Sábado, 31 de Maio de 2008
Espírito ilhéu

 

 
A nossa poetisa Cecília Meirelles apresentava  traços fortes e profundos que sua origem genética açoriana não nega. Como dizia Vitorino Nemésio, ao falar do ilhéu, tinha “uma universal inquietude” e uma visão poética influenciada pela raiz cultural e mística, passada pela avó micaelense que a criou. A consciência ancestral e depressiva da fragilidade humana, a fatídica preocupação em demonstrar o mutável, o efêmero da vida. Buscava no mar, de uma forma sublimada, a sua raiz, seu caminho. Neste poema vemos o espírito ilhéu de Cecília
                                                                                                   
 
 
 
 
Mar Absoluto
 

Cecília Meireles
Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.
Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.
E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.
E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.
Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.
O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.
O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.
Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.
Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.
Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.
Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.
E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.
Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.
Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.
E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.
Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.
E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.
E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.
                                 ///
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 27/05/08

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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008
DOMÍNIO INGLÊS NO BRASIL – 6

 

              
OS TRATADOS DE 1810
 
 
Final da 5ª parte: As relações tradicionais e os compromissos recentes entre a Metrópole e a Inglaterra indicavam que tudo poderia ser obtido por negociações, cujas bases estavam lançadas e eram ajudadas pelas circunstâncias, inclusive a de estar a Metrópole sob ocupação francesa. Com o Brasil era preciso estabelecer as relações de soberano e subalterno e exigir obediência a ser paga como preço da protecção a que o Ministro Strangford se referira em sua correspondência a Conning, ainda em Lisboa. Conquistada essa posição no Brasil, a Inglaterra faria base aqui e lançar-se-ia à conquista do mercado platino nas melhores condições e conforme as circunstâncias, utilizar Portugal e o Brasil para alcançar os seus objectivos. A ideia do porto em Santa Catarina obedecia a essa finalidade.
 
 
Parte 6: A abertura dos portos
 
A abertura dos portos efectivada na Bahia a 28 de Janeiro de 1808, só pode ser compreendida no contexto dos acontecimentos que constituem o processo de expansão mercantil britânica e, em particular, o da conquista do mercado brasileiro. A decisão foi tomada pelo príncipe em Salvador. A abertura dos portos consentida em carácter provisório e apenas em relação a alguns ancoradouros, surgia como imposição natural. Evitá-la ou protelá-la seria concordar no bloqueio da colónia.
 
 
 
O governo português recusou ratificar a disposição relativa ao porto na ilha de santa Catarina, que os ingleses pleiteavam. A protelação aconteceu em decorrência de sucessivos acontecimentos que exigiu as atenções e providências mais urgentes.
 
A abertura dos portos não se identificou com a intenção de beneficiar o Brasil, mas com a necessidade de dar continuidade às relações comerciais com o exterior, dele recebendo as mercadorias indispensáveis e destinando-lhes aquelas da produção local, além de proporcionar ao erário os tributos sem os quais não se poderia manter. O acto foi benéfico à Colónia, não resultou da intenção de beneficiá-la mas, sem dúvida, beneficiar a Inglaterra, que ficava com o monopólio comercial externo brasileiro. Quando esse comércio deixou de beneficiar aquele país, devido a alteração nas circunstâncias, impôs o tratado de 1810, que lhe deu as condições que as novas circunstâncias haviam retirado.
 
A Colónia negociava directamente com o exterior pela primeira vez, mas não com os seus capitais, que não os tinha, nem com os seus navios que também lhe faltavam. O comércio crescia desde a abertura dos portos e em consequência da estrutura colonial de sua economia, o Brasil precisava vender para poder comprar. O Rio de Janeiro tornou-se o grande entreposto colonial. Ao seu porto afluíam mercadorias que de lá eram distribuídas pela costa da Bahia a Montevideu e para o norte. Recebia variedade de mercadorias da Europa, da Índia, da China, de Angola e Moçambique, apesar de na época o mercado consumidor ser limitado.
 
