Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
Burricadas nº 16

 

Mas, Mr. Machado...quantas peúguinhas? (I)

v      Há muitos, muitos anos, um jovem e promissor economista, incumbido de planear um investimento enorme numa fábrica de fibras téxteis, viu-se confrontado com a insistência dos sócios estrangeiros: Que mercado para a futura produção?

v      Pergunta que, à época, soava estranha aos ouvidos portugueses. Que diabo! Os investimentos decidiam-se, a Banca financiava – e o mercado aparecia. Por obra e graça de umas protecções aduaneiras talhadas à medida e do condicionamento industrial. Japonesices! Diziam os de cá, numa risota.

v      Mas havia que dar uma satisfação aos homens. E o nosso economista lançou mãos à obra com juvenil entusiasmo: vamos lá, então, estimar o consumo aparente destas fibras no futuro. Assim se fazia porque era assim que se ensinava por cá – e era assim também que ele tinha aprendido.

v      Apaixonado pela Econometria (paixão que o passar dos anos curou), vá de construir as séries estatísticas; vá de ajustar rectas e curvas para ver a que melhor servia; vá de pôr em causa as hipóteses canónicas do modelo de regressão linear, não se desse o caso (só para os que ainda se lembram da Econometria: autopsiou os resíduos, em busca de heteroescedasticidades e possíveis autocorrelações - o que, por esses dias, era cutting edge science).

v      Reunião solene para apresentar conclusões. Todos suspensos das palavras do sábio economista que, ufano, profetizava o futuro (não há economista que não se pele por uma boa adivinhação; vide, por exemplo,...o que não falta por aí são exemplos).

v      À exposição brilhante, seguiu-se um silêncio profundo e reverente. Os sócios estrangeiros, esses, estavam com os olhos ainda mais em bico. Cheio de si próprio, o jovem economista aguardava pelas perguntas da assistência (na realidade, era pelos elogios da assistência que aguardava, mas isso escondia ele lá bem no íntimo).

v      Passados uns longos minutos, a medo, alguém ousou perguntar num inglês arrevesado: Mas, Mr. Machado...quantas peúguinhas?

v      Embaraçado, o clarividente economista reconheceu que não tinha resposta para tal pergunta. E, de súbito, apercebeu-se daquilo que era mais que óbvio: o sucesso, ou o falhanço, de um projecto onde tanto dinheiro estava a ser investido dependia, afinal, de perguntas assim tão simples e objectivas, e não de abstracções como o consumo aparente.

v      Aprendeu a lição. Mandou às urtigas as abstracções vazias de sentido em que os economistas de então se compraziam – e mudou de rumo.

v      Vem isto a propósito do título que vou dar a uns escritos que o Relatório do LNEC sobre o NAL veio desafiar.                                                                             (cont.)

Lisboa, Janeiro 2008

A. Palhinha Machado



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:19
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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008
LUSOFONIA - UM CONVITE AO SIGNIFICADO - II

O MODELO DO FUTURO E

O SIGNIFICADO DA PALAVRA

 

Farto que estou de ver os resultados do liberalismo friedmaniano, apetece-me invocar Friedrich List e dizer que a livre troca universal, entre todos os países do mundo, apenas será possível num estádio último do desenvolvimento. Os países só podem progredir se seguirem políticas que lhes sejam úteis, nunca políticas que lhes possam ser prejudiciais. A adopção prematura do comércio livre planetário confirma as vantagens que desse modelo alcançam os países industrializados mas os países em desenvolvimento deviam poder proteger as suas actividades nascentes até conseguirem recuperar do atraso relativo. Numa perspectiva em que coubesse a auto-defesa, não fazem sentido instituições como a Organização Mundial do Comércio e muito menos Cimeiras como as de Doha em que se pretende assegurar que todos os países se devem desarmar e deixar o comércio totalmente livre. “Eu – que sou rico – entrarei na tua casa com os meus produtos; tu – que és pobre – entrarás na minha, se conseguires”. A integração entre os EUA, o Canadá e a UE fazem todo o sentido constituindo uma Convenção Transatlântica de Comércio Livre mas o livre comércio entre os EUA e o México significa a anulação deste. Nos corredores da diplomacia internacional o México fica muito agradecido aos EUA porque estes o transformam na linha de montagem dos produtos industriais que ainda requerem mão-de-obra intensiva, desde que esta seja barata. Quando deixar de o ser, a linha de montagem muda-se para outro local mais barato e assim sucessivamente até chegar ao mais fundo buraco do mundo. Entretanto, o mexicano ficou desempregado e muito provavelmente sem nada mais saber fazer do que juntar as peças daquele produto que já não existe. E se um mínimo de providência prevalecer, o Estado mexicano que suporte esse desemprego, que se endivide para pagar esses novos custos, que negoceie nos mercados internacionais de capitais o financiamento da despesa que lhe poderá talvez evitar a eminente ruptura social.

 

Assim é que ao liberalismo friedmaniano apenas interessam a livre circulação de mercadorias e de capitais mas não a da mão-de-obra. Nisso recebeu um inesperado apoio das conservadoras forças sindicais do mundo desenvolvido que também não admitem o livre estabelecimento de pessoas, não vá a imigração “furar” o status quo, as convenções colectivas de trabalho. Eis como no mundo desenvolvido os sindicatos se transformaram nas forças mais conservadoras, adversas a qualquer espécie de solidariedade para com os efectivamente necessitados oriundos do terceiro mundo, defensoras acérrimas do alargamento do “Espaço Schengen” e do reforço da “Fortaleza Europeia”.

 

Ironia das ironias, o mundo que inventou e promoveu esta globalização está agora a arregimentar argumentos para se defender da espada de dois gumes que criou pois começou por promover a deslocalização das actividades produtoras de bens transaccionáveis para os chamados mercados emergentes (mentira: apenas de mão-de-obra barata) e agora vê-se a braços com um desequilíbrio comercial como nunca imaginara, com desemprego, com custos públicos acrescidos, com défices orçamentais descomunais, com relações cambiais instáveis, enfim com um Inferno que não antevira. E para agravamento das dores de cabeça da águia, eis que o dragão lhe comprou toneladas de títulos da dívida pública assim criando um cordão umbilical que nenhum dos dois tem coragem de cortar. Quiseram a globalização? Pois agora que a aturem!

 

E como deveremos nós, os lusófonos, enquadrar um processo destes? Ficando-nos pela discussão da sintaxe e do hífen no âmbito de um polémico Acordo Ortográfico? Como poderemos compatibilizar Schengen e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa? Eis algumas das questões que merecem reflexão num quadro bem diverso daquele que nos vem sendo permitido.

 

E a primeira pergunta que coloco é muito simples: haverá alguma alternativa plausível ao cenário em curso?

 

De resposta muito dúbia, parece mais fácil procurarmos um modelo próprio de desenvolvimento compatível com o que nos é servido do que estarmos a tentar mudar por nós próprios o rumo da História do mundo. Não temos hoje a importância relativa que tivemos no séc. XV mas também nunca tanto como hoje a decisão colectiva passa pelo somatório das decisões individuais. Aproveitemos plenamente as virtualidades da democracia política em que hoje quase todos os lusófonos vivemos e tiremos partido da sociedade do conhecimento que ainda agora começou. Esta, sim, em boa hora completamente globalizada.

 

Assim, se não podemos discutir a História e o rumo que ela está a tomar, entremos nesse barco e viabilizemo-nos dentro dele.

