Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007
CRÓNICAS DO BRASIL

O alimento e os hábitos alimentares cariocas no século XIX

 

Jean-Batiste Debret

Un dîner brésilien, 1827

 

Alimentar as pessoas, em todas as civilizações, sempre foi uma histórica preocupação. Mesmo com toda a tecnologia e conhecimentos aplicados na produção de alimentos, muitos países ainda passam fome, seja por falta de desenvolvimento ou por políticas económicas e agrícolas equivocadas.

No Brasil, a promessa de dar alimento à população mais carente foi algum tempo atrás, bandeira eleitoral que apregoava que todo o cidadão brasileiro teria direito a três refeições diárias. O milagre é conseguir isso, num país em que parte considerável da população está desempregada e a outra tem a maioria das pessoas ganhando salário mínimo, que mal dá para sobreviver, a não ser pela renda total familiar ou pela distribuição de cestas básicas, eivada por desvios políticos e corrupção.

 

O DIEESE (Departamento Internacional de Estatísticas e Estudos Sociais e Económicos) diz que o individuo para ter uma elementar alimentação precisa de 12 itens na sua cesta básica:

Carne, feijão, arroz, leite, farinha de trigo, batata, pão, café, banana, açúcar, ovos, banha ou manteiga. O mais incrível é saber-se que no tempo do Brasil Colónia, mais exactamente, no século XIX, o brasileiro, mesmo o mais pobre, comia três refeições por dia.

 

Com a chegada de D. João e da Corte portuguesa a 8 de Março de 1808 houve um grande passo no desenvolvimento da Colónia.   Hábitos e costumes europeus foram agregados aos da população e registados pelos artistas trazidos pelo rei. O Rio de Janeiro, base dessa recepção, progrediu, apesar do desconforto inicial com o desalojamento das pessoas, a “pedido” do rei, que punha na entrada das casas requeridas para os nobres, as letras PR (propriedade real) e a que os cariocas criticamente interpretavam como “Ponha-se na Rua”.

 

Certos luxos e refinamentos foram introduzidos pela nobreza e pelos negociantes ingleses, italianos, alemães e franceses. Saraus, passeios, o Rio passa a ter ares europeus num ambiente tropical.

 

Debret, Auguste Saint Hilaire, Eschwege, D’Allincourt e outros não pouparam elogios e criticas aos habitantes da Colónia portuguesa da América. O que sabemos dos usos e costumes da população do século XIX devemos às viagens, anotações e pinturas desses curiosos pesquisadores.

 

No quotidiano carioca da época joanina, a refeição principal era em geral do meio-dia às duas horas. A família reunia-se em torno de uma mesa para comer e conversar. A refeição durava mais ou menos duas horas.  Os escravos domésticos acomodavam-se no chão e comiam da mesa do patrão. Servir na casa era ambição de todo o escravo, pois teria comida mais à vontade.

 

Nas famílias pequenas, a senhora da casa tinha por hábito alimentar os negrinhos, filhos dos escravos, com guloseimas, enquanto o senhor ficava na outra extremidade da mesa, após a refeição, revendo papéis e anotações dos seus negócios diários.

A comida era farta. Legumes, frutas, carnes variadas, uma sopa com substância ou um escaldado de farinha de mandioca substituía o pão, não muito comum naquela região.

Galinha com arroz, quitute muito apreciado por D. João, salada de batatas e cebolas, sempre regadas ao bom azeite português, servida com peixes confeccionados das mais variadas maneiras, eram pratos bastante apreciados principalmente nos feriados santificados.

A feijoada, em geral feita com feijão preto e partes menos nobres do porco, era consumida com farinha de mandioca e frutas (laranja e banana) à vontade pelos mais pobres. Por isso não eram comuns as doenças de subnutrição na população.

Em certas regiões do Brasil era costume acrescentar-se na alimentação uma pasta de pimentas ardidas que era “rebatida” pelo chupar de uma laranja.

Iguarias mais exóticas e estrangeiradas como doces (de arroz com canela), vinhos e café após as refeições, geralmente eram consumidas em casas mais ricas e europeizadas.

As frutas como maracujás, mangas, ananases, pitangas, jambos, melancias, jabuticabas, cajás, fruta-do-conde, laranjas, bananas eram sempre fáceis de se encontrar na mesa dos brasileiros, pois quase todas as casas tinham quintais onde cresciam árvores frutíferas. A água era fresca e saborosa, principalmente nas regiões serranas.

 

Jean-Batiste Debret (1668-1848) francês contratado por D. João para retratar o Brasil e sua população, conta-nos que a hora da refeição era de maneira geral respeitada. A pequena burguesia não atendia fregueses ou pessoas nessa ocasião. Por isso os estrangeiros nesse horário evitavam procurá-la, pois sabiam que iram receber qualquer desculpa ou até mesmo a notícia que não havia a mercadoria procurada. No Rio o empregado comia às duas horas da tarde, após a saída do trabalho. A refeição principal era o jantar servido na casa do negociante brasileiro às 2 horas da tarde e o restante da população ao meio-dia. E havia uma sesta que durava umas 2 a 3 horas, que ninguém interrompia. Já o negociante inglês só jantava às 17 horas, quando fechava o negócio para voltar no outro dia.

