Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
O CHOURIÇO NAS ARÁBIAS

 

Ruy Coelho (1889-1986)

 

Relação difícil essa das Arábias com o chouriço. E compreende-se. Antigamente não havia meios de conservação de uma carne tão vulnerável como a do suíno e só a ameaça da ira divina poderia impedir que os fiéis trincassem tal iguaria. Mas hoje, com salmoura, fumo, criogenia e ASAE, é uma pena que os muçulmanos continuem impedidos de melhorar a cotação de tal espécie por aumento que fizessem da sua procura. O mesmo se diga dos do outro lado da eterna barricada, os judeus, cujos rabis insistem na mesma proibição. Pelos vistos, suíno lá nos confins do Mediterrâneo nascente faz o pleno das opiniões e completo jus ao nome que lhe damos cá no extremo ocidental: porco, com sua licença.

 

Quando eu era menino também tive uma rabina – presumo que este novo substantivo possa servir como feminino de rabi – que estabeleceu um tabu que muitos de nós, no Liceu, mantivemos até ao presente. Já lá vão cerca de 50 anos e temo que muitos dos meus colegas de então continuem a respeitar a dita proibição: Ruy Coelho.

 

A rabina era a professora de música do Liceu Francês em Lisboa e insistia que as músicas de Ruy Coelho eram insuportáveis, que não tinham melodia, os acordes não o eram e, pelo contrário, eram dissonantes, que nas peças vocais não havia sincronia entre a tonalidade e as sílabas, ritmos aleatórios, etc., um rol de malefícios tão graves para o tímpano que nos esmoreceu por completo qualquer réstia de interesse que pudéssemos vir um dia a ter por tão famigerado personagem. E dele nos ficou tal fama que o banimos do pensamento.

 

Até hoje, digo eu.

 

Entrando numa livraria e discoteca que visito semanalmente, perco-me quase sempre na leitura de badanas e contra-capas mas desta vez decidi começar pela secção de música e vasculhei a magra estante de autores e intérpretes portugueses. Sim, havia um CD de Ruy Coelho com as Sonatas nºs 1 e 2 para violino e piano interpretadas pelos manos Vasco e Grazy Barbosa, com “A princesa dos sapatos de ferro” e um conjunto de peças bucólicas sinfónicas interpretadas pela Orquestra da antiga Emissora Nacional dirigida por Silva Pereira.

 

Antes da música propriamente dita, não resisto à tentação de referir as interpretações: Vasco Barbosa com alguma da habitual agressividade acústica, Grazy a acompanhar o mano; a orquestra com o volume e veludo com que Silva Pereira nos deliciava e que nenhum outro Maestro português conseguia dela tirar.

 

E quanto à música, tenho a dizer que não ouvi dissonância assinalável e por certo muito menos daquela com que sou agredido quando a Antena 2 da RDP impõe “coisas” de Fernando Lopes Graça. Melodias? Sim, claro, mas envoltas nas roupagens que Ruy Coelho aprendeu a cerzir com Humperdink, Schönberg, etc. Ritmos aleatórios? Algumas peças até me espantaram pelo ritmo bem marcado e lembrei-me de que «os bailarinos do “Verde Gaio” não andavam pelos palcos com a vocação de arrastarem pernas toscas ou de partirem pés em passos de contradança» (não me lembro de quem era a expressão mas não é minha de palavra de honra e estou a plagiar alguém). Este CD não tinha peças vocais e por enquanto fiquei sem saber como o autor tecia as sílabas e os sons. Mas comparando o que a rabina dizia com o que hoje ouvi, estou em crer que não me espantarei muito com o que o futuro me reserva. Só não sei onde procurar pois que se naquela grande discoteca só havia um CD de Ruy Coelho, nas de menor porte poderá não haver nenhum. Em última instância hei-de pedir à Antena 2 que passe alguma gravação que por lá esteja esquecida.

 

E porquê este esquecimento e aquele tabu incutido na juventude da minha geração?

 

Há que ver o «filme» ao contrário. Ruy Coelho era casado e pai de família, não era comunista nem entrava na política de um modo acutilante. Como tantos outros artistas que não hostilizavam Salazar, era conotado pelos anti-salazaristas como situacionista, independentemente de o ser ou não. E como se inspirava em temas históricos que não perturbavam o status quo, era dado pelos internacionalistas como nacionalista. E porque não hostilizava ninguém, o Estado abria-lhe as portas e muitas épocas de S. Carlos incluíam óperas dele. Os outros, à míngua de encomendas, vá de o desancarem e até houve um comunista solteiro seu concorrente nas pautas que escreveu um livro com o título de “Abriu a caça aos coelhos” só para poder dizer mal de quem estava a facturar enquanto ele, sem graça nenhuma, compunha “coisas” que ainda hoje desgosto de ouvir.

 

Ah, já me esquecia: a rabina era comunista mas nós não o sabíamos.

 

Finalmente, o município da naturalidade de Ruy Coelho – Alcácer do Sal – não sendo propriamente a sede da direita política portuguesa traça-lhe um quadro biográfico que transcrevo com prazer:

 

“Músico de temperamento revolucionário e educado nos princípios mais avançados da sua arte” era assim que o escultor e escritor, Diogo de Macedo, descrevia, em 1942, Ruy Coelho, compositor que nasceu em Alcácer do Sal a 2 de Março de 1892.

 

Filho de um barqueiro do Sado, Ruy Coelho iniciou os seus estudos musicais muito cedo, primeiro no Conservatório Nacional e, mais tarde, em Berlim, na Alemanha, onde foi aluno de Engelbert Humperdink – mestre que Richard Wagner escolheu para professor do seu filho, Siegfried Wagner. Ainda por terras germânicas, trabalhou com Max Bruch, director da Liverpool Philarmonic Society, e com o compositor austríaco, Arnold Schönberg.

 

De regresso a Lisboa, apresentou, em 1913, no Teatro São Carlos, O Serão da Infanta, a primeira ópera cantada em português, por artistas portugueses. Um ano mais tarde, chocou a burguesia lisbonense com a sua Sinfonia camoniana n.º1, obra que faria parte da banda sonora do filme Camões, realizado em 1946 por José Leitão de Barros.

