Sexta-feira, 27 de Junho de 2008
DITOS ANTIGOS

 

 
 
Basta já termos alguns anos para nos lembrarmos dos antigos dizerem que Fulano ou Beltrano estava muito doente, que «tinha a espinhela descaída».
 
Sempre me intrigou tal expressão e foi debalde que perguntei e gente antiga mais ou menos culta ao que se referia tal moléstia. A primeira vez que ouvi a expressão foi ao médico que assistia aos meus Avós.
 
Para grande alívio do meu Avô que julgava estar com uma insuficiência coronária a que então se chamava «angina de peito», o médico disse-lhe que não era isso que ele tinha, que sossegasse, que talvez fosse a «espinhela descaída». Bastava ir ao hospital fazer uma radiografia e ficava-se logo a saber se era isso ou não. Mas que angina de peito não era pois o electrocardiograma não enganava.
 
Pela radiografia se ficou a saber que também não era a espinhela que o incomodava e... já esqueci a conclusão do diagnóstico e tratamento sequente mas ele acabou por morrer muitos anos mais tarde duma causa para que ainda hoje, passados 40 anos, não há cura: idade muito avançada.
 
E volta que não volta, lá ouvia eu referências à famosa «espinhela descaída». Neste sisma andei quase meio século até que há dias numa conversa de esplanada no meu clube veio o tema à baila e, mais uma vez, nem cultos nem remediados de Cultura souberam responder. Mas uma das presentes era a minha prezada amiga Dr.ª Elsa Simão, ilustre investigadora de ciências farmacêuticas, cuja curiosidade se deve ter sentido “picada” e, vai daí, pôs-se à procura da solução do mistério.
 
Passados uns dias estava eu em casa a estudar outros assuntos na Internet e eis senão quando noto que tinha uma mensagem nova na caixa de correio. Fui ver e... a neve não caía do azul-cinzento do Céu, nem branca e leve nem branca e fria... Era, sim, uma mensagem da minha amiga farmacêutica que me esclareceu definitivamente sobre o significado da expressão misteriosa.
 
Então, assim reza a Wikipedia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Espinhela que cito sem transcrever na íntegra para aguçar o interesse de quem quiser saber mais:
 
  • Espinhela descaída é a designação popular de uma doença caracterizada por forte dor na boca do estômago, nas costas e pernas, além de um cansaço anormal que acomete o indivíduo ao submeter-se a esforço físico. Segundo a tradição popular, a espinhela é um osso pequeno, flexível, parecendo um nervo, que se encontra no meio do peito, entre o coração e o estômago e que pode curvar para dentro.
 
 
Mais objectivamente, trata-se da ossificação do apêndice xifóide, cartilagem no extremo inferior do externo, que desse modo perde a flexibilidade e passa a interferir com os órgãos próximos – estômago, diafragma, fígado, pâncreas – causando incómodos como os referidos, ou seja, gastralgias, vómitos, perturbações respiratórias, pancreáticas e hepáticas.
 
Da terapêutica moderna nada refere a dita enciclopédia mas do receituário antigo faziam parte certas rezas que se dizia serem muito eficazes.
 
 
Espinhela descaída, portas para o mar;
Arcas espinhelas, em teu lugar.
Assim como Cristo, Senhor Nosso andou,
Pelo mundo arcas espinhelas levantou.
 
Mas havia quem se sentisse melhor com estoutra:
 
Espinhela descaída, ventre derrubado,
Eu te ergo, eu te curo, eu te saro.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
Da espinhela descaída estás curado.
 
E os exemplos são tantos que seria fastidioso transcrevê-los. De qualquer modo, se quem me lê sentir algum daqueles sintomas, sugiro que procure o médico e não o xamã. Posso garantir de fonte segura que não foi com rezas que o meu Avô – uma das pessoas mais eruditas que alguma vez conheci – se curou mas sim e apenas com o apropriado conselho médico.
 
