Sábado, 30 de Junho de 2007
D. Afonso de Portugal

A casa apalaçada em cuja esquina trabalhava o electricista empoleirado numa escada de alumínio era mais uma dentre a infinidade de exemplos que em Malta encontramos com arquitectura notável. Construídas em pedra maciça e sem vestígios de falsa cantaria, lembram-nos as construções militares que proliferam ao longo da costa para defesa dos assaltos turcos. Ocorre-nos mesmo a ideia de que se trata apenas da civilização de um estilo militar à guisa de disfarce e prudente cautela contra o inesperado.

 

E como a História se repete … cá estamos, nós os ocidentais, novamente a servir de alvo às investidas do Islão, em plena conformidade com as circunstâncias que ditaram a ida da Ordem de S. João de Jerusalém para Malta.

 

Continua, contudo, a incerteza sobre se a concessão de Malta à Ordem teve como objectivo a defesa do Ocidente cristão contra o Oriente islâmico ou se se pretendeu desse modo criar uma ponta de lança cristã contra o islamismo. Eventualmente ambas as doutrinas são verdadeiras conforme a época a que se refiram na certeza porém de que a ilha sempre serviu de «frontiera barbarorum». Assim, Malta foi cercada em 1565 pela armada otomana mas também o Grão-mestre D. António Manoel de Vilhena (1663-1736), português de Lisboa, não hesitou em fazer perseguir uns corsários que lhe incomodavam as cercanias e de ter mesmo ocupado Tripoli destroçando o porto de amarração desses energúmenos.

 

 Image:AntonioManuelVilhena.jpg 

D. António Manuel de Vilhena

 

Ainda hoje por ali nos sentimos nos limites do nosso razoável e essa sensação é profusamente infundida pelas estruturas de vigília e defesa ao longo de toda a costa, construções essas da responsabilidade da Ordem – entretanto rebaptizada de Malta – e mais concretamente de todos e cada um dos Grão-mestres que por ali quiseram deixar mais fausto que os seus antecessores. Mas esse fausto não se limita à arquitectura militar e civil: a pintura foi das artes mais beneficiadas e dói-nos o pescoço de tanto admirarmos quadros magníficos pendurados por tudo quanto é parede. Contudo, convém fazer uma ressalva relativamente a Caravaggio que chegou a Malta em fuga das tropelias que fizera na sua Itália natal. Esteve no país o tempo suficiente para pintar cinco quadros, para se meter em mais tropelias, para escandalizar Cavaleiros e gente comum, para ter que fugir novamente e para aparecer morto numa praia aos 39 anos de idade aparentando precoce velhice. O pudor impede repetir hoje o que então se disse dele …

 

Outra incerteza de que hoje se fala tem a ver com o significado das oito pontas da cruz que simboliza a Ordem: há quem diga que elas representam as oito “langues” em que se agrupavam os Cavaleiros; há quem defenda a doutrina de que se trata das oito virtudes (bem-aventuranças) do “Sermão da Montanha”. Creio que não pode haver grandes dúvidas quanto à opção pela segunda hipótese uma vez que ainda só havia 7 “langues” (nos tempos em que a Ordem estava em Jerusalém e em Rodes) e a cruz já tinha 8 pontas.

 

 Cruz da Ordem de Malta

 

As “langues” agrupavam-se como segue:

  1. Provença (dos Cavaleiros oriundos do Languedoc)
  2. França (dos de Languedoïl, norte do actual território francês a que correspondia um grupo de 4 línguas com origens teutónicas)
  3. Auvergne (dos da Bretanha)
  4. Castela e Portugal
  5. Aragão (incluindo também os Cavaleiros oriundos da Catalunha e de Navarra)
  6. Itália
  7. Alemanha (incluindo também os Cavaleiros oriundos da Escandinávia, da Polónia e da Boémia)
  8. Inglaterra e Irlanda

 

Assim se vê que o critério de agrupamento tinha sobretudo a ver com a língua e não tanto com a política. Mas a política ditava algumas condicionantes e a residência (Auberge) de Castela e Portugal ostenta na sua fachada imponente à entrada de Valetta (acolhe actualmente o Gabinete do Primeiro Ministro) as armas de Castela e as de Portugal. As armas de Castela situam-se à direita, o lugar de honra, ficando as armas de Portugal do lado esquerdo, o lado do coração, o da essência da alma. Todos ficaram satisfeitos.

 

 As armas de Portugal "in cuore"

 

E foi deste “Auberge” que saíram 4 dos 6 actualmente mais falados Grão-mestres da Ordem: os dois irmãos Cotoner, súbditos espanhóis da periferia Balear e os portugueses D. António Manoel de Vilhena (1722 - 1736) e D. Frei Manuel Pinto da Fonseca (1741 – 1773); os outros 2 eram os franceses Jean de la Valette (1557-1568) e Antoine de Paule (1623-1636).

 Manuel Pinto de Fonseca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

D. Frei Manuel Pinto da Fonseca viveu até aos 93 anos no meio de um verdadeiro fausto imperial que afincadamente cultivou. E mais se diz que quanto ao voto de castidade ...