 

Dono de um espírito inovador e de um notável ecletismo, Ruy Coelho teve um papel fundamental no surgimento de um teatro lírico de características assumidamente portuguesas, de que as peças Crisfal, Rosas de todo o ano, Auto da Alma ou Orfeu em Lisboa são exemplo. Também de inspiração nacionalista foram criadas as Sinfonias camonianas, a Abertura comemorativa da chegada dos portugueses à Índia, os seis ciclos das Viagens na minha terra e a ópera Inês de Castro. Já as Suites portuguesas, constituídas por pequenos trechos descritivos, recriam algumas das mais belas e típicas paisagens nacionais, o que facilmente poderá ser percebido pelos títulos Promenades d’été au Portugal, Alentejo, Peninsular ou Alcácer.

 

Se a ópera e a música sinfónica foram as áreas em que Ruy Coelho mais se notabilizou, o compositor foi também pioneiro no campo do bailado. Em 1918, estreou A Princesa dos sapatos de ferro. Criada a partir de um conto de António Ferro, esta foi a primeira produção nacional de bailado.

 

Pianista e maestro ilustre, faleceu a 5 de Maio de 1986. A sua vastíssima obra permanece, porém, quase remetida ao silêncio, uma vez que são muito poucas as edições discográficas de peças suas.

 

 

Afinal, nem o Maestro era mau compositor nem o tabu fazia qualquer sentido como já o não faz a proibição do chouriço nas Arábias. Mas como depois de 1974 a doutrina política não lhe era favorável, a propaganda deu-nos outras músicas de graça, essas sim, dissonantes e chatas até dizer BASTA!

 

Lisboa, Fevereiro de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca


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Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008
CRUZEIRO DO SUL

As  independências

 

Já alguém disse: Um povo que tenta recuperar a sua independência é sempre digno de respeito. Evidente. Ninguém gosta de patrão. Sobretudo quando não precisa de patrão para lhe garantir as sopas e as cuecas lavadas no fim do mês.

A Iugoslávia implodiu pós Tito, na ocasião ninguém reclamou, e como os Balcans – cuja palavra, de origem turca, significa “montanha” – por sua orografia, formam uma fronteira natural, foi nessa região que os europeus, os cristãos, conseguiram segurar a explosiva expansão do Islão. Região de fronteira entre duas filosofias e dois credos que cada vez mais parece que se opõem, teria que ser o que sempre foi: zona de conflitos. Graves. Até entre cristãos, católicos e ortodoxos!

O Kosovo, a Sérvia queira ou não, acabará independente, e mesmo que venha a necessitar de apoio financeiro para sobreviver e/ou progredir lá estarão os petrodólares a segurá-los. Além de que os kosovares serão sempre uma ótima entrada para a Europa!

Onde há dinheiro ou fontes de riqueza suficientes sempre surgirão movimentos independentistas, alicerçardos ou não na história, mas sobretudo em cima das suas riquezas que não querem partilhar.

O mundo está cheio de problemas desse tipo: Cabinda, com o seu Tratado de Simulambuco, o seu petróleo e o fato de ser um enclave nos Congos e não parte da geografia natural de Angola.

O “país” basco ou “eusco”, que nunca foi um povo independente, dividido pelos Pirinéus,  pertenceu a Navarra no lado da Espanha, a Navarra do outro, e a mais um monte de reis e condes, tem a uni-los a língua “euscara”, cuja origem ninguém conseguiu definir e, com uma sólida economia baseada na industria, metalurgia e pesca, desde há muito que tem forte autonomia administrativa, e com isso luta ferozmente para se libertar de Madrid.

Os catalães, que já tiveram um reino independente, hoje a província mais rica da Espanha, precisa também de Madrid para quê?

Há milênios os palestinos apanham na cabeça – desde muito antes de Golias ter levado aquela pedrada na testa – a comunidade internacional considera-os mais ou menos um estado, não um país, e independência, mesmo com o seu território retalhado por Israel... nada!

Boa parte das mais que 18.000 ilhas que compõem a Indonésia querem também separar-se, o petróleo e o Islão a fomentar.

E os curdos a levar bordoada ora dos iraquianos ora dos turcos, o Sudão, a Macedônia, e... e... e... a Rússia chia, porque se reconhecer o Kosovo, os chechenos... e já está a ameaçar a EU para não intervir! Até o louco Chavez apareceu na Tv para se pronunciar contra a independência do Kosovo “que é parte inalienável da Sérvia”, que são eslavos, como os russos, com quem o pseudo líder venezuelano quer manter boas relações contra os EUA!

Agora que a Europa vai crescendo, à procura de uma união total, por muito impossível que isso pareça, e sem destruir as tradições históricas e culturais de cada povo, por esse mundo fora continuam a proliferar as guerrilhas, chamadas de terrorismo ou nacionalismo conforme se olha pelo lado de quem está no poder ou no contra, e os fabricantes de armas a fomentar dando risada.

Um povo deve ter o culto da sua história, porque o patriotismo é feito de todas as lutas e de todas as glórias dos seus antepassados.

O que muitos se esquecem é que a união é que faz a força. O respeito mútuo, a tolerância e um mundo de paz e harmonia é que se torna difícil quando a pressão dos fabricantes e vendedores de armas é altamente aliciante. E os homens, que não evoluíram, gostam de matar. Infelizmente mais do que amar.