Junho de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:49
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Quinta-feira, 26 de Junho de 2008
TRADIÇÃO FLAMENGA
A canal in Bruges Bruges - canal
 
 
 
Vamos conhecer um pedacinho da terra flamenga, Bruges, de onde provieram os primeiros povoadores e colonizadores da minha terra, a ilha do Faial e que deram origem às famílias açorianas:
 
- Dutra - Jorge d Útra ( Josse Van Hurtere)
- Terra- Jorge da Terra ( Josse Van Aard ou Aertrijcke) 
- Silveira - Guilherme da Silveira ( Willelm Van Der Haghen) 
- Brum- Guilherme de Brum ( Willeelm Van Der Bruyn Kasmasch) 
- Gularte - Guvarte (Govarte),  nome interpretado equivocadamente, com o tempo,  de maneira afrancesada, como Goulart 
- Grotas ( Groot)
- Bulcão ( Bulscam ou Bulscamp)
- Armão ( Herrman)
- Rosa ( Peter de Roose)
- Arnequin ( Herrnan Jannequim)
 
E outros que se perderam na forma aportuguesada de falar e escrever os 
apelidos flamengos.
 

Maria Eduarda Fagundes.jpg

Maria Eduarda Fagundes
Nota:
Dados: Anais do Municipio da Horta (Marcelino Lima)


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:39
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2008
Curtinhas nº 56

 

UMA VERDADEIRA CURTINHA
v    O Leitor imagina-se a comprar gasolina numa bomba que não indique, bem visível, o índice de octanas?
v    E remédios que não revelem a percentagem do princípio activo?
v    E latas de feijão sem menção do peso escorrido no rótulo?
v    E latas de sardinhas cujo número de peixes é uma surpresa?
v    E latas de qualquer coisa que o rótulo não diga o quê?
v    E jóias caras de que não conhece o toque de ouro ou prata?
v    E iogurtes que tanto podem ser feitos de leite fresco, de leite em pó ou de um extracto de ervas?
v    E gelados sem data de validade?
v    E “erva” a um traficante aldrabão?
v    E tudo isto sem poder reclamar e exigir o seu dinheiro de volta?
v    Nunca se imaginou, pois não?
v    Mas é precisamente isto, Leitor, que acontece quando consome gás natural: em nenhum lado, nem na lei, nem nos contratos de concessão do serviço público de distribuição regional de gás natural (assim se designam), nem no seu contrato de fornecimento (se é que teve a sorte de ver um), nem no site da ERSE, se fixam as termias (isto é, o calor desenvolvido na combustão) mínimas por m3 do combustível que o concessionário está obrigado a fornecer.
v    Ou seja: sabe quanto vai ter de pagar, mas ignora o que esteja a comprar - até pode ser só ar atmosférico (o mal será sempre do equipamento de queima).
v    Os nossos preclaros governantes previram tudo, estipularam tudo, garantiram rentabilidades mínimas para os activos fixos dos concessionários regionais, confundiram até “despesas” com “custos” nas cláusulas contratuais
v    Mas, apesar de saberem que o “gás de cidade” era “ar propanado” e que o gás entregue ao domicílio é uma mistura de gás natural e ar, esqueceram-se de especificar um valor mínimo, verificável, para o objecto da concessão – a saber: quantas termias no gás fornecido e, naturalmente, facturado como se fosse do bom.
v    Que bom que é ser concessionário do que quer que seja neste jardim à beira mar plantado!
 
Lisboa, Junho de 2008
A. PALHINHA MACHADO


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:56
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«Hoje são campos onde foi Tróia»

 

 
 
 
Meava o séc. XVI quando ali, onde começava o juncal na margem do Tejo e nele confluíam as ribeiras de Alcântara e do Alvito, um rico mercador genovês decidiu assentar arraiais mandando construir um casarão a que o povo chamava palácio. Ali desfrutava da brisa nas noites quentes e geria à vista os barcos que tinha por conta, fundeados ao largo, em escala das rotas entre o norte da Europa e os confins do Mediterrâneo. Era a partir daquela enseada que mandava rumar para Lisboa, para Génova ou para o resto do mundo.
 