 

Mas se estes são os portugueses profusamente referidos, não esqueçamos D. Luís Mendes de Vasconcelos que foi Grão-mestre nos anos de 1622 e 1623 e, muito antes da ida da Ordem para Malta, de D. Afonso de Portugal (1135-1207) que foi Grão-mestre nos anos de 1203 a 1207 e era filho do nosso rei fundador, D. Afonso Henriques.

 

É nos locais mais inesperados que tomo conhecimento de valores que ignorava por completo. Eu não sabia da existência da maior parte destes notáveis portugueses.

 

Lisboa, Junho de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

(em Portomaso, próximo de Vatella)

 


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Sexta-feira, 29 de Junho de 2007
Curtinhas XLIII

“portela+1”? “1+portela”?

(nem sempre a ordem dos factores é arbitrária - cont.)

v      Chegados a este ponto, não sei se o Leitor ficou, por fim, convencido de que, quando o problema é expandir as facilidades aeroportuárias que a região de Lisboa pode oferecer à aviação comercial, “Portela+Alverca” ou “Portela+Montijo” não resolvem praticamente nada. E terá, talvez, sorrido quando eu referi, en passant, que a solução “Alverca+Montijo”, essa sim, passa no teste dos “corredores de aproximação”.

v      Então, porque não estudar também mais esta opção? Afinal ela tem uma pégada ecológica quase imperceptível (uma vantagem de tomo), e sempre se pouparia na construção de pistas de raiz (embora houvesse certamente que gastar uma “nota preta” com a reabilitação das pistas existentes).

v      A resposta é imediata: porque se sabe à partida que “Alverca+Montijo” só funcionaria em circunstâncias algo restritivas. Como na opção “Portela+1”, aliás. Mas vamos por partes.

v      Neste momento, pela Portela passam três tipos diferentes de voos: (1) os voos domésticos; (2) os voos de médio curso (de e para a Europa; ocasionalmente para o Norte de África); (3) os voos intercontinentais (de e para a América do Norte, as Caraíbas, a África Ocidental e o Brasil).

v      Sob outro ponto de vista, o tráfego aéreo que demanda a Portela: (1) ou é tráfego “ponto a ponto” (aquele que tem por origem, ou por destino, a zona de Lisboa – com maior generalidade, o território português); (2) ou é tráfego “em trânsito” (aquele que não é originado no território português, nem para cá se destina). Este último é alimentado por voos domésticos e por voos de médio curso (designados, genericamente por voos feeders[1]) que carreiam para a Portela os passageiros e a carga destinados às rotas intercontinentais (nomeadamente, as do Atlântico Sul), e que se encarregam de distribuir pelos respectivos destinos finais o tráfego que essas rotas intercontinentais para cá encaminham. Nos “trânsitos” a Portela funciona como um hub intercontinental (mal amanhado, reconheçamo-lo), com assinalável proveito para a TAP.

v      A questão que vem imediatamente à ideia é esta: porquê, nos “trânsitos”, conformarmo-nos com as rotas que falam português? Porque não atrair para Lisboa uma maior fatia do tráfego aéreo[2] entre a Europa, a faixa ocidental de África e a totalidade da América Central e do Sul (incluindo a costa do Pacífico)? Porque não acentuar a vertente hub intercontinental de pelo menos um aeroporto português? Não é o sudoeste da Península Ibérica o local onde a Europa mais se aproxima de todos estes destinos – o que permite optimizar a operação comercial de aviões e tripulações nestas rotas? Falta de interesse? Ou falta de visão?

v      A segmentação do tráfego aéreo que referi mais acima é útil para ver onde as opções “Alverca+Montijo” e “Portela+1” falham. Se o que estivesse em causa fosse, tão só, o tráfego “ponto a ponto”, servido tanto por voos domésticos como por voos de médio curso, dois aeroportos a operar em paralelo poderiam muito bem dar conta do recado. Talvez com algum transtorno para os “trânsitos” que envolvessem voos domésticos – a terem de andar em bolandas entre aeroportos. Mas nada que um Ministro mais expedito não conseguisse resolver com um simples despacho.

v      Num hub intercontinental, porém, as ligações aos voos de longo curso (as conexões) devem ter lugar no mesmo aeroporto. É de todo impensável que os voos intercontinentais partam e cheguem a um aeroporto, e os voos feeders operem num aeroporto vizinho, mesmo que localizado ao virar da esquina.

v      Alverca e o Montijo, sujeitos como estão, há muito, a enorme pressão urbanística, já não dispõem de área suficiente para aí se construir um hub intercontinental[3] capaz de comportar os respectivos voos feeders (salvo se se entrasse rio adentro – e imagina-se o alarido dos ecologistas).

v      A pressão urbanística também tirou à Portela qualquer veleidade de vir a dispor, um dia, de duas pistas paralelas a operarem simultaneamente. Mas mesmo que o planeamento da cidade tivesse sido mais previdente e menos ganancioso, a limitação legal quanto a níveis de ruído em perímetros urbanos nunca permitiria que essas duas pistas operassem em pleno. Por isso, já não é de hoje nem de ontem que a possibilidade de tornar-se num hub intercontinental viável ficou definitivamente arredada do futuro da Portela.

v      Nestas circunstâncias, só o “+1” poderia ter duas pistas a operar simultaneamente, só esse poderia ser concebido como um hub intercontinental. Daí que seria certamente mais apropriado designar esta opção por “1+Portela”.

v      E eis a pergunta fatídica: o aeroporto da Portela tem futuro?

v      Que arrasta uma segunda pergunta não menos fatídica: que acontecerá à TAP se o seu aeroporto base só comportar voos domésticos e voos de médio curso? (cont.)