Continua
Belo Horizonte, 28 de Maio de 2008
Therezinha B. de Figueiredo

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Quinta-feira, 29 de Maio de 2008
Curtinhas nº 53

 

É pagar e rezar - II
v    Desde há anos que o terreno nos mercados do crude (o mercado à vista e os mercados a prazo) está coberto de restolho. Restolho que alguns Bancos Centrais (com o FED à cabeça) têm vindo a aspergir com o material mais ígneo que se conhece: a liquidez.
v    Mas foram os capitais que não cessam de afluir ao mercado, e a pressão cada vez maior sobre os investidores institucionais para que apresentem taxas de retorno decentes, a chama que pôs tudo aquilo a arder. Uma fogueira que arderá até consumir liquidez, capitais e poder de compra.
v    Para perceber o que se passa por cá, é conveniente conhecer um pouco da economia do petróleo. Quatro tópicos bastam:
v    A refinação do crude é um processo de co-produção de onde saem, inevitavelmente, como que de braço dado, “voláteis” (etano, propano, etc.), “naftas” (gasolinas, etc.) e “pesados” (gasóleo, thick fuel, asfaltos) – e, por vezes, um sub-produto residual (o coque de petróleo);
v    O tipo de crude determina o peso relativo dos co-produtos no refinado (peso relativo esse que se designa por “composição do barril”);
v    Não é frequente as refinarias, principalmente as mais antigas, poderem processar todos os tipos de crude disponíveis no mercado (por exemplo, a refinaria de Sines, nos seus primórdios, não podia refinar o crude de Cabinda, por ser demasiado “pesado” - o que diz bem da qualidade dos nossos planeadores encartados);
v    Enfim, a gestão de uma refinaria pode fazer variar o peso relativo dos seus co-produtos, mas sempre dentro de limites particularmente estreitos – limites esses completamente determinados pela composição do barril que estiver a ser refinado e pelas características técnicas dos equipamentos existentes.
v    E cá vai mais uma das nossas muitas singularidades. A gestão das refinarias portuguesas há muito que tem de atender ainda a uma terceira condicionante: a política fiscal.
v    O paradoxo arrepia, mas ninguém parece preocupado: (1) no mercado internacional, o gasóleo, por ser mais escasso, é mais caro do que as gasolinas; (2) nós, porém, importamos gasóleo e exportamos gasolinas, não porque a capacidade de refinação instalada seja insuficiente, mas porque não existe tancagem que dê para armazenar as gasolinas co-produzidas, que o mercado interno não absorve e que o mercado externo, aliás, paga mal; (3) o mercado interno prefere o gasóleo à gasolina porque esta, cá dentro, é tradicionalmente mais cara; (4) e é mais cara, não porque custe comparativamente mais produzi-la (na realidade, até custa menos), mas porque suporta uma carga fiscal superior à do gasóleo. Nisto estamos.
v    No tempo dos combustíveis tabelados, o preço de referência do crude para refinação era obtido através de uma fórmula em que uma das parcelas reflectia o custo do transporte por mar. Que todo o crude provinha do Golfo Pérsico pressupunha a fórmula – e era com base no custo do frete Golfo Pérsico/Roterdão que as contas se faziam.
v    Só que – o grosso das importações de crude não vinha de tão longe, nem fazia tão longa viagem. Como é bem de ver, nem a fórmula, nem os preços tabelados se preocuparam alguma vez com semelhantes detalhes.
v    Vemos assim que a manipulação mais grosseira de todas as parcelas que formam o preço final dos combustíveis tem, entre nós, direitos adquiridos. E que um dos dedos mais manipuladores e atrevidos é justamente o do Fisco.
v    A gasolina que se consome hoje em Portugal é, na sua maior parte (uns 90%), produzida e fornecida pela GALP, que abastece, quer a rede de retalho própria (diz-se “sob embandeiramento próprio”), quer os restantes distribuidores. Estes, por sua vez, colocam-na nos postos que têm sob o seu embandeiramento.
v    Apesar de, em determinadas épocas do ano, o preço das gasolinas no mercado internacional alinhar pelos custos varáveis de produção, os distribuidores (não a GALP, obviamente) não aproveitam desse facto por quatro ordens de razões: (1) não existe, por cá, tancagem livre suficiente; (2) o mercado potencial de cada distribuidor, na presença da GALP, não justifica o investimento em tancagem própria; (3) a dimensão do mercado interno, com a estrutura actual, também não justifica que eles se ponham de acordo para investir num parque de tanques comum; (4) tente o Leitor, julgando ver nestes distribuidores apetecíveis clientes “naturais”, explorar o negócio da tancagem logística de combustíveis.
v    E com o gasóleo é igual, apesar de a componente importada ser um pouco maior.
v    Só um legislador em delírio é que poderia acreditar que de uma tal estrutura de mercado brotasse um ambiente de concorrência exemplar. Quando, para todos os efeitos, existe um só fornecedor, a cartelização é uma fatalidade, não uma tramóia.
v    Tradicionalmente, as refinarias formam os preços dos refinados tendo por base o preço de reposição dos seus stocks de crude – e daí não virá mal ao mundo. A concorrência nos mercados dos refinados estabelece-se, então, em torno: (1) da composição do barril que cada refinaria processar; (2) das condições técnicas de refinação; (3) do maior ou menor acerto no peso relativo de cada co-produto; e (4) do maior ou menor controlo sobre os custos (aprovisionamento, produção e logística).
v    Variáveis bastantes para gerar um clima de sã - mais do que sã, aguerrida concorrência nos mercado mundiais do crude (e dos refinados) e para fazer surgir mercados financeiros eficientes, onde são transaccionados activamente instrumentos que têm subjacente o crude (e vários dos seus refinados).
v    Visto tudo isto, creia-me Leitor que no meio do bruá-á que por aí vai, só duas questões merecem ser debatidas:
v    Como assegurar a transparência dos preços finais num mercado pequeno e com um só fornecedor (as importações são marginais)?
v    Como vigiar para que a regra do preço de reposição seja escrupulosamente cumprida em todas as circunstâncias – e não apenas quando convém a esse fornecedor?
v    O mais é só fumaça...Erre-se numa qualquer, numa só destas duas questões (e eu aposto que vem aí uma das tais respostas astuciosas que deixam tudo na mesma) e só em Eça encontraremos refúgio e consolo:
O povo paga e reza. Paga aos que o exploram e reza aos que o enganam.
Lisboa, Maio de 2008
A. PALHINHA MACHADO