Vivendo em Portugal, entendeu que devia contribuir com os seus cabedais para o bem do reino: fez empréstimo vultoso às tropas de D. Sebastião que zarpavam para Marrocos e tudo perdeu.
 
Depois do desastre de Alcácer Quibir, as tropas do rei de Espanha, desembarcadas em Cascais, encontraram-se nas margens daquela enseada com as que eram fiéis ao Rei D. António, Prior do Crato. Ao fim de três dias de luta, foi ali que Portugal chorou.
 
O novo Rei, Filipe, gostou do local e decidiu que quando viesse a Lisboa passaria a residir naquele palácio. Confiscou-o. Sem dinheiro e sem palácio que lhe desse crédito, do genovês nunca mais se ouviu falar.
 
E assim foi que o casarão perto do início do juncal passou a servir de morada aos reis espanhóis em Lisboa. Não vieram cá tanto como gostariam pois a consciência devia dizer-lhes qualquer coisa especial e foi mais o tempo que andaram pela Meseta do que pela foz do Tejo.
 
Frente ao palácio havia um terreiro e já quase sobre a praia o genovês mandara construir as cavalariças e aposentos da criadagem. Do outro lado do caminho que da praia subia para a encosta mandou o rei Filipe I construir um convento e respectiva Igreja para as freiras Flamengas em fuga da reforma calvinista na Flandres. Frente a este, do outro lado do caminho que levava ao longo do Tejo e já sobre a praia, foi construído outro convento, desta feita para as freiras do Monte do Calvário.
 
Morada dos reis Filipes quando por cá passaram, no palácio residiram por períodos consideráveis os Reis D. João IV, D. Afonso VI e D. Pedro II. D. João VI ainda por lá pernoitou uma ou outra vez mas Junot já não quis lá ficar pois achava que o local estava muito exposto a eventuais surtidas inglesas Tejo adentro.
 
Desprezado, cedo entrou em degradação e já então faltaram as verbas para preservar um edifício historicamente tão rico. Foi mais barato demoli-lo e suprir alguma da calista sofreguidão pública por finanças privadas dedicando o local à especulação imobiliária.
 
Ao terreiro do palácio chamamos hoje Largo do Calvário, ao juncal que se estendia a partir daquela zona da margem do Tejo chamamos Junqueira, nas cavalariças está actualmente instalada “A Promotora”[2], a Igreja das Flamengas continua aberta ao culto, o convento do Monte Calvário é agora a Academia Superior de Polícia e no sítio onde esteve o palácio... «hoje são campos onde foi Tróia». E nós passamos por lá sem sequer tirarmos o chapéu em sinal de respeito por tanta História que por ali se escreveu. Mas como poderíamos tirá-lo se nem sequer o usamos? É claro que é mesmo só por isso que não demonstramos qualquer respeito pelos locais que atravessamos e pelas pedras que pisamos...
 
E quanto ao genovês, eu hei-de descobrir-lhe o nome pois não é com esquecimento que se paga uma dívida a quem tanto fez para servir Portugal.
 
Junho de 2008
 
Henrique Salles da Fonseca


[1] - Padre Raphael Bluteau, 1712
[2] - Sociedade Promotora de Cultura Popular, dedica-se há cerca de um século à instrução das populações, nomeadamente ministrando o Ensino Básico e alfabetizando adultos


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:45
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Terça-feira, 24 de Junho de 2008
Mais um dia na vida do Joaquim!...

