Domingo, 4 de Dezembro de 2016
UM PRIMEIRO SUBSÍDIO PARA A CABOVERDEANIDADE

 

 

JCH-Padre António Vieira.jpg

PADRE ANTÓNIO VIEIRA

 (Lisboa 1608 – Bahia 1697)

 

 

Fragmento da carta ao Padre António Fernandes, Confessor do Príncipe D. Teodósio escrita, em Santiago, a 25 de Dezembro de 1652

 

É o caso que nesta ilha de Santiago, cabeça de Cabo Verde, há mais de sessenta mil almas, e nas outras ilhas, que são oito ou dez, outras tantas, e todas elas estão em extrema necessidade espiritual; porque não há religiosos de nenhuma religião que as cultivem, e os párocos são mui poucos e mui pouco zelosos, sendo o natural da gente o mais disposto que há, entre todas as nações das novas conquistas (*), para se imprimir neles tudo o que lhes ensinarem. São todos pretos, mas somente neste acidente se distinguem dos Europeus. Têm grande juízo e habilidade, e toda a política que cabe em gente sem fé e sem muitas riquezas, que vem a ser o que ensina a natureza.

 

Há aqui clérigos e cónegos tão negros como azeviche, mas tão compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer inveja aos que lá vemos nas nossas catedrais. Enfim a disposição da gente é qual se pode desejar, e o número infinito; porque além das cento e vinte mil almas que há nestas ilhas, a costa, que lhe corresponde em Guiné e pertence a este mesmo bispado, e só dista daqui jornada de quatro ou cinco dias, é de mais de quatrocentas léguas de comprido, nas quais se conta a gente não por milhares senão por milhões de gentios. Os que ali vivem ainda ficam aquém da verdade, por mais que pareça encarecimento: porque a gente é sem número, toda da mesma índole e disposição dos das ilhas, porque vivem todos os que as habitam sem idolatria nem ritos gentílicos, que façam dificultosa a conversão, antes com grande desejo, em todos os que têm mais comércio com os Portugueses, de receberem nossa santa fé e se baptizarem, como com efeito têm feito muitos; mas, por falta de quem os catequize e ensine, não se vêem entre eles mais rastos de cristandade que algumas cruzes nas suas povoações, e os nomes dos santos, e sobrenomes de Barreira, o qual se conserva por grande honra entre os principais delas, por reverência e memória do padre Baltazar Barreira, que foi aquele grande missionário da Serra Leoa, que, sendo tanto para imitar, não teve nenhum que o seguisse, nem levasse adiante o que ele começou. E assim estão indo ao inferno todas as horas infinidade de almas de adultos, e deixando de ir ao Céu infinitas de inocentes, todas por falta de doutrina e baptismo, sendo obrigados a prover de ministros evangélicos todas estas costas e conquistas os príncipes de um Reino, em que tanta parte de vassalos são eclesiásticos, e se ocupam nos bandos e ambições, que tão esquecidos os traz de suas almas e das alheias; mas tudo nasce dos mesmos princípios.

 

Padre António Vieira, Obras Escolhidas, prefácio e notas de António Sérgio e Hernâni Cidade, Volume II, Cartas II, segunda edição, 1997, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, p. 193-4

 

(*) Cabo Verde não foi uma conquista.  O Padre António Vieira refere-se aos novos territórios conquistados ou ocupados e administrados pelos portugueses, incluindo os portugueses caboverdeanos, para comparação.

 

A 25 de Dezembro de 1652, há mais de trezentos e cinquenta anos, na sua segunda viagem de Portugal para o Brasil, o Padre António Vieira fez escala em Santiago, Cabo Verde, onde desembarcou na Ribeira Grande com outros missionários e se demorou uma semana de 20 a 26 de Dezembro de 1652 (Padre António Brásio, 1946, O Padre António Vieira e as Missões de Cabo Verde, Portugal em África, Revista de Cultura Missionária, Segunda Série, Ano III, Número 17, Set. – Out. p. 298 - 305). Além de ter feito um sermão, deixou-nos este subsídio para a caboverdeanidade extraído duma carta, que escreveu na Cidade Velha. Não achou diferença entre os portugueses deste arquipélago do Atlântico tropical e os portugueses europeus, que não fosse aparente. Para ele, já nesses tempos distantes, os caboverdeanos eram europeus, mais concretamente portugueses. Para ele, mesmo falando a sua própria língua materna, os caboverdeanos não deixavam de ser portugueses e não tinham necessidade de se lhes ensinar a língua portuguesa, porque “todos a seu modo” a falavam já.

 

O Padre António Vieira da Companhia de Jesus, que estava de regresso à sua missão no Brasil, falava correntemente e fazia sermões na língua dos índios do Maranhão, que não considerava serem portugueses. O Maranhão e o Brasil eram uma conquista, onde os jesuítas defenderam os direitos e a dignidade dos índios vencidos. Cabo Verde não era uma conquista, foi uma colónia como a Madeira e os Açores, mas povoada, não só por colonos portugueses da Europa e da Madeira, como também por uma maioria de colonos africanos de variadíssimas etnias e nacionalidades.