O pequeno negociante, na sua casa, comia com os cotovelos na mesa e usava a faca para pegar os alimentos. Já a mulher comia como as crianças, à moda asiática, sem talheres, com os dedos e às vezes com o prato sobre os joelhos. As crianças nas esteiras, de cócoras, se lambuzavam.

 

Com a corte vieram os estrangeiros trazendo outros costumes e hábitos alimentares aos modos de vida do carioca. Surgiram estabelecimentos na Rua do Rosário, centro do Rio de Janeiro, que serviam alimentos. Padarias, confeitarias, hotéis importavam o luxo europeu. Novos produtos alimentares apareceram. Os nativos aprenderam a aprecia-los, a fazê-los e a servi-los. A sociedade com o tempo se refinou, fazia saraus, ia ao teatro. Nas confeitarias encontros de poetas e literatos. O Rio passou a ser a cidade gastronómica e cultural do Brasil.

 

Uberaba, 11 de Fevereiro de 2007

 

Maria Eduarda Fagundes

 

Dados bibliográficos

Crónica de Época. Antologia da Alimentação no Brasil. (Luís de C. Cascudo).


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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007
CURTÍSSIMAS - 1

A  BOA  EDUCAÇÃO 

 

Naquele tempo... segunda metade do século XIX, quando não havia telefones, nem fax, nem e-mails via Internet, as pessoas comunicavam-se por cartas ou pequenos bilhetes, muitas das vezes enviados ao destinatário por portador, para rapidamente trazer de volta a resposta.

Era assim que, por exemplo, Bulhão Pato, que morava na “outra banda” de Lisboa, mandava convidar uns quantos amigos para uma almoçarada em sua casa. Almoço que ele fazia questão de preparar! Deixou o seu nome ligado à gastronomia, com as famosas “ameijoas à Bulhão Pato”, e, segundo me dizia, há muitos anos, um dos seus convivas, quando alguém não lhe elogiava os petiscos, o anfitrião amuava, e o “deselegante” podia ter a certeza de não voltar a ser convidado!

Francisco Gomes de Amorim, meu xará e bisavô, foi contemporâneo e amigo desta gente, que fazia questão na elegância das palavras e nas demonstrações de amizade.

 Francisco Gomes de Amorim, bisavô, pintado pelo seu bisneto Francisco Gomes de Amorim (caneta de ponta de feltro)

Não deixavam de ser mordazes e até ferozes ao combater uma idéia ou o governo quando fosse necessário, mas sempre o cuidado com a nossa rica língua portuguesa, era seu apanágio.

Uma das cartas mais bonitas que eu vi em toda a minha vida (e olhem que vai sendo longa) escreveu-a Julio César Machado (1835-1890) a meu bisavô. Não era bem uma carta. Letra grande, linhas inclinadas para ocupar bastante espaço da folha, dizia assim:

 

Amorim

O que tu queres é apanhar um abraço em papel ofício!

Ele aqui vai, até porque não há outro aqui na repartição.

Teu do c.ão

Julio C. Machado

 

Quanta elegância, amizade e carinho numa folha de “papel ofício”, dobrada em quatro e enviada, por portador a um amigo!

Será que perdemos esta qualidade? Mesmo no século da tecnologia, o romantismo continua a ser tão bonito. Infelizmente raro!

 

Rio de Janeiro, 21 de Fevereiro de  2007

Francisco Gomes de Amorim


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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007
MUROS NA NOSSA CONSCIÊNCIA

            

       Quando, em 9 de Novembro de 1989, caiu o ominoso Muro de Berlim, selando o acto oficial da reunificação das duas Alemanhas, garrafas de espumante rebentaram e foguetes estalejaram. A alegria foi particularmente esfuziante nos dois países até então desirmanados, mas contagiou o mundo ocidental em geral.

No entanto, em outro quadrante civilizacional continuava intacto um outro muro abominável a separar dois povos. Refiro-me ao muro (vedação de arame farpado) de cerca de 250 km que separa as duas Coreias pelo paralelo 38. Mas, implantado em chão europeu, o Muro de Berlim era um tumor muito mais doloroso na consciência da humanidade. Dir-se-á que rasava a jugular da civilização ocidental enquanto o da península da Coreia não passa de um quisto nos subúrbios do mundo. A extirpação do primeiro marcou o fim da guerra-fria e pintalgou o coração do mundo com cores da mais viva esperança. O entusiasmo foi tão contagiante que até homens de reconhecido traquejo na cena internacional se deixaram levar na crista da onda.