A. Palhinha Machado

Junho 2007



[1] Até ao momento, a regra nas rotas de longo curso são os acordos Estado a Estado (não o open sky) – e, aí, só as companhias aéreas tradicionais operam, não permitindo que low cost independentes se intrometam no feeding. O passageiro que quiser tirar partido dos preços mais baixos que uma low cost esteja a praticar num determinado troço da sua viagem, agirá por sua conta e risco.

[2] Que se prevê ter, nas próximas décadas, uma taxa de crescimento só superada pelo  Extremo Oriente.

[3] Cujo requisito essencial é dispor de duas pistas que possam operar em simultâneo, excepto em condições meteorológicas extremas.


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Quinta-feira, 28 de Junho de 2007
Curtinhas XLII

“portela+1”? “1+portela”?

(nem sempre a ordem dos factores é arbitrária)

v      Não há fome que não dê em fartura. Antes, um e um só aeroporto – e logo na Ota. Mais recentemente, vá que não vá, uma alternativa: Alcochete. Agora, mangas arregaçadas e estude-se também “Portela+1” em todas as combinações imagináveis. Traço comum a todos os interesses em liça, o mesmo enorme silêncio sobre o que é verdadeiramente primordial: para que fluxos de tráfego aéreo se está a projectar o aeroporto?

v      Para compreender a dura realidade dos factos, convém ter presente que um aeroporto é bem mais que um complexo de pistas, instalações terrestres e equipamentos técnicos. Integram-no, também: (1) um “cilindro de aproximação”, em altitude, com um diâmetro de algumas dezenas de quilómetros (em função dos “picos de tráfego” previstos e das características dos aviões que o demandem); (2) “corredores de aproximação” às pistas, para as aterragens e descolagens (as operações aeroportuárias). Quanto a isto, a Portela não é excepção.

v      A orografia a norte de Lisboa faz deslocar o “cilindro de aproximação” da Portela ligeiramente para sul, localizando-o sobre o rio e a península de Setúbal. Em princípio, um “cilindro de aproximação” pode não estar localizado exactamente à vertical do respectivo aeroporto, mas, por razões de segurança, operacional, deverá estar sempre a uns, poucos, minutos de voo.

v      Se olharmos com atenção para o mapa, salta à vista que, num cenário de exploração comercial, os “cilindros de aproximação” de Alverca e do Montijo se sobrepõem ao da Portela. Não é, porém, um problema insuperável. Dois ou mais aeroportos podem partilhar o mesmo “cilindro de aproximação” sempre que este tenha diâmetro suficiente para acolher, em total segurança, os “picos de tráfego” que estiverem previstos para o conjunto desses aeroportos. Mas gerir esse espaço aéreo comum, dentro dos padrões internacionais, é um problema tanto mais complexo quanto maior for o número de pistas a operarem simultaneamente.

v      Já quanto aos “corredores de aproximação”, as coisas complicam-se. Por uma razão bastante simples: os “corredores de aproximação” nunca podem cruzar-se. Se, por fatalidade geográfica, se cruzarem, só um deles poderá estar activo de cada vez. Para todos os efeitos, é como se existisse então um só aeroporto a operar – e, neste, uma só pista (aliás, é o que se passa hoje na Portela, onde não é possível ter dois aviões a operar simultaneamente).

v      Acontece que o “corredor de aproximação” de Alverca cruza a baixa altitude todos (sob condições meteorológicas ideais, todos menos um) os “corredores de aproximação” da Portela. Logo, com um avião a operar (a aterrar ou a deslocar) num destes aeroportos, o outro aeroporto terá de ficar temporariamente inoperativo.

v      Com o Montijo as coisas não se passam de modo muito diferente. Ali, o “corredor de aproximação” é praticamente perpendicular aos “corredores de aproximação” na Portela. E de uma maneira ainda mais absoluta do que em Alverca, não são possíveis operações simultâneas na Portela e no Montijo.

v      Em conclusão: (1) a abertura de Alverca, ou do Montijo, à aviação comercial, desafogava, certamente, os terminais da Portela, mas não permitiria aumentar o número de operações aeroportuárias em Lisboa; (2) o “+1” da alternativa que acaba de ser proposta nunca poderá ser nem Alverca, nem Montijo, mas um aeroporto com pistas paralelas à pista longa da Portela, ou suficientemente distante da Portela para que os respectivos “corredores de aproximação” não se cruzem.

v      Curiosamente, os “corredores de aproximação” de Alverca e do Montijo são praticamente paralelos e encontram-se suficientemente afastados para permitirem operações aeroportuárias simultâneas. Mais uma alternativa a estudar?

v      E a Portela? Como situar a Portela nesta bouquet de alternativas? (cont.)

 

a. palhinha machado

Junho 2007

 

Alverca e Portela a operarem simultaneamente, só num cenário: em Alverca, a descolagem ser para Leste e, na Portela, a aterragem/descolagem ser para sul (pista curta) ou para sudoeste (pista longa).