 

E é nessa tentativa de viabilização que as perguntas continuam. Com que massa cinzenta poderemos contribuir para o desenvolvimento desta aldeia global? Que teses académicas com inquestionável repercussão científica internacional são na origem escritas em língua portuguesa? No ranking mundial de Universidades, em que lugares se colocam as instituições da Lusofonia? Que estrangulamentos existem no mundo lusófono para que ainda hoje, séc. XXI adentro, continuemos sujeitos ao flagelo do analfabetismo? Que forças gravitam na actualidade em torno das nossas elites: centrífugas como antigamente (provocando a emigração dos acossados) ou finalmente centrípetas (atraindo os que têm fé no futuro)?

 

Se não dermos respostas a estas questões, então não teremos lugar na História e não mais haverá centro, periferia nem palavra digna de nota.

 

Eis que, assim, o modelo do futuro

 

  • passa pela transformação das elites em elementos agregadores das nossas sociedades não mais podendo constituir instrumentos da repulsa;
  • passa pelas Diásporas a servirem o engrandecimento dos Centros;
  • passa pela pluricidadania;
  • passa pela vulgarização da palavra.

 

E se as elites têm que passar a congregar o resto das gentes, teremos que banir os resquícios de corporativismo que ainda nos entorpecem a actualidade, v.g. as Ordens profissionais e seu imperial magistério, temos que promover rapidamente a concorrência inter-universitária dentro de cada país, no espaço lusófono e no mundo inteiro, temos que garantir uma claríssima elevação do nível médio cultural dos nossos povos e promover o analfabetismo adulto a “coisa” do passado.

 

E se as Diásporas devem passar a servir os Centros, isso significa que a emigração não mais deve continuar a ser uma tábua de salvação a que os deserdados se agarram avidamente, para passar a ser um instrumento de obtenção da dimensão empresarial que o mercado doméstico é incapaz de garantir.

 

E se a solidariedade não é palavra vã, então Portugal tem a obrigação histórica de promover um estatuto de acolhimento especial a todos aqueles povos que alguma vez governou por esse mundo além, tudo culminando num processo de plurinacionalidade lusófona, em clara fraternidade internacional.

 

E se “é a falar que a gente se entende”, então temos que aplaudir o Instituto Camões que recentemente deixou de divulgar a nossa palavra apenas nas Academias e Universidades como fazia tradicionalmente e se prepara para o fazer com as portas abertas directamente para a rua, que é onde os povos se cruzam.

 

Por tudo isto eu digo que o modelo vigente é mau mas que nós, lusófonos, o podemos explorar em proveito da nossa afirmação pluri-cultural, humanista e económica.

 

Felizmente, temos um grande sentido claustrofóbico, não cabemos nos nossos Centros e, sem pretensões hegemónicas, levamos a nossa Cultura onde os caminhos do mundo nos conduzem. E é por não querermos a hegemonia que por vezes a ganhamos, porque somos admitidos pelos que nos recebem, porque a nossa é uma perspectiva de vida, de a todos deixarmos viver, com todos vivermos e até com todos nos misturarmos em pé de igualdade, sem sobrancerias mas cujo grande problema da actualidade é, afinal, o da reafirmação do estatuto de Nações com História. Com tanta História que muitos de nós nem sequer a conhecemos se bem que nos comprazamos a discuti-la. Ora, a História não se discute; com a História aprende-se para não repetirmos erros alguma vez cometidos.

 

É que, afinal, «Somos originais porque não sabemos nada».

 

Portanto, «Aquilo que de teus pais herdaste, merece-o para que o possuas».

 

Assim, com a naturalidade da vida, vejamos os factos que se nos apresentam.

 

E já que Cultura é a perspectiva com que se observa o significado do facto, façamos com que onde nós estivermos esteja a Cultura Lusófona.

 

Obrigado pela atenção.

 

Henrique Salles da Fonseca

 

                                              FIM

Apresentado em sessão solene da “Indo-Portuguese Friendship Society”, em Panjim, Goa, no dia 26 de Janeiro de 2007

 

 

BIBLIOGRAFIA:

§          Riemen, Rob – Ensaio introdutório, “A ideia de Europa” de George Steiner, ed. Gradiva, Lisboa, Setembro de 2005

§          Monteiro, Nuno Gonçalo, “Elites e Poder”, ed. ICS – Imprensa das Ciências Sociais, Lisboa, 2003

§          Boxer, Charles R., “O Império Marítimo Português 1415-1825”, ed. Edições 70, Lisboa, Setembro de 2001


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 20:05
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LUSOFONIA - UM CONVITE AO SIGNIFICADO - I

 

 

CULTURA – O QUE É?

 

Quando em 1938 Thomas Mann chegou aos Estados Unidos, fugindo ao nazismo, deu uma conferência de imprensa em que disse: «Onde eu estiver, está a cultura alemã».

 

Logo houve quem atribuísse esta frase a uma grande dose de arrogância e a simpatia com que foi recebido ficou claramente moldada pela impressão assim causada. Foi necessário esperar alguns anos para que essa frase fosse explicada pelo seu irmão mais velho, Henrique, quando nas suas memórias se refere ao episódio e o explica com a frase de Fausto: «Aquilo que de teus pais herdaste, merece-o para que o possuas».

 

Não fora, pois, arrogância mas sim um profundo sentido de responsabilidade que levara o escritor a identificar-se daquele modo com a sua própria cultura. O conhecimento do que outros fizeram antes de si já levara Hölderlin (1770 - 1843), o poeta atacado de mansa loucura, a afirmar que «Somos originais porque não sabemos nada».

 

Em 1518, Ulrich von Hütten (1488-1523), companheiro de Lutero, escrevia a um amigo que, embora fosse de origem nobre, não desejava sê-lo sem o merecer: «A nobreza de nascimento é puramente acidental e, por conseguinte, insignificante para mim. Procuro noutro local as fontes da nobreza e bebo dessa nascente. A verdadeira nobreza é a do espírito por via das artes, das humanidades e da filosofia que permitem à humanidade a descoberta e reivindicação da sua forma mais elevada de dignidade, aquela que faz distinguir a pessoa daquilo que também é: um animal

 

Ou seja, a nobreza conquista-se, não se adquire por via hereditária. Afinal, era isso que Mann significava quando chegou à América …

 

E o que é, então, a essência da cultura? É o conjunto das obras intemporais, as perenes, as que não passam de moda, as grandes obras humanistas, as que desenvolvem o pensamento especulativo. É a conjugação lógica de axiomas para a construção de novos silogismos e para a definição de doutrinas inovadoras. Eis o âmago da cultura, de uma qualquer cultura: o raciocínio especulativo, a independência relativamente à letra, a interpretação dessa mesma letra, a busca do significado. Quanto mais uma cultura se identificar com os valores humanistas e os promover, quanto mais convidar ao significado, mais elevada é essa cultura.

 

E o que é ser culto? Será saber muitas coisas? Não, isso é uma enciclopédia. O conhecimento dos factos não define a cultura mas apenas a dimensão do conhecimento. O culto é aquele que está aberto à nova interpretação, o que busca o significado.

 

E o que é ser educador? É «convidar os outros para o significado».

 

Eis ao que as elites devem andar: a transmitir o significado das coisas;

eis ao que elas têm andado: a imprimir um cunho pessoal aos acontecimentos.

 

Assim não se transmite o significado;

Assim se esmaga quem apenas serve para servir;

Assim se espanta quem vale.

 

E recorrendo a Manuel Bandeira, pergunto:

 

ONDE FICA PASÁRGADA?