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Quarta-feira, 28 de Maio de 2008
JOSÉ CRAVEIRINHA
AUTOBIOGRAFIA
 
(Lourenço Marques, 28 de Maio de 1922 - Maputo, 6 de Fevereiro de 2003)
«Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto[1]. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato...
A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros.
Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão.
E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terrra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.
A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.
Nasci ainda outra vez no jornal O Brado Africano. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa.
Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.
Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação.
Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.
Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.
Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.»
(1) - Domingo, em língua ronga

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 21:40
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Curtinhas nº 52

 

 
É pagar e rezar - i
v    O povo barafusta porque os preços da gasolina e do gasóleo não param de subir.
v    Os transportadores barafustam porque não conseguem repercutir nas tarifas que praticam os aumentos no preço dos combustíveis que têm vindo a suportar.
v    Os retalhistas barafustam porque uma fatia cada vez maior da revenda de combustíveis líquidos está a ser perdida para Espanha.
v    A GALP, acusada não se sabe muito bem de quê, sente-se injustiçada – e barafusta também.
v    Os restantes distribuidores não barafustam, encolhem os ombros - e murmuram umas coisas vagas.
v    O Governo, esse, medita - dividido entre dois sentimentos contraditórios: mais receita fiscal que acabará por arrastar mais despesa pública, como ele bem sabe.
v    Por onde andará a racionalidade de tudo isto? Andará, se bem vejo, por causas remotas e por causas próximas, tanto externas como muito nossas. Vejamos quais.
v    Externamente, à oferta de crude vinha a apetecer-lhe, de há uns tempos a esta parte, umas subidas de preços. Não eram só os países exportadores a queixarem-se de que já tinham conhecido melhores dias. Nem os fabricantes de equipamentos para a fileira do petróleo a deitarem contas à vida porque os investimentos por essas bandas andavam meio parados.
v    Eram também as grandes petrolíferas ocidentais que tinham sido apanhadas numas pequenas falcatruas contabilisticas: distraídas, continuaram a registar nos seus Balanços jazidas de crude (e gás natural) que não era rentável explorar aos preços de então - e isso violava gravemente normas em vigor nas Bolsas onde estavam cotadas.
v    Ora, a subida do preço do crude viria mesmo a calhar: (1) permitir-lhes-ia contabilizar como reservas conhecidas jazidas até então mantidas fora do Balanço; (2) reforçaria as respectivas estruturas financeiras, um pouco depauperadas com os ajustamentos contabilísticos que lhes tinham sido impostos; e (3) dispensaria boa parte dos aumentos de capital que as autoridades de supervisão não cessavam de lhes exigir.
v    Enfim, a guerra do Iraque teria de ser paga – e lá só há crude por onde pagar. Quanto mais elevado estivesse o preço do crude, mais depressa a guerra ficaria paga (ou o custo de mantê-la ficaria amortizado), sem deixar nos iraquianos a sensação desagradável de estarem a ser espoliados.
v    Em data mais recente, o anúncio, um tanto exagerado, mas habilmente esgrimido, de que estavam à porta mil e trezentos milhões de chineses e quase outro tanto de indianos a exigirem o seu quinhão de crude e prontos a consumirem-no como norte-americanos, fez o resto. E o resto foi criar nas economias desenvolvidas uma paranóia de escassez.
v    O golpe decisivo veio, porém, dos investidores institucionais. Escaldados no mercado das acções (a “bolha” dot.com), escaldados no mercado imobiliário (a crise dos créditos hipotecários subprime e não só), restava-lhes os mercados das commodities, suficientemente líquidos e bem organizados, para cuidarem das suas vidas - antes de se lançarem de cabeça no jogo suicida da especulação cambial.