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:16
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2007
Caravaggio

 

 

   (1573 - 1610)

 

  

- Sigam em frente e lá em cima virem à direita – indicou o maltês lá do meio da escada em que estava empoleirado a reparar qualquer coisa na empena da casa apalaçada na esquina oposta à do restaurante em que eu estava a jantar. Não ouvi a pergunta que as quatro jovens nórdicas loiras fizeram ao empoleirado mas, pela resposta que li nos gestos, adivinho que queriam saber do melhor caminho para o centro de St. Gorg (entoe-se George, à maneira inglesa).

 

Cena banal que se poderia imaginar em qualquer outra esquina neste nosso Planeta Azul mas ali, nos arredores de Valetta, a capital de Malta, tudo fazia sentido. A começar pela maneira de escrever o nome do local em que nos encontrávamos e que não consigo reproduzir exactamente porque não temos no nosso alfabeto a pintinha sobre a letra «g» que os malteses inventaram para lhe atribuir o som forte que se espera de um George sendo que a mesma letra sem a tal pintinha assume a suavidade felina que lhe damos num gato. Sim, o alfabeto maltês tem 29 letras e diversos apêndices de acentuação que lhes possibilita escrever em caracteres latinos uma língua composta por quase 70% de expressões oriundas mais ou menos directamente do árabe clássico enquanto os restantes por cento se distribuem algo desequilibradamente entre italiano, francês, inglês e sabe Deus mais quê. Não fora uma evidente injustiça e quase me apetecia dizer que nem o Diabo os entende. E só porque me chamo Henrique é que não pergunto àquela gente por que razão é que o «gh» que consta do início de tantas palavras é mudo. Como bem compreendi a desorientação das jovens nórdicas que nem munidas do inglês internacional conseguiam interpretar a toponímia. A menos que o objectivo delas passasse também por meterem conversa com o alcantilado electricista …

 

Não tentei obviamente esclarecer a questão que assim fica por desvendar pois de imediato passei a notar que o fulano estava a trabalhar à hora a que eu estava a jantar. E a minha mulher e eu não jantamos assim tão cedo que dê para à mesa ouvirmos os pregões vespertinos – se é que os há. O que sucede é que o clima naquela metade sul do Mediterrâneo, praticamente à entrada do Golfo de Sirta, esse que banha directamente a Líbia ardente, não permite que se trabalhe na rua durante as horas a que nós, os setentrionais, estamos habituados a usar para conseguirmos pagar ao merceeiro. Em Malta, os trabalhos agrícolas decorrem entre as 5 e as 8 da manhã e a partir das 5 da tarde até que o serviço esteja concluído; o trabalho urbano na rua segue um padrão mais adamado pelos Sindicatos mas a verdade é que o fulano estava a trabalhar enquanto eu jantava. Apurei que nas pedreiras – Sector importante – o trabalho cessa às 12 porque a partir daí não há quem aguente e consta-me que nas fábricas tem havido uma certa preocupação de melhoria das condições de trabalho para que se consiga maior produtividade. Mas a deslocalização industrial fechou a última fábrica de “jeans” enquanto eu por lá andava e a empresa de semicondutores a cuja porta passei ficou a representar 35% das exportações maltesas. Sendo actualmente o ordenado mínimo nacional de cerca de € 600,00 (€ 403,00 em Portugal) e o ordenado médio de € 1000,00 (€ 670,00 em Portugal), dá para imaginar os estragos que a globalização se prepara para fazer naquelas paragens …

 

E já que refiro este tipo de questões, aproveito para informar que todo o canteiro agricultável (a dimensão geral da parcela agrícola é muito pequena) está trabalhado e por todo o lado se vê rega gota-a-gota. Na ilha de Malta a água é chupada do mar e dessalinizada enquanto na de Gozo ainda conseguem satisfazer cerca de 30% do consumo total por exploração de lençóis freáticos. Na ilha de Comino vivem 4 pessoas – não sei bem a fazer o quê – pelo que sobre o consumo de água não rezam as crónicas. A produção nacional de alimentos satisfaz cerca de 20% do consumo e se pelo cenário descrito se percebe que a produtividade da unidade de cultivo tem que ser relativamente baixa e o produto resultante caro, a maioria dos alimentos consumidos é importada e possui uma parcela significativa de custo de transporte. De tudo para concluir que uma refeição no restaurante-esplanada do Hotel Intercontinental sobre a praia de St. Gorg (não esquecer a pronúncia) que nos custou o equivalente a € 90,00, poderia em Portugal valer € 50,00. Já fartos do vinho corrente servido nos almoços organizados para os grupos de turistas em que nos metemos uma ou outra vez, mandámos vir o escanção para nos sugerir o melhor vinho da carta e pagámos por um branco “buvable” o equivalente a € 30,00. Daqui sugero aos enólogos portugueses que aproveitem uns dias de férias para viajarem até Malta pois que encontrarão boas oportunidades para venderem os serviços que por cá possam escassear. Melhor: sugiro aos exportadores portugueses de vinhos de mesa que aproveitem uns dias de férias para se lembrarem de que aquele mercado existe. É pequeno, o que facilita os nossos problemas de dimensão; paga bem e está em crescendo. Por lá só vimos várias marcas de vinho do Porto, não vimos nenhum da Madeira (a não ser num molho de bife que lemos num menu) e quanto a vinhos de mesa só vimos “o tal rosé” que leva bem longe o nome de Portugal. Está ali muito trabalho por fazer e não me parece que a concorrência e a estrutura de preços sejam impeditivas de lá chegarmos.