      Todavia, a realidade não tardou a vir ao de cima, surpreendente realidade, ou talvez não, qual crisálida que rasga o seu invólucro para libertar um novo ser. Enquanto o problema do Médio Oriente continuou sem solução credível, a nova realidade desvendou logo novos e diferentes cenários de conflito: a violenta implosão da República Socialista Federal da Jugoslávia em 1991, com os episódios horrorosos da Bósnia-Herzegovina e do Kosovo, que não se julgavam já possíveis em plena Europa; a deflagração em 1991 da primeira guerra do Golfo, mais tarde reiterada em 2003 (invasão do Iraque) em outro capítulo, prosseguindo com nova mas não menos medonha fácies nos nossos dias, numa escalada de acções terroristas que parece não ter solução viável; o tenebroso atentado terrorista da Al Quaeda de 11 de Setembro de 2001 em Nova York, accionando a ignição do terror hodierno em que vivemos; a intervenção retaliadora no Afeganistão para derrubar o governo dos Talibans e destruir a Al Quaeda, mas sem extinguir o lume brando do conflito; a guerra da Chechénia iniciada em 1994; e, sobretudo, em África, com os odiosos, sangrentos e quase permanentes conflitos de origem étnica, sobretudo no Planalto dos Grandes Lagos, mas também no Sudão, no Chade, na Somália, no Congo, para não referir os distúrbios de menor duração, mas sempre imprevisíveis, que ocorrem na África Ocidental (Libéria, Serra Leoa, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, etc).     

      Portanto, o fim da guerra-fria não aliviou o ambiente de crispação e confrontação, antes parece tê-lo acirrado de forma insidiosa. É como se tivesse sido aberta uma válvula de escape para caucionar toda a libertinagem na cena política mundial. De início, ainda se pensou que a erosão do bloco leste pudesse dar lugar a uma nova e mais concertada ordem mundial, expurgada da hegemonia política de qualquer potência, ou seja, a emergência de um mundo multipolar. Mas quem tinha a faca e o queijo na mão não entendeu assim. Os Estados Unidos, pois claro, a superpotência subitamente triunfante, não quiseram deixar os seus créditos por mãos alheias e não tardaram a reivindicar a sua hegemonia. Se com o presidente Clinton houve uma fase inicial de aparente introversão estratégica, pautada por uma certa hesitação sobre o novo papel dos Estados Unidos no teatro mundial, as dúvidas caíram por terra quando aquele país não diminuiu praticamente o seu orçamento militar e começou a intervir em força no plano externo e em várias regiões. Ainda assim, nada que se visse como prelúdio da arrogância que o segundo George Bush viria a assumir mal conquistou o poder, iniciando uma postura que se tem classificado como “unilateralismo” ou “isolacionismo”. Basta lembrar a posição de Bush face ao Tribunal Penal Internacional e ao Protocolo de Quioto. 

      Com a queda da economia marxista, a palavra “globalização” entrou no nosso léxico na década de 1990, quando os novos meios de comunicação electrónicos, os investimentos e o marketing a nível mundial abriram as portas a uma economia que se pretendia global. Tendo como objectivo esbater o fosso entre o terço do mundo que vive na abastança e os dois terços que vivem em graus variáveis de miséria, a globalização vai, no entanto, dividindo opiniões. Não é um tema pacífico. E que resultados se viram até agora, a não ser cavar-se o fosso cada vez mais fundo, sem solução à vista para os problemas do mundo mais pobre? Segundo dados oficiais, o flagelo da fome atinge cerca de 800 milhões de pessoas nos países subdesenvolvidos, cerca de 270 milhões nos países em transição e cerca de 11 milhões nos países desenvolvidos. Estima-se que 820 milhões de seres humanos em todo o mundo sejam vítimas de grave subnutrição. Em África, o continente mais martirizado, são pouco animadoras as perspectivas de desenvolvimento, porque se a agricultura podia em muitos países ser uma arma estratégica para o combate à pobreza, o seu crescimento sucumbe face à esmagadora concorrência dos países ricos (UE e EUA), cuja agricultura é fortemente subsidiada pelos respectivos governos. Quando se sabe que há já populações em África com um consumo diário de apenas 57 dólares, choca lembrar o desperdício permitido em outras paragens.

      A situação lastimosa prevalecente no chamado terceiro mundo não pode modificar-se se as ajudas que recebe do mundo rico não excedem os 0,25 por cento do PIB daquele. Seria necessário muitíssimo mais, mas é a própria FAO que não prevê que a fome possa extinguir-se nem daqui a dezenas de anos. E o resultado é esta demanda que diariamente milhares de seres humanos tentam empreender em direcção aos países ricos para fugir à pobreza, calculando-se, segundo as Nações Unidas, em 200 milhões o número de emigrantes em todo o mundo. Esses 200 milhões já lá estão, mas receia-se a grande retaguarda que vai engrossando assustadoramente os seus efectivos. O futuro será negro se não subirem ao palco das decisões internacionais mais homens da envergadura moral de Muhammad Yunus, o prémio Nobel da Paz de 2006. Homens como estes podem reformatar a consciência das grandes empresas transnacionais que dominam as finanças e a produção mundial, sob a égide de um capitalismo globalizado. Por enquanto, o que se vê é criar riqueza, mas não promover a sua distribuição equitativa; globalizar os mercados, mas sem verdadeira solidariedade; eliminar barreiras comerciais, mas ao mesmo tempo impedir a circulação das pessoas; defender o livre mercado como um direito, mas dificultar o acesso aos direitos básicos.