 

Rio de Janeiro, 22 de Fevereiro de 2008

Francisco Gomes de Amorim


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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008
Burricadas nº 22

Eufemismos...

v      Há profissões que ostentam, orgulhosas, os seus misteres. Mas outras parecem envergonhar-se daquilo que fazem. Os Bancos, por exemplo...É difícil encontrar outra actividade que se esconda tanto por detrás de um ror de eufemismos.

v      Veja-se os tão publicitados “produtos financeiros”. Um produto, como se sabe, é um objecto, um bem que pode ser fruído independentemente da acção (ou colaboração) de terceiro. Existe, está ali, entre ele e quem o possui mais ninguém se interpõe: a lei protege a posse legítima e a fruição pacífica de um qualquer bem.

v      Num contexto mais teórico, o legítimo possuidor de um produto está certamente exposto a uma grande variedade de riscos: vícios intrínsecos, inutilização ou perda, desapossamento (furto, roubo), etc. E mesmo a alguns riscos financeiros, como o risco preço (variação do valor do bem, em caso de venda).

v      Agora, de dois riscos estará ele sempre livre: o risco de contraparte e o risco de crédito. Pela excelente razão que ficou dita mais acima: um produto, existindo, para frui-lo, ou consumi-lo, basta possui-lo.

v      Justamente o oposto do que se passa com os instrumentos financeiros que os Bancos nuns casos, criam, noutros casos, apenas distribuem e negoceiam. Os instrumentos financeiros são, por definição, contratos – e, enquanto tal, envolvem inevitavelmente o risco de contraparte (a possibilidade de a parte contrária não cumprir pontualmente com as obrigações que livremente contraiu) ou, estando previstas prestações pecuniárias, o risco de crédito (a falha nos pagamentos devidos).

v      Ao falarem de “produtos financeiros” os Bancos estão a omitir informações da maior relevância para a formação da vontade dos seus clientes: induzindo nestes a falsa ideia de que os instrumentos financeiros têm uma existência própria, autónoma e completamente independente da entidade (por regra, um Banco) que os criou e que os deve.

v      Nada mais errado. Quem seja titular de um instrumento financeiro só poderá ver satisfeitos os direitos que a sua posse legítima confere enquanto o respectivo emitente existir e for solvente.

v      Outro exemplo: a “concessão de crédito”. Ah! Que expressão mais altruísta! Que sentimento de bem fazer! Não mais negociadores astutos – antes, verdadeiros juizes (esse ar de superioridade, tão difícil de disfarçar!) a reconhecer e a recompensar o mérito dos comuns mortais.

v      Só que os Bancos não concedem nada. Emprestam – emprestam dinheiro. Ou seja, compram dívida que não dispõe de outra via para ser colocada nos mercados financeiros - e dão em troca liquidez sob a forma de moeda escritural que os próprios Bancos criam expressamente para o efeito.

v      Em termos simples, os Bancos entregam liquidez hoje para receberem mais liquidez no futuro – ficando, entretanto, expostos a pelo menos dois riscos: o risco de crédito e o risco de contraparte (isso, isso - exactamente os mesmos riscos que inquinam os “produtos financeiros”).

v      Ora, falar de “empréstimos bancários” soa a usura – parece mal. “Conceder crédito” dá melhor nome à casa... E afecta os neurónios das Autoridades Monetárias, que vão no engodo e não se apercebem de que, nos tempos que correm, a principal fonte de liquidez (o crédito bancário) arrasta com ela o potencial explosivo do risco de crédito (Sim! A crise dos empréstimos subprime tem a ver com isto, também).

v      Novo exemplo: as Demonstrações Financeiras dos Bancos. Quem olhar para o modo como os Bancos apresentam os seus Resultados reparará certamente que os custos do endividamento aparecem logo deduzidos dos proveitos (que deveriam ser só os proveitos recorrentes, o que raramente acontece), apurando-se um primeiro saldo (a margem financeira) – e só depois vêm os restantes custos e os Resultados Extraordinários.

v      E então? Perguntar-se-á. Que mal há nisso? Nenhum – excepto que esse formato dá uma ideia distorcida da verdadeira natureza da actividade bancária.

v      Uma tal apresentação traduziria fielmente a realidade: (1) se os Bancos gerissem fiduciariamente um património que pertencesse, em primeira mão, aos depositantes – o que está longe de acontecer; (2) se os depósitos (e outros fundos reembolsáveis) não fossem, como são, dívida genuína, passivo que os Bancos depositários têm de servir, haja o que houver.

v      Ora, equiparar os fundos provenientes de depósitos (e outros fundos reembolsáveis), que representam risco de crédito e de contraparte, a uma vulgar matéria-prima, que não expõe terceiros a nenhum risco financeiro, é um logro.

v      E fazendo como fazem, os Bancos passam a imagem de que os depósitos de clientes não são verdadeira dívida – e que as elevadíssimas rácios de endividamento com que operam (da ordem de 12:1, quando não de 20:1 ou mais) têm apenas uma existência contabilística, virtual, que não real.

v      O pior é que os Bancos, com poucas excepções, acreditam em tal – e é precisamente assim que se vêem. Com a agravante de o malabarismo impedir comparações directas entre Bancos (e algumas outras Instituições de Crédito), por um lado, e as restantes empresas, por outro – o que mais reforça a sensação (que eles, Bancos, cultivam com esmero) de serem entes aparte, regidos por normas muito próprias e com uma economia só deles.

v      Não são. São, sim, veículos de investimento caracterizados pelo modo como se financiam – a saber: através da criação de moeda escritural.

v      Um último exemplo: os empréstimos subordinados (isto é, cuja graduação é inferior à de qualquer outro crédito, mesmo os créditos comuns), que não deixam de ser dívida, mas que os Bancos, e só eles, ainda que dentro de certos limites, podem equiparar a capital.

v      Se a tese de Modigliani-Miller tiver um módico de verdade, os Bancos, com a benção dos reguladores, são assim o que mais se aproxima do que seja um almoço à borla.

v      O mais surpreendente é que há por aí umas quantas Autoridades (Monetárias, da Concorrência e que tais) convictas de que, sem estes eufemismos, sem estas cortinas de fumo, sem as pequenas espertezas que ao comum mortal dariam talvez prisão, mas que se toleram porque praticadas por entes excepcionais e em contextos ditos de excepção, os Bancos não seriam nunca financeiramente sólidos.

v      Por tamanha miopia, pagamos nós todos – e, por estranho que pareça, paga a estabilidade do nosso sistema bancário, também.

 Lisboa, Fevereiro de 2008

A. Palhinha Machado


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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008
O Medo causado pela inteligência...
  