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

(…)

É neste poema que Manuel Bandeira nos transmite a tão tipicamente nossa – portuguesa e goesa – nostalgia dos lugares longínquos: isto aqui não funciona como eu quero, vou-me embora para outro lado à procura de melhor sorte. E é sempre lá longe que se encontra o bom, o belo; aqui nada funciona, tudo é uma miséria.

Será?

VIVER NÃO DÓI

 

Definitivo, como tudo o que é simples.

Nossa dor não advém das coisas vividas,

mas das coisas que foram sonhadas

e não se cumpriram.  

(…)

Sofremos por quê?  

Porque automaticamente esquecemos

o que foi desfrutado e passamos a sofrer

pelas nossas projecções irrealizadas,

por todas as cidades que gostaríamos

de ter conhecido (…)

Sofremos não porque

nosso trabalho é desgastante e paga pouco,

mas por todas as horas livres

que deixamos de ter para ir ao cinema,

para conversar com um amigo,

para nadar, para namorar.  

(…)  

Como aliviar a dor do que não foi vivido?  

A resposta é simples como um verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!  

(…)  É que (…)

A dor é inevitável.  

O sofrimento é opcional.

 

 

 

Esta explicação é de Carlos Drummond de Andrade e chama-nos à realidade de que Pasárgada nos alheara.

 

Foi pensando em Pasárgada que chegámos ao Brasil, a África, à Índia, ao Extremo Oriente e vós, goeses, foi pensando em Pasárgada que criaram as condições para que aqui se estabelecesse o Vice-Reinado a partir do qual se geriu todo o Império Português do Oriente e a costa oriental africana. Assim chegaram a todo o lugar que decidiram alcançar e ainda hoje vivem totalmente integrados em Lisboa desempenhando funções da mais elevada hierarquia. Mas foi na realidade da vida que todos nós mantivemos a nostalgia da terra natal, ela também entretanto transformada em miragem do lugar longínquo, lura para um regresso sonhado, terra de repouso.

 

Eis o caminho das nossas diásporas e para o sentimento do centro.

 

 

 

A DIÁSPORA

 

Sobranceiro à baía e bem por baixo da minha varanda, localizava-se em Lourenço Marques o Miradouro dos Duques de Connaught donde se dizia que se dali olhássemos com muita força havíamos de ver Lisboa.

 

A nostalgia dos lugares distantes que levou os portugueses à aventura, à diáspora e à conquista, revelava-se ali no sentido inverso, no das origens, da tranquilidade, do regresso ao centro. Assim, também hoje a Torre de Belém se faz rodear dos coqueiros que matam a saudade de quem dela nasceu longe. O mito da distância a fazer o homem sonhar.

 

E donde vem esse “formigueiro” que nunca nos deixa parar?

 

Alcandorados nos tempos antigos uns quantos à tarefa do mando, cumpriu a cada um garantir a sobrevivência do seu próprio território daí resultando elites turbulentas entretidas a lutar com os vizinhos para deles obter submissão. Em Portugal entretivemo-nos com a reconquista cristã; no Industão prosseguiram no alargamento feudal até que a revolta contra os ingleses deu finalmente um sentido nacional ao sub-continente. E foi essa dimensão tipicamente feudal tanto em Portugal como na Índia que induziu governações ao estilo paternalista, da submissão, da propriedade senhorial tanto de bens como de gentes. Só que os mais valorosos não se submeteram ao jugo e optaram pela distância relativamente às terras onde se sentiam presos: decidiram viver longe dos locais onde eram apenas tolerados; emigraram e fizeram pela própria vida.

 

Quando em 1249 cai o último reduto árabe do Algarve, Silves, Portugal assume o actual território continental e ficam os irrequietos sem mais com que se entreter do que com quezílias intestinas. Se a esta inquietude somarmos um clero de duvidosa formação doutrinária e moralmente desleixado, não encontramos motivos para deixar de compreender que tanto os camponeses como os pescadores fossem laboriosos à custa do embrutecimento a que foram remetidos por quem assim os queria para não levantarem ainda mais problemas do que os que já existiam. Como muito mais tarde viria a dizer Eça de Queiroz, a esta mole ignara somava-se uma população urbana de artesãos e servos que constituía uma «plebe beata, suja e feroz». E esta população urbana abandonara os campos em fuga da miséria ou a caminho do anonimato na escuridão de becos e azinhagas já que dois terços do solo português não têm qualquer vocação agrícola por serem esqueléticos, rochosos ou escarpados. E se a esta realidade somarmos um tenebroso regime pluviométrico de seca e enxurrada, bem se compreende que a escassa população medieval do Reino – um milhão, no máximo – era excessiva para a exploração das riquezas naturais do território.

 

Com permanente borbulhar de mentes inquietas em cenário de miséria interna e acossado pelo vizinho que não lhe perdoa a autonomia, Portugal só descobre então uma hipótese de sobrevivência: a conquista de além-mar.

 

Assim chegámos ao século XV; eis-nos de novo em semelhante situação neste início do XXI.

 

Eis como também hoje temos na diáspora o preço a pagar pelo Centro.

 

Sugiro à ilustre plateia que aqui e agora me ouve que especule sobre o paralelismo que não ouso. Tanto no que já disse como no que segue …

 

 

O DESTINO DOS ACOSSADOS

 

Se a diáspora é o preço que temos a pagar pela sobrevivência do Centro, isso resulta no caso português de não termos a dimensão suficiente para alcançarmos a viabilização no âmbito deste segundo processo de globalização.

 

É que, quando fizemos a primeira globalização do mundo, fomos nós que lhe definimos os contornos, as condições; hoje não controlamos o modo como esta segunda globalização se processa. Da primeira fomos os donos; na segunda pertencemos ao grupo das vítimas.

 

Foi o Império que nos salvaguardou da cobiça vizinha e chagámos a 1974 com um modelo mercantilista que diluiu por completo o esforço material de guerra; foi em 1975 que por exaustão política entregámos o Império a quem mais o cobiçava e, de regresso aos limites europeus, encetámos um processo de distribuição de riqueza … sem cuidarmos de saber se riqueza existia.

 

E que riqueza poderia existir? Despojados do materialismo imperial e herdeiros de uma situação aviltante no que respeita à valorização humana (estimando-se o analfabetismo adulto em 1910 nos 90% e contando em 1974 com uma taxa ainda de 25%), não se via que desse modo pudesse existir forte estrutura intelectual, profissional e produtiva para que alguma coisa sobrasse e pudesse ser distribuída. E quando tudo indicava que primeiro haveria que fermentar o bolo para que ele crescesse, logo as bandeiras acenaram para a distribuição do que não existia, para o desequilíbrio comercial com o exterior, para o endividamento externo.