 

 
O Joaquim, depois de dormir numa almofada de algodão (MADE IN EGIPT), começou o dia bem cedo, acordado pelo despertador (MADE IN JAPAN) às 6 da manhã.
Depois de um banho com sabonete (MADE IN FRANCE) e enquanto o café (IMPORTADO DA COLÔMBIA) estava a fazer na máquina (MADE IN CHECH REPUBLIC), barbeou-se com a máquina eléctrica (MADE IN CHINA).
Vestiu uma camisa (MADE IN SRI LANKA), jeans de marca (MADE IN SINGAPORE) e um relógio de bolso (SWISS MADE).
Depois de preparar as torradas de trigo (PRODUCED IN USA) na sua torradeira (MADE IN GERMANY) e enquanto tomava o café numa chávena (MADE IN SPAIN), pegou na máquina de calcular (MADE IN KOREA) para ver quanto é que poderia gastar nesse dia e consultou a Internet no seu computador (MADE IN THAILAND) para ver as previsões meteorológicas.
Depois de acertar o relógio de pulso (MADE IN TAIWAN) pelo rádio (MADE IN INDIA), ainda bebeu um sumo de laranja (PRODUCED IN ISRAEL), entrou no carro (MADE IN SWEDEN) e continuou à procura de emprego.
Ao fim de mais um dia frustrante, com muitos contactos feitos através do seu telemóvel (MADE IN FINLAND) e após comer uma pizza (MADE IN ITALY), o Joaquim decidiu relaxar por uns instantes.
Calçou as suas sandálias (MADE IN BRAZIL), sentou-se num sofá (MADE IN DENMARK), serviu-se de um copo de vinho (MADE IN CHILE), ligou a TV (MADE IN INDONÉSIA) e pôs-se a pensar porque é que não conseguia encontrar um emprego em condições em PORTUGAL.
 
 
(Autor anónimo, texto recebido por e-mail)

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:06
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CRÓNICAS DO BRASIL

 

O paraíso ... é aqui !
 
Quase...! Segundo afirmou ontem o big líder, depois de saber que a inflação está a subir e ultrapassou já as metas que os crâneos economistas previram para 2008! Se compararmos com o que se passou há uns vinte anos, no tempo da sarna - hoje amigo dos peitos do big... - quando chegámos a 80% de inflação ao mês, devemos também execrar Dom Pedro, tanto o I como o II, porque não se podem comparar as estradas daquele tempo com as de hoje. Só uma diferença: hoje há miríades de buracos a mais!
Mas isto é mesmo um paraíso: o prefeito de Juiz de Fora, preso por sacanagem, banditagem, ladroagem, etc., mesmo de dentro da prisão acaba de renunciar ao seu cargo... para se poder candidatar de novo nas próximas eleições, ainda este ano, enquanto não for julgado. Se entretanto fosse cassado... não podia tentar voltar ao posto de comando da quadrilha. Entretanto já foi solto pela «justiça» e de novo preso pela PF!!!
Tão bom isto por aqui anda que um ministro, o da «igualdade racial», afirmou que o Brasil é "um dos mais, se não o mais avançado em política de combate ao racismo"! E assim está a receber a Conferência de Revisão de Durban.
Segundo o sexinha ministro, uma das medidas que teria dado certo seria a política de cotas para negros em diversos espaços da sociedade (que nada ainda se viu!) incluindo as famigeradas cotas nas universidades, fruto de opiniões diametralmente opostas, vindas de indivíduos de todas as tonalidades!
É sabido, e repisado, que, enquanto não houver um ensino oficial básico e médio de qualidade, não adianta inflacionar as universidades com alunos que mal sabem ler e escrever. Mas com isto o desgoverno não se preocupa minimamente! E cotas nas universidades reservadas de acordo com o tom da pele... é um completo absurdo! Já aconteceu com dois irmãos esse absurdo. Um declarou-se negro e entrou. O outro esqueceu-se de o fazer e... ficou de fora. Nenhum era negro (ou preto!). Ambos com a chamada bonita «cor brasileira», a tal que faz sucesso mundo afora. Como um dos meus actuais ídolos que afirmou "que podia ser brasileiro"! O esperançoso Barak Obama.
De resto, segundo informação divulgada pelo ministério da educação, o ensino nas escolas oficiais piorou no último ano em mais de 30%.
Mas enfim, o paraíso está aqui... p´ra eles! Os que se governam desgovernando.
 