 Muhamad Yunnus: a evidência do desenvolvimento endógeno

      E perante esta (des)ordem mundial, perante a ineficácia das políticas ou a falta delas,  como reage o mundo rico? Cerca-se com muros. Protege-se para não ser invadido por aqueles que violam as suas fronteiras para tentar mudar o seu destino. Apetece dizer que não houve suficiente exorcismo à beira das ruínas do Muro de Berlim, antes pelo contrário, tudo indica que o feitiço se virou contra o feiticeiro, donde se pode dizer que a globalização está a produzir um grande e terrível paradoxo. E é assim que vimos construir o muro na fronteira dos Estados Unidos com o México, o muro israelita na Cisjordânia, o muro de Marrocos e os muros de Ceuta e Melilla, enquanto o da Coreia continua impregnado do cimento ideológico de quem o mandou construir. Não vale a pena falar do “muro” que envolve Cuba, por obra e graça do seu presidente, porque isso é já do domínio da arqueologia.

 Fronteira entre os México e os EUA: globalização sim, mas ...

      À excepção dos muros de Israel, da Coreia e de Marrocos, que têm finalidades mais de ordem política e de segurança, os muros dos Estados Unidos e os de Ceuta e Melilla destinam-se a barrar as ondas de emigrantes ilegais que demandam a direcção norte. No caso dos de Ceuta e Melilla, estão em causa os emigrantes africanos, magrebinos e subsaharianos, mas a esses muros há ainda que acrescentar os “muros” flutuantes constituídos pelas unidades navais que patrulham as fronteiras marítimas do Sul da Europa, com especial destaque para a Espanha e as ilhas Canárias. O muro construído pelos Estados Unidos, iniciado há pouco tempo e não sei se já concluído, visa impedir o fluxo da emigração clandestina de mexicanos. Com uma extensão de 1.100 km e um custo avaliado em cerca de 6 biliões de dólares, este muro será porventura um dos mais tristes paradigmas dos nossos dias, a prova real de que a globalização pode não passar de uma falácia ou então de um mero artificio para ocultar a feição mais descarada do capitalismo globalizado. Ou então terá razão o académico Samuel Huntington com a sua teoria do “choque das civilizações”, com o argumento de que a globalização é um processo de expansão da cultura ocidental e do sistema capitalista sobre os demais modos de vida e de produção do mundo. Se assim é, os alinhamentos passarão a ser em bases civilizacionais em vez de ideológicas e nacionais. E se a China vier a breve trecho a tutelar o outro eixo civilizacional, poderá então confirmar-se a visão de Huntington.

      Por enquanto, auspiciamos que a União Europeia não siga o exemplo dos Estados Unidos e venha a murar também toda a sua orla meridional, o que seria a prova derradeira de que o mundo ocidental perdeu o norte. Mas mais preocupantes que muros de alvenaria ou de arame farpado são os muros que erigimos na nossa consciência.

 

                                      

Tomar, 10 de Fevereiro de 2007

 

 Adriano Miranda Lima



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Sábado, 24 de Fevereiro de 2007
CURTINHAS XXXIV

Reflexões sobre Democracia: Democracia e Modelo de Mercado

v     Tal como a democracia, também o modelo do mercado é uma forma de organização social que integra espontaneamente a diversidade (das preferências individuais à oferta de bens e serviços) e a mudança (na maneira como o produto é distribuído, e o excedente, orientado).

v     E tal como a democracia, também o modelo de mercado não conduz a nenhum óptimo (aqui, espero que os leitores mais devotos da teoria económica venham interpelar-me a propósito do óptimo paretiano).

 Vilfredo Pareto (1848 - 1923)

v     A virtude de ambos torna-se realidade quando evitam que situações indesejáveis se perpetuem: a todos iguais oportunidades; a cada um o seu resultado – e a convicção de que o novo dia trará oportunidades renovadas.

v     O modelo do mercado pouco tem a ver com o laissez faire ou com a ideia de que qualquer um, deixado a si próprio, acabará sempre por encontrar “o seu caminho” por entre os outros.

v     Pelo contrário, exige regras claras e universais – e exige-as a dois níveis: (a) a priori, para que cada um possa manifestar validamente, e com igual efeito, o sentido da mudança que deseja; (b) a posteriori, para corrigir a tendência centrífuga (principalmente, através da dinâmica das restrições monetárias) que vai empurrando continuamente uns quantos para fora do mercado (excluindo-os, por esse facto, de participar no processo produtivo e, consequentemente, na distribuição do produto social - depois de os ter afastado já das decisões sobre que orientação dar ao excedente).

v     Dito de outro modo, regras que assegurem a igualdade de oportunidades para todos (a level playing field, na feliz expressão anglo-saxónica), e regras destinadas a reintegrar sistematicamente os que ficarem marginalizados e excluídos (para manter intacto o produto potencial).

v     Na origem de tudo isto está a divisão do trabalho (e o consequente abandono da auto-suficiência familiar), que não é compatível com toda e qualquer forma de organização social. No limite, só dois modelos conseguem realmente sustentá-la: o modelo do mercado e o modelo do ditador iluminado.

v     Os pontos que tornam possível comparar estes dois modelos são: (a) o primado das preferências individuais (princípio eminentemente ideológico); (b) a variabilidade (ou diversidade) das preferências individuais (uma evidência empírica); (c) o facto de o ciclo real (produção/distribuição) ser um processo “no tempo” durante o qual as preferências individuais variam, ou podem variar (outra evidência empírica); (d) a inacessibilidade da informação completa sobre algumas condicionantes da produção - mas, acima de tudo, sobre as preferências individuais, em cada momento (uma racionalização a partir da experiência, e a diversidade, uma vez mais).