 

Estrangulado o Ocidente das matérias prima africanas, foi o líder comunista português condecorado Herói Soviético mas havia ainda que cercear a liberal Europa da sua franja atlântica pelo que foi na “parte mais fraca” que rufaram os tambores do colectivismo e da solidariedade proletária. E se desta última perspectiva nos libertámos imediatamente sem ajuda externa, já na perspectiva do longo prazo nos foi apontada a Europa como a tábua de salvação de mais misérias e desgraças. Corriam os tempos em que o Ministro das Finanças passava diariamente pelo Banco central a saber qual a disponibilidade momentânea de divisas e perspectivando desse modo o seu dia de trabalho; desvalorização monetária deslizante como artifício para a salvaguarda da competitividade nacional, espiral inflacionista, “cabazes de compras” com preços controlados, ruptura nos abastecimentos, descrédito no sistema, incredulidade na viabilidade nacional, recurso ao Fundo Monetário Internacional. E no meio de tudo isso a mulher do então Primeiro-ministro a telefonar indignada ao Ministro do Comércio queixando-se de que nas lojas de Lisboa - que no passado já tinham sido chiques - não encontrara uma única gravata de seda para o marido … A ser verdade o que se conta, Maria Antonieta também terá sugerido ao povo que comesse bolos, já que não havia pão …

 

Só que logo que se dê um pão a quem nunca o teve, logo há-de querer um chouriço. E disso bem estão cientes os dirigentes que tão bem vêm explorando a insatisfação, a reivindicação e a inveja das massas populares. Os próprios órgãos da comunicação vivem desse mesmo filão sem quererem notar que se transformaram no “coito dos bufos” acautelados pelo segredo profissional. Lembram a Inquisição acautelada pelo segredo do confessionário.

 

Nesta perspectiva – a da exploração do filão da insatisfação – não descortino diferenças radicais entre lá e cá. Como a isso se chama o «inalienável direito à informação», não temo estabelecer paralelos.

 

Assente a poeira nos caminhos, constata-se com amargura que “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Hoje, como no séc. XV. E se tivéramos um modelo de desenvolvimento de lógica imperial e mercantilista, rapidamente constatámos que nada sabíamos por nós próprios fazer e que era chegado o momento de empreendermos em alguma coisa de jeito.

 

Mas se Friedrich List (1789 – 1846) se suicidou aos 57 anos em pura antevisão do insucesso internacional das suas ideias (de que a integração só se pode fazer entre quem esteja num mesmo patamar de desenvolvimento) e, pelo contrário, Milton Friedman (1912 - 2006) tenha morrido aos 94 anos e em plena glória (pugnando pela globalização como ela se está a processar), isso não obsta a que o primeiro tivesse a razão dos pobres e o segundo a dos ricos. E não hesitemos em reconhecer que Portugal está para o resto da União Europeia como Goa está para o resto da União Indiana: não somos nós que ditamos as regras da globalização, essa função passa-nos ao lado e muito jeito teremos que ter para não sermos espezinhados. Tenhamos a coragem de reconhecer que o estatuto de tolerados que nos concedem só é ganho para os que apenas servem para servir.

 

Eis como neste cenário friedmaniano se nos impõe – tanto a portugueses como a goeses – a busca dos respectivos modelos de desenvolvimento integrados em universos cada vez mais competitivos e em que a solidariedade é claramente palavra vã. Essa busca deve centrar as atenções dos mais preocupados, dos que não dedicamos a vida à mera queima de oxigénio. 

 

Em Portugal, como há cinco séculos; em Goa …

 

(Proferido em sessão solene da "Indo-Portuguese Friendship Society" em Panjim, Goa, no dia 27 de Janeiro de 2007)

                                          

                                  FIM DA PRIMEIRA PARTE

 

 

 

Henrique Salles da Fonseca


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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008
O Chá e a língua portuguesa
 

 

T

Tchá- Mandarim, Japão

Tê - dialeto chinês Amoy

 

Chá – em português

Thé – em francês

Tea- em inglês

Té – para o espanhol

Thee- para o alemão

Tchai- para o russo

 

 

 

 

Mais que aplacar a sede, refrescar o espírito, dar-lhe forças e animo, olvidar as tristezas, abafar a consciência e até matar, a bebida , de acordo com a escolhida , tomou ares culturais e até religiosos. Se o Ocidente elegeu o vinho, elevando-o à divindade de Baco e de Jesus Cristo, no Oriente o chá cresceu com a civilização, foi sinal de introspecção, associado à meditação e usado socialmente em rituais de educação e sociabilidade.

 

A Portugal chegou no séc. XVI com os navegantes e jesuítas, que pelas terras do Sol Nascente andavam há tempos. Não foi muito valorizado.  Os portugueses já conheciam os chás de hortelã, de funcho, de losna,... (desculpem-me os chazeiros – amantes de chá-,... as infusões de hortelã, de funcho, de losna,...), mas preferiam o chá de parreira (o vinho). Nossos antepassados acharam que as folhas trazidas da Índia e Macau eram verdadeiras chazadas (não valiam nada). Não o apreciaram como os anglo-saxões, que fizeram dele uma mercadoria de grande importância econômica e um hábito alimentar: o chá das cinco. Costume adquirido no Convento onde foi educada a princesa portuguesa D.Catarina, e que o levou para a corte inglesa, quando casou com Charles II, rei da Inglaterra.

 

Oferecer chá tornou-se sinal de cortesia e delicadeza. E, ironicamente, adquiriu sentidos chulos ou figurados na boca popular. Se uma pessoa apresentava socialmente modos grosseiros ou pouco elegantes, ela tinha falta de chá (educação). E com certeza era digna de se dar um chá (censura). Aos indivíduos rebeldes e de maus bofes aplicava-se, no momento exato, um bom chá de marmeleiro (surra). Mas se alguém “caía” doente, com febre ou prisão de ventre, a receita certa era um chá de bico (clister).

 

No Brasil as moças (raparigas) detestam tomar chá de cadeira (ficar sentadas sem serem convidadas para dançar) nos chás dançantes (bailes). Mas bom mesmo é comer as deliciosas roscas, bom- bocados, biscoitinhos de nata, casadinhos, nos chás de caridade que as primeiras damas da sociedade dão em benefício de alguma entidade carente. 

Reunir as amigas para despedida de solteira, num chá de panela para ganhar utensílios de cozinha ou para ganhar roupinhas de bebê, mamadeira, sapatinhos, num chá de berço, é mais que um momento de amizade e confraternização, nos nossos difíceis dias, é um meio de fazer economia!

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 14/01/08

 

Dados:

O livro do Chá (J. Duarte Amaral)

 


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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008
CRÓNICA DO BRASIL

Somos todos brasileiros

 

Manuel de Borba Gato

(1649-1718)

 

No tópico Ponto de Vista, o professor e administrador Stephen Kantz escreve periodicamente para a revista Veja assuntos sempre interessantes e instrutivos. Em recente artigo, dá uma definição do que seria certo para nomear o indivíduo nascido no Brasil. Segundo ele deveríamos ser chamados brasilianos, como americanos, mexicanos, venezuelanos,..., e não brasileiros, sufixo que indica profissão, como jornaleiro, ferreiro, padeiro. Diz ainda que por mais de 500 anos o país foi enganado e que brasileiros eram aqueles que vinham unicamente para explorar a nova terra e voltavam com riquezas arrancadas do Brasil.

Até como uma forma didáctica de ensinamento, entendo que ele passe essa ideia figurada de exploração, para identificar o brasileiro corrupto e egoísta de agora. Mas gostaria de lembrar que, no tempo do Brasil Colónia, brasileiros também eram o português que cá nascia e se criava e o português que ficava, desbravava, colonizava, e que morria pela terra conquistada. A maioria dos portugueses que vinha, deixava casa e família, e até vendia o que tinha para investir aqui.