v    E que melhor commodity para especular (isto é, para correr riscos elevados na expectativa de ganhos ainda mais elevados) do que aquela que faz girar a economia mundial, cujo mercado vivia em equilíbrio algo instável, em que a oferta anunciava vezes sem conta que não conseguiria responder de imediato a eventuais acréscimos da procura e onde começava a instalar-se um sentimento de escassez?
v    A tentação dos investidores puros e duros era irresistível: (1) tirar partido da lógica dos contratos “de futuros” sobre crude, onde é possível fazer e desfazer posições (quer compradoras, quer vendedoras) a qualquer momento; (2) aceder a ganhos fortemente alavancados; e (3) constituir com dinheiro emprestado as contas margens que são necessárias para operar nos mercados “de futuros” pagando as taxas de juro extremamente baixas que a política monetária do FED tem vindo a praticar com desvelo.
v    Para se fazer uma ideia do esquema: uma posição de USD 100 no mercado “de futuros” exige uma margem inicial de não mais que USD 6; se esta margem inicial for totalmente financiada em USD, como é usual, o custo efectivo de a manter durante seis meses será de 6x3%x6meses/12meses = 0.09 (9 cêntimos); uma variação favorável de 10% no valor da posição (o preço do activo subjacente) corresponderá a um proveito bruto de USD 10 com um custo de 9 cêntimos - ou seja, um lucro limpo de 11000%, só em 6 meses!
v    Quem voltaria as costas a uma oportunidade destas, quando o sentimento do mercado era que o preço do crude, daí em diante, só poderia subir? Mas, acima de tudo, quando não se avistavam alternativas de investimento credíveis no horizonte?
v    O sentimento, algo manipulado, de escassez; a liquidez no sistema financeiro internacional, que a há em abundância; a sobreliquidez de muitos investidores internacionais, designadamente dos Fundos de Pensões; e a ineficiência dinâmica nos mercados financeiros denominados em USD - levaram o mundo ao ponto em que nos encontramos hoje. (cont.)
Lisboa, Maio de 2008
A. PALHINHA MACHADO
 

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Terça-feira, 27 de Maio de 2008
Os manezinhos da Ilha

 

 

 

Sambaqui ( Ilha de Santa Catarina)

 
 
Guardiões da cultura açoriana na Ilha de Santa Catarina, os manezinhos estão desaparecendo empurrados pela onda de migrantes gaúchos, paulistas, brasileiros de outras plagas e estrangeiros que vêm em busca de uma vida mais calma, junto ao mar e à natureza. Os políticos, ambiciosos, facilitam e estimulam a expansão imobiliária e industrial, a qualquer preço, em nome da modernidade e do desenvolvimento. Esquecem o passado dessa gente, ignoram o risco do desrespeito ao meio ambiente.
 
Eles chegaram há mais de 260 anos atrás em busca de um pedaço de chão que lhes desse paz, segurança e pão. Fugiam da miséria que a superpopulação e os vulcões dos Açores lhes infringiam periodicamente. Sozinhos, aos poucos esquecidos e abandonados pelas autoridades, tiveram que vencer toda a sorte de privações e dificuldades. Ainda mais uma vez, nestas terras brasileiras, a vida não lhes seria fácil. Para sobreviver agregaram-se em grupos familiares e comunidades de mesma origem. Abriram matas cerradas, venceram a hostilidade dos índios e aprenderam com eles  novas técnicas de cultivo, caça e pesca. Com as sementes, um facão e uma enxada, dados pelo governo, construíram nas suas quadras de terreno rústicas casas, fizeram roças e plantaram hortaliças. Aprenderam a utilizar a mandioca, no lugar do trigo, para ter a farinha, usando a tecnologia daqui e a que traziam do velho continente. Tiraram do mar, o peixe para seu alimento. Fizeram da caça à baleia, das rendas de bilro, do artesanato e da criação de gado meios econômicos de sustento. Místicos, usavam as raízes e a bruxaria para tratar e afastar os males físicos e imaginários. Tinham medo de assombração. Erigiam igrejas em homenagem aos santos, faziam procissões marítimas em louvor a Nossa Senhora dos Navegantes, comemoravam com festas o Divino Espírito Santo.
 