v     De alguma maneira, o modelo de mercado acolhe a incerteza e o risco como ingredientes essenciais (ou inevitáveis, tanto faz) da actividade económica - e com eles procura conviver, recorrendo às regras que referi mais acima. Daí ser ele frequentemente acusado de incentivar excessos de produção – de ser o modelo do desperdício.

v     O modelo do ditador iluminado, pelo contrário, ao pressupor a informação completa (ainda que desigualmente distribuída), mais do que ignorar a incerteza, rejeita-a – opondo-se activamente (apetecia-me escrever militantemente) a tudo o que considere ser fonte de risco (como a diversidade e a variabilidade das preferências individuais, por exemplo). Neste ponto, Salazar e tantos dos que mais acerrimamente se lhe opunham coincidiam.

v     É, por conseguinte, a atitude perante o risco (gerado, em larga media, pelas características das preferências individuais estimuladas pela inovação, mas podendo ter também causas naturais) a pedra de toque que distingue estes dois modelos um do outro.

v     Acontece que, quando se condiciona directamente as preferências individuais, “congelando-as”, para desse modo abolir o risco (ainda que sob a melíflua intenção de poupar as pessoas a consequências traumatizantes), é o modelo do ditador iluminado que está a falar mais alto.

v     E é ainda o modelo do ditador iluminado a prevalecer quando se exorciza a sujeição de cada um a restrições de natureza monetária (quem tem dinheiro, compra; quem não tem dinheiro, sonha) - sem as quais, bem vistas as coisas, não seria possível nunca compatibilizar produto disponível e somatório das preferências individuais espontaneamente manifestadas.

v     A alternativa ao constrangimento das restrições monetárias é, recordo, ou o desprezo pelas preferências individuais e pela livre escolha (pela diversidade, em suma), como faz o modelo do ditador iluminado, ou a apropriação violenta que estilhaça a divisão do trabalho.

v     A ironia é que o modelo do mercado também não dispensa um ditador iluminado na esfera nominal (do qual se espera que fixe, se não o volume, pelo menos a variação da liquidez em circulação e o preço de a emitir ou criar). Feitas as contas, lidar com a incerteza e o risco, afinal, não é tão fácil como à primeira vista parece. (cont.)

Lisboa, Fevereiro de 2007

a. palhinha machado


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 20:12
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007
CRÓNICAS DE MOÇAMBIQUE

Turismo Cinematográfico

 

A eminente aposta que pode valer a pena abraçar

 

 

 

O cinema é um sector muito dinâmico, pois movimenta avultadas somas de dinheiro, equipamentos e pessoas. Nos últimos anos o continente africano tem sido uma opção cada vez mais apetecida pelas grandes companhias cinematográficas produtoras e distribuidoras do ocidente, em particular a Walt Disney, Miramax Films, Warner, Warner Bros, Motion Pictures, Fox, Touchstone, etc.

 

O cinema pode ser incluído no segmento do turismo cultural, pois a indústria cinematográfica serve-se dos cenários naturais, dos hotéis e de outras facilidades turísticas e culturais para as suas produções. Convencionou-se assim o turismo cinematográfico como parte do segmento cultural e, consequentemente, como turismo cinematográfico.

 

Estas estratificações e oportunidades propiciaram uma determinada especialização do mercado cultural. Assim, estabeleceram-se nichos de mercado a montante, enquanto que a jusante a cadeia se consolidou. Alguns países tornaram-se referências obrigatórias na cadeia de produção e de festivais de filmes. Países como os EUA (Hollywood), Índia, Holanda, China e Nigéria viraram grandes produtores e centros cinematográficos. Outros como França (Cannes), Itália (Milão e Veneza) e até o Burkina-faso (Ouaguadougou) simplesmente transformaram-se em sedes permanentes de festivais internacionais de cinema.

 

 Moçambique tem o pôr-do-Sol mais bonito do mundo

A indústria da sétima arte estruturou-se e quem se beneficiou ao longo dos tempos foi o próprio turismo cultural. Os países criaram as bases para as produções e para os festivais. Tanto nos países produtores como nos países organizadores de festivais de cinema, cresceram as chegadas internacionais e a oferta turística.

 

No nosso continente o destaque vai para o Burkina-faso, como sede de festivais e, por tabela, para a Nigéria – que criou a Nollywood – e a África do Sul como centros produtores de referência. A África do Sul já é detentora de um Grammy com o filme Tsotsie.

 

Inicialmente, conhecida como Alto Volta, o Burkina-faso ou Terra dos Homens Incorruptíveis – vale lembrar – transformou a sua capital Ouagadoucou na maior sala de cinema do continente. País pobre, sem grandes recursos e sem a menor propensão para as agro-indústrias, o Burkina-faso teve no seu Presidente, o malogrado Thomas Sankhara a visão necessária para fazer do cinema não apenas um mercado, mas, e sobretudo, um veículo de desenvolvimento. Não poderia estar mais certo, porque rapidamente o Burkina-faso virou salão nobre, e do festival, resultaram outras tantas produções locais que amiúde preenchem espaços de entretenimento para o mundo.