Quantos luso-brasileiros, alguns nobres à procura de riqueza e fama, outros homens comuns, em geral aventureiros à procura de uma nova vida, perderam tudo e até a vida nas travessias atlânticas e na ocupação do novo mundo? Para o bem e para o mal, não podemos ignorar que foram eles que abriram caminho para o país de hoje. Venceram as barreiras do mar, da língua e do inóspito território. Fizeram picadas na floresta e espaços físicos e comerciais, fundaram vilas e cidades.  Se levaram riquezas, exploradas a duras penas, também é verdade que propiciaram os plantios de novas plantas, difundiram produtos do novo mundo pelo velho continente e iniciaram as miscigenações e as trocas comerciais. Alguns voltaram ricos, outros pobres e doentes, muitos não voltaram. Mas o certo é que a maioria ficou e com os colonos continentais e açorianos, índios e africanos, a trancos e barrancos, formaram este imenso país. Não vamos colocar a culpa das nossas actuais mazelas nos primitivos brasileiros. Como os anglo-americanos e puritanos que ocuparam a terra norte-americana matando e exterminando as sociedades nativas indígenas, eles também não foram santos. Mas nestes 500 anos muitas gerações já se passaram, muitas outras miscigenações já se fizeram, muitas influências estrangeiras já aconteceram para que se culpe os brasileiros de outrora pelo mau comportamento e desempenho do brasileiro de agora.

 

Só quando enxergarmos e aceitarmos a nossa identidade, com objectividade e verdade, e entendermos que qualquer que seja a nossa origem a solução para os nossos problemas não está na genética e sim na valorização da educação. Aí sim, seremos cidadãos com certeza, brasilianos ou brasileiros, não importa a profissão.

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 12/01/08

 


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Histórias açorianas
 

 

                                  Brasão dos Hurtere ou D’Utra  açorianos

 

 

Isabel Corte-Real era filha do algarvio João Vaz Corte-Real, fidalgo da casa real,  que passou com a mulher Maria Abarca e família para a Ilha Terceira, Açores, por volta de 1474, como alcaide-mor do Castelo de Angra e da Ilha de São Jorge. Era irmã de Gaspar e Miguel Corte-Real, jovens navegadores que atingiram a Terra Nova dos Bacalhaus.

 

Recentemente descobertos, os Açores eram nos séculos XV e XVI ilhas vulcânicas despovoadas a serem ocupadas. Para lá eram enviados degredados, fidalgos em apuros que no reino haviam cometido algum tipo de crime, galegos que no tempo das contendas da Beltraneja, refugiados em Portugal, ficaram sem lar. Também naquela ocasião foram colonos flamengos, algarvios, nortenhos e escravos africanos que vinham com os nobres de segunda linha (donatários, capitães, militares, juizes e religiosos), aqueles que recebiam como prêmio terras, tenças, benefícios, títulos e distinções, por serviços relevantes prestados à coroa portuguesa. E até judeus e cristão-novos que fugiam de perseguições políticas e religiosas.

 

 Joss Hurtere, ou José, ou Jorge de Utra, que assumia a donataria da Ilha do Faial herdada pela morte de seu pai o fidalgo flamengo Joss van Hurtere, foi a Angra e lá casou com Isabel Corte-Real. Mal sabia a senhora que o seu infortúnio estava selado com aquele casamento. Jorge era um homem de gênio autoritário, difícil e intolerante.

Na ilha ficou sobejamente conhecido o caso de sua irmã, Joana de Macedo, casada com Martim Behaim (Martim da Boemia), o autor do famoso Globo de Nuremberg, primeiro globo feito em pele de cabra, onde se vêem os paises e suas localizações no tempo dos descobrimentos. Martim Behaim era, como o sogro, flamengo e culto. Através dele conheceu e casou com Joana, formosa e bem mais jovem do que ele.

 Martim foi para Nuremberg para assumir o patrimônio herdado e lá ficou por quase dois anos executando o famoso trabalho de cartografia. Nesse tempo chegara ao Faial Fernão de Évora, mamposteiro-mor (procurador) dos cativos de todas as Ilhas dos Açores. Ao que parece, após conhecer Joana eles se enamoraram e relacionaram-se mais do que deviam. Enfurecido, ao encontrá-los juntos, Jorge de Utra tomou as dores do cunhado. Prendeu o biltre e enviou-o com grilhões de volta para Lisboa.   Lá, D. Manuel o perdoou e deu-lhe carta de seguro. Abusando da sorte, Fernão volta ao Faial e novamente é preso pelo donatário, que ignora a carta real. Desta vez Jorge envia-o para a prisão da Vila da Praia, na Terceira, para matá-lo. Fernão reclama e pede para ser enviado para Lisboa. Seu pedido é recusado. Desesperado, pede a um filho que interceda por ele junto ao rei. Porém quando este volta do reino, com novo e favorável despacho, já Fernão havia fugido e se abrigado sob a proteção da Igreja. O rei perdoou-o novamente e determinou que o donatário do Faial acatasse a nova carta de seguro. Depois disso, silêncio absoluto. Não se soube mais notícias dele na Ilha do Faial.

 

Jorge de Utra agia como senhor absoluto.  Já com os filhos crescidos apaixonou-se por uma jovem da família Izeu Pinheiro. Seguiu os instintos. Não respeitou a mulher, D. Isabel Corte-Real, senhora de estirpe, filha do donatário da Terceira e São Jorge, e nem os filhos, Francisca Corte-real e Manuel de Utra. Amancebou-se com a jovem mulher e com ela teve um filho, Jorge Macedo, sem se importar com a sociedade e familiares.

Passou a maltratar e a menosprezar a esposa e os filhos, apesar dos protestos destes. Mas à amante e ao filho ilegítimo dava toda a atenção, cuidados e afeto. Com Manuel de Utra, seu primogênito, entrou em querelas e expulsou-o de casa. Vitima de tantos desgostos a senhora definhou e faleceu. Viúvo, imediatamente colocou a amante dentro de casa e passou a infernizar a vida da filha com maus tratos. Negava-lhe comida, amaldiçoava-a, dizia que haveria de matá-la, como fizera com a mãe dela. Às escondidas, com pena, as negras escravas levavam-lhe comida para que não morresse de fome. Desesperada, sem saber o que fazer, abandona a casa do pai. Só no mundo vai viver com um mercador, Heitor Rodrigues, que a requesta e com quem casa clandestinamente, segundo diziam os cronistas do seu tempo. Mas morre de parto, após conceber um filho. No testamento, deserda o pai e descreve com amargor todas as injurias que ele lhe fez passar.

 

Jorge de Utra morreu velho, octogenário, sem que Manuel, seu sucessor e futuro donatário, quisesse vê-lo. No seu testamento não mencionou suas mulheres e nem seus filhos legítimos, unicamente dizia ter um filho, concebido fora do casamento, Jorge Macedo, a quem dedicava especial carinho. Pediu para ser enterrado na ermida que construiu, junto às suas casas.

Foi uma personalidade arbitrária e forte, de meio-sangue flamengo, que marcou a família e a sociedade quinhentista faialense.

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba 11/01/2008

 

Dados bibliográficos:

 

Genealogia da Ilha Terceira (Vol. I e III) (Antonio Ornelas Mendes e João Forjaz).

DISLIVRO HISTÓRICA- 2007

 

Anais do Município da Horta

Subsídios para a História da Ilha do Faial (Marcelino Lima)

Gráfica Minerva - 1940


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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008
Gato escondido...

