar de ser provisório: não todos os vocábulos apresentados possuem a mesma legitimidade; no entanto, são vocábulos que, por serem de uso corrente na actualidade quer na fala habitual quer na escrita literária, podem ser considerados característicos da variante nortenha do português europeu e, portanto, com direito a constarem no Vocabulário Ortográfico Comum e nos dicionários gerais.
 
Concluo agradecendo mais uma vez esta acolhida à voz da Galiza. Agora talvez mais que nunca, os galegos que temos como idioma materno o português sentimo-nos acolhidos pelos nossos irmãos de língua no lar comum. E, para o futuro, alimentamos a esperança de que, sejam quais forem as circunstâncias político-culturais em que os nossos países se encontrarem, entre todos saibamos achar caminhos e instrumentos que permitam articular essa irmandade superior que é a língua, o que para a Galiza implicará uma participação plena e permanente na comunidade lusófona.
 
Muito obrigado.
 
Lisboa, 14 de Abril de 2009
 
 José Martinho Montero Santalha
Presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa
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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009
CRÓNICA DO BRASIL

 

O «cara»  e o «bochechas»
 
Está cada vez mais difícil escrever algum comentário à vida política deste tão belo e grande país. Diariamente os jornais, tvs e demais órgãos de informação põem em evidência o podre do regime em que vegetamos, sem educação de base minimamente aceitável nas escolas públicas, sem obras de infra-estruturas que levem ao desenvolvimento e com, pelo menos, 50.000 homicídios por anos. Isto sem contar a esculhambação de governantes e congressistas, alguns, pelo menos sinceros, que afirmam em alto e bom som que se estão lixando para a opinião pública, um dos quais tem uma esposa amantíssima que é prefeita lá no Rio Grande do Sul numa cidadezinha mixuruca e compra, com dinheiro público, para seu uso, um carro de luxo, outro com a carteira de condução apreendida, corre a 190 km/hora nas ruas da cidade e mata dois inocentes, e como é duputedo, perdão, deputado, tem «foro especial» e não vai preso, o (des)governo continua a dar apoio a terrorista nacionais e internacionais, e etc.
E vai daí a UNESCO decidiu dar ao «cara» o prémio “Houphouet-Boigny pela Paz” constituído para homenagear pessoas ou instituições que tenham contribuído para a promoção, a pesquisa e a manutenção da paz!
Já foram homenageados, entre outros, Nelson Mandela, uma das grandes figuras do nosso tempo, admirado e querido em todo o mundo. Mas entregar este prémio ao «cara» do Brasil é uma monstruosidade da UNESCO!
Em defesa do dito salta o senhor «bochechas», membro do júri, que nos tempos em que era do contra, em Portugal, estava exilado em França, coitadinho, e recebia de alguns banqueiros um ligeiro subsídio de sobrevivência igual ao dobro do salário de um director de banco! Argumenta assim Mário Soares: decidimos conceder o prémio a Lula por suas acções em busca da paz, do diálogo, da democracia, da justiça social e da igualdade de direitos...
Tamanha é a enxurrada de inverdades neste «louvor» que enoja! O Brasil é, sem dúvida, o país com o futuro que agora se aproxima, bem mais tranquilo do que os outros emergentes como a Índia ou a China. Em nada o «cara» para isso contribuiu. NADA! Mas há que lisonjear o país, atribuindo-lhe prémios que são uma afronta à ética e à dignidade.
Permite o «homenageado» as maiores desigualdades entre os poderosos e os rouba-galinhas, alimenta com milhões de dólares os grupos bolcheviques terroristas, permite que seus filhos de varredores de zoológicos se tornem bilionários de dia para a noite, com o apoio de adversários políticos, grandes contribuintes para a sua campanha de reeleição, sem pronunciar uma palavra de desacordo, vê (ou não vê?) à sua volta os mais directos colaboradores roubarem impunemente, assiste ao desmonte das forças armadas e ao descalabro do crescendo do tráfico de drogas e à desmoralização das polícias, distribui dinheiro a monte para garantir o voto dos mais ignorantes, e vem o «seu bochechas» fazer a apologia do «cara» e do prémio!
Realmente o mundo anda às avessas! Tudo é uma permanente mentira, um jogo de interesses escusos e mesquinhos e um lançar de poeira nos olhos dos poucos que ainda os conseguem abrir. Até que lhos arranquem.
 
Rio de Janeiro, 15 de Maio de 2009
 Francisco Gomes de Amorim

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Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
POSTAIS ILUSTRADOS – XV

 

 
Anno Elécti. - II
 

“O Homem pode subir até aos mais altos cumes, mas não pode lá morar por muito tempo” Bernard Shaw, (1856-1950)

 
Somente aos mortos é permitido que se diga a verdade”. Mark Twain, já citado no meu último texto, tem razão, na sua sempre mordaz e acutilante ironia (*). Quando soubermos a verdade, mesmo verdade, sobre todas estas patifarias políticas que nos vêm sendo feitas já cá não estaremos; todas estas trapalhices serão contadas às nossas gerações futuras e só quando a História der lugar ao Conhecimento esclarecido e expurgado dos “contos de fadas” que proliferam na nossa História oficial. Bernard Shaw, citado neste texto, defensor de um socialismo que não este “socratismo”, não conhecia a figura do político português pós Estado Novo.
 