 

Para desenvolver a ilha de Santiago e outras ilhas de Sotavento, os habitantes de Santiago foram angariar mão-de-obra ao continente africano vizinho, onde os potentados muçulmanos escravizavam os prisioneiros de guerra e os povos pagãos e onde havia uma multi-secular tradição de venda regional e exportação de escravos fomentada pelos árabes, ou mesmo anterior a estes. Traziam-nos do interior do continente e vendiam-nos no litoral entre o rio Sanaga, que separava os mouros brancos dos jalofos pretos, e a Serra Leoa, onde rugiam as trovoadas. O Rei de Portugal tinha concedido o monopólio do comércio de todo esse litoral africano de mais de quatrocentas léguas de comprido, ou cerca de 1.200 km de costa recortada por ansas, cabos, penínsulas, estuários, canais, ilhas e numerosos rios, aos habitantes de Santiago, a primeira ilha do Arquipélago a ser povoada e aquela que foi o berço da língua crioula e da nação caboverdeana, um ramo da nação portuguesa.

 

Depois das guerras, separações das famílias, maus tratos, falta de alimentação e longas caminhadas do interior até ao litoral amarrados uns aos outros por correntes, cordas, cadeados e cangas, a chegada a Cabo Verde, onde tinham trabalho, alojamento, roupa e alimentação, além de assistência religiosa e onde podiam constituir família era certamente uma vida nova para esses infelizes escravos africanos.  Os habitantes de Santiago e os proprietários, em Santiago e nas outras ilhas de Sotavento, casaram-se, tiveram filhos com as escravas mais prendadas. A partir da primeira geração de crianças nascidas em Santiago, os escravos e os não escravos foram todos integrados na emergente nação caboverdeana. Os escravos boçais, que iam chegando depois, foram sendo assimilados na nação caboverdeana, tornando-se ladinos.

 

Em Cabo Verde não houve vencidos, nem vencedores, nasceu e desenvolveu-se uma sociedade mestiça e uma nação nova, com a sua própria língua materna e língua de trabalho, ao lado do português. Este era estudado e praticado pela minoria escolarizada dos caboverdeanos, que foi aumentando ao longo dos séculos, tornando-os bilingues. Nesta sociedade homogénea e na sua diversidade de aparência, os movimentos verticais, pela educação e pelo trabalho e iniciativas individuais e familiares, modificaram a estratificação entre trabalhadores de origem africana e dirigentes de origem europeia, mesmo muito antes da abolição da escravatura. Os proprietários e dirigentes, ficaram a ser designados por “gente branca” independentemente da taxa de melanina dérmica, que se modificou de geração em geração (Baltasar Lopes da Silva, Escritos Filológicos e outros Ensaios, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Praia, 2010, p. 135).

 

Segundo atesta o Padre António Vieira, parece que em menos de dois séculos, estando ainda longe de ser abolida a escravatura, a homogeneização vertical já tinha produzido notáveis efeitos, sobretudo graças à acção da Igreja. Ele encontrou, nas pequenas igrejas de Cabo Verde, clérigos de fazer inveja aos das catedrais de Portugal e da Europa, que bem conhecia e acabava de percorrer, como agente diplomático do Rei Dom João IV, o restaurador da independência de Portugal.

 

Torna-se difícil compreender como é que, dum dia para o outro, a partir de 1975, tanto Cabo Verde, como os caboverdeanos, sem serem consultados, passaram a ser África e africanos, respectivamente. Tudo parece ter sido obra duma agitação política feita à pressa, nas ilhas, sobre a “validade de independência” (Aristides Pereira, 2011, p. 299, entrevistas a José Vicente Lopes, Aristides Pereira, Minha Vida, Nossa História, Praia, Edições Spleen, 492 p.).  

 

Onde é que falhámos?

 

Falhámos na declaração precipitada da independência. Tivemos pessoas não preparadas que assumiram este país, sem pensar nos interesses reais da população, assumindo de rompante um país que não estava preparado efectivamente para ser independente. A independência devia ter sido algo mais bem pensado, mais bem estruturado, daí uma parte de erros que são apresentados como sendo grandes vitórias.

 

António Pedro Silva, p. 143 – 153, entrevista a José Vicente Lopes, 2014, Outubro, Vozes das Ilhas, Revista da Reforma do Estado, edição especial, Cidade da Praia, 240 p.)

 

Na luta pela independência, com a ideia de puxar Cabo Verde para a África, tentaram como que manipular o cabo-verdiano. Isso decorre da tal africanização dos espíritos, defendida por Amílcar Cabral. Nisso procurou-se convencer o cabo-verdiano que ele não era aquilo que ele devia ser. Foi um erro tremendo. Quebrou-se o tal orgulho que o povo cabo-verdiano tinha. Tentou-se virar a roda da História para trás, quando nós nunca podemos girar a roda da História para trás. Cultura é aquilo que eu mamei no leite da minha mãe. Que ninguém me venha dizer que a minha cultura é isto, é aquilo, ou aqueloutro. A minha cultura é aquilo com que eu cresci, é o que eu sou hoje, é o que eu trago desde a raiz.