 

Timidamente, pé ante pé, como quem não quer a coisa, vêm surgindo notícias (deixadas cair com precisão cirúrgica aqui e ali) sobre a possibilidade de alguns Bancos portugueses transferirem os seus Fundos de Pensões para o Regime Geral da Segurança Social. Ainda não há um ano, porém, uma operação em tudo idêntica (a transferência de parte do Fundo de Pensões da CGD para a Caixa Nacional de Pensões) deu azo a choros e a ranger de dentes. Agora, os sindicatos bancários fecham-se num surpreendente silêncio, quebrado a espaços por judiciosas declarações do tipo: “Humm! Não é coisa que se faça de ânimo leve...”

Para compreendermos bem o que se está a passar há que recuar ao tempo em que quase todos os Bancos portugueses (é deles que aqui trato), num alarde de solidez, garantiam aos seus empregados que continuariam a pagar-lhes na reforma, todos os meses, uma remuneração base idêntica àquela que eles teriam se estivessem ainda no activo (o chamado salário na reforma). E faziam-no no convencimento de que os lucros futuros permitiriam acomodar sem dificuldade encargos que nem sequer se davam ao trabalho de estimar por alto. Sempre tinha sido assim – com a excepção do Banco Totta & Açores que, pelo facto de pertencer a um grupo económico (a CUF) com uma Caixa de Previdência própria, para aí transferia todas as suas responsabilidades pensionáveis (vários Bancos de criação mais recente, mas de menor dimensão, iniciaram as suas actividades desde logo ao abrigo do Regime Geral; e para o que aqui importa, as sucursais de Bancos estrangeiros não contam).

Temos assim que na Banca portuguesa (com as excepções que assinalei), em matéria de pensões (de invalidez, de reforma e de sobrevivência), prevalece, há muito, o modelo do benefício definido sem contribuição (ou com contribuições apenas simbólicas) dos beneficiários. Algures na década de ’90, contudo, as exigências do Sistema Monetário Europeu (a que, entretanto, Portugal tinha aderido), e as regras prudenciais que emanavam do Comité de Basileia, obrigaram os Bancos portugueses: primeiro, a medir com maior cuidado as suas responsabilidades pensionáveis; mais tarde, a criar patrimónios autónomos (Fundos de Pensões) por onde, chegado o tempo, essas pensões seriam pagas. O propósito de tudo isto era conferir maior transparência à situação financeira dos Bancos e reforçar o sistema financeiro nacional. Assim seria: se esses Fundos de Pensões fossem, desde logo, dotados com capitais suficientes, em linha com as Responsabilidades por Serviços Passados (RSP) que estavam a assumir; se as futuras contribuições cobrissem, de facto, os acréscimos que as responsabilidades pensionáveis, ano após ano, fossem registando; e, não menos importante, se a realidade se aproximasse das bases actuariais que são correntemente utilizadas no cálculo do capital mínimo exigível.

Mas não foi. Com a complacência da Autoridade de Regulação: permitiu-se que a contribuição inicial dos Bancos para os seus Fundos de Pensões fosse inferior (nuns mais, noutros menos) às RSP que eles estavam a transferir; permitiu-se que o equilíbrio financeiro desses Fundos de Pensões fosse atingido só ao fim de largos anos, seguindo uma trajectória de capitalização particularmente modesta; permitiu-se que a contribuição inicial fosse amortizada (isto é, deduzida aos resultados de exercício) também em suaves prestações ao longo de muitos anos (uma vez que, até então, alguns Bancos nunca haviam reconhecido contabilisticamente as RSP que os oneravam); permitiu-se que eventuais situações de subcapitalização destes Fundos de Pensões, relativamente à referida trajectória para o equilíbrio financeiro, não fossem corrigidas em fecho do exercício, nem, ao menos, levadas a resultados, mas arrumadas numa subconta de flutuação de valores, perdida algures no poço sem fundo que são as rubricas residuais do Plano de Contas para o Sector Bancário (Outros Credores, etc.); permitiu-se que os Bancos não divulgassem com meridiana clareza o estado das respectivas responsabilidades pensionáveis (uns têm-no feito, outros nem tanto); permitiu-se que o relato financeiro não fosse comparável de ano para ano (uma vez mais, também aqui há casos e casos); enfim, permitiu-se que, em muitos Bancos, o nível das RSP e o modo como se encontravam cobertas continuassem a ser segredos bem guardados. Em suma, adiou-se e escondeu-se - na esperança vá-se lá saber de quê.

Não é de estranhar, portanto, que tanta complacência redundasse no que redundou: se vários Bancos não viram já os seus capitais próprios corroídos por responsabilidades pensionáveis, foi apenas porque não as explicitaram fielmente - o que tira o sono a muito boa gente, como se compreende. E é natural que quem esteja, hoje, a entrar na casa dos 50 anos - perante a perspectiva de, algures no futuro, nem Fundos de Pensões, nem Bancos (estes, afinal, solidários no pagamento das responsabilidades pensionáveis) terem por onde pagar a totalidade das pensões entretanto convencionadas - queira assegurar, o mais rapidamente possível e, se necessário, por outros meios, o seu salário na reforma. Acontece que o equilíbrio financeiro dos modelos de benefício definido (e, em particular, daqueles particularmente generosos, como é o que prevalece no sector bancário) só pode ser mantido quando exista quem esteja em condições de suprir, a qualquer momento e em quaisquer circunstâncias, os fundos que faltem, por maiores que estes sejam. Onde procurar, então, um tal conforto se não no OGE – o que é dizer, no bolso dos contribuintes? É justamente isso que Bancos e sindicatos bancários pretendem com a transferência das responsabilidades pensionáveis (e dos activos que compõem os seus Fundos de Pensões) de uns, e dos benefícios de outros, para o Regime Geral.

A integração destes Fundos de Pensões no Regime Geral, se não tiver em linha de conta, quer as actuais insuficiências de capitalização, quer as regras para a cobertura das Responsabilidades por Serviços Futuros (RSF – ou seja, o contínuo acréscimo das responsabilidades pensionáveis), será uma maneira hábil de fazer pagar uns (os contribuintes, sempre eles) aquilo que outros (os Bancos) devem, e que outros ainda (os pensionistas, actuais e futuros) exigem receber. Além de servir para reabilitar gestões que têm vindo a emplumar-se abusivamente com lucros mal apurados.

Mas se a coisa for feita como deve ser, com os Bancos ainda e sempre responsabilizados pelas insuficiências de capital existentes à data da efectivação do negócio (e, já agora, se não for pedir muito, pela qualidade dos activos que transferem), assistir-se-á a uma verdadeira re-estatização de vários Bancos (não todos) – e, em muitos deles, à súbita degradação dos seus rácios prudenciais. Porque a solução mais óbvia seria que o IGFSS convertesse esses créditos em capital, evitando assim fragilizar ainda mais o sistema bancário português - e fosse vendendo no mercado, paulatinamente, as acções que adquirira. Enfim, um novo 11/03/1975.

Muito diferente é o impacto desta operação nas contas do Estado: se for concebida como uma transacção de activos que passam dos Fundos de Pensões (e ainda de alguns Bancos) para a carteira do IGFSS, e se essa transacção tiver lugar a preços de mercado (e não às valorizações contabilisticas actuais), será neutral face aos passivos (as RSP) igualmente transmitidos - ou seja, em termos esperados, daí não resultará nem ganho nem prejuízo para os contribuintes futuros (transacção de soma nula); se, no entanto, o preço da transacção for superior ao preço de mercado, já serão os contribuintes futuros a ter de cobrir a menos valia, mais cedo ou mais tarde; se, por fim, à la Bagão Felix, os activos transferidos forem equiparados a receita (semelhante ao prémio que uma seguradora cobra), então, o IGFSS assumiria a plenitude das RSP sem contrapartida – e não custa imaginar quem irá ser chamado para tapar o buraco.