 
O político português pós Estado Novo veio para subir até aos mais altos cumes do interesse pessoal, para ficar ad aeternum no poder, partilhá-lo apenas com os amigosemorar por cá muito tempo. Escrito isto, venho recordar o que afirmei, neste blog, em 18 de Setembro de 2008, atitude em que continuo a insistir e acreditar: é preciso “Mudar o sistema político eleitoral”. O nosso óbice é que vimos a adiar esta premente tarefa, (que é difícil, claro!) de enfrentar a mudança. Não o fazer, já não é problema de apenas meia dúzia, mas, de todos nós, como sociedade responsável, como, aliás, muito bem destaca o Senhor Coronel Adriano Miranda Lima, no seu primeiro comentário ao meu texto anterior (PI XIV). E, seguindo o contexto do segundo e imediato comentário do Sr. Coronel, eu gostaria de salientar que as últimas linhas desse meu texto constituíram um apelo e um alerta, um tanto ou quanto piegas e dramático e reconheço-o, não que alguém assim os tivesse classificado; mas, porque é mesmo dramático e é, também, o que sinto na realidade.
 
Compreendo e aceito a exigência que se impõe de a solução ser procurada por todos nós... E se não o for? E se o que é o bom senso comum e o espírito patriótico se tiverem extinguido nesta voragem insana de embriaguez pelo Poder? Ou se destes só restar uma exígua parte tão necessária à força que devemos ter para nos erguer de novo, por colectivamente cansados e desiludidos? Não estaremos a ver a História a repetir-se, só que com outras roupagens? Começo pelos actuais e quinzenais debates parlamentares com o Governo, para lamentar a vazia retórica parlamentarista e a tradição barroca não renovada e recriada do tratamento de tantas excelências para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda. Mas, nem isso; a tradição já não é o que era (passe o plágio publicitário). Os parlamentares de antanho, da primeira República tinham um discurso mais profundo, mais erudito, mercê da sua cultura e, não raras vezes, a sua oratória constitui obra prima de bem dizer e escrever português. Mas, na essência da res politica estaremos na mesma.
 
Os sintomas e os tiques são os mesmos na burrice da ausência de diálogo nacional construtivo. Não quiseram, nessa altura, fazer o inteligente sacrifício de se entenderem e abriram as portas ao Estado Novo. Os actuais debates são um “dejá vu” que veio, quiçá, para nos assombrar a memória colectiva. Convinha regressarmos a 1976, à Assembleia Constituinte, à então Constituição da República e às Leis elaboradas à sombra desta. O primeiro grande passo que abriu o caminho à situação em que estamos foi o de os parlamentares constituintes (alguns deles) forçarem e consagrarem no texto constitucional, uma Nação que teria como meta a via para o “Socialismo”, talvez pensassem ingenuamente (?) no socialismo doutrinário e não no socialismo ideológico. O que é facto é que quando foram eleitos, foram-no sem um mandato que expressa e inequivocamente lhes outorgasse essa orientação e essa vontade do Povo Português. Se bem me recordo, só os parlamentares do CDS tiveram a coragem, enfrentando um ambiente hostil, para recusar votar esse anátema antidemocrático imprimido e forçado no texto constitucional de 1976. Isso é passado, a questão foi resolvida, poder-me-ão dizer, mas perdeu-se muito tempo. Só um Povo consciente dos erros que fazem parte da sua memória colectiva, não os renegando, poderá merecer-se um futuro risonho. Tratámos logo no início da nossa jovem existência democrática de renegar Salazar, atirando tudo o que cheirasse a salazarismo para debaixo do tapete.
 
A ponte sobre o Tejo mudou gloriosamente de nome numa noite. O Fado, canção nacional, agora candidata a património cultural da Humanidade, foi companheiro e cúmplice da longa noite fascista, nas afirmações inflamadamente convencidas e “inteligentes” do pensamento “democrático” dominante dos novos senhores do novo apostolado político. Portugal, num ápice, passou a ser uma Nação de “antifascistas”. O Povo Alemão, ao contrário de nós, numa humilde assunção dos seus erros e horrores do passado, expôs ao mundo, corajosamente, Auschwitz, Treblinka, Dachau, entre outras provas da catástrofe mundial que provocaram e de que foram protagonistas. As verdadeiras inteligência e cultura são aquelas que se nos apresentam com humildade!
 
A eficácia da democracia depende da concordância entre o conteúdo programático partidário e a ética social e política da sua execução. No próximo texto continuarei por 1976 e seguintes, a suscitar-vos a atenção para alguns erros que, na minha opinião, não deviam ter acontecido e, também, na minha modesta opinião, as atitudes que devemos tomar para os ultrapassarmos.
(*) As Aventuras de Huckleberry Finn; o Autor explica num outro prefácio de uma outra obra sua que são textos baseados na Vida.
 
 Luís Santiago

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:26
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