 O artigo que se segue tem mais de 25 anos. Foi escrito no extinto Jornal da Bahia (Brasil), em 1979. Mas parece que foi redigido hoje.

O autor é José Alberto Gueiros.

 

 

 

Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu discurso de estreia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembleia de vedetas políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal: 'Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta.'

 Images: churchill_paints.jpg 

Retirado da política, Sir  Winston em Câmara de Lobos dedicando-se à pintura ...

E ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas são medíocres e tem um indisfarçável medo da inteligência. Isso na Inglaterra. Imaginem aqui noutros países. Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa:

 

'Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que às vezes fico pensando que a burrice é uma Ciência.'


 Images: churchill_painting.jpg 

... do Sol poente em Câmara de Lobos

 

Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicente que não revelam o apetite do poder. Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar. Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as panelinhas do arrivismo, inexpugnáveis às legiões dos lúcidos.

 

 

Dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa fingir de burra se quiser vencer na vida. É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social. Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas boicota automaticamente a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência, por medo de perder seus maridos, também os encastelados medíocres se fecham como ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar. Eles conhecem bem suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas, enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender. É um paradoxo angustiante.

 

Infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida. Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues: 'Finge-te de idiota e terás o céu e a terra".

 

O problema é que os inteligentes não gostam de brilhar. Que Deus os proteja para que as cobras não os ataquem.

 

 

 

in "JORNAL DA BAHIA" - Sábado, 23/09/79

Contributo do Embaixador Luís Soares de Oliveira

 


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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008
SEDES - TOMADA DE POSIÇÃO
FEVEREIRO 2008



1) UM DIFUSO MAL ESTAR 
Sente-se hoje na sociedade portuguesa um mal estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.
 
Nem todas as causas desse sentimento são exclusivamente portuguesas, na medida em que reflectem tendências culturais do espaço civilizacional em que nos inserimos. Mas uma boa parte são questões internas à nossa sociedade e às nossas circunstâncias. Não podemos, por isso, ceder à resignação sem recusarmos a liberdade com que assumimos a responsabilidade pelo nosso destino.
 
Assumindo o dever cívico decorrente de uma ética da responsabilidade, a SEDES entende ser oportuno chamar a atenção para os sinais de degradação da qualidade da vida cívica que, não constituindo um fenómeno inteiramente novo, estão por detrás do referido mal estar.
 
 
2) DEGRADAÇÃO DA CONFIANÇA NO SISTEMA POLÍTICO
 
Ao nível político, tem-se acentuado a degradação da confiança dos cidadãos nos representantes partidários, praticamente generalizada a todo o espectro político.
 
É uma situação preocupante para quem acredita que a democracia representativa é o regime que melhor assegura o bem comum de sociedades desenvolvidas. O seu eventual fracasso, com o estreitamento do papel da mediação partidária, criará um vácuo propício ao acirrar das emoções mais primárias em detrimento da razão e à consequente emergência de derivas populistas, caciquistas, personalistas, etc.
 
Importa, por isso, perseverar na defesa da democracia representativa e das suas instituições. E desde logo, dos partidos políticos, pilares do eficaz funcionamento de uma democracia representativa. Mas há três condições para que estes possam cumprir adequadamente o seu papel. 
 
Têm, por um lado, de ser capazes de mobilizar os talentos da sociedade para uma elite de serviço; por outro lado, a sua presença não pode ser dominadora a ponto de asfixiar a sociedade e o Estado, coarctando a necessária e vivificante diversidade e o dinamismo criativo; finalmente, não devem ser um objectivo em si mesmos...
 
É por isso preocupante ver o afunilamento da qualidade dos partidos, seja pela dificuldade em atrair e reter os cidadãos mais qualificados, seja por critérios de selecção, cada vez mais favoráveis à gestão de interesses do que à promoção da qualidade cívica. E é também preocupante assistir à tentacular expansão da influência partidária – quer na ocupação do Estado, quer na articulação com interesses da economia privada – muito para além do que deve ser o seu espaço natural.
 
Estas tendências são factores de empobrecimento do regime político e da qualidade da vida cívica. O que, em última instância, não deixará de se reflectir na qualidade de vida dos portugueses.
 
 
3) VALORES, JUSTIÇA E COMUNICAÇÃO SOCIAL
 
Outro factor de degradação da qualidade da vida política é o resultado da combinação de alguma comunicação social sensacionalista com uma justiça ineficaz. E a sensação de que a justiça também funciona por vezes subordinada a agendas políticas.
 
Com ou sem intencionalidade, essa combinação alimenta um estado de suspeição generalizada sobre a classe política, sem contudo conduzir a quaisquer condenações relevantes. É o pior dos mundos: sendo fácil e impune lançar suspeitas infundadas, muitas pessoas sérias e competentes afastam-se da política, empobrecendo-a; a banalização da suspeita e a incapacidade de condenar os culpados (e ilibar inocentes) favorece os mal-intencionados, diluídos na confusão. Resulta a desacreditação do sistema político e a adversa e perversa selecção dos seus agentes.
 
Nalguma comunicação social prolifera um jornalismo de insinuação, onde prima o sensacionalismo. Misturando-se verdades e suspeitas, coisas importantes e minudências, destroem-se impunemente reputações laboriosamente construídas, ao mesmo tempo que, banalizando o mal, se favorecem as pessoas sem escrúpulos.
 
Por seu lado, o Estado tem uma presença asfixiante sobre toda a sociedade, a ponto de não ser exagero considerar que é cada vez mais estreito o espaço deixado verdadeiramente livre para a iniciativa privada. Além disso, demite-se muitas vezes do seu dever de isenta regulação, para desenvolver duvidosas articulações com interesses privados, que deixam em muitos um perigoso rasto de desconfiança.
 