Tudo visto, ainda persistem três questões: a primeira, sobre possíveis diferenças entre as bases actuariais que os Bancos, por um lado, e o Regime Geral, por outro, perfilham; a segunda, em torno das regras para calcular as futuras contribuições de empregadores (Bancos) e empregados (funcionários bancários), agora no âmbito do Regime Geral (uma vez que os benefícios que este e aqueles definem não são exactamente coincidentes); uma terceira, a mais importante, sobre a fragilidade do próprio modelo de benefício definido, o qual, se pretender ir mais além de um patamar de rendimento familiar (como é o caso), terá de conviver sempre com a sombra da sua própria falência. E é aqui, justamente, que entramos nós todos com os nossos impostos.

Poder-se-á argumentar, com razão, que na origem deste intrincado imbroglio esteve o excessivo aumento dos custos com o pessoal, logo das responsabilidades pensionáveis (fosse através do empolamento dos quadros de pessoal; fosse porque a remuneração total per capita disparou), que a Banca conheceu até há bem pouco. Mas o fundo da questão é bem outro: o facto de a Autoridade de Regulação ter permitido que a ficção de um modelo de benefício definido chegasse aos dias de hoje, intacta (quando deveria ter sido desfeita logo nos idos de ’90, o mais tardar), e se ter revelado complacente para lá do razoável.

 

A.PALHINHA MACHADO 


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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008
AVISO

AVISO

 

 

Em 18 de Janeiro viajarei para a Índia e, se tudo correr como previsto, regresso a 31.

 

Durante esse período não haverá actualizações no “A bem da Nação” mas logo no dia 1 de Fevereiro penso retomar o ritmo habitual.

 

Até breve,

 

Henrique Salles da Fonseca


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 23:30
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Burricadas nº 14

Que saia mais um nobel cá para a rapaziada!

v      O pior pesadelo de qualquer Autoridade Monetária experiente são as crises bancárias: cenários em que os Bancos, uns após outros, ficam sem liquidez - e todo o sistema bancário entra em colapso.

v      A teoria e a prática identificaram, há muito, duas causas que convergem para que tal aconteça: (1) uma teia espessa de créditos recíprocos no mercado interbancário; (2) uma quebra de confiança da população em geral na solidez financeira dos Bancos a que usualmente recorrem.

v      Esta última causa, leva pessoas e empresas a retirarem os seus depósitos do Banco em crise, transferindo-os para Bancos que considerem mais seguros.

v      Aquela primeira, por seu turno, tem um efeito de contágio, quando o Banco que sofre a drenagem dos depósitos não tem fundos suficientes para cobrir as suas posições devedoras na compensação interbancária. Em tais circunstâncias, os Bancos que recebem os depósitos em fuga ficam com um passivo à vista (os depósitos), mas sem saldo junto do Banco Central que lhes permita responder por esse passivo – o que é dizer, passam a debater-se, eles também, com problemas de liquidez. Daí o contágio.

v      Quando a crise bancária não atinge o ponto em que os capitais começam a procurar refúgio no exterior, solucioná-la é relativamente simples: o Banco Central injecta liquidez no sistema bancário, já substituindo-se ao Banco em crise na liquidação das posições devedoras que este vá registando diariamente na compensação interbancária, já cedendo fundos directamente aos outros Bancos. É precisamente isto a que assistimos hoje por causa dos créditos hipotecários subprime.

v      Quando à crise bancária se junta a fuga generalizada de capitais para o exterior, o problema é bem mais difícil de resolver. Em qualquer caso, é sempre o contribuinte que terá de pagar a festa - através de impostos, desvalorização cambial, inflação e desemprego.

v      Vem isto a propósito da crise no BCP. Até ao momento, a ajuizar pelo que se ouve e lê, a credibilidade embaciada não é tanto a do Banco, como a daqueles que o têm dirigido (daí eu ter escrito “no BCP” em vez de “do BCP”). A liquidez do Banco não foi até ao momento posta em causa - e os clientes do Banco não parecem temer por aí além pelos seus depósitos.

v      Isto não significa que o episódio não tenha reflexos visíveis, uma vez que este Banco depende há muito dos fundos que capta nos mercados interbancários internacionais para poder sustentar as suas actividades.

v      É de prever mesmo que os Bancos no estrangeiro se mostrem, de ora em diante, mais cautelosos nas linhas de cedência de fundos que abriram a favor do BCP, quer agravando spreads, quer reduzindo os respectivos limites. Fundos mais caros (logo, menor competitividade) e, na pior das hipóteses, em menor volume - eis o que aguarda o BCP nos dias que aí vêm.

v      Dado que as posições dos maiores grupos bancários portugueses no mercado interbancário doméstico são pouco significativas, o efeito de contágio é, entre nós, praticamente nulo - apesar de o BdP não dispor já dos meios que lhe permitiriam suprir ocasionais falhas de liquidez (essa competência pertence agora por inteiro ao BCE - e é legítimo interrogarmo-nos sobre o empenho deste em apoiar um Banco de reduzida expressão à escala da zona euro que se encontre em dificuldades).

v      Ora, se os clientes do BCP não dão mostras de quebra de confiança e se o contágio via mercado interbancário doméstico nada mais é que uma possibilidade remota, estará definitivamente afastado o cenário de crise bancária?

v      Não. Não está - por algo que escapou de todo à atenção dos teóricos: a perda de credibilidade por parte da Autoridade que supervisiona um sistema bancário fortemente endividado junto de Bancos no exterior.

v      Na nova ordem financeira internacional, não são só os Bancos (e as Instituições de Serviços Financeiros, em geral) que ficam sujeitos ao escrutínio pelos pares. As Autoridades de Supervisão, garantes últimos da credibilidade e reputação dos respectivos sistemas bancários, também não escapam à disciplina do mercado (o 3º Pilar do Basileia II) – facto que nem todas gostam que se lhes recorde.

v      Bancos com sede em sistemas bancários deficientemente supervisionados são, fatalmente, penalizados nas suas actividades transfronteiriças - e surgem aos olhos de supervisores experientes como entidades causadoras de risco acrescido. Banco que queira expor-se a tais riscos terá de lhes afectar proporcionalmente mais Capitais Próprios – o que é penalizador.

v      No caso vertente, que o BCP experimente dificuldades na renovação (roll over) das linhas interbancárias de que dispõe, não deve causar surpresa. É uma realidade com a qual ele terá de conviver durante uns tempos – mas que, em circunstâncias normais, deixaria intacta a liquidez do sistema bancário português no seu todo (e com a apreciável vantagem “macro” de travar o financiamento dos deficits estonteantes da nossa BTC).

v      O que deveria ser evitado a todo o custo é que a crise no BCP viesse a prejudicar o acesso dos outros grupos bancários de raiz portuguesa (CGD, BES e BPI) aos mercados interbancários (e, a prazo mais dilatado, aos mercados de capitais) internacionais - de que todos eles, aliás, dependem estruturalmente.

v      Se tal acontecer teremos, então sim, uma crise bancária, e das grandes, entre mãos. Que fará do déficit orçamental excessivo uma brincadeira de meninos.

v      Para tanto, a reputação e a credibilidade internacionais do BdP, enquanto Autoridade de Supervisão, inevitavelmente abaladas num primeiro momento, terão que ser prontamente repostas: esse o objectivo de máxima prioridade.

v      Negar a evidência de que a supervisão prudencial falhou relativamente ao BCP (como falharam Auditores Externos, Agências de Rating e tutti quanti) é o pior que se pode fazer, na circunstância – pela simples razão de que traz à luz do dia a incapacidade de o BdP reconhecer e corrigir os seus próprios erros.

v      Para quem vê de fora, com uma supervisão assim, relutante a emendar-se, será que os outros Bancos portugueses não continuam a esconder também, lá no saguão deles, um BCP que têm conseguido até agora disfarçar?

v      Quando conseguimos transformar uma benção numa maldição (refiro-me da adesão à zona Euro), tornámo-nos sérios candidatos a um prémio Nobel. Hélàs! Foi para outros.

v      Agora, ao darmos ao mundo uma nova fonte de risco sistémico (a própria Autoridade de Supervisão), rasgamos novos e insuspeitados horizontes à teoria económica. Se, desta vez, não recebermos o Nobel é porque, de facto, a Academia Sueca não vai mesmo com a nossa cara - e tanta injustiça magoa.