Rio de Janeiro, 17 de Junho de 2008
 
Francisco Gomes de Amorim

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:54
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Segunda-feira, 23 de Junho de 2008
Curtinhas nº 55

 

GUARDEM AS PRATAS!
v    A ERSE, definitivamente convertida em Regulador com ideias, está a ventilar a hipótese (por enquanto, nada mais que uma hipótese) de as facturas de energia eléctrica (EE) passarem a incluir também uma parcela que dê para os incobráveis.
v    A ideia, agora, é partir de uma tarifa “limpa” (uma tarifa que cubra os custos da produção e distribuição de EE mais uma remuneração decente para os accionistas do fornecedor) e adicionar-lhe um tanto ainda por determinar, de tal forma que o apuro efectivamente cobrado coincida sempre, mês após mês, com a tal tarifa “limpa”.
v    Remuneração decente para os accionistas? Eu escrevi “remuneração decente para os accionistas”? Mas a taxa de retorno dos Capitais Próprios depende inevitavelmente de um sem número de factores aleatórios - um dos quais é, precisamente, a possibilidade de alguns créditos não serem cobrados (o risco de crédito). Como fixar assim, do pé para a mão, antes de tudo mais, uma remuneração decente para os accionistas?
v    Faz sentido, sim, falar de taxa de retorno esperada para os Capitais Próprios, um parâmetro de decisão. Só que - para estimar este parâmetro há que tratar, primeiro, da incerteza quanto a cobranças (além de outras incertezas). Tudo em termos estatísticos, naturalmente.
v    Agora, este modo de lidar com a questão, empilhando em cada factura parcela sobre parcela, como se estas parcelas surgissem independentes umas das outras, não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas é um bom exemplo da “mentalidade de contabilista” (com a devida vénia para os contabilistas) tão frequente entre nós, a qual presume que tudo é dado, certo, conhecido - e, por isso, susceptível de ser somado de trás para a frente ou de frente para trás. Melhor, que tudo se resume a uma aritmética simples.
v    Mas o fundo da ideia até se compreende. Afinal, quem vende laranjas forma o seu preço entrando logo em linha de conta com aquelas que, entretanto, se estragarem (mal irá se não o fizer); quem empresta dinheiro inclui também no juro uns pós que reflictam a proporção dos créditos que não vai conseguir cobrar; os prémios de seguro contêm já um tanto mais para atender às indemnizações que a seguradora, fatalmente, irá ser chamada a pagar; as taxas de imposto, mesmo essas, seriam talvez mais baixas se não houvesse por aí uns contribuintes a fintarem o Fisco (pelo menos, é este o argumento de qualquer Ministro das Finanças que se preze).
v    Tudo está em saber o que é que vai ser adicionado nas facturas para atender aos tais incobráveis. Porque, se a ERSE deixar correr o marfim, o mais certo é o fornecedor de EE desleixar-se no esforço de cobrança, na selecção dos clientes e, pior ainda, na maneira como lida com devedores pouco dados a boas contas.
v    Se ele acaba sempre por receber tudo aquilo que fornece, será que corta prontamente o fornecimento a quem não pagar? E, bem vistas as coisas, será que, nestas circunstâncias, se justifica manter um serviço de cobranças sempre custoso?
v    Seria bom que, na eventualidade, a ERSE se aconselhasse com a teoria do risco. E a teoria do risco lhe diria que a perda esperada (sublinho, perda esperada, ex ante, não perda verificada, ex post) deve ser incluída no preço (o que se designa tecnicamente por cobertura horizontal da perda) e que pela perda não esperada devem responder os Capitais Próprios do credor.
v    Em linguagem corrente: dos créditos que ficarem por cobrar, o bolso dos clientes suportará, no preço da factura, a incobrança esperada - e o resto terá de sair dos bolsos do credor.
v    Ao incluir a perda esperada no preço (no caso, a tarifa de EE), o fornecedor está a agir como se fosse a seguradora dos riscos a que os seus próprios negócios o expõem (auto-seguro, portanto). E como terá de deduzir aos seus Capitais Próprios o valor incobrado que exceder a perda esperada, ele, fornecedor, é incentivado a subir a parada, colocando a estimativa da perda esperada o mais alto possível – para que sejam os clientes a tudo pagar logo na factura.
v    Quando o mercado é competitivo, um módico de regulação bastará para trazer a estimativa da perda esperada até níveis mais razoáveis – isto é, mais em linha com o risco de crédito a que se encontra exposto um qualquer credor medianamente diligente. O busílis é que, em Portugal, o mercado da EE a retalho está, e estará ainda por muitos e bons anos, nos antípodas do que seja um mercado competitivo.
v    Uma possibilidade seria introduzir no esquema um terceiro, uma seguradora de crédito, que tivesse também que afectar Capitais Próprios às indemnizações acima do esperado que fosse chamada a pagar. Mas, também aí, o incentivo ao conluio, à custa do cliente, não deixaria de marcar presença.
v    O ideal seria que a ERSE dispusesse de estatísticas fiáveis sobre as taxas de incobrança numa pluralidade de sectores económicos, designadamente, nas utilities, contratualizando com o fornecedor da EE o prémio de risco de crédito a incluir nas facturas.
v    Hélàs! Não dispõe - porque nós, portugueses, nunca fomos muito dados à recolha e ao tratamento da informação que, na realidade, interessa. Propendemos mais para o parece-que, o diz-que-disse e a má-língua.
v    Por outra parte, a ideia com que a ERSE tem vindo a cismar também não é de todo desagradável para quem esteja no Governo. Se tudo for deixado ao sabor do vento, eis um modo fácil e indolor de melhorar um pouco as condições de vida dos mais pobres, fornecendo-lhes EE que eles nunca vão pagar (isto é, EE à borla), sem sobrecarregar o depauperado OGE. O que, bem vistas as coisas, tem o seu quê de justiça redistributiva, desde que o adicional para incobráveis seja proporcional ao valor da EE consumida e facturada.
v    Mais assim ou mais assado, o cliente acabará sempre por pagar. E pagará mais se a ERSE não fizer a menor ideia do que por aí corre em matéria de cobranças, eficácia de cobrança e risco de crédito.
Lisboa, Junho de 2008
 