 

Waga, como é carinhosamente conhecida a capital do Burkina-faso, é visitada por milhares de cineastas e curiosos ano sim e ano não.  A economia local gravita em torno do festival. Facturam as companhias aéreas, as produtoras locais, os transportes terrestres, os hotéis, as casas de moda e as nocturnas, para não fazer referência ao sector de restauração e bebidas. 

 

Antes do continente africano ter passado para a cobiça das produtoras ocidentais, a Ásia foi, igualmente, procurada. Vários filmes e documentários de longa e média metragem, mostrando os cenários sagrados e virgens da Índia, Indonésia, Tailândia, Tibete, Malásia, etc., serviram para rodar um sem número de películas. A Índia até chegou a ser o maior produtor mundial de filmes. Produções como Sandokam, Apocalipse Now (Oliver Stone), O Último Imperador (Bernardo Bertolucci), Fire, Earth (Deepa Nehta), Kamasutra e outros filmes, incluindo as séries de acção de Bruce Lee, foram rodadas na Ásia.

 

Com o advento das novas tecnologias e a possibilidade de conversão de cenários naturais em mentiras que apenas o cinema sabe fazer, as produtoras passaram a procurar países onde a relação custo-benefício passou a ser o segredo do negócio. Quer dizer, com a informática tornou-se fácil modificar gravações rodadas em locais sem montanhas ou lagos e, posteriormente, incorporarem-se tanto uns como outros, como parte do cenário. Então, a questão fundamental torna-se a seguinte: países cujos preços são relativamente acessíveis, e onde existam facilidades e garantias dos governos locais para viabilizar as produções.

 

A busca do continente africano, pelas grandes produtoras cinematográficas, sobretudo as ocidentais, escalou a África do Sul, logo após a época da democratização. Mais tarde, o Zimbabwe ganhou visibilidade. No começo dos anos 90, o Zimbabwe era espectacularmente competitivo e possuía um bom conjunto de técnicos que asseguravam as produções, que em circunstâncias normais, exigiriam largas somas. Infelizmente, a crise económica forçou as produtoras a procurarem novas paragens. Moçambique aproveitou-se bem da crise e, produto da tranquilidade política, dos seus cenários ainda por explorar, atraiu desde as cadeias de televisão até as produtoras.

 

Numa sentada são rodados Patrice Lumumba (2000), Jóia de África (2002), Preto e Branco (2003), Costa dos Murmúrios (2004), Catch a Fire (2006), Fronteiras de Sangue, Aly (2002), O Intérprete (2005) e mais recentemente, Diamantes de Sangue (2006). Estes são apenas alguns, de algumas dezenas de produções já feitas no nosso país.

 

Duvido que já nos tenhamos sentado para debater sobre os benefícios directos e indirectos que estas produções trouxeram ao País. Não devem ser poucos, mas fica sempre a sensação de um vazio após cada produção e também de que poderíamos ter aproveitado um pouco mais. De uma coisa temos a certeza – o país passou a ser mais conhecido além fronteiras, podendo atrair outras grandes produções. Os técnicos locais ficaram mais expostos a trabalhos internacionais e os figurantes lucraram algumas verbas.

 

A grande questão subjacente é sobre os lucros do nosso Instituto Nacional de Cinema. A entidade regula o sector, mas de uns tempos a esta parte confronta-se com dificuldades até para manter o espólio do País. Também me questiono sobre a oferta de equipamentos que o país já deveria possuir para não ficar dependente da vizinha África do Sul.

 

A indústria cinematográfica é sensível a aspectos como estabilidade política, social e económica. Enquanto o boom perdurar voltaremos, certamente, a ter muitas mais companhias a escalar o nosso país. Ao Ministério do Turismo caberá a responsabilidade pela coordenação dessas produções. Por regular, entenda-se, um papel de facilitador e interlocutor directo com entidades como Interior/Polícia, e a Cultura, para além, naturalmente, das cadeias de hotéis e dos Municípios.

 

Facilitar o turismo cinematográfico passa, também, pela promoção do potencial existente no país. Os recursos técnicos, a combinação dos cenários do litoral com os do interior e as cidades que tipificam diversas cidades africanas. A estes argumentos, acrescente-se a simpatia e a hospitalidade deste povo. Por conseguinte, existe a necessidade de atrair essas grandes produtoras, abrir as portas do país para as grandes produções e assegurar que os ganhos cheguem também ao cidadão comum.

 

Como ainda não podemos produzir em escala comercial – quem sabe – seria de bom-tom que estas produções voltassem ao país para um grande festival de cinema que passaria pelas salas do norte, centro e sul, bem à maneira do cinema móvel que um dia palmilhou as aldeias deste país.

 

 

Jorge Ferrão

Coordenador Regional da Área de Conservação

Transfronteiriça do Limpopo,

Ministério do Turismo



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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007
Crónica de uma avó à maneira antiga

 

 

Quando jovem achava as brincadeiras e conversas dos velhos com seus netos pura teatralidade, uma verdadeira chatice. Porém me intrigava ver a empatia que existia entre eles, os idosos e as criancinhas de tenra idade. Agora, bem menos jovem, na fase da vida que os psicólogos chamam da terceira idade, com meu neto vejo-me fazendo tudo aquilo que intimamente criticava nas pessoas da minha idade.