 

E se digo que o mercado de consumo de vinhos de mesa está em crescendo, isso deve-se a que o actual modelo de desenvolvimento do país assenta no turismo e este, como sabemos, é sequioso.

 

E para concluir este intróito, refiro que o expoente máximo que encontrei no turismo maltês é o quadro de Caravaggio, “A decapitação de S. João Baptista”, lindamente exposto na co-catedral de S. João, em Valetta.

Não há reprodução que iguale o original. Só lá indo para ver o esplendor.

 

Continuemos …

 

Lisboa, Junho de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

 


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EFEMÉRIDES

 Efemérides Tábuas astronómicas que indicam, para cada dia do ano, a posição dos planetas; livros ou notícias que contêm os factos de cada dia ocorridos em diferentes anos e lugares; notícia diária (in. Dicionário Francisco Torrinha, ed. 1947)

 

 

Decido comemorar esta efeméride em que cumpro 62 anos de pertença à Nação Lusófona sobre o gáudio do mérito alheio: dos seis Grão Mestres da Ordem de Malta que são apregoados a quem visita Valetta, dois eram portugueses – D. António Manoel de Vilhena e D. Frei Manuel Pinto da Fonseca

 

Louvemos quem honra o nome de Portugal.

 

Lisboa, 27 de Junho de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

 


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Terça-feira, 26 de Junho de 2007
LÁGRIMAS DO BRASIL

 

 

VAVÁ, OS LAMBARIS, O STJ e... “NÓIS”

 

 

Eu quisera que ninguém no Estado pudesse dizer-se acima da lei... de facto, se neste se encontra um só homem que não esteja submetido à lei, todos os outros ficam necessariamente à discrição deste último.

 

Palavras dum “cara” que nasceu em 1712 e se chamou Jean Jacques Rousseau! Olhem a premonição do sujeito há 300 anos!

 

Pois por aqui essa de lei é só para alguns. Agora o STJ – Supremo – Supremo, hein?! Tribunal de Justiça (?) resolveu (eles e o congresso resolvem o que querem... para eles) que os componentes da camarilha que se encontra lá no alto da mamata, não ficam mais sujeitos à lei de Improbidade Administrativa, de 1992, que diz que se fossem julgados (e condenados!...), na primeira instância, perderiam os direitos políticos por oito anos e seriam obrigados a ressarcir os cofres públicos e as empresas envolvidas proibidas de participar em novas licitações públicas. Bom, a lei até que nem estava mal feita, mas ninguém se recorda de ter visto alguém ser condenado! Lei bonita e inócua, que ao ser decretada não revogou as anteriores!

 Mas agora melhorou. Muito. Voltou-se a uma lei de 1950, Crime de Responsabilidade (Crime? Boa piada!). Com isto, os gangsters envolvidos em escândalos, aquela turma lá do alto só ficará cinco anos fora de cargos no governo e não é obrigada a ressarcir coisa alguma! MARAVILHA! Os casos nem vão a tribunal. Resolvem-se “lá dentro”. Nada como o corporativismo. O espírito de corpo... parece que não de porco!

Progresso é isto. Regressa-se a leis de há mais de meio século para safar a turma do Ali Bábá, mas renasce a esperança de vermos implantar-se a lei de Talião ou o Código de Hamurabi! Como neste último se cortava a mão do ladrão... haja faca! O prato nacional sairia do chispe de porco para chispe de nojento!

Entretanto o Vavá, uma espécie de irmão do grande líder, não aguentou sem meter a mão na massa. Humilde, cobrava pouco: dois ou três mil reais para ter uma conversinha com o pessoal lá do alto e... ninguém sabe bem se isso resultava.

O irmão chamou-o de lambari*, dizendo que a polícia andava a querer apanhar peixões! O póbrema é que tudo que vem à rede é peixe!

Nada não, mérmão! Ninguém come pêxi! Aqui, onde a terra não acaba e o mar dos peixões não tem fim, o prato favorito é pizza! PIZZA.

E nóis? Chorar ou dançar ao som de Ravel por uma criança defunta? Para quê? A corporação rouba e segue!

 

 

*Lambari – ou piaba. Peixe pequeno da família dos caracídeos, com dentes incisivos e brilhantes. Há cerca de 150 espécies, entre eles, o “piquira”, o “canivete” e o “bocarra” os que mais se adaptam à corja política. Em vez de pertencer à família dos caracídeos o congresso vai propor que entrem para a corporação dos cara-de-pau-cídeos!

 

 

Rio de Janeiro, 16 de Junho de 2007

 

Francisco Gomes de Amorim


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Sábado, 16 de Junho de 2007
CRÓNICAS DO BRASIL

 

Numa fazenda triangulina

 

Descendo a serra do Padre, em Tupaciguara, uma paisagem rural  típica do interior do Triangulo Mineiro se descortina. Estradas vermelhas de terra de massapé correm entre pastos salpicados de bois zebu, campos cultivados, e colinas mais ou menos arborizadas, que de longe mais parecem manchas azuladas. Ao longe, espelhado no horizonte, um grande lago formado pela represa das águas do rio das Velhas completa a paisagem.