Num ambiente de relativismo moral, é frequentemente promovida a confusão entre o que a lei não proíbe explicitamente e o que é eticamente aceitável, tentando tornar a lei no único regulador aceitável dos comportamentos sociais. Esquece-se, deliberadamente, que uma tal acepção enredaria a sociedade numa burocratizante teia legislativa e num palco de permanente litigância judicial, que acabaria por coarctar seriamente a sua funcionalidade. Não será, pois, por acaso que é precisamente na penumbra do que a lei não prevê explicitamente que proliferam comportamentos contrários ao interesse da sociedade e ao bem comum. E que é justamente nessa penumbra sem valores que medra a corrupção, um cancro que corrói a sociedade e que a justiça não alcança.
 
 
4) CRIMINALIDADE, INSEGURANÇA E EXAGEROS
 
A criminalidade violenta progride e cresce o sentimento de insegurança entre os cidadãos. Se é certo que Portugal ainda é um país relativamente seguro, apesar da facilidade de circulação no espaço europeu facilitar a importação da criminalidade organizada. Mas a crescente ousadia dos criminosos transmite o sentimento de que a impune experimentação vai consolidando saber e experiência na escala da violência.
 
Ora, para além de alguns fogachos mediáticos, não se vê uma acção consistente, da prevenção, da investigação e da justiça, para transmitir a desejada tranquilidade.
 
Mas enquanto subsiste uma cultura predominantemente laxista no cumprimento da lei, em áreas menos relevantes para as necessidades do bom funcionamento da sociedade emerge, por vezes, uma espécie de fundamentalismo utra-zeloso, sem sentido de proporcionalidade ou bom-senso.
 
Para se ter uma noção objectiva da desproporção entre os riscos que a sociedade enfrenta e o empenho do Estado para os enfrentar, calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas de Berlim, colheres de pau, ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodoviária e confronte-se com o zelo que o Estado visivelmente lhes dedicou.
 
E nesta matéria a responsabilidade pelo desproporcionado zelo utilizado recai, antes de mais, nos legisladores portugueses que transcrevem para o direito português, mecânica e por vezes levianamente, as directivas de Bruxelas.
 
 
5) APELO DA SEDES
 
O mal-estar e a degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento. E se essa espiral descendente continuar, emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever.
 
A sociedade civil pode e deve participar no desbloqueamento da eficácia do regime – para o que será necessário que este se lhe abra mais do que tem feito até aqui –, mas ele só pode partir dos seus dois pólos de poder: os partidos, com a sua emanação fundamental que é o Parlamento, e o Presidente da República.
 
As últimas eleições para a Câmara de Lisboa mostraram a existência de uma significativa dissociação entre os eleitores e os partidos. E uma sondagem recente deu conta de que os políticos – grupo a que se associa quase por metonímia “os partidos” – são a classe em que os portugueses menos confiam.
 
Este estado de coisas deve preocupar todos aqueles que se empenham verdadeiramente na coisa pública e que não podem continuar indiferentes perante a crescente dissociação entre o conceito de “res pública” e o de intervenção política!
 
A regeneração é necessária e tem de começar nos próprios partidos políticos, fulcro de um regime democrático representativo. Abrir-se à sociedade, promover princípios éticos de decência na vida política e na sociedade em geral, desenvolver processos de selecção que permitam atrair competências e afastar oportunismos, são parte essencial da necessária regeneração.
 
Os partidos estão na base da formação das políticas públicas que determinam a organização da sociedade portuguesa. Na Assembleia ou no Governo exercem um mandato ratificado pelos cidadãos, e têm a obrigação de prestar contas de forma permanente sobre o modo como o exercem.
 
Em geral o Estado, a esfera formal onde se forma a decisão e se gerem os negócios do país, tem de abrir urgentemente canais para escutar a sociedade civil e os cidadãos em geral. Deve fazê-lo de forma clara, transparente e, sobretudo, escrutinável. Os portugueses têm de poder entender as razões que presidem à formação das políticas públicas que lhes dizem respeito.
 
A SEDES está naturalmente disponível para alimentar esses canais e frequentar as esferas de reflexão e diálogo que forem efectiva e produtivamente activadas.
 
 
Sedes, 21 de Fevereiro de 2008
 
O Conselho Coordenador
(Vitor Bento (Presidente), M. Alves Monteiro, Luís Barata, L. Campos e Cunha, J. Ferreira do Amaral, Henrique Neto, F. Ribeiro Mendes, Paulo Sande, Amílcar Theias)


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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008
ÍNDIA 3 - SAMADI

 

Samadi êxtase em sânscrito;estado em que os yoguis conseguem suspender quase totalmente a respiração e a circulação sanguínea; morte aparente

 

 

 

 

Qualquer europeu sente cheiros especiais logo que entra num avião indiano anunciando catering exótico mas à chegada à Índia já não é o ambiente fechado que inspira: é o próprio ar impregnado de mil aromas em que uns virão das plantas e outros... sabe Deus donde. Mas logo ali, à saída do aeroporto de Deli, tudo limpo e ajardinado, o visitante é recebido numa atmosfera agradável, higiénica, drenada. Na dúvida, logo nos oferecem um colar de flores, saudação tradicional indiana que muito apreciamos pela gentileza que o gesto encerra… e, potencialmente, dos odores que disfarça.

 

  

A vaca tem direito a pedestal, as pessoas posam no chão

 

E quando esperamos por pobreza, vacas a condicionar o trânsito, lixo nas ruas ou esgotos a céu aberto, ficamos agradavelmente surpreendidos por Deli ser uma cidade moderna como qualquer das que conhecemos na Europa ou Américas. Urbanismo digno de nota, o moderno de qualidade a escorraçar o velho, o antigo em vias de valorização, património histórico em restauro permanente. Os edifícios públicos todos (ou quase) do Império Britânico, os grandes blocos de apartamentos ou escritórios a não devassarem a intimidade das moradias familiares e seus jardins acabados de cuidar.

 

 A cidade velha de Deli tem perspectivas imponentes

 

A Velha Deli a exibir a sua função de raiz da Nação e, mais prosaicamente, de centro turístico fundamental.