Os colonizadores açorianos vieram em levas, alguns individualmente. O Brasil precisava ocupar espaços, demarcar e defender as fronteiras. Os portugueses eram poucos para tanta terra conquistada. A solução veio com a colocação dos mais pobres e sofridos, os oriundos da periferia portuguesa (ilhas, regiões ultramarinas e mais pobres do reino), nessas áreas. Vinham também degredados políticos e criminosos, além de nobres de segunda linha para postos administrativos e de comando.
 
Em 1619 aportaram ao Maranhão 200 casais de colonos açorianos. No Pará, em 1666, chegaram mais outros 200. No final do século XVIII desembarcaram mais mil pessoas. Mas o maior contingente deles foi para Santa Catarina. De 1748 a 1756 chegaram 6071 almas que se juntaram às 4197 pessoas já lá existentes. Dessas, 1400 migrariam para a região mais meridional do pais, dando inicio à colonização do Rio Grande do Sul.
 
Os manezinhos, açoriano-catarinenses descendentes, viveriam na ilha de Santa Catarina até 1960 em relativo isolamento, longe dos benefícios (e malefícios) da civilização. Se para o meio ambiente e cultura tradicional foi uma grande coisa, pois houve preservação da natureza e de uma identidade, para a genética do homem trouxe algumas deficiências, como o aumento da incidência de más formações físicas e mentais, resultantes das freqüentes uniões consanguíneas. A partir da segunda metade do século XX, enfim, chegou a modernidade para essa gente. Veio com a gula dos migrantes que descobriram na ilha de Santa Catarina a beleza e a paz preservadas, o paraíso perdido, entregue segundo as palavras um senhor estrangeiro, pouco conhecedor da história da ilha, à inércia improdutiva dos ilhéus.
Pobres manezinhos, rechaçados,  acuados no seu habitat tão duramente conquistado, desta vez pelo apetite voraz e a força capitalista dos migrantes nacionais e internacionais, que vêem na ilha um tesouro financeiro a ser explorado.  
Desenvolvimento é preciso, mas que chegue com inteligência e sabedoria. Temos um rico patrimônio natural e cultural herdado que faz a diferença com as outras regiões do país. Só com critério e especificidade teremos um bom e rentável crescimento com qualidade de vida. De que vale muitas e grandes indústrias, uma larga rede imobiliária se não tivermos, águas limpas que dêem o peixe, áreas verdes de mata que dêem ar puro e histórias para contar para nossos filhos. A ilha dos manezinhos sem a natureza e sua cultura não é nada.
 
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 25/05/08
 
Dados estatísticos:
Oswaldo A.  Furlan (Prof. titular da UFSC) no livro INSVLANA ( vol. LIV)
(órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada, São Miguel, Açores) 
Foto de propriedade de Maria Eduarda Fagundes: Praia do Sambaqui ( Ilha de Santa Catarina)
Nota: Ao fundo casa típica açoriana
 

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Segunda-feira, 26 de Maio de 2008
Curtinhas XLI