 

O clima dessa região é particular, tem um inverno frio e seco, que tudo entristece com a vegetação encarquilhada amarelo-amaronzada do cerrado, e um Verão chuvoso e quente, que é chamado pelos locais de Inverno, quando a Natureza explode em ondas de todas as tonalidades de verde.

 

Os caminhos de terra batida soltam uma poeira fina e rosada quando percorridos pelos carros ou pelos cavaleiros tocando as suas boiadas. Vez  por outra, ouve-se um” eh, boi” ou o som que mais parece um alto mugido, é o peão chamando com o berrante o seu gado. De espaços em espaços placas mostram o nome das propriedades.

 

Em geral as fazendas da região são bastante parecidas, o que as diferencia é a idade, a topografia, e o investimento do seu proprietário.

A casa principal é a base da sede. Antiga ou reformada ao gosto moderno, actualmente só é ocupada em finais de semana. Lá  se encontram também os currais, paiol, morada do caseiro, cercado para as hortaliças e o quintal. Tudo isso rodeado por pastos e/ou por campos plantados. Os regos e minas d’água são sempre limpos e cuidados, pois a água nestes sitios é um bem inestimável.

 

Como a ocupação dessas bandas do interior brasileiro é mais ou menos recente (século XIX), ainda pode-se ver, em certas fazendas, o requinte das casas dos “coronéis-fazendeiros” do século retrasado que os herdeiros preservaram.

 

Diferentemente de hoje, morava-se naquela época na fazenda e só se ia à cidade nos dias de Domingo ou de festividades. Para aqueles que tinham posses, as construções eram feitas com capricho e estilo, com materiais muitas vezes importados. Os mestres de obras eram na maioria das vezes portugueses ou italianos. As moradas senhoriais eram espaçosas e abrigavam com frequência a família e empregados. As paredes das salas e quartos eram pintadas com lindos motivos e paisagens em técnica trompe l’oeil, e faziam composição com a “marcheterie” dos tetos e assoalhos. Havia toda uma estrutura física de manutenção material à casa do coronel. Os quintais eram ricos em árvores frutíferas onde abundavam laranjeiras, limoeiros, jabuticabeiras, pés de seriguelas, cajás-manga, mangueiras, nespereiras, goiabeiras, abacateiros, e  bananeiras.  No terreiro, repleto de patos, mutuns, angolas e galinhas, um cercado fechava uma horta farta. O chiqueiro, estrategicamente colocado, guardava a sempre esfomeada porcada. Do alpendre, à tardinha, depois do trabalho, os donos da casa, sentados com o cão aos pés, viam o gado voltar em passos vagarosos do pasto.  Quando a noite caía os pássaros em revoada procuravam as árvores e silenciavam. Tudo se aquietava.  O céu escurecia e nas noites quentes os vaga-lumes disputavam com as estrelas quem mais brilhava.

As manhãs começavam antes da aurora. A fumaça da chaminé indicava que o fogão de lenha já estava aceso e com a chaleira de ferro no fogo.  Logo um cheiro doce e gostoso de café se expandia pela casa inteira. No curral as vacas mugiam esperando a ordenha. Os galos, vaidosos,  exibiam seu canto aos primeiros raios de sol. Era o chamado para a  lida do novo dia.

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 14/06/07


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A casa açoriana através dos séculos.

 

Situado na rota marítima das Américas e Índias, o arquipélago dos Açores sofreu desde inicio da sua povoação (séc. XV) influências culturais e arquitetónicas de várias regiões do globo que, adaptadas à necessidade dos primeiros povoadores, à geografia e clima locais, determinaram ao longo dos anos os diferentes estilos de suas casas.

 

Sendo as ilhas vulcânicas e ricas em florestas, a principio, o material mais usado foi a madeira e a pedra basáltica. A construção era rústica, simples e defensiva visando a proteção dos habitantes contra os elementos da natureza e dos piratas. Em geral, as casas eram cobertas de colmo ou de telhas, possuíam um único piso, tinham paredes triangulares com pequenas janelas e portas com a abertura bem acima do nível da rua. Internamente havia uma divisão de madeira em três compartimentos. A entrada ficava no meio da construção, de um lado o quarto de cama e do outro a cozinha, com a lareira, o forno e a amassaria onde se preparava a comida. O piso era de terra batida, com excepção do quarto que tinha o chão e o teto forrados de madeira. Entre o teto e o telhado havia um espaço chamado “falsa”, que se atingia por uma escada manual colocada junto à parede.

 Casa primitiva

Anexo à casa havia um depósito coberto ( cisterna) que recolhia as águas da chuva. No pátio, um poço e uma pia facilitavam a limpeza. Mas, até o início do século XX, era comum as pessoas mais simples lavarem as roupas nas ribeiras.

 

Produzia-se o alimento que se comia. O que a terra não dava se importava, quando as naus chegavam. Para secar o milho construía-se uma armação de madeira em forma de pirâmide chamada “pião”.  No quintal, espaço para a eira, lagar, chiqueiro e horta. Sobre os muros escuros, que dividiam e fechavam a propriedade, a vinha se deitava e açucarava sob a acção do calor do Sol, retido na pedra negra. Galinhas e pintainhos vagavam soltos durante o dia. À noite eram recolhidos à cozinha ou a um pequeno galpão, para protegê-los do vento e do frio.