 

No centro de Deli (ninguém refere a Velha ou a Nova mas apenas lhe chamam Deli) vê-se uma importante classe média a que os funcionários públicos não devem ser estranhos, vêem-se sinais de grande riqueza pelos carros e casas por que passamos, não vemos miséria. E eu perguntei onde vivem todos aqueles que não são funcionários superiores: em cidades adjacentes a que não fomos...

 

 

Residência do Maharajá de Jaipur, Senhor que foi do Rasputana, hoje Rajastan

 

Contudo, a cidade é fria. Não há onde ir a pé para um simples passeio, para tomar um café, para almoçar ou jantar. Não há alternativas credíveis para um europeu, há que ir em regime de pensão completa. E se as há, as alternativas, então devem ser tão longe do hotel Intercontinental The Grant que não as vi. Ah, já me esquecia: as Senhoras que tanto gostam de ir às compras, façam rumo por outro azimute; não há onde, para grande felicidade masculina.

 

  Agra, capital do Uttar Pradesh. Por aqui andou no séc. XVII o Padre António de Andrade,SJ a quem Sha Jahan pediu para arredar a missão católica a fim de construir o mausuléu à sua mulher, o Taj Mahal

 

No outro sentido, a cidade também estava fria neste Janeiro de 2008 pois houve uns ventos que desceram dos Himalaias e soubemos que numa daquelas noites que por lá estivemos os termómetros desceram aos -5º Centígrados. Sim, leu bem, negativos. No hotel o ar condicionado funcionou lindamente e no carro também. Felizmente, não havia onde ir às compras ou tomar um simples café.

 

 

O último vaso com cinzas de Gandhi poucos dias antes de serem espalhadas no Ganges

 

Uma curiosidade: Janeiro é o mês dos casamentos. Quando perguntei se pelo mesmo motivo que “dos gatos”, não perceberam o non-sense e responderam-me à séria: que é quando as colheitas foram vendidas e há dinheiro fresco. E somando todas as cidades que visitámos, devemos ter visto pelo menos uma vintena de casamentos de todas as religiões em presença.

 

E a propósito, na Índia nasceram religiões – hinduísmo e budismo – que comandam uma parte muito significativa da humanidade e há mesmo quem afirme que Cristo lá esteve no período não biografado. Sobre esta questão, há na Caxemira dois túmulos que inspiram grande mistério… e trazem o samadi à conversa.

 

 Quem estará dentro deste túmulo?

 

A religiosidade das populações é evidente e os cicerones sempre nos referem a composição social dos locais por onde passamos em função dos Credos. Por exemplo, no Rajastan e no Uttar Pradesh, a História e a arquitectura que os turistas visitam são muçulmanas mas a sociedade actual é maioritariamente hindu enquanto que Goa evidencia uma claríssima inspiração cristã e, mais concretamente, católica. Deli, a capital nacional, aparenta grande isenção sobre as matérias religiosas de modo a garantir o máximo de equidistância mas nas vésperas do Dia da República (26 de Janeiro) armou-se e resguardou-se como se esperasse um ataque feroz dos vizinhos muçulmanos paquistaneses ou de terroristas simulados. Em Mumbai (a que nós chamamos Bombaim), capital do Maharastra, a arquitectura por que passamos tem tudo a ver com a Inglaterra vitoriana mas sob o ponto de vista religioso o cicerone teve o cuidado de informar que o hinduísmo é maioritário. Contudo, o cosmopolitismo da cidade nada ostenta sobre a matéria. Qualquer turista não avisado pensaria que se trata de uma sociedade agnóstica a menos que tenha um motorista católico que fez questão de nos mostrar a Igreja da sua própria devoção, cujo orago não fixei, mas onde notei que por ali ronda um misticismo raro: pagadores de promessas rondando o templo, bancos cheios de devotos em horário comum, comércio de ex-votos. Realmente, não esperava.

 

  

Grande serenidade à volta do Instituto Pio X na cidade velha de Goa

 

Em Goa, é na Basílica do Bom Jesus que se encontra o túmulo de S. Francisco Xavier que indubitavelmente é o centro da Fé goesa. Contudo, o orago oficial do Estado é o Padre José Vaz, goês missionário no Ceilão no séc. XVII que em vida era considerado Santo pelas populações que servia mas que só foi beatificado em 1995. Dizem-me que está em curso o processo de canonização.

  

 

Vista do nosso quarto no Hotel Forte Aguada

 

A cidade velha, Goa propriamente dita, é património da UNESCO e é um conjunto notável de monumentos religiosos, todos em obras de conservação e intercalados por jardins primorosamente arranjados.

 

Aliás, é impressionante o esforço de manutenção e de recuperação de monumentos nos cinco Estados por que passámos e, do que vimos, não se pode imaginar quando as obras possam ser dadas por concluídas pois a profusão monumental é tão grande que se há palácios já visitáveis e em plena “facturação”, muitos outros ainda estão em trabalhos de arqueologia primária e…

 

Uma nota que me parece importante para acabar esta primeira parte da reportagem: nestes 15 dias que deambulei pela Índia constatei relações totalmente pacíficas entre hindus e cristãos e um proselitismo muçulmano por ali muito suave. Até quando? Falava-se com alguma inquietude sobre o Paquistão.

 

(continua)

 

Lisboa, 22 de Fevereiro de 2008

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 



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Sábado, 23 de Fevereiro de 2008
A SAGA DE UM CORVINO
       

    

 

                                            

                                     

Capitulo III

 

A Senhora Adelaide, uma portuguesa há anos radicada na América, viu quando seu hóspede chegou, tirou o boné e o sobretudo molhados, e dirigiu-se para seus aposentos. Pouco tempo depois, já lavado e seco, ele retornou e procurou com o olhar um local no salão principal, para a refeição da noite. Num ambiente atulhado de gente- (havia chegado um navio ao porto)-socorreu-o  a dona da pensão que, percebendo a sua dificuldade, levou-o a uma mesa onde estavam duas senhoras. Apresentou-o como sendo um compatriota e solicitou um lugar para ele.