Ainda socialmente produtiva, quando Gabriel vai pra minha casa paro tudo. Nessa ocasião passamos a viver num mundo à parte, de inocência e fantasia . Curioso, logo me chama, com ar doce de quem espera tudo menos um não:

Vovó vamos para a varanda, vamos ver aonde moram as formigas? E lá vou eu para o jardim observar aqueles animaizinhos quase microscópicos que na nossa região são praga e que tantos dissabores trazem para os agricultores e suas plantações. Miolinhos de bolacha e de pão espalhamos pelo chão, e esperamos pouco tempo para ver as minúsculas criaturas aparecerem e carregarem uma coisa muito maior e mais pesada que elas, num verdadeiro milagre da natureza sem explicação.

Grandmother

Uma avó a dizer "não" faz o mesmo som que a dizer "sim".

 

 

Cansados de observar as formigas, que seguem um caminho entre elas pré-codificado, outra brincadeira se impõe. E logo meu neto pede para brincar com o macaco Tião. E  então vasculhamos o armário dos brinquedos e fantasias em busca de um simpático fantoche de rabinho comprido e calção de listras vermelhas, velho companheiro. Por “coincidência”, Tião tem seis anos, a mesma idade do Gabriel. O macaquinho faz pirraça e nas brincadeiras quer ser sempre o primeiro. Fala tudo que quer e, quando se vê enganado, ameaça deixar a brincadeira, coisa que faz Gabriel ceder e aceitar que o fantoche também tenha a sua vez. Jogos, corridas de tartaruga (a única que a avó consegue fazer), desenhos, pinturas, estórias, risos, pouco siso, e até futebol de dois, com vovó sempre perdendo para o maioral Gabriel. E assim passa a tarde de domingo, até a hora do banho e do lanche, após os quais ele parte e a casa volta ao normal.

São momentos de magia em que vivemos em total harmonia, onde dificilmente ele escuta a palavra não. Que diferença dos tempos em que eu mãe, educadora e provedora passava mais tempo corrigindo os meus filhos, que me divertindo com eles. Dizem os psicólogos e entendidos que esse relacionamento mágico entre o velho e a criança vem de encontro à fase da vida em que os dois estão. A criança procura alçar o mundo que ainda não conhece e não pode dominar. Enquanto para o velho esse mundo não tem mais a importância de outrora, já não lhe importa o poder, e a ele já está imune, achando graça na força que a criança faz para se afirmar quando diz EU faço, EU vou, EU quero, pensando que é um herói ou um valentão. É uma encenação, até nas forjadas brigas quando o avô corre atrás do neto, fingindo querer pegá-lo e ele na frente, correndo, rindo, fingindo que está com medo de ser apanhado.

Mas o tempo passa. O velho cada dia mais enfraquece e a criança ao contrário, ganha força, cresce. A magia entre eles aos poucos desaparece. Como um jovem potro, precisa ser com carinho, mas firmeza, educado. As regras de bom convívio é preciso aprender. .

Chega a adolescência, as amizades e os relacionamentos sociais tomam importância cada vez maior na vida do jovem. O velho é posto de lado, passa a ser visto como um inútil, ou um acomodado As estórias contadas à noite, tantas vezes repetidas, antes dele dormir, logo são esquecidas, até que um dia, no ciclo da vida, quando a vez dele chegar, estórias também ele vai contar.

 

Uberaba, 14/2/07

 

Maria Eduarda Fagundes


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Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007
AS MULHERES CURAM A GRIPE DE PÉ



Sátira aos HOMENS quando estão com gripe

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisanas e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

 

 

ANTÓNIO LOBO ANTUNES



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:17
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Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2007
CRÓNICAS DO BRASIL

PAC 3

 

Este PAC, o tal Plano de Aceleração do Crescimento, progride como um verdadeiro colírio para os ouvidos, mesmo com o perdão dos médicos. Para os olhos não é, porque nada se vê.

O Governo, o mesmo, que retomou posse dia 1° de Janeiro, ainda não está formado. O nosso grande líder ainda não acabou de escolher todos os membros do seu Governo. Faltam ministros, ministérios não faltam. São vinte e um! O grande líder tem estado de férias – o que é um bem para o país – e alguns dos ministeriáveis também continuam no descanso. Parece que os trabalhos vindouros serão pesados!

Voltemos ao PAC. Ao revés do que seria de imaginar, o PAC sair do consenso e necessidades dos Estados, e em cada Estado dos Municípios, não saiu. Nós, que temos imaginação demasiado fértil, é que pensamos que assim deveria ser. Mas o nosso grande líder não pensa nem assim, nem de outro jeito. Enquanto esteve – e está – de férias, a dona Dilma, chefa do gabinete do dito, sozinha, elaborou o Plano. Grande dona. A prática destes planos, e de outros, como assaltos a residências e bancos e sequestros de pessoas, tem ela de sobra, do tempo que era do contra. Agora que é a favor não necessita da opinião de ninguém para elaborar um plano de desenvolvimento de um país deste tamanho, tendo-se esquecido, no meio de tanta preocupação – o que é natural, coitadinha da dona Dilma – do Meio Ambiente!