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os aprendizes de Xamans
v      Mais velho ainda que a mais velha profissão do mundo é o temor de não saber o que futuro reserva. E, desde sempre, à sombra desse temor prosperaram todos aqueles que se atrevem a tratar por tu a incerteza e o desconhecido: os xámans, os iluminados para quem o futuro não tem segredos.
v      Prosperaram é uma maneira de dizer. Tempos houve em que predizer certeiramente uma ameaça ou uma calamidade era caminho seguro para uma vida regalada, mas desgraçado estava quem falhasse na predição: com sorte, perdia valimento; em dia mais aziago, perderia a cabeça.
v      Era o tempo em que predizer significava arriscar: arriscar a glória, ou arriscar a morte (da morte rápida às mãos do patrono insatisfeito, à morte lenta dos que não mais privariam com o poder). Tempos cruéis, esses, mas onde se podia fazer fé no futuro predito: anunciá-lo não era coisa de brincar – sabia-se bem o que estava em jogo.
v      Nos tempos que correm, lidar com a incerteza continua a não ser fácil. Que bom seria poder decidir hoje conhecendo com meridiana clareza o que o dia de amanhã trará - e assim sucessivamente, numa longa cadeia de informações completas, construída passo a passo, mas sempre por antecipação!
v      Hélàs! não. E, tal como outrora, o que não falta hoje é quem se deite a adivinhar. Uns, consultando os astros, as entranhas de animais sacrificados, os desenhos que pedrinhas, conchas e ossos, lançados ao acaso, deixam no pó; outros, consultando números. Cada um com o seu ritual, mas todos ao mesmo.
v      Infelizmente, perdeu-se entretanto aquela regra que apontava, ora para a glória, ora para a desgraça, e que dava mística ao ofício de predizer. Hoje, ligada à predição, permanece ainda uma atmosfera de prestígio e proventos. Mas o que se arrisca será, quanto muito, uma certa aura e a perda do mercado que essa aura sempre ia proporcionando. E, por vezes, nem isso. Convenhamos que é arriscar pouco.
v      Hábeis a prever eram, num passado ainda muito recente, os metereologistas: sabedores de que nada poderiam fazer para alterar o tempo que aí viesse, limitavam-se a anunciá-lo com fatalismo - e com simpática imprecisão. Não mais. A partir do momento em que puderam observar do alto a dinâmica de ciclones e anti-ciclones, passaram a conhecer de ciência feita o que nos cairia literalmente em cima nos dias imediatamente seguintes. Agora sabemos com o que contamos quanto ao tempo, mas a previsão meteorológica perdeu muito da sua mística.
v      Sucederam-lhes na cátedra das previsões imprecisas e fatalistas os economistas. Não há economista que se preze que resista à tentação de lançar, dia sim, dia não, a sua previsão sobre isto ou sobre aquilo. Como modelos suficientemente testados e calibrados em que tais previsões se apoiem é coisa que não existe, o que se passa é que os nossos economistas se deitam a adivinhar, dando uns palpites.
v      Arriscam algo? Como assim, se passados uns dias já ninguém se lembra do que fora previsto, muito menos se dá ao incómodo de confrontar o adivinho com os erros do que lhe palpitou. Eis pois uma actividade prestigiante e segura que seria tolice não aproveitar.
v      Quando as previsões económicas provêm de organismos internacionais, compreende-se que sejam anunciadas com um certo fatalismo - à imagem do que acontecia com as previsões meteorológicas, aliás. Afinal, estes previsores não dispõem de meios que lhes permitam contrariar as tendências que crêem ter detectado.
v      Mas que dizer quando são os Governos e as Autoridades Monetárias (para não falar noutras instituições ligadas à política económica) a prever como se o futuro que nos aguarda fosse inevitável? Não lhes foram confiados poderes e instrumentos para inverter o rumo da realidade? Não guardam eles o exclusivo desses poderes e desses instrumentos? Então porque não exercem uns e usam os outros - o que só eles podem fazer, pois é para isso, justamente, que são pagos?
v      É tempo de dizer que não nos impressiona a adivinhação dos novos xámans – os quais nem sequer se dão ao trabalho de dançar para que os maus espíritos se afastem. Se eles querem deitar-se a adivinhar, e é bom que desenvolvam a capacidade de “observar do alto” que os meteorologistas já alcançaram, então que cumpram as rezas rituais e que digam como pensam afastar os maus espíritos.
v      Uma previsão económica desacompanhada das medidas que reforcem a tendência detectada, se for favorável, ou que a contrariem ou mitiguem, se for desfavorável, é um acto gratuito e inútil. Não justifica a tinta da notícia que a faz pública.
v      Ah! Que saudades dos tempos em que predizer o futuro era um jogo de glória ou morte.
Lisboa, Maio de 2008
A. PALHINHA MACHADO

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:28
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Domingo, 25 de Maio de 2008
APELO DE UM MARXISTA A SARAMAGO

 

Há lógicas que não consigo entender.

 
 O traidor trai (quase sempre) por amor
(in CARAPAUSTALINE
http://carrapaustaline.blogspot.com/2007_04_01_archive.html)
 
 
 
Conheço um escritor de grande valor que se bate por várias causas, a nível mundial.
 