 

Os anos passaram, as casas ficaram mais confortáveis, mas o estilo predominante ainda era o importado do continente português.  Em dados momentos históricos, os contactos com outras culturas trouxeram mudanças e crescenças que modificaram e enriqueceram as propriedades mais abastadas dos Açores. Aportaram às Ilhas a cantaria, os azulejos de Portugal, o ouro e a prata das Américas, as peças decorativas das Índias, as novas cores e formas sul-americanas, que clarearam os tons tristes e escuros das construções açorianas.

 

Depois dos descobrimentos marítimos portugueses e do domínio filipino, chegou a vez do Barroco. A beleza e a graça da arquitetura vinham das curvas, das figuras e dos trabalhos em talha dourada e policromada. A pedra  basáltica passou a bordar janelas, pórticos e portas das habitações, fazendo contraste com as paredes brancas de cal e com o vermelho dos telhados. Formava-se a aparência mais comum da morada açoriana.

 Casa típica do séc. XVI

 

Nos séculos XVII e XVIII surgem as belas casas senhoriais de dois e três pisos com suas capelinhas ou ermidas, fruto da inspiração ou devoção religiosa dos seus moradores. No rés-do-chão guardavam os coches e os grãos.  No primeiro andar ficavam as câmaras, antecâmaras, as salas de comer, os quartos, copas e cozinhas. As janelas em guilhotina ganharam vidraças vindas da Inglaterra, Os portais dos solares e quintas ostentavam bandeiras, brasões, figuras decorativas em alvenaria, faiança, porcelana ou madeira que enfeitavam de dia e assustavam de noite. Algumas varandas trabalhadas com ripas de madeira lembravam a influência moura.

 

Mas as forças da natureza também actuavam como modificadoras do ambiente. Periodicamente tremores de terra e erupções vulcânicas lançavam as ilhas em convulsão e destruição. E, mais uma vez, novas construções apareciam com características da época substituindo as primeiras.

 

Quando o óleo de baleia representava para a economia mundial o que o petróleo representa hoje, à cidade da Horta aportavam baleeiros de New Bedford e navios mercantes ingleses buscando marinheiros açorianos e deixando mudanças e transformações nas pacatas ilhas. Surgiram as barracas, casas leves, simples, mas confortáveis, em madeira, com base em pedra ou cimento, e janelas grandes, envidraçadas, de inspiração norte-americana. Nas freguesias, as casas mais ricas ganhavam mais um piso, janelas decoradas e portões com enfeites e trancas.

 

Com os retornados das emigrações dos séculos XIX e XX, muitas construções foram feitas e outras passaram por transformações tão grandes, que chegaram a ameaçar o aspecto arquitetónico das ilhas.

 Ponta Delgada, 2007

Atualmente para se construir é necessário obedecer a regras e condições estéticas, na tentativa das autoridades locais de preservar a beleza e as características tradicionais das casas açorianas.

  

 

Maria Eduarda Fagundes Nunes

 

Ref. Bibliog. “ Ambientes Açorianos “ de Francisco  Ernesto de Oliveira Martins


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:48
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Sexta-feira, 15 de Junho de 2007
BRASILEIROS MAIS "++"

 

 

 

Há anos ajudei a relembrar alguns nomes, grandes, da música e da literatura do Brasil. São por demais conhecidos para que se insista em falar, por exemplo, de João Cabral de Melo Neto e seu poema "Morte e Vida Severina" que retrata a fome e o retirante do Nordeste, de forma brilhante, e de muitos outros, que têm em Portugal um sem número de admiradores.

 

Outros há que mais dificilmente se tornam conhecidos do público em geral, mas que pela sua obra e valor intrínseco, alcançaram, talvez não a Iluminação de Buda, mas o título de Mestres que lhes são conferidos por quem os conheceu e por quem com eles continua a aprender.

 

Está a fazer nestes dias oitenta anos um desses inegáveis e Grandes Mestres a quem o Brasil preparou merecidas homenagens em todo o território.

 

Homem de cultura, alegre, simples, comunicativo, grande professor, dramaturgo, romancista, poeta e dono de muitas outras qualidades, os seus contos são uma irresistível mistura de história, tradição, folclore, religião, política e muita graça.

 

Nordestino, onde o sebastianismo continua vivo e cultuado, trouxe para os livros, teatro e cinema, e para as aulas que os alunos veneram, o retrato fiel da vida do povo sofrido daquelas regiões áridas onde a Europa começou a se instalar nestas terras ameríndias. Povo que mantém as suas tradições numa pureza tal que, somente lhes descartando as inevitáveis influências africanas, permitem imaginar o que seria a vida dum Portugal quinhentista.

 

O sebastianismo, o culto do Espírito Santo, o coronelismo, a esperteza nata do homem que tem que sobreviver na caatinga, o cabra-macho, tudo misturado a um humor impagável, fazem dos romances deste Mestre algo que tem que se ler, ouvir e ver.

 

A sua preocupação com as raízes brasileiras é tão autêntica que, disse ele em entrevista ao jornal "O Globo", na sua Fazenda Carnaúba, no sertão da Parnaíba, cria cabras nativas, de quatro cores. Vou começar pela ordem de chegada: pardas e vermelhas, por causa dos índios. Brancas, por causa dos portugueses. Pretas, por causa dos negros, e azuis, por causa dos outros que vieram depois, como os holandeses!