Apesar da inicial hesitação da senhora mais idosa, foi aceito. José pediu licença e tomou o assento. Numa tentativa de amenizar a situação, mostrou-se cortês e entabulou uma conversação. Apresentou-se como um proprietário da ilha do Corvo, “floreando” a sua posição sócio-econômica.  Disse como chegou e que tinha parentes nos Estados Unidos. Por sua vez, elas contaram-lhe que eram mãe e filha, uma do Pico e a outra do Faial. Enquanto falavam, o corvino observava com interesse Maria José. Não era especialmente bonita. Delgada, clara e sardenta era alta para os padrões portugueses da época. Os cabelos castanhos muito bem penteados eram presos no alto da cabeça, em rolete. Os olhos eram claros, esverdeados, ligeiramente fechados, denotando uma incipiente dificuldade visual. O nariz arrebitado e uma maneira decidida e estabanada de falar davam-lhe um certo encanto.

 

Através das vidraças das janelas da pensão via-se que a chuva continuava, agora mais branda. As senhoras tomavam chá com torradas. Apreciavam o calor da lareira que crepitava ao lado. Enquanto bebericava um copo de vinho tinto e aguardava a sopa que pedira, José ainda puxava assunto. A mais velha, Bárbara, tinha um ar austero e desconfiado, usava óculos de aro redondo. Era filha de um continental de Melgaço e de uma espanhola.  Usava uma saia ajustada na cintura, longa e preta. A blusa era também negra, fechada até o pescoço, arrematada por uma gola branca rendada, onde se sobrepunha uma corrente de ouro com um camafeu.  Devia ter uns cinqüenta e poucos anos. Percebia-se que se sentia desconfortável com o à vontade da filha, que falava com José como se o conhecesse há muito tempo.

 Maria José era professora de instrução primaria na sua terra natal, mas depois que se casou com um comandante de um baleeiro americano que conhecera no Faial, mudou-se para New Bedford, nos Estados Unidos. Lá teve dois filhos e se dedicou à família. Agora, elas acabavam de chegar dos Açores onde foram terminar alguns assuntos pessoais. O marido de Maria José havia desaparecido num naufrágio perto da Ilha das Flores. Viúva, de volta a casa, pensava em trabalhar. Talvez até daria aulas particulares. A maioria dos imigrantes portugueses era analfabeta, ou então havia aqueles, como o José, que sabiam ler, mas não sabiam escrever. Nas ilhas açorianas havia pouco material escolar e faltavam professores. E as crianças muito cedo aprendiam que era preciso ir para o campo para ajudar os pais a prover o que comer. Tudo isso desestimulava o estudo.

 

José ouvia a jovem senhora com estranho contentamento. Ela lhe despertava um doce sentimento, agitava seu coração e era viúva... E, ironia do destino, o marido dela era o mesmo capitão que o trouxera até ali, onde estava, na América!

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 22/02/08

 

Nota:

A foto é de minha avó paterna,  filha de Maria José Candido de Avellar.


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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008
CRÓNICA DO BRASIL

A  estupidez

 

Rebuscando, e relendo, alguns livros velhos – ou antigos – por muito cuidadosamente que outrora tenham sido lidos, estudados ou meditados, sempre nos deparamos com “novidades” arrepiantes, e quase as lágrimas nos embaçam os olhos ao ver que tamanha é a estupidez e a sem vergonhice dos homens (e mulheres, claro!).

Toda a gente sabe que o f... da m...&#@ do Caim matou o Abel, que Jacob passou a perna ao irmão Esaú, que Sócrates (o grego!) foi envenenado, Brutus apunhalou Julio César, a Séneca cortaram-lhe os pulsos, Cristo foi “vendido”, assim como milhões de escravos, e nem todos se envergonham pelo modo como foram tratados os últimos, como baratas que se espezinharam a bel prazer dos seus donos. Ainda hoje assim é!

Passam os anos, os séculos, os milênios e os homens não evoluem, não aprendem, não querem.

Se o poder embriaga a ganância sega. No caso deste país onde se plantando tudo dá, os escândalos sucedem-se a velocidade vertiginosa. Rouba-se descaradamente e ainda se ri na cara do povo besta que hoje daria quase 70% de aprovação ao grande líder, da mentira.

Há cerca de 2.600 anos um homem deixou-nos esta mensagem da sua doutrina:

Haverá uma rápida deteriorização da moral pública, se um ministro de estado negligenciar os seus deveres, trabalhar apenas em benefício próprio e aceitar subornos. Tais funcionários públicos desonestos são os ladrões da felicidade do povo: são ainda piores do que os assaltantes, porque trapaceiam o governo e o povo, e são a causa dos transtornos das nações. O rei deve exonerar tais ministros e puni-los severamente.

- Quem nos diz isto é Siddharta Gautama, o santo Buda.

 Siddharta Gautama, Buda

Dirá aqui o tal líder: que tenho eu com isso? Sexa não vê os gatunos, os ministros, a roubar! Ainda os protege e defende! Ninguém é despedido, muito menos punido. O líder negocia com eles. Troca de favores, de votos, de contas públicas abertas para que cada um roube o quanto a sua imaginação puder.

O povo acha tudo normal. Aqui o hábito de se mancomunar com a res publica é coisa tão comezinha como o feijão com arroz! Só falta lei que sancione essa corrupção, o que aliás não viria alterar em nada o status quo!

Nem um se revolta. Poucos se indignam. Mesmo sabendo que a indignação (indignatio) é o ódio a alguém que fez mal a outrem, segundo a definição do grande mestre Spinoza, o povoléu acha que “está tudo numa boa”! País de brandos costumes, sol de Ipanema e... olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...

As mulatas boazudas deixam cair o tapa sexo - enorme: 4 cm. de comprimento e 1 de largura - em frente a um publico embabacado ao ver uma mulher nua, depois de já terem passado milhares delas com o sexo “discretamente disfarçado” com luzes pisca-pisca, espetáculo que marca o ponto máximo na vida turística do Rio de Janeiro, quando o prefeito do Rio aproveita para, em vez de receber os tais turistas, ir passar férias na Suíça! Talvez tenha ido também à Grécia perguntar qual o grau de pornografia que eles atribuíam a estátuas como a Vênus de Milo ou as Cariátides com seus vestidos “transparentes”!