Não só luta contra os "males" do Mundo, numa época em que o Capitalismo Selvagem dita a sua lei sobre governos, povo e nações, como luta para que todos os povos tenham o direito de se governar como entenderem. Esteve até na Palestina, apelando à Independência desta em relação a Israel. Apoiou a independência de Timor. Apoia a ideia dum Curdistão independente.

Este homem apela a que deixem os povos decidir. Combate as elites iluminadas que manipulam a vontade desses mesmos povos. Nega-se a aceitar que haja povos mais ou menos inteligentes.

Este homem viu, desde 1989/1990, inúmeros povos reclamarem a sua independência e a sua constituição em Estados soberanos. Ainda recentemente, vimos o pequeno Montenegro proclamar a Independência.

O homem em questão cita o exemplo de países como a Eslovénia como capazes de ultrapassar Portugal, e sabe que a mesma se separou duma União maior chamada Jugoslávia.

Talvez tenha até ouvido o Primeiro-Ministro dinamarquês comparar Portugal e a Dinamarca e dizer que ambos são pequenos países com pouca população (e, nestes aspectos, Portugal é superior), com um vizinho poderoso, mas que fazem o possível por sobreviver e que, se a Dinamarca foi capaz de se tornar um dos países mais ricos do mundo, Portugal também o poderá fazer.

O nosso homem sabe que não se vislumbra, por essa Europa fora, nenhum movimento de retrocesso em relação a independências adquiridas há menos tempo que Portugal. Ninguém tem conhecimento de que a Holanda se queira reintegrar na Alemanha, ou a Bélgica, ou parte dela, na França.

Sabe e di-lo, que um dos problemas das elites em Portugal, ao longo dos séculos, é o seu desprezo pelo povo que as sustenta e a tentação da riqueza fácil "adquirida", se necessário, vendendo-se ao estrangeiro. Sabe que o próprio povo tem varrido essas elites.

Este homem é de Esquerda, Republicano, Laico, Anti-imperialista.

Este homem chama-se José Saramago, e recebeu um Prémio Nobel pelo que escreveu em Língua Portuguesa, enchendo de alegria muitos compatriotas.

Mas este homem não aplica ao seu País o que defende para o resto do Mundo. Acha que o povo de que é filho é menos inteligente que os demais. Acha que não tem o Direito à Independência. Como as elites que critica, acha os portugueses incapazes de se governarem sozinhos e acena ao estrangeiro... mesmo quando este é governado por uma Monarquia... que nasceu depois de uma guerra brutal que esmagou os seus companheiros ideológicos (ressalve-se que os actuais monarcas não tiveram a culpa!).
 
Pior, acha que "sem se encostar" a um "padrinho" poderoso, não pode subsistir, porque não tem sido capaz de se governar sozinho. E acha isto depois de 850 anos de independência... com os seus altos e baixos, naturalmente.... mas em que resistiu a tudo e todos.

Saramago, Saramago, meu caro Nobel: aplica ao teu povo o que desejas para os outros. Não cries, em quem adora tua Literatura, problemas de consciência. Por uma vez, copia um pouco a altivez da Espanha que admiras e aplica-a ao teu País. Contribui para a saída da crise, apelando ao amor-próprio de todos nós, em vez de agravares os nossos sintomas depressivos. Lembra-te do teu livro "Levantados do Chão".

Estremoz, Setembro de 2007
 
Carlos Eduardo da Cruz Luna
(leitor/apreciador da obra de Saramago)

 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:28
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Sábado, 24 de Maio de 2008
ARROZ PODE BAIXAR PREÇO

 

 
Consumo de arroz carolino pode fazer baixar os preços
 
 
O aumento dos preços do arroz nos mercados internacionais já está a ter efeitos nos orçamentos familiares dos portugueses, através da subida do preço do quilograma deste bem alimentar. Contudo, este efeito pode ser limitado. Desde que os consumidores comecem a comprar mais arroz do tipo carolino, cuja produção nacional é suficiente para abastecer o mercado. Quem o diz é o presidente da Associação Nacional dos Industriais de Arroz (ANIA). Ernesto Morgado espera que as pessoas não entrem em pânico com as subidas dos preços.

"Importamos mais de 50% de arroz devido ao consumo crescente dos tipos agulha, vaporizado e basmati. Uma consequência natural dos novos estilos de vida, com a procura de experiências diferentes e curiosidade por novos produtos", sublinhou Ernesto Morgado. "Se houvesse uma tendência de subida do consumo de arroz carolino, podia resolver-se eventuais problemas nas colheitas no exterior e podia resolver-se a situação dos preços altos."
 