 

Tudo isso não pode causar espanto para quem sempre se moveu tão bem em qualquer ambiente.

 

Além disso a preocupação chave no momento (pode ler-se também “Chavez”!) é levar toda a administração do país a pensar, e agir, em termos soviéticos, tentando alcançar o tremendo êxito dos países que atravessaram essa experiência, como os que compunham a falecida URSS, e ainda a Coreia do Norte, Cuba, e em breve, a Venezuela. A Bolívia está numa sinuca sem bolas, a Argentina a caminhar para pior do que no tempo de Peron e o Brasil, aahh, o Brasil, continua a sambar com PACs e sonhar com futuro! Sambar é fácil, sonhar é ainda mais, mas redistribuir renda... isso, tá quieto.

 

Dá-se o Bolsa Família, dão-se refeições populares por R$ 1,00 (com contratos, sempre chorudos entre o fornecedor das refeições e os governantes! O trivial), desarmam-se as Forças que deviam ser Armadas, procura-se mentalizar as populações carentes que o paraíso está a chegar, e nos entrementes o que foi já Governo nem sequer sabe ser oposição e vão-se vendendo, individualmente, ao grande líder para que este obtenha maioria na Câmara dos Deputados e possa depois fazer o que lhe derem (não é o que lhe der) na gana.

 

O partido que podia, e devia, fazer frente ao PT, foi implodido por ambições pessoais e não tem mais salvação, de modo que os PTs da vida navegam nas águas que querem. Por quanto tempo ainda? Há dois anos o big líder foi ao Gabão, um país que não tem o mínimo interesse para o Brasil, para perguntar ao Sr. Bongo como se faz para ficar quarenta anos no poleiro!

 

  Que tisnado anda o Chavez. Ou será o Fidel depois de mexido pelos médicos espanhóis?

O Chavez já afirmou que quer ficar vinte e cinco. Como não tem mais câmara de deputados porque estes bestalhoides lhe deram carta branca para governar por decretos, que pode ficar até morrer. Como o Fidel. Aqui? Comprados todos os pseudo adversários... não é necessário chegar a tanto. A Câmara aprovará tudo em troca de privilégios. Uma festa.

Rio de Janeiro, 6 de Fevereiro de 2007

Francisco Gomes de Amorim 

 

 


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 15:04
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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007
OS TERRENOS ALAGADOS NA OTA

O "Público" publicou na primeira página do número de ontem, 22 de Novembro, uma fotografia de terrenos, neste momento alagados, da área prevista pelos "Aeroports de Paris" (ADP) para implantação do aeroporto da Ota. Se este aeroporto vier a ser construído será, certamente, a maior construção da Europa em leito de cheias.

Mas convém dizer mais o seguinte: a cota dos terrenos que aparecem na fotografia é de cerca de 5 metros acima do nível do mar e a cota prevista pelos ADP para a plataforma do aeroporto é de cerca de 30 metros. Será, assim, necessário fazer um aterro com cerca de 25 metros de altura sobre os terrenos representados.

Estes terrenos, na zona das ribeiras, são terrenos argilosos e o *firme* (bed rock) encontra-se a cerca de - 20 metros. Os estudos até agora divulgados parece revelarem a intenção de usar para fazer o aterro o "tout venant" retirado das zonas com cotas mais altas.

Mas, a construção de aeroportos tem exigências muito especiais. No caso da Ota, a consolidação das pistas exige: ou o uso de estacas com cerca de 50 metros; ou a
substituição por areias de todo o material argiloso do leito das ribeiras acima do bed rock à semelhança do que foi feito no aeroporto de Macau; ou a consolidação dos terrenos argilosos por meios mecânicos, processo muito moroso e delicado, sobretudo num local sujeito a inundações.

Convém perguntar aos "Aeroports de Paris" , que ganharam o concurso para assessorar a NAER, qual é a solução que preconizam ou, então, se assumem a responsabilidade de dizer que o "tout venant" pode ser depositado no leito das ribeiras sem nenhuma preparação prévia. Só depois será possível fazer um orçamento credível, o planeamento do estaleiro e a calendarização da obra.

23 de Novembro de 2006

 0003384a

António Brotas

(Professor Catedrático Jubilado do IST)


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Domingo, 18 de Fevereiro de 2007
DESPENALIZAÇÃO DO ABORTO

RESULTADOS DO REFERENDO DE 11 DE FEVEREIRO DE 2007

 

 

 

Do site do Centro Nacional de Eleições extrai-se que os resultados foram como segue:

 

SIM   =  2.238.053. votos = 59,25%

NÃO =  1.539.078. votos =  40,75%

Brancos =   48.185. votos =   1,25%

                      Nulos  =     26.297. votos =   0,68%                      

                                 Abstenção = 4.981.015.  =  56,39%

 

 

Abstenção superior a 50% implica que o referendo não seja vinculativo.

 

Não há legitimidade democrática para alterar a Lei em vigor.

 

 

Lisboa, Fevereiro de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

NOTA DE PÉ DE PÁGINA:

 "Deixa-me cá concordar com o homem uma vez na vida, antes que ele se demita!"


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:32
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