 

Odette Pinheiro, p. 80 – 91, entrevista a José Vicente Lopes, 2014, Outubro, Vozes das Ilhas, Revista da Reforma do Estado, edição especial, Cidade da Praia, 240 p.)

 

Se este arquipélago marítimo do grande mar oceano está em África ou não está, é assunto para discutirmos mais adiante. Para já limitemo-nos aos caboverdeanos e à caboverdeanidade.

 

Mais recentemente, fez escala em Cabo Verde outra autoridade, Gilberto Freyre, que não se demorou, nem aprofundou as suas observações, mas ficou manifestamente desorientado com as aparências. Vinha estudar a universalidade da língua portuguesa e da cultura luso-tropical e tropeçou com a primeira língua crioula da globalização e do Atlântico, que, primeiro como língua materna, se tinha tornado língua de trabalho riquíssima, depois língua franca no litoral da África Ocidental, como já era antes do tempo do Padre António Vieira, desde o Cabo Verde até à Serra Leoa, e finalmente numa língua nacional, com ambições de se tornar literária. Sem vislumbrar como poderia integrar a língua crioula naquela universalidade, só lhe restava rejeitar este corpo estranho a essa universalidade, pelo que foi sabiamente criticado por Mestre Baltazar Lopes da Silva,

 

… foi grande a minha surpresa ao ver que Gilberto Freyre emprega em “Aventura e Rotina” e em “Um Brasileiro em Terras Portuguesas” o verbo “repugnar” e o substantivo “repugnância” para definir a sua atitude de sociólogo perante o crioulo.  Mas, justos céus! Gilberto Freyre é um cientista. E a um cientista é reconhecido o direito de sentir repugnância pela matéria observada? A Ciência estaria bem arranjada se a um médico repugnasse examinar, para salvar uma vida humana, fezes e escarros; se um sábio como o meu velho mestre José Leite de Vasconcelos não aproveitasse todas as oportunidades para surpreender a verdade, quaisquer que fossem as andanças a que tivesse de se sujeitar e até a grosseria dos indivíduos observados. Confesso não compreender a alergia de Gilberto em relação ao crioulo. Não compreendo, porque é que Gilberto Freyre aceita e louva as expressões regionais daquilo que chama o “Mundo que o Português criou” e ao mesmo lhe “repugna” o crioulo de Cabo Verde. É claro que esta realidade, o crioulo, apresenta na sua problemática muitas facetas. Embora. Seja como for, o crioulo é a criação mais perene nestas ilhas. Tudo pode desaparecer ou modificar-se no Arquipélago: conduta, trajos, mobilidade das classes; se não ocorrer um cataclismo físico ou social, que está fora das nossas previsões, podemos ter a certeza de que, para me citar a mim mesmo, o crioulo está radicado no solo das ilhas como o próprio indivíduo.

 

Baltazar Lopes da Silva, 1956, Cabo Verde visto por Gilberto Freyre, apontamentos lidos ao microfone de Rádio Barlavento, Praia, Imprensa Nacional, Divisão Propaganda, Separata do Boletim Cabo Verde, Nº 84, 85 e 86, 52 p.)

 

JCH-Gilberto Freyre.jpgGilberto Freyre (Recife 1900 – 1987) visitou Cabo Verde em Outubro de 1951, trezentos anos depois do Padre António Vieira, e comparou Cabo Verde à Martinica e à Trinidade das Pequenas Antilhas, às quais atribuía erradamente uma “matriz africana salpicada de europeu”. Comparou a língua crioula de Cabo Verde de léxico português à língua da Martinica de léxico francês predominante e à da Trinidade também de léxico francês predominante. Veremos mais adiante, que estas comparações não eram inapropriadas e que, à luz da história, se justificam. Veremos porque é que se diz, na Martinica e Pequenas Antilhas e também nas Mascarenhas e outras ilhas do Oceano Índico, amarrer, espérer, larguer, como, respectivamente, em português, amarrar, esperar e largar, em vez de attacher, attendre, lâcher, respectivamente, em francês (Francisco Adolfo Coelho, 1880, Os dialectos românicos ou neo-latinos na África, Ásia e América, I Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 2ª Série, Nº 3, p. 129-196) e veremos também de que maneira chegaram levadas pelos caboverdeanos da grande diáspora as lagratish ou lagartixas à Trinidade (Francisco Adolfo Coelho, 1886, Os dialectos românicos ou neo-latinos na África, Ásia e América, III Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 6ª Série, Nº 12, p. 705-755).

 

Quanto à “matriz africana salpicada de europeu”, Gilberto Freyