Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007
DE ATAQUES CIRÚRGICOS A GUERRAS SUJAS

                                          

       No Verão do ano passado, quando fruía pacatamente a “silly season”, não me sentia com a paz interior de outros verões. Estando ao rubro o conflito no Líbano, dificilmente poderia imaginar nessa altura as delícias de um inebriante pôr-do-sol sobre o extenso deserto da Arábia ou a beleza acolhedora de um oásis da Síria com as suas tamareiras e figueiras. No entanto, estas imagens poderiam ser o pano de fundo de uma vida de paz e prosperidade de quem teve o benefício da abundância de recursos petrolíferos que Deus, nosso senhor e pai de todas as criaturas, decidiu um dia entesourar nos extensos areais do Médio Oriente.

     Mas não, abri um dia o televisor e atingiu-me brutalmente o choro entrecortado de uma rapariguinha libanesa de 10 anos, única sobrevivente da bomba deflagrada perto do automóvel em que se fazia transportar com sua família. Logo depois, foi o olhar alucinado de uma mãe libanesa que queria fugir do inferno com os seus cinco filhos e não tinha transporte. E tudo isto porque o Líbano estava a ser sistemática e “cirurgicamente” bombardeado por Israel como táctica eleita para atingir os santuários do Hezbollah sem ter de entrar no território, em particular nas cidades, para se envolver num confronto de peito aberto com as forças daquela organização. São os chamados bombardeamentos ou ataques cirúrgicos, lançados por meio aéreo ou por plataformas terrestres contra alvos referenciados em áreas habitadas.

      De há uns anos a esta parte, tornou-se paradigma das estratégias e tácticas das guerras contemporâneas o chamado “ataque cirúrgico” contra alvos de importância crítica para o inimigo, a fim de o desgastar, destruir ou reduzir o seu potencial de combate, ou então para amolecer o seu moral e levá-lo a render-se. Mas este conceito configura, acima de tudo, um estratagema que se destina a evitar ou minimizar o emprego das forças terrestres, de modo a acautelar a ocorrência de baixas significativas, dada a normal reacção negativa da opinião pública dos países ocidentais sempre que as baixas atingem proporções volumosas entre as fileiras dos seus exércitos. E com mais clamor quando são guerras “inventadas” ou com tíbios propósitos políticos que não encontram acolhimento consensual na sociedade.

      Mas se o ataque cirúrgico poupa a vida do soldado porque o preserva do confronto directo com as forças do outro lado, o que estatisticamente significa a probabilidade de baixas mais volumosas, tem o contraponto de pôr em risco inevitável as populações civis no seio das quais se resguardam as zonas dos alvos militares. É que nem o instrumento tecnológico é infalível nem o olho “cirúrgico” do bombardeiro ou artilheiro podem assegurar uma perfeita “operação”, donde a consciência geral assumida de que é uma pura falácia negar a ocorrência de riscos e danos humanitariamente inaceitáveis entre quem não é parte activa na guerra. Como vimos na guerra dos Balcãs e na do Iraque, com a maior desfaçatez se têm bombardeado cidades e povoações sempre que, de antemão, se admite que nelas se acoitam forças inimigas, núcleos importantes da sua estrutura ou alvos considerados remuneratórios. As bombas teleguiadas e lançadas de plataformas aéreas ou terrestres são tidas como inteligentes, no mínimo susceptíveis de identificar com precisão o alvo visado, mas a realidade demonstra que isso nem sempre acontece e basta lembrarmos as numerosas vítimas civis dos bombardeamentos de Belgrado, de Bagdad e, mais recentemente, do Líbano. Os chamados dispositivos de referenciação e guiamento das armas erram com frequência, as mais das vezes porque o alvo atingido não é o que se pensou ser quando foi identificado e visado. Além disso, raramente a bomba deflagra sem efeitos colaterais sobre o que se localiza próximo do seu raio de acção. O erro de desempenho, como se tem visto, ocorre com frequência porque quem acciona os dispositivos é um homem, um homem com todas as suas limitações de ordem física e psicológica, para não dizer de ordem moral. E assim, pelos seus efeitos desastrosos sobre as populações civis, temos de considerar sujas estas guerras.

 Tiro tenso, frontal e directo ou ...

 

 ... tiro curvo, longínquo e escondido

      Com esta constatação, podemos então reconhecer que os anos derradeiros do século XX e o início deste século vieram colocar-nos perante problemas de consciência civilizacional, com a agravante de pôr em causa exactamente as nações que se consideram guardiães da civilização humana. Porque para poupar os seus soldados têm sacrificado civis do lado contrário. Ao longo da história, os exércitos se constituíram como braços armados das nações para que pudessem ser eles a fazer as guerras e a sofrer as suas agruras e não a comunidade como um todo, dentro da qual há que proteger os mais vulneráveis e indefesos. Isto quer dizer que se a nação escolhe os homens para a sua defesa, a intenção é não expor ao perigo directo toda a comunidade Devia ser rigorosamente respeitado o princípio universal de que se os soldados existem é precisamente para fazer a guerra e, se necessário, morrer nela, em defesa da sua terra e dos seus. Perante este princípio, seria de esperar que os soldados olhassem para os civis do lado contrário com mútuo sentimento humanitário. Princípio eivado de grande valor ético-moral, por que não julgá-lo pertença irrecusável da nossa bagagem antropológica? Mesmo sabendo que a guerra é um fenómeno horroroso e que nem sempre se evitam as condutas desviantes, cremos, no entanto, que os impulsos sucessivos da civilização têm de obrigar o homem a uma conduta moral mais consentânea com o progresso material que vai logrando atingir.

      Do evolucionismo justo é esperar que o entrelaçamento de factores morais, filosóficos, religiosos e científicos leve o homem, se não a evitar a guerra, pelo menos a rodeá-la dos maiores escrúpulos. Contudo, parece que isso não é conquista ainda dos nossos dias, a avaliar pelos violentos acontecimentos que tèm ensombrado os primeiros anos deste milénio. Que pior ainda ficam quando o ódio religioso, étnico ou tribal lhes adiciona a carga suplementar da irracionalidade, como, infelizmente, se tem visto nas ruas de Bagdad.

      É tempo de lançar um brado uníssono de indignação.

 

  Adriano Miranda Lima, Coronel

     


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Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007
CRÓNICAS DO BRASIL

Um verdadeiro patriota, daqueles que não se vê mais

 

 

No tempo da Restauração da Independência Portuguesa alguns filhos das vulcânicas ilhas dos Açores nos combates pela nação se destacaram. Entre eles o jovem Diogo Pereira de Lacerda, abraçara as armas como o seu destacado irmão, Gonçalo Pereira de Lacerda que lutara nas praças de Andaluzia, em Castela. (1643).

 

Diogo tinha no sangue o gosto pela peleja. Atirado e destemido foi enviado com outros faialenses para expulsar os castelhanos que ainda se mantinham aquartelados no Castelo São João Batista, em Angra. Derrotado o inimigo continuou a sua lida. Agora a pátria exigia a sua participação no Continente português para combater para lá da fronteira. E assim muito bem o fez. Restauração consolidada, o governo da Coroa portuguesa incumbiu-o de mais uma missão, desta vez em terras brasileiras.

 

Daqui foram corridos os espanhóis, à frente de Diogo Pereira de Lacerda

Embarcou com outros açorianos na ROSÁRIO, a nau que lhe haviam destinado. A viagem corria tranquila sem percalços, nos mares atlânticos por corsários e piratas infestados. Certa manhã de céu claro sem nuvens e mar calmo, já perto da costa da Bahia, nos mares do Brasil, viram surgir no horizonte um alto e portentoso navio. Cautelosos e desconfiados desviaram o rumo, tentando despistar os desconhecidos. Inútil, a embarcação também, como eles, mudou de rota, na tentativa evidente de alcançá-los. Aproximava-se ameaçadora. Já então se podia ver a bandeira, era um corsário holandês, grande e perigoso inimigo nos mares dos portugueses. No convés a agitação começou frenética. Preparavam-se para a luta. Mosquetes, espadas, machados para abordagem, tudo era testado e preparado. A nau Rosário estava em desvantagem, o inimigo era mais forte e, por ofício, experimentado e competente. Logo as balas dos canhões de lado a lado atravessavam o ar, e certeiras atingiam o alvo.

Na batalha naval Rosário foi irremediavelmente atingida. Perdia a capacidade de fuga, enquanto arremetia cada vez mais perto a nau inimiga. Percebendo o desfecho que os aguardava, Diogo Pereira de Lacerda fez um trato com os demais companheiros, juraram não entregar Rosário, jamais deixariam a bandeira das cinco quinas ser substituída pela bandeira dos corsários holandeses. Decidido, Diogo talhou um plano, por instantes, desceu ao paiol, destampou os barris de pólvora, e num melhor colocou um rastilho e acendeu-o. A passos rápidos subiu ao convés. O corsário holandês, antecipando o festim, manobrava procurando a melhor abordagem quando, num momento de espanto e horror, um grande estrondo, seguido de um calor e clarão infernais, a todos abrasou. A nau Rosário e os seus tripulantes desapareceram no mar da Bahia, para sempre, honrando o estandarte português.

 

Uberaba, 28/01/07

Maria Eduarda Fagundes 

Referencia Bibliográfica:

Anais do Município da Horta

História da Ilha do Faial (Marcelino Lima)

(1943 Oficinas Gráficas Minerva - Vila Nova Famalicão)

 

III edição 1981

A&H Printing Inc.

284, Waterman Ave, East Providence, R. Island


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Domingo, 28 de Janeiro de 2007
CRÓNICAS DO BRASIL

EFEMÉRIDES, FERIADOS  E O ÓCIO

  

 

Na nossa sociedade, onde a produção é factor de riqueza e evolução, os feriados e efemérides são encarados por muitos como atraso e prejuízo para a nação.

Enquanto o feriado é um dia em que há a suspensão das actividades laborais por determinação civil ou religiosa, a efeméride responde pela paralisação facultativa, onde a obrigatoriedade não existe. Por exemplo, podemos mencionar o dia de Natal, como feriado, e o dia de São João, como efeméride.

 

Até o século XVI os feriados eram determinados pela Igreja que liberava os seus seguidores para toleradas comemorações, que tinham quase sempre um carácter orgiástrico. Já no século XVII, o regule da Igreja obrigava a população a cumprir os deveres de ordem espiritual, naqueles dias.  O que nem sempre era bem aceito e feito.

 Dia de procissão, dia de excepção ao trabalho contínuo. Mas... não há fome que dê em fartura.

Para a plebe, o trabalho era do amanhecer ao fim do dia, e descanso só em duas situações: Nos feriados religiosos e nos dias determinados pelas necessidades, como nas doenças, no Inverno rigoroso, ou por outra situação de ordem conjuntural (epidemias, guerras, catástrofes, etc).  Somadas essas folgas, dava um total até de 160 dias, o que para aquela época, em que se comia o que se produzia, era um desperdício de tempo que levava a uma falta de alimento. Não era sem razão que a fome grassava naquela ocasião.

 

Com a revolução industrial, nos finais do século XIX, houve uma mudança radical na relação trabalho/produção. As máquinas facilitaram o trabalho e agilizaram a produção. A Indústria crescia dia a dia, oferecendo emprego e atraindo as pessoas para as cidades. O comércio se expandia oferecendo cada vez mais produtos de consumo. O dinheiro corria e aquecia a economia. Trabalhava-se até 13 horas por dia, até nos domingos e feriados. Mas isso não era para todos. Em todas as sociedades sempre existiram aqueles que não precisavam labutar para viver. Principalmente nos tempos idos, da aristocracia, em que aos nobres, detentores do dinheiro e do poder, cabia o ócio do bem-viver. A música, a pintura, as viagens, as artes em geral e em particular, eram as actividades das classes mais favorecidas que usufruíam das rendas que a Corte e os títulos de nobreza lhes conferiam. O trabalho braçal era para aqueles que viviam em suas propriedades ou para o populacho e artesãos, pessoas sem títulos e qualidade.

Até mesmo nos tempos do antigo Egipto, da Grécia e de Roma era dispensado um tempo periódico diário para o ócio, sempre ocupado com actividades que aprimoravam o corpo e a mente.

 

Só no século XX, com o aparecimento das leis trabalhistas, o ócio chegou às camadas populares. Apareceram as férias, os feriados e efemérides, pelos governos regulamentados, em geral destinados a alguma comemoração nacional, mas pelo povo apreciados e aproveitados com actividades lúdicas, como o futebol, o cinema, passeios ou simplesmente desfrutados em casa, dormindo, vendo TV, ou mesmo sem fazer nada. O ócio das massas, embora mais frívolo, passou a ser valorizado como um tempo de descanso do trabalho rotineiro, quando a mente, liberada do estresse e da agitação diária, pode elucubrar, divagar e até mesmo, quem sabe, algo genial desvendar. É um tempo para alguns inspirados de poder alguma actividade cultural exercer ou então de voltar-se para a natureza, e relaxar.

 

Julga-se que em todo o mundo haja mais de cem mil datas comemorativas. E que o Brasil nesse ranking é o campeão, ficando a Alemanha em último lugar.   No Brasil “essa posição” vem do hábito, no povo já enraizado, de se esticar ou enforcar os dias entre os feriados. Essas falhas ao trabalho, com frequência,  acarretam prejuízos financeiros elevados à nação. Estatísticas dizem que o país perde uma média de 200 horas de trabalho/ano por conta das efemérides e feriados.

 

Mas, enquanto uns perdem há os que ganham, essa é a lei da sobrevivência. E estes são aqueles que fazem do lazer dos outros o seu trabalho. São os que têm no turismo, na hotelaria, no lazer e nos festejos populares a ocasião de ganhar o seu pão. Para eles os feriados e efemérides e até o ócio dos outros nunca são dias demais. Por isso cada vez é mais utópico conseguir o consenso entre os que querem os que não querem as paralisações.

 

Na esfera estudantil os feriados em demasia atrasam o calendário escolar, desaceleram o estudo e prejudicam o aprendizado. Embora para o estudante as folgas sejam motivo para a “curtição” de algum hobby ou para a celebração de algum festejo que promova a amizade e a sociabilização.

 

Quando a BIBLIA nos diz que DEUS trabalhou seis dias e no sétimo descansou, quem sabe não seja essa a solução!? Hum... não sei não...É pouco tempo para aproveitar e conhecer as tantas coisas que o mundo tecnológico de hoje nos oferece. Só o computador leva por dia horas e horas de navegação...

 

Uberaba, 27 de Janeiro 2007

Maria Eduarda Fagundes

 

 


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Sábado, 27 de Janeiro de 2007
LIDO COM INTERESSE – 12

 

 

 

 

Título: “História de Lisboa”

Autora: Dejanirah Couto

Tradutor: Carlos Vieira da Silva

Editora: Gótica

Edição: 9ª - Setembro de 2005

 

 

Maître Corbeau, sur un arbre perché,
Tenait en son bec un fromage.
Maître Renard, par l'odeur alléché,
Lui tint à peu près ce langage:
"Hé! bonjour, Monsieur du Corbeau.
Que vous êtes joli! que vous me semblez beau!

(…)

 

Pois é assim: cada vez que me cruzo com um «maître», logo me lembro daquela fábula de La Fontaine. Desta vez, foi a autora do livro, Dejanirah Couto, «Maître de Conférences» numa Universidade parisiense que serviu de pretexto à minha recordação e confesso que os próprios Mestrados me fazem sempre lembrar qualquer coisa equiparável a um colégio para corvos. Ideias que nos ficam da infância quando no liceu, o Charles Lepierre, nos obrigavam a decorar poesias como forma de exercício da memória “em même temps” que íamos aprendendo alguma coisa da cultura francesa.

 

Lá pelo meio da leitura deste livro (389 páginas) pretendi saber mais alguma coisa sobre a Autora cujo nome me soava um tanto ou quanto exótico e naveguei pela Internet à procura de algo de jeito. Acabei por saber que é natural de Lisboa, que o seu pai é oriundo de Goa, que na juventude militou pela esquerda e por isso se exilou em França onde permanece como professora universitária no ramo da História.

 

Quanto ao livro propriamente dito, começa nos tempos pré-históricos em que a esta região havia quem chamasse Ofiuza, a terra da serpente. Passando pelos fenícios, romanos, visigodos e árabes, de tudo nos vai dando contas a narrativa minuciosa ao estilo académico, sabedor, frio. Bem nítidas as cenas da reconquista cristã e interessante a divisão em capítulos com os antecedentes de Lisboa como potência marítima, a idade da glória e consequente castigo e finalmente a lenta aprendizagem da modernidade. A cronologia acaba em 1999.

 

O estilo literário tem por certo muito a ver com o trabalho do Tradutor – a lisboeta Autora escreveu o original em francês – pelo que não me refiro a esse particular. O que me chamou a atenção foi a tal forma académica e fria ao estilo de uma tese de doutoramento com que a Autora nos “educa” bem para além de meio da obra transformando-se a pouco e pouco numa reportagem que nos faz viver o ambiente da Lisboa dos nossos dias como se por lá nos estivéssemos a passear. Tive a sensação de que eu próprio podia aparecer numa das páginas dos capítulos finais e senti-me profundamente envolvido em tudo quando já na antepenúltima página aparece um parágrafo que não resisto a transcrever: «A Alameda [Afonso Henriques] é ainda uma fronteira invisível que separa dois mundos: para trás a que usa várias vezes o mesmo óleo de fritar; para a frente, a das grandes lojas com cosméticos de importação.» Eu vivia do lado dos cosméticos, cheio de sol e sempre achei que aquele lado do óleo de fritar era sombrio. Sempre pensei isso, nunca o tinha dito e foi necessário ler esta «Mestra de conferências» emprestada a Paris para finalmente o fazer. Esta é uma das realidades mais flagrantes da nossa cidade: a proximidade geográfica de estruturas sociais não incompatíveis mas dificilmente miscíveis. Bastaria aquele parágrafo para um sociólogo dissertar durante decénios.

 

E na ronda que fiz pela Internet à procura de referências sobre Dejanirah Couto, deparei com críticas ferozes ao livro e à Autora, dando a entender que nele se diz mal dos lisboetas por despeito de quem o escreveu. Não partilho dessa opinião. Pelo contrário, pareceu-me muito realista, historicamente critico e abdico totalmente das referências bibliográficas para dar à obra o valor que lhe reconheço: um retrato muito fiel desta cidade que me viu nascer, de que tanto gosto mas a que reconheço certos pecadilhos, como aquele que se refere na página 221 sobre o meu aparentado do séc. XIX José Cesário Sales.

 

Conclusão: gostei e recomendo.

 

Lisboa, Janeiro de 2007

Henrique Salles da Fonseca



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Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007
DISCURSO DE ÍNDIO


Dívida externa de quem, cara pálida?



Um discurso feito por Guaicaípuro Cuatemoc embasbacou os principais chefes de Estado da Comunidade Europeia. A conferência dos chefes de Estado da União Europeia, Mercosul e Caraíbas, em Maio de 2002 em Madrid, viveu um momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados um discurso irónico, cáustico e de exactidão histórica que lhes fez este cacique de uma nação indígena da América Central.



 
Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a encontraram só há 500 anos. O irmão europeu de  aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento – ao meu país –, com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu também posso reclamar pagamento e juros.

Consta no "Arquivo da Companhia das Índias Ocidentais" que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a São Lucar de Barrameda, 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento! Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.

Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a actual civilização europeia se devem à inundação de metais preciosos tirados das Américas!

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indemnização por perdas e danos. Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.

Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano `MARSHALLTESUMA', para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia e de outras conquistas da civilização. Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?

Não. No aspecto estratégico, delapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros Reiches e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros, quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-prima e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros que os irmãos europeus cobram aos povos do Terceiro Mundo.

Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.

Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milénio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demência dos conceitos capitalistas.

 

Tais questões metafísicas, desde já, não nos inquietam, índios da América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica..."

 Hernán Cortez fê-las das boas . . .  Irá Espanha pagar esta dívida ?

Seleccão de: Luciano Matoso - Fortaleza, Brasil


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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007
INTERROGAÇÕES SOBRE A DEMOCRACIA

       Se considerarmos a democracia como um balão de sinalização ideológica, constatamos, hoje, uma certa tendência para esvaziar ou substituir o seu combustível conceptual e deixá-lo rasar o chão das conveniências, ao arbítrio de certos interesses. Parece haver, nos dias de hoje, uma certa perversão daquilo que é a herança sublime da civilização grega e do pensamento liberal de homens como Jean-Jacques Rosseau, John Locke, Alexis de Tocqueville, Jeremy Bentham e outros, como se andássemos à deriva no mar das ideias, à procura do farol que nos volte a iluminar a clareza dos princípios. Pois, como todas as criações do espírito, a democracia reflecte, também ela, as complexidades, ambiguidades e conflitos da natureza humana, sobretudo quando do plano teórico se passa ao terreno da prática. A democracia tem sido mais propícia ao confronto estéril do que à aglutinação de boas vontades, tem sido mais guarida de disputa de interesses inconciliáveis do que baluarte para a edificação do bem colectivo. Razão teve Winston Churchill quando disse que a democracia é o pior dos sistemas políticos, exceptuando todos os outros.

      Falar em democracia é falar, lato sensu, na democracia liberal, ou representativa, aquela que é tida como o único regime político capaz de realizar a felicidade humana, merecendo, por isso, legitimação internacional. Daí que o pensamento ocidental só conceba o progresso universal supondo a democracia assimilável por todos os povos do planeta, independentemente da sua raça, cultura e grau de desenvolvimento civilizacional. Esta convicção está tão enraizada que hoje nenhum regime político do chamado terceiro-mundo sobrevive se não adere à democracia, ainda que apenas vestindo a sua roupagem pseudo-formal. É a condição imposta para poder usufruir do apoio das agências financeiras internacionais como a FMI e o Banco Mundial, sem o que a economia do Estado em causa estará fadada ao insucesso completo, e com isso a sua própria autonomia política, a menos que queira ser um estado pária e atrasado, desligado do concerto das nações.

      Dir-se-á que ainda bem, embora as interrogações que hoje se colocam quando se constatam algumas tendências que a democracia tem vindo a sofrer nas últimas décadas. E então ocorre perguntar se a democracia é mesmo um regime de virtudes milagreiras, se pode ser imposta pedagogicamente a outros povos sem condicionamentos de fronteira física, mental ou cultural. Do mesmo modo se questiona se ela é a varinha de condão infalível para todos os problemas do planeta, capaz de tirar o homem do atraso e da ignorância e levá-lo à realização plena da justiça, da liberdade e da prosperidade, filhas dilectas da democracia.

      Por ocasião da invasão do Iraque pelos americanos e seus aliados, o aparente sucesso inicial dos invasores entusiasmou tanto alguns analistas que logo vaticinaram o voo triunfante da pomba da paz por todo o Médio Oriente, antevendo a resolução definitiva de todos os graves problemas daquela conturbada região, à cabeça o conflito israelo-palestiniano, graças à implantação da democracia liberal no Iraque e à sua propagação por osmose aos países vizinhos. Como se sabe, a realidade não tardou a desmentir esta visão profética, só partilhada por analistas convictos das virtudes da política externa dos EUA. Contavam com a passividade do paciente (Iraque) e a infalibilidade da receita democrática que se lhe queria aplicar por mãos supostamente virtuosas e ungidas pelo saber divino. Prognosticavam um triunfo retumbante da cura do mal, ignorando duas realidades. A primeira é que há povos que não são apenas diferentes em mentalidade e em cultura civilizacional, são-no na matriz conceptual e profunda de todo o seu sistema de vida, como é o caso dos povos islâmicos e outros. Não é líquido que recebam de braços abertos figurinos políticos que não se ajustem de todo à sua filosofia e modelos tradicionais de ser e existir. Mas os analistas tinham implícita a presunção de que a democracia é tout court detentora de virtudes tais que por si só transformam por artes mágicas governantes e governados, quaisquer que sejam, em fiéis intérpretes dos seus mais puros ideais e princípios filosóficos. 

     

      Por outro lado, algumas experiências democráticas das últimas décadas têm demonstrado a grande distância que separa o ideal democrático da realidade prática da governação democrática. Estamos a falar sobretudo dos continentes sul-americano e africano, onde as expectativas têm sido dum modo geral traídas em muitos Estados que se converteram à democracia, de tal maneira que os grupos sociais mais desprotegidos vêem agravar de dia para dia a sua situação de exclusão e miséria, com sondagens de opinião a revelar que o regresso do regime autoritário seria em muitos casos aceite desde que assegurasse o bem-estar mínimo. Poprque a realidade seria outra se aqueles que são eleitos para tratar da coisa pública o fizessem com os olhos postos exclusivamente nas populações que sufragaram o seu poder, em vez de se preocuparem preferencialmente com os caminhos desvirtuantes que levam ao seu próprio privilégio e enriquecimento fraudulento, à custa do erário público. Na América Latina e em África, a permisssividade para tais derivas de conduta parece continuar a dispor de condições na prática quase semelhantes àquelas que permitiam a venalidade, a extorsão e a corrupção por parte do poder diatorial, o que explica, entre outras razões, os níveis de pobreza e estagnação em que persistem os povos daqueles continentes. Isto apesar da intervenção agora mais atenta e responsabizante das instâncias mundiais, particularmente ao nível do apoio financeiro.

     

      Contudo, quando se pensa implantar a democracia onde se julga haver défice de liberdade e de desenvolvimento, esquece-se que a democracia ocidental vem sendo, ela própria, confrontada com novos paradigmas que subvertem ou tendem a subverter a sua essência pura, ou seja, o sistema representativo que emerge do escrutínio popular e é legitimado por ele e só por ele. Hoje, por toda a Europa, confronta-se com um novo fenómeno social – a moda da opinião pública ou opinião publicada. Esta forma-se pela acção dos média, pelo tratamento que dão às notícias e pela acção dos comentaristas a analistas políticos, mas igualmente pelas sondagens hoje frequentes a propósito de tudo e nada, o que confere à comunicação social um papel de relevo determinante. Dir-se-ia que, sim senhor, tal fenómeno é uma demonstração louvável da vitalidade da sociedade civil e de toda a influência positiva que ela pode e deve exercer sobre a democracia, os seus agentes e o poder político, se o princípio fosse sempre a observância escrupulosa do primado do interesse público. Acrescente-se que todo este funcionamento pressuporia, como condição irrecusável, a existência de jornalistas imbuídos de rigorosa ética profissional, isentos e neutros de pressões de qualquer ordem, apenas sintonizados com a verdade, objectividade e seriedade do que dizem e escrevem, única conduta que honra a profissão do verdadeiro jornalista. 

 

      Porém o panorama é outro. Assiste-se hoje, um pouco por todo o lado, a uma revolução nas tecnologias de comunicação e informação, a uma cada vez maior detenção da propriedade dos órgãos de comunicação social em mãos privadas, a uma integração do capital mediático em certos sectores de produção e serviços, nalguns casos promiscuindo com o poder político ou com as oposições. De modo que em vez de alguns media exercerem uma salutar função de vigilância em relação aos detentores de poder, pugnando por uma informação objectiva e isenta, adjuvante do controle democrático, muitas vezes influenciam a opinião pública tendenciosamente, conforme a sua conveniência política momentânea, já que o seu móbil verdadeiro é o interesse económico subjacente à actividade de quem representam directamente. Por conseguinte, é inevitável concluir que, salvo poucas e honrosas excepções, o jornalismo profissional de outrora pode ter chegado ao fim para dar lugar a simples agentes ao serviço de interesses que apenas almejam o poder directa ou indirectamente, qualquer que seja a sua natureza.

     

      Como se isso tudo não bastasse, nota-se também, nos tempos actuais, nas sociedades democráticas, um exagerado uso e abuso de interposição de providências cautelares para impugnar actos de administração pública, o que na prática se traduz numa flagrante violação do princípio de separação de poderes entre os órgãos de soberania, condição essencial para o funcionamento da democracia liberal tal como a conhecemos. Este fenómeno obriga os tribunais a avaliar medidas da administração pública central ou autárquica, e com isso podemos estar nas vésperas da emergência, na sociedade democrática, de um “governo dos juízes”, conforme insinua Antoine Garapon no seu livro “Os Juízes e a democracia” (1999). É que, os tribunais, ao anularem com as suas decisões os actos daqueles que têm a única legitimidade política para exercer a governação pública, porque mandatados por via eleitoral, princípio basilar da democracia, estão a ser protagonistas de uma clara perversão da essência pura do regime em causa.

 Antoine Garapon denunciou a traição que os tempos modernos fizeram a Alexis de Tocqueville

 

      E se tivermos em atenção que a tendência é hoje para uma abstenção cada vez maior nos actos eleitorais, mesmo nas mais sólidas e antigas democracias, então, se juntarmos as peças de todo este aparente “complot”, só por desatenção ou ignorância nos eximimos às seguintes questões básicas: Nas democracias contemporâneas quem hoje verdadeiramente representa o interesse popular? O poder político não é hoje refém de jogos de bastidores urdidos por grupos de interesses que estão longe de representar a maioria do povo? Quando o poder político entra em descrédito não é mais por acção concertada dos media, a partir do momento em que certos objectivos, que não os da maioria, começam a ser postos em causa? São estas interrogações que nos perseguem quando olhamos para os novos paradigmas que de dia para dia ganham contornos nítidos nas sociedades modernas, susceptíveis de relançar a discussão sobre o que é a democracia hoje e que caminhos vai ela percorrer no futuro.

        

                                            

 

                                                     Adriano Miranda Lima


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Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
11 de Fevereiro de 2007

Venho da terra assombrada

Do ventre de minha mãe.

Não pretendo roubar nada

Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido

Por me trazerem aqui,

Que eu nem sequer fui ouvido

No acto de que nasci.

       

00053379

António Gedeão

 


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Sábado, 20 de Janeiro de 2007
VERDADE E PROPAGANDA

 

 

 

 

Na sua edição de 11 de Janeiro de 2007, começava o “The Economist” um artigo com a afirmação de que na China a separação entre a verdade e a propaganda sempre foi um difícil exercício, mesmo quando se trata de números.

 

Tratava o referido artigo de saber qual a fiabilidade da contabilidade chinesa quando o Ministro das Finanças pediu às 1200 empresas cotadas na Bolsa de Xangai que seguissem o mais possível as normas internacionais de contabilidade e, mesmo assim, terá autorizado algumas importantes excepções. Às outras empresas, o Ministro pediu que se fossem adaptando voluntariamente a essas normas.

 

“Seguir o mais possível” pode significar uma total cedência às dificuldades, ou seja, um persistente afastamento das ditas regras; as “importantes excepções” querem claramente dizer que algumas das empresas com significativa relevância na economia chinesa se manterão oficialmente estranhas ao processo de adaptação à transparência internacional; um pedido pode não ser correspondido; o voluntarismo é sempre subjectivo.

 

Ou seja, é previsível que tudo continue na mesma, seguindo critérios contabilísticos típicos dos meandros do Yang-Tsé-Kiang e nada tendo a ver com o que nós, os outros, consideramos correcto. Por outras palavras, dá para crer que a informação financeira prestada pelas empresas chinesas tanto pode corresponder à verdade como à propaganda.

 

Nada disto seria relevante se a China continuasse isolada do mundo mas como todos sabemos, é precisamente o contrário que está a suceder e, pior, o mundo está a esvaziar-se a favor da China. Ora se nos estamos a perder por ali, então o mínimo que podemos pedir é que haja transparência. Ficámos a saber que não há.

 

Na sua edição de 30 de Dezembro de 2006, o “China Daily” tratou com enorme relevo o “5º Papel Branco da Defesa Nacional” apresentado poucos dias antes pelo Chefe do Departamento de Relações Exteriores do Ministério da Defesa aos 70 adidos militares de 45 países acreditados em Pequim.

 

Pesem embora as sucessivas afirmações de que a China tem uma política de defesa não agressiva, é recorrente a citação a Taiwan e à hipótese da sua secessão; os outros grandes desafios colocados à política chinesa de defesa referidos no resumo do jornal têm a ver com o reforço dos laços entre Washington e Tóquio e com os testes nucleares da Coreia do Norte.

 

Quando cerca de 5000 empresas em Xangai são de capitais de Taiwan, quando as relações de Hong Kong e Macau com Taiwan são de primordial importância, quando as zonas especiais envolventes de uma e outra são enormes receptáculos do investimento de Taiwan, não dá para compreender muito facilmente como é que se compatibiliza um modelo de desenvolvimento económico com uma política de defesa que cita o motor desse desenvolvimento como alvo prioritário. Poderá não passar de uma autêntica chinesice minha mas, na verdade, levantam-se-me sérias dúvidas sobre a congruência do documento.

 

No que respeita aos outros dois desafios, acho bem que lá estejam em paralelo pois que se trata de dar uma no cravo e outra na ferradura. Fico, contudo, mais sereno quando leio que no âmbito da questão nuclear, a China se compromete a seguir o princípio fundamental de nunca ser o primeiro utilizador. Como sabemos que os EUA e a Rússia seguem idêntico princípio, parece que a mensagem se destina à Coreia do Norte ou ao Irão ou a ambos. Oxalá que esta leitura esteja minimamente correcta. Caso contrário podemos a qualquer momento ter o caldo entornado.

 

E que mais nos diz o papel? Compara vários parâmetros, a saber:

 

Despesas totais com a Defesa em 2005 (biliões de $US)

§         EUA        =   495,33

§         UK          =    57,88

§         Japão      =    45,387

§         França     =    42,891

§         Alemanha =   31,139

§         China      =    30,646

§         Rússia     =    18,603

 

Despesas per capita/pessoal ao serviço em 2005 (milhares de $US)

§         EUA          =   356,61

§         UK           =    288,03

§         Japão       =    188,47

§         França      =    123,54

§         Alemanha  =    122,93

§         Rússia       =     16,39

  • China         =     13,32

 

Mais consta do documento que o Exército reduziu sucessivamente os efectivos humanos em 1 milhão de homens em 1985, em 500.000 homens em 1997, em 200.000 homens em 2003 e em 2005 outros 200.000 homens. Actualmente, os efectivos humanos do Exército Popular de Libertação serão de 2,3 milhões de homens.

 

 Estes não foram desmobilizados e por isso cantam...

 

 

Sucede que as despesas militares eram uma das matérias que mais me fazia temer que a China pudesse ser uma bolha a estoirar a qualquer momento, como já referi em “No caminho de Novosibirsk…”. Recordo que esse meu temor resultava da falta de credibilidade da política monetária e orçamental de um país onde as despesas militares eram segredo de Estado. Pelos vistos, já não são segredo. Serão verdadeiras? Será este papel verdadeiro ou propaganda?

 

Não me dei ao trabalho de ir verificar a informação estatística que deve estar disponível na Internet sobre os elementos relativos aos membros da NATO citados no documento em referência mas temo que a informação relativa à China seja estatisticamente tão credível como a contabilidade das empresas cotadas na Bolsa de Xangai . . .

 

Andam entretanto pela Internet umas “vozes” acerca de um míssil chinês que terá derrubado um satélite americano. A ser tecnicamente plausível e factualmente verídico, devia ser um satélite que andava a espionar – perdão, verificar – a diferença entre a propaganda e a verdade na política chinesa de defesa. Seria mesmo ?

 

Se não acreditamos nas estatísticas espanholas, porque é que havemos agora de acreditar nas chinesas?

 

Lisboa, Janeiro de 2007

 

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:46
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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007
CURTINHAS XXIX

Como é que eles ocuparão os dias?

v      Lê-se (no “Expresso” de 13/01/07) e não se acredita. O Senhor Ministro da Saúde, pela primeira vez, avança estimativas sobre o impacto do aborto voluntário até às 10 semanas de gestação, já no SNS (utilização dos recursos), já no OGE (esforço financeiro). E como chegou ele a essas estimativas?

v      O número esperado de abortos/ano, obteve-o junto das Associações de Planeamento Familiar. O pouco que haverá a dizer quanto a isto é só para recordar que manda a prudência que se trabalhe a partir, não de médias, mas de máximos prováveis, pois são estes que vão pôr à prova os recursos hospitalares.

v      O custo hospitalar de um aborto, esse, pasme-se, foi importá-lo de Espanha.

 Para nós, aborto é crime

v      Teremos lido bem? Há meses e meses que se fala da possibilidade de o SNS ter de assegurar os abortos voluntários entretanto descriminalizados. O SNS, nos últimos tempos, terá praticado, por certo, um número estatisticamente significativo de abortos em condições semelhantes – e, por isso, deverá poder dizer, com aceitável rigor, quanto lhe custaram. E ainda que assim não fosse, um funcionário minimamente preparado, com um telefone à mão, obteria em duas, vá lá três semanas as informações relevantes para a estimativa que o Senhor Ministro queria divulgar. Mas não! “Vejam lá o que se passa em Espanha e depois contem-me”. E para os seus botões: “Assim como assim, vai ser às clínicas espanholas que terei de pagar isto”.

v      Sobre um ponto importante, decisivo mesmo, o Senhor Ministro continua a nada dizer: a rede hospitalar do SNS tem capacidade disponível para acomodar estes novos actos sem prejudicar os restantes? Se sim, porque é que as listas de espera ainda o atormentam tanto?

v      Enfim, uma questão jurídica: E se a burocracia do SNS, ou os níveis de ocupação no momento, não permitirem a prática de um aborto voluntário antes de decorridas as primeiras 10 semanas de gestação, como é?

Lisboa, Janeiro de 2007

 

A. Palhinha Machado


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Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007
CRÓNICAS DO BRASIL

Interpretações

 

O PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) divulgou que os estudantes brasileiros estão nos últimos lugares nas provas de compreensão de leitura. O que foi confirmado pelo SNAEB (Sistema Nacional de Avaliação de Educação Básica).

 

A ideia inicial que a dificuldade financeira seria a principal responsável por essa constatação caiu em descrédito, quando se demonstrou que os alunos de famílias ricas brasileiras compreendiam menos os textos escritos que os filhos de operários europeus.   Vem então a conclusão: Não é a pobreza o factor primordial que determina o grau de insuficiência dos nossos estudantes e sim o ambiente cultural onde eles vivem.

 

Isso tudo me fez lembrar a história que me contou uma amiga brasileira, médica pediatra, que numa viagem à Alemanha, ficou surpreendida com a educação e cultura livresca de um jovem garçom*, que conheceu num “tour” pela cidade.

 

Como tornar a educação e a cultura uma coisa atractiva para as nossas crianças?

- Propiciando, desde a infância, uma escola que desperte o interesse para o mundo em que se vive, que ensine a procurar o bem estar do quotidiano e assim desenvolver o sentido de cidadania. Ensinar a dialogar, brincando com fantoches; despertar a curiosidade histórica com contos e estórias familiares; incutir responsabilidade com assiduidade e vivência escolar; estimular o sentido de orgulho à sua casa, à sua escola, à sua cidade, ao seu país, com actividades e competições desportivas e culturais; ensinar o respeito ao próximo quando, no enfrentamento, ouvir e aceitar o Outro. E para isso é preciso, além da preparação, autoconhecimento, boa vontade, amor à juventude e cidadania. Qualidades fundamentais de um bom mestre.

 

A tecnologia é um item à frente que vai encontrar uma mente já pré-embasada em condição de avaliar o que de bom ou de ruim  ela possa dar.

 

Mas infelizmente o que se vê são vaidades e colocações erradas na maneira de instruir, que complicam a mente dos estudantes. No afã de dar ou mostrar cultura, dá-se a ler aos nossos jovens textos complexos de literatura onde teorias analítico-filosóficas só passam pela cabeça e imaginação de alguns QIs (ou será QEs) elevados, longe da vulgar, mas comum, capacidade de interpretação. Isso é “colocar a carroça na frente dos bois”, é convidá-los ao desinteresse literário e colocá-los enfrente a uma televisão, que dá os assuntos pré-envasados (à maneira dela) para uma fácil assimilação, fazendo da nossa juventude uma geração acomodada, “bitolada” , com  pouca capacidade de discernimento e imaginação.

 

Creio, com a experiência de mãe e avó, sem pretensões pedagógicas ou filosóficas, que não as tenho, que o ensino actual no Brasil deixa muito a desejar, não só pelos métodos equivocados de alfabetizar como pela falta da maneira  simples e objectiva de educar. Só depois que se consegue o entendimento do básico é que se deve introduzir o estudante às questões filosóficas, onde o uso rebuscado da linguagem dá riqueza e expressão ao pensamento. Quando falamos bem, as palavras parecem ordenar e clarear os pensamentos. E isso como um feedback,  nos ajudar a pensar.

 

Os desafios para dar uma boa educação, num país como Brasil, que não tem prioridades bem definidas e respeitadas, são enormes, teriam que passar pela mudança de pensar de toda uma população. Das casinhas simples do interior, aos barracos das favelas, nas grandes cidades, comida e livros podem faltar, mas uma TV em quase todos os lares vai-se encontrar. O nosso presidente é um exemplo  dessa anomalia, cria faculdades, quer ver  todos na Universidade, mas nas escolas primárias, base de todo o saber, fragiliza o estudante e o  sistema de ensino, quando adopta directrizes em que  os alunos passam sempre de ano, isto é, são aprovados, mesmo sem saber direito ler e escrever. Assinar o nome, já basta, são considerados alfabetizados, passam a fazer parte das estatísticas da diminuição do analfabetismo do governo brasileiro.

 

Somos um povo com pouca instrução. Temos que aprender a falar e a pensar. Os governos têm de acreditar no que pregam, mas não fazem, investir de verdade na educação primária do país, para que esta atinja a maioria da população.

 

 

 D. Lerner disse:

 

“Não faz falta o saber ler ou escrever no sentido convencional... Quem interpreta o faz em relação o que sabe... Interpretações não dependem exclusivamente do texto em si”. 

 

É...dependem além dos conhecimentos, das experiências e até das percepções psíquicas de cada um. Mas na realidade do mundo actual, não saber ler, escrever ou interpretar as mensagens, é ficar à beira da estrada, é ser um zero à esquerda, é não valer nada.

 Fica a pergunta: será hoje a escola um verdadeiro instrumento da cultura ?

 

Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba. 15/01/07

 

* - Empregado de mesa


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