A. PALHINHA MACHADO

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:13
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CRUZEIRO DO SUL

 

 

... descendente, de quem ?
 
Sobretudo nos EUA um indivíduo, se tiver a pele mais escura do que o «padrão» estabelecido, ou é índio ou latino ou afro-descendente! Os do «padrão» - importados também - são simplesmente americanos e por isso se julgam donos do pedaço! Devagar o tempo vai mostrando que esse tal padrão foi mal escolhido!
 
 
Eu que serei descendente de iberos e incógnitos, de iemenitas do sul "um dos primeiros povos a chegar à Península Ibérica", fenícios e gregos, cartagineses, berberes e negros, celtas e bascos, suevos e alanos, godos e visigodos, romanos e árabes e certamente de lusitanos, com 50% de antepassados nascidos no Brasil, vindos possivelmente dessa mesma misturada, vou-me classificar como? Poderia até ser banto-descendente, já que banto nada mais significa do que «gente»! Só encontro enfim uma designação "multi-descendente", o que me deveria dar direito a um passaporte (coisa estúpida, inventada, segundo dizem, pelos franceses no século XVI) emitido por mais de cinquenta países!
A verdade é que quando se trata de um americano mais escuro lá vem o irritante carimbo de «afro-descendente»!
 
O século XX foi pródigo em nos dar exemplos de grandes, grandes, personagens de África, no topo dos quais não hesito em colocar Nelson Mandela. Mas não só: Leopold Senghor, Martin Luther King, Pelé e Eusébio, Desmond Tutu, Sidney Poitier, Louis Armstrong e muitos outros que Deus sabe o quanto lutaram para se impor.
 