Lisboa, Janeiro de 2008

 A.PALHINHA MACHADO


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:22
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Domingo, 13 de Janeiro de 2008
O MARTELO DOS HEREJES

Nascido em Lisboa no ano de 1195, morreu em Vercelli no dia 13 de Junho de 1231; baptizado Fernão, ficou na História para nós, portugueses, como Santo António de Lisboa e de Pádua para os italianos.

Santo António pregando aos peixes. Guimarães Santo António pregando aos peixes - mural de azulejos, Guimarães

Historiadores do séc. XV admitiram a possibilidade de o seu pai, Martim de Bulhões, ser descendente de Godofredo de Bulhão, comandante da Primeira Cruzada e a sua mãe, Teresa Taveira, descendente de Fruela I, quarto rei das Astúrias e Leão que governou entre 757 e 768. Contudo, a genealogia completa ainda é incerta; tudo o que se sabe é que os seus pais eram nobres, ricos e tementes a Deus. Fernão nasceu rico numa casa próxima da Sé de Lisboa, com pais relativamente jovens.

Educado na escola da Sé, ingressou em 1210, aos 15 anos, no convento de Lisboa da Ordem de Santo Agostinho, o de S. Vicente. Dois anos depois e para evitar as frequentes visitas de amigos e familiares, pediu e obteve dos seus superiores a transferência para o Convento de Santa Cruz em Coimbra onde permaneceu oito anos. Muito estudioso e dotado de grande inteligência e excelente memória, cedo obteve um grande conhecimento das Sagradas Escrituras. 

Em 1220, assistindo na Igreja de Santa Cruz aos actos fúnebres dos primeiros mártires Franciscanos mortos em Marrocos em 16 de Janeiro desse mesmo ano, optou pela via do sacrifício e eventual martírio e decidiu tornar-se Frade Menor de modo a pregar a Fé aos sarracenos. Tendo confidenciado as suas intenções a alguns membros do Convento dos Olivais, então arrabaldes de Coimbra, recebeu deles o hábito Franciscano. Assim foi como Fernão deixou a Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho para ingressar na Ordem dos Frades Menores, Franciscanos, onde tomou o nome de António. Este, o nome que o Convento dos Olivais viria em sua memória a adoptar também.

Pouco depois do seu ingresso na Ordem Franciscana, António seguiu para Marrocos mas adoeceu gravemente durante todo o Inverno e foi obrigado a regressar a Portugal na Primavera de 1221. Contudo, o barco em que navegava foi apanhado por forte tempestade e acostou involuntariamente à Sicília onde António permaneceu o tempo suficiente para se recompor dos problemas de saúde. Tendo entretanto ouvido dizer que um Capítulo Geral se reuniria em Assis a 30 de Maio, para lá se dirigiu a tempo de participar nos trabalhos. Concluída a reunião, António permaneceu no silêncio sem que mais se tenha ouvido falar dele.

“Não disse uma palavra sobre os seus estudos”, escreveu um dos seus primeiros biógrafos, “nem sobre os serviços que já prestara; o seu único desejo consistindo em seguir Jesus Cristo até um eventual martírio”. Assim, pediu para ser colocado num lugar em que pudesse viver em isolamento e penitência com vista a entrar mais profundamente no espírito e disciplina da vida Franciscana. Foi então colocado no Eremitério de Montepaolo (próximo de Forli) onde passou a celebrar Missa para os irmãos leigos ali residentes.

Certo dia reuniram-se em Forli inúmeros frades Franciscanos e Dominicanos para receberem a ordenação sendo que António estava presente apenas como acompanhante do Provincial. A certo momento concluiu-se que ninguém fora indigitado para fazer a Homilia e o Provincial Franciscano convidou o Superior Dominicano ali presente para indigitar algum dos seus para fazer a prática. Contudo, todos declinaram dizendo que não estavam devidamente preparados. Na emergência, coube a indigitação a António a quem todos julgavam apenas capaz de ler o Missal e o Breviário. Foi-lhe assim ordenado que dissesse o que o Espírito de Deus pusesse na sua boca.

Compelido pelo voto de obediência a que estava obrigado, António começou por falar lenta e timidamente mas depressa se entusiasmou e passou a explicar os mais recônditos significados das Santas Escrituras com tal erudição, profundidade e de tão sublime doutrina que todos os presentes se encheram de espanto. Aquele, o momento em que começou a carreira pública de António. 

Informado da ocorrência, S. Francisco dirigiu-lhe a seguinte carta:

Ao Irmão António, meu Bispo (i.e. Professor de Ciências Sagradas), o Irmão Francisco envia as suas saudações. Será do meu agrado que vós ensinais Teologia à nossa irmandade considerando, contudo, que o espírito de oração e devoção não se extinga. Adeus. (1224)

Seguiu-se o ensino em Bolonha, Montpellier e Toulouse.

No entanto, foi sobretudo como orador – mais do que como Professor – que António fez a sua grande colheita. Num grau perfeitamente eminente, possuía todas as qualidades de um pregador eloquente: voz forte e clara, porte de ganhador, memória prodigiosa e os mais profundos e amplos conhecimentos da Doutrina. A estas características há a crescentar o espírito profético e um extraordinário dom miraculoso. Com o zelo de um apóstolo iniciou uma reforma da moralidade então vigente combatendo especialmente os vícios da luxúria, avareza e tirania. Distinguiu-se igualmente no combate aos hereges mais importantes naquela época, os Cátaros e os Patarinos que «infestavam» o centro e norte de Itália e os Albigenses no sul de França.

Dentre os muitos milagres que lhe são atribuídos, os mais referidos pelos seus biógrafos são:

·         O de um cavalo em Rimini que não comia havia já três dias recusando qualquer comida que lhe pusessem à frente, até que se ajoelhou em adoração perante as Sagradas Escrituras que Santo António lhe colocou à frente comendo então umas avelãs que lhe apresentaram;

·         O da comida envenenada que uns heréticos italianos lhe apresentaram e que ele, com o sinal da cruz, transformou em inofensiva;

·         O do famoso sermão aos peixes que ele proferiu nas margens do rio Brenta, próximo de Pádua.

Eis por que tanto o zelo no combate às heresias como as inúmeras conversões que fez lhe renderam o glorioso título de Malleus hereticorum, o Martelo dos Heréticos.

 

FIM DA 1ª PARTE

Lisboa, Janeiro de 2008

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

 

“Enciclopédia Católica” em http://www.newadvent.org/cathen/index.html

 


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