Parte do consumo de arroz agulha é abastecimento através do recurso às importações. E é devido a essa procura que os produtores e distribuidores têm de subir os preços, para acompanhar a escalada nos mercados. Ernesto Morgado tem outra explicação para o aumento do preço do agulha. "O carolino é mais adequado à nossa gastronomia, sobretudo no arroz de peixe, de marisco ou no arroz malandrinho. Mas o agulha apresenta melhores resultados para quem não sabe cozinhar ou não tem tempo para se dedicar à cozinha." E, devido ao aumento do consumo, "mesmo que haja boas colheitas na Europa, não resolve o problema do agulha". Recorde-se que dentro de mês e meio, aproximadamente, começarão a ter efeitos nos mercados europeus as colheitas sazonais de arroz.
 
A propósito do carolino, Ernesto Morgado garante: "Luto há muitos anos para que o Estado apoie uma campanha de promoção do consumo. Mas ainda não conseguimos avançar com essa iniciativa, que podia ajudar a resolver os preços altos".
 
Ernesto Morgado, que acumula ainda a presidência da Federação dos Industriais de Arroz Europeus (FERM), critica também a política agrícola comum (PAC), que obrigou Portugal a reduzir a área de cultivo de arroz. "Tínhamos antes 33 mil hectares para produzir por ano. Com a PAC, a União Europeia congelou áreas e ficámos apenas com 23 mil hectares. Por outro lado, fomos muito prejudicados porque o consumo de arroz carolino caiu e nós tivemos de continuar a produzi-lo. Se houver uma revisão da PAC neste ponto, Portugal pode ter uma área de cultivo mais adaptada às suas necessidades". Apesar das subidas do preço do quilo este ano - que interromperam uma década de descidas -, Ernesto Morgado apelou a uma desdramatização. "Não devemos dramatizar. Em Portugal, o problema não é gravíssimo como nos países do Oriente ou África. Se as pessoas não entrarem em pânico e não começarem a açambarcar arroz sem necessidade, não haverá problemas de abastecimento". Ernesto Morgado adianta: "Com uma consciencialização para não se aumentar o consumo desnecessário e incentivos ao aumento da oferta, conseguiremos passar esta fase de preços altos."
 
 
PEDRO FERREIRA ESTEVES, in “Diário de Notícias”
 


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:22
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Sexta-feira, 23 de Maio de 2008
ALERTA PETROLÍFERO

 

 

 

 

A propósito de um pedido de boicote à Galp e à BP que circula na Internet, peço aos leitores residentes em Portugal que meditem no seguinte.

 

 

Essa é a estratégia das petrolíferas espanholas para combaterem a Galp em Portugal. A BP está lá só para disfarçar assim como a origem francesa da mensagem. A especulação com os preços é mundial e se fizermos isso só em Portugal, estaremos apenas a dar um tiro nos nossos próprios pés, não resolveremos nada a nível global e só daremos espaço aos espanhóis no nosso mercado, o português. Os espanhóis não toleram a soberania política portuguesa e estão agora a combater o que nos resta de soberania económica. Esta é uma estratégia claramente contrária ao interesse nacional. Espoliado por espoliado prefiro sê-lo por portugueses do que por estrangeiros.

 

Temos que procurar outra forma de actuação. Creio que vai ser necessário levar os 27 Governos da UE a tabelarem os preços de venda ao público de todos os combustíveis derivados do petróleo e do gás natural. Acredito que desse modo se possa mexer na manipulação global; Portugal, isolado, não faz absolutamente nada.

Mas é necessária uma pressão política forte e conjugada porque os Governos - todos os Governos, a nível mundial - são claramente coniventes nesta manipulação pois os lucros das petrolíferas têm crescido desmesuradamente e os IRC's também!

 

Portanto, peço grande ponderação nesta atitude. Pelo meu lado, não alinho e mesmo quando vou a Espanha de carro só me abasteço na Galp. Note-se que não sou accionista nem funcionário da PETROGAL. Sou apenas português, vítima da manipulação global dos preços dos combustíveis e dos cereais… até ver.

 

Mas se avançarem mesmo assim para o boicote, façam-no também às petrolíferas espanholas.

 

Se estragarem este Portugal ninguém nos dá outro.

 

Henrique Salles da Fonseca

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:50
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