Agora, depois de se assistir a praticamente todos os desportos serem dominados pelos africanos, desde Tiger Woods há 500 semanas à cabeça do ranking mundial, num desporto que em princípio estava e ainda é muito reservado à classe dominante, Lewis Hamilton na Fórmula 1 e o jovem francês Monfils com as irmãs Williams no ténis, Ronaldo, Ronaldinho e Zidane, Oprah Winfrey, a celebridade mais admirada em todo o mundo ocidental, ao imenso escol de artistas musicais em todo o género, surge na constelação das estrelas americanas um fenómeno novo: Barak Obama.
 Obama for America
 
Jovem, boa pinta, culto, educado, admirado no mundo inteiro, desafiando o status quo dos americanos racistas, representa, sem que as pessoas saibam exatamente porquê, uma esperança nova para este mundo cansado de guerras e de inflação provocada artificialmente. torci mais pelo Obama, para que ganhasse as prévias, do que jamais me aconteceu com qualquer outra eleição no mundo. E já vi muitas. Muitas. Em que os candidatos ou não apresentavam nada de novo ou pelo contrário se apresentavam como uma solução retrógrada e perigosa para o país. Vi isso acontecer e... continuo a ver!
 
Obama traz uma esperança grande, não só aos americanos que talvez deixem de ser chamados afro-descendentes, para serem unicamente o que são, americanos, da mesma maneira que os índios americanos também deveriam deixar de ser chamados de índios ou mongólico-descendentes (se é que vieram do interior da Ásia), a todos os povos que podem, e devem, assistir a um decrescer das atitudes racistas.
 
 
Ainda não foi eleito presidente dos EUA. E vai ter uma luta grande para chegar ao topo. Consegui-o Nelson Mandela, Tiger Woods e muitos outros. O meu voto é do coração, mesmo meio estropiado como já está.
E fica uma outra esperança para o Brasil: que este inepto desgoverno entenda que brincar de racismo é feio, sujo e perigoso. Cheira a interesses escusos. E é. Mais ainda no Brasil onde esse racismo está a ser FABRICADO.
 
Rio de Janeiro, 16 de Junho de 2008
 
Francisco Gomes de Amorim
 

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Domingo, 22 de Junho de 2008
CRUZEIRO DO SUL

 

Globalização = Fraternidade ?
 
O grande mestre historiador Arnold Toynbee, quando há mais de 40 anos, em sua esclarecida mente, previa que a globalização trouxesse o estender a mão ao mais desfavorecido, que o primeiro mundo iría abraçar e dividir suas riquezas com o terceiro, sem mesmo passar pelo sempre obscuro segundo, sonhava. Sonhava com um mundo que acabaria por esquecer as suas divergências religiosas, filosofias políticas, desconfiança entre cores das peles e outras mentiras, atrás de que os poderosos sempre se entrincheiraram para aumentar o seu status social ou o seu poderio financeiro.
 
Arnold J. Toynbee in 1961 Arnold Toynbee (1889-1975)
 
Foi nesta nossa época que pela primeira vez apareceu uma visão universal sobre a história da humanidade. Que seriamos, e somos, todos, descendentes dos mesmos ancestrais, que os séculos ou milênios distribuíram pelo mundo e nos proporcionaram características diferenciadas, aumentando assim, na sua variedade a beleza total do ser humano.
 
Há dois mil anos o Filho do Homem, sem sonhar, veio dizer-nos tudo isto, com enorme clareza e humildade, e muitos homens, à sombra dos seus ensinamentos de fraternidade, aproveitaram para se impor e explorar os mais simples e mais fracos.
 
Ainda hoje se explora o mais incauto com religiões ou seitas falsas, ainda se incita à guerra “santa” e, pior, com argumentação e verdades falsas a indústria de armamento continua a progredir e a ser uma das fontes de grande riqueza de muitos países, sobretudo aqueles que teriam obrigação a ser os primeiros a estender a mão aos mais desfavorecidos.
Fazem-se tratados de não produção de algumas armas, terrivelmente mortais (aliás qualquer arma é mortal), e os poderosos, como os EUA, Rússia e China e outros, não assinam porque continuam a ter clientes a quem incentivam para prosseguirem na guerra e no consumo de material assassino.
 