Será que é verdade tudo isto que nos rodeia, ou estamos a sonhar acordados?

Para encerrar, por hoje, só mesmo citando Ernest Renan: A estupidez humana é a única coisa que nos pode dar a dimensão do infinito.

 

Rio de Janeiro, 19 de Fevereiro de 2008

Francisco Gomes de Amorim


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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008
MAGAÍÇA
NOTA PRÉVIA: 
Magaíça – trabalhador moçambicano nas minas da África do Sul. 
A aculturação foi feita de tal modo que os homens do sul de 
Moçambique só são aceites para casamento depois de terem estado
dois anos nas minas sul-africanas.
 
 
MAGAÍÇA
A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.
 
E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.
 
Ás costas – ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
à cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...
 
A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.
Noemia_sousaNoémia de Sousa (Catembe, 20/9/26-Lisboa, 4/12/02)
 
(…)
Estes últimos dias de rapaz foram passados com os outros iniciados e achei a camaradagem agradável. O abrigo era perto da casa de Banabakhe Blayi, o rapaz mais rico e mais popular da escola de circuncisão. Era um rapaz cativante, campeão do jogo do pau e um galã cujas muitas namoradas nos mantiveram a todos fornecidos de petiscos. Embora não soubesse ler nem escrever, era um dos mais inteligentes entre nós. Regalou-nos com histórias das suas viagens a Joanesburgo, um lugar aonde nenhum de nós jamais tinha ido. Entusiasmou-nos tanto com histórias das minas que quase me convenceu que ser mineiro era mais interessante do que ser monarca. Os mineiros tinham uma mística; ser mineiro significava ser forte e ousado, o ideal da masculinidade. Muito mais tarde dei-me conta que eram as histórias exageradas de rapazes como Banabakhe que faziam com que tantos jovens fugissem para trabalharem nas minas de Joanesburgo, onde muitas vezes perdiam a saúde e a vida. Nesses tempos, trabalhar nas minas era quase tanto um rito de passagem como a escola de circuncisão, um mito que ajudava mais os proprietários das minas do que o meu povo.
(…)
 
LONGO CAMINHO PARA A LIBERDADE – Nelson Mandela, Autobiografia (pág. 35)
 
 

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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008
FALSIDADES E UTOPIAS

 

FALSA LIBERDADE – A globalização fez desaparecer as restrições aos movimentos internacionais de capitais, de produtos e serviços mas não de pessoas pelo que ainda há um elemento essencial em regime de liberdade condicionada.

 

QUESTÃO ORÇAMENTAL – Cada país tem um Orçamento que só a si respeita e um sistema fiscal próprio pelo que não é indiferente que a riqueza seja produzida e tributada em qualquer lugar do planeta. Essa indiferença só existiria se houvesse um Orçamento Global que cobrasse em todo o lado e distribuísse em conformidade com as necessidades de cada país ou região. O Orçamento Esperanto…

 

EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO – O nível médio de instrução da população portuguesa ainda é relativamente baixo e isto faz com que tenhamos um fraco poder para acrescentar valor aos produtos manufacturados. É por essa razão que a indústria portuguesa sofre com a concorrência do Extremo Oriente, do Norte de África e de outras regiões de mão-de-obra barata. Nesses países não há Sindicatos livres nem férias (e, portanto, nem subsídios de férias) e outras regalias sociais que para nós são imperativas. Nem há condicionantes ambientalistas. Estamos assim a sofrer uma concorrência desleal importando produtos fabricados em condições que qualquer um de nós consideraria de escravatura. Não há alternativa ao reforço do nível médio de educação e formação da nossa população mas, entretanto, há que averiguar até que ponto nos interessa importar bugigangas e produtos baratos porque produzidos em condições sub-humanas. Que tal um Espaço Schengen para os produtos e serviços transaccionáveis?

 

INOVAÇÃO – Por causa do relativamente baixo nível médio de instrução da população portuguesa, a Inovação é muito reduzida quando comparada com a dos países mais evoluídos pelo que também com eles não conseguimos concorrer. Quando a Investigação é predominantemente pública, tendem a ser fracos os laços com a realidade empresarial. Se os Institutos públicos de investigação científica fossem integrados nas Universidades, tendo estas que facturar cada vez mais para compensarem a redução das verbas recebidas do Estado, seria um modo de fazer ciência útil à inovação e, portanto, ao PIB.

 

DESLOCALIZAÇÃO – A deslocalização da produção da indústria tradicional para os PALOP’s, para o Maghreb ou para o Makrech é boa para esses países mas é má para as nossas populações que não têm habilitações para poderem trabalhar em funções menos primárias; como o desemprego é um encargo público, não se consegue reduzir a despesa pública nessa vertente. Não há mãos a medir para reciclar tanta gente que nada de elevado valor acrescentado sabe fazer. Uma solução encontrada pelo Governo passa pela dificultação do acesso ao Fundo de Desemprego para que a taxa oficial se reduza e a despesa pública não cresça. O que acontece às pessoas? Isso é matéria que não entra nas estatísticas a publicar. A solução está no relançamento da produção de bens transaccionáveis, o que pode não ter muito a ver com a edificação de grandes fábricas. Nem sequer com muitas fábricas. Basta começar por coisas mais primárias como a agricultura e as pescas.

 

AMBIENTE – A “ambientalite” burocratiza e condiciona fortemente toda a actividade produtiva numa época em que subsistem grandes dúvidas sobre a fundamentação científica dos raciocínios oficiais e da real utilidade climática dos objectivos enunciados. Pensemos por nós próprios e deixemos de ouvir a propaganda de quem quer vender produtos ditos “amigos do ambiente”.

 

CONCLUSÃO – As políticas em vigor quase nada têm a ver com a realidade.

 

ORAÇÃO – Enchamo-nos de paciência e de coragem para dizermos que o rei… não se apresenta tão elegante como gostaríamos de o aplaudir.

 

Lisboa, Fevereiro de 2008

Henrique Salles da Fonseca


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:45
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