 

Quando se preparavam as celebrações dos "500 anos", em 2000, um grupo daqueles complexados pelo seu sangue português que lhes corre, talvez não nas veias mas "à ilharga", procurou o Mestre, de grande renome, pedindo para encabeçar uma espécie de protesto contra Pedro Álvares Cabral, Portugal, e se pronunciasse sobre a hipotética chegada de Vincente Yañes Pinzón a um qualquer ponto do Brasil, antes dos Portugueses. Resposta: «Quem documentou a chegada dos primeiros europeus? Não foi a carta de Pero Vaz de Caminha? Então esse é o documento oficial da descoberta e o resto são politiquices!» Encerrou a questão... quase, porque em 2002 um exmo. deputedo, o senhor Feu Rosa, propôs no Congresso, um projeto de lei alterando a data da descoberta do Brasil para 26 de Janeiro de 1500, pelo tal Pinzón, baseado "nalguns historiadores"! O congressista, cearense, quer, porque quer, celebrar a chegada dos europeus a Mucuripe... no Ceará.

 

Deixemos estas baixarias e curvemo-nos em sinal de respeito e admiração não só pela obra mas pela personalidade do Grande Mestre ARIANO SUASSUNA.

 

E... não deixem de ler e ver "O Auto da Compadecida" e "A Pedra do Reino"! E muito mais.

 

 

Rio de Janeiro, 14 de Junho de 2007

Francisco Gomes de Amorim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:36
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OS PORTUGUESES MAIS + (2)

 

 

 

No texto anterior até ficou esquecido um dos (muitos) grandes feitos do rei Dom Dinis: a fundação da Universidade, uma das mais antigas da Europa! Se a memória dos povos, o interesse, e o orgulho, porque não?, pela história é fraca, a instrução e educação deveriam "refrescá-la"!

 

Desse mal sofre congenitamente o Brasil, onde continua a considerar-se que de Portugal só vem coisa inferior, e o bom e o bonito tem que ir buscar-se, como era voz corrente há uns anos no Itamaraty, ao "circuito Elisabeth Arden" - Paris, Londres e Nova York.

 

Um dia, perseguido pela ditadura salazarista, chega ao Brasil um homem, professor, a quem de entrada olharam como "coisa" de 2ª. ou 3ª. categoria, mas que num instante se impôs e marcou a sua estadia de um quarto de século neste país, por sua extraordinária visão de pedagogo, político, cientista, tendo como principal bandeira o ter incutido método e ideias que deixava os alunos e colegas desfraldarem as suas pesquisas e conhecimento de acordo com a capacidade e visão de cada um.

 

Nunca se impôs, detestava seguidores, que considerava gente sem personalidade própria, e envolvia os alunos com tanto saber e humildade que os trazia quase "levitando" de interesse nas suas palavras. Para ele a Universidade tinha que ser parte integrante das populações, fazendo com que professores e alunos levassem os conhecimentos adquiridos para o povo, ao invés de se circunscreverem aos seus habitáculos fechados de professor-apostila-aluno, de interesse pouco mais que académico.

 

Foi ele quem abriu as janelas para o mundo africano, indiano e oriental. O Brasil e mais concretamente a Bahia foram assim directamente à procura de uma das suas raízes até então quase ignoradas, mantidas somente pela tradição oral dos descendentes de escravos.

 

Leccionou em mais de meia dúzia de universidades, país afora, entrou pelo sertão a levar algum conhecimento prático a camponeses que viviam em total esquecimento, e sempre manteve a sua linha de pensamento fora dos padrões obrigatórios da época, pró ou contra qualquer dos blocos da Guerra Fria - sovietes ou americanos.

 

Para ele no centro dessa guerra idiota estava o futuro, onde o Brasil, terá um papel primordial. Descendente de quase todos os povos da Europa, que se caldearam em Portugal - celtas, iberos, fenícios e cartagineses, romanos, godos, francos, e com estes, sangue tártaro, berberes e árabes e a partir do século XV até africanos que chegaram a representar em Lisboa mais de 10% da população da capital - e de imensos povos oriundos de diversos cantos de África a norte e sul do Equador, das costas do Atlântico e do Índico, e finalmente em cima das suas raízes ameríndias, o brasileiro, é o povo do futuro.

 

Miscigenado, apesar de haver correntes idiotas a quererem apostar em transformá-lo em racista, o continuador do espírito universal português, o brasileiro, pode realizar o sonho dos seguidores do culto do Espírito Santo.

 

Passou a Era da Lei, veio depois a do Perdão, e caminhamos, lentamente para nós humanos que não temos noção de tempo cósmico, para a Era da Fraternidade.

 

Este, e muito mais era o pensamento dum Grande Mestre que deixou nas mãos de cada um a Liberdade, total, para escolher e trilhar o melhor caminho.

 

Nasceu no Porto em 1906 e foi-lhe dado o nome de George AGOSTINHO Baptista DA SILVA.

 

 

Rio de Janeiro, 10 de Junho de 2007 - Dia da Raça, de Portugal, que se degenera se continuar a pensar que os melhores portugueses da sua história foram os que trabalharam com os pés, com as armas ou com a "santa" inquisição.

 

Francisco Gomes de Amorim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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