Assistimos agora à desenfreada escalada dos preços do petróleo e dos alimentos. Não porque num repente o terceiro mundo estará com mais fome, mas unicamente porque os poderosos que especulam na área financeira através do mundo, preferem ganhar os mesmos por cento em cima de muito do que em cima de pouco.
 
Esta “estratégia” financeira acabará por estrangular a Europa. A seguir os EUA. O Oriente e a Rússia, até há pouco tempo ignorados do capital consumista, darão risada e vingam-se dos destratos que passaram.
O Brasil, que só por si pode alimentar talvez metade da população terrestre, para o que necessita somente de seriedade, planejamento e investimento, parece não ter ainda percebido que perigosos inimigos, cancerígenos, se desenvolvem, livremente no seu seio: os grupos armados terroristas, entre eles o MST e LCP.
 
Se não se atacar o mal a tempo talvez o Brasil não consiga nem se alimentar a si próprio. E, em vez de entrar na globalização e estender a mão aos irmãos, agonizará em lutas internas, perdendo a oportunidade de finalmente deixar de ser “o país do futuro” sem ver chegar aquele «Quinto Império» em que o imperador será um menino, símbolo da inocência, e como toda a criança, estender a mão a todos, sem qualquer distinção!
 
Hoje é o dia de Santo António. O santo casamenteiro, da união, do Pão dos Pobres que ele tanto gostava de distribuir. Se vivesse hoje qual seria a reação do Santo perante tamanho desaforo e permanente insulto da sociedade face à especulação e à fome? Podemos pedir-lhe que interceda, quando, do fundo do nosso íntimo, formos capazes de fazer uma oração simples: - Senhor, onde houver discórdia, que eu leve a união!
 
Rio de Janeiro, 13 de Junho de 2008
 
Francisco Gomes de Amorim

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DOMÍNIO INGLÊS NO BRASIL - 9

 

 
            OS TRATADOS DE 1810
 
 
Final da parte 8: Strangford foi instruído para, nas negociações, firmar um acordo de comércio, ou seja, tomar as providências necessárias para a abertura do Brasil ao comércio inglês. As instruções lembravam ao representante inglês o interesse em obter um porto livre para a Inglaterra na ilha de Santa Catarina, onde as mercadorias inglesas seriam transferidas para os navios portugueses e espanhóis a fim de serem transportadas para consumo nas colónias espanholas. As instruções referiam que em qualquer tratado deveria constar um artigo regulando a extinção do tráfico de escravos.
 
 
Parte 9: A QUESTÃO PLATINA
 
 
O governo de D. João mantinha o propósito de interferir no Prata motivado por apreensões quanto às intenções da França em relação àquela região. O Príncipe Regente resolveu frustrar os objectivos daquele país com ocupação imediata dos territórios situados em ambas as margens do rio. Mediante a recusa de Buenos
Aires em concordar com tal iniciativa, a solução era agir pela força. Para os representantes ingleses, se a expedição se realizasse e alcançasse êxito seria desejável que Buenos Aires ou Montevideu fosse conservada para SUA MAJESTADE BRITÂNICA. Mas o plano sofreu alteração em decorrência da vacatura do trono espanhol. A solução estava em introduzir no Prata, como governante, D. Carlota Joaquina por ser irmã de D. Fernando VII de Espanha.
 
D. Carlota Joaquina
(1775-1830)
 
 Embora a política britânica de expansionismo mercantil concentrasse os esforços na conquista de mercados e não na conquista de território, as pretensões de D Carlota Joaquina de erigir seu trono no Prata despertou interesse na Inglaterra. O "Times"
noticiou como acontecimento de maior importância que Buenos Aires constituía, naquele momento, parte do Império Britânico; e considerando as consequências
deste fato em relação à situação daquele território, das suas possibilidades comerciais assim como da sua importância política, viam-se alimentados da ideia sobre as vantagens que poderiam ser tiradas decorrentes da conquista.
 
Continua
Therezinha B. de Figueiredo
Belo Horizonte, 19 de Junho de 2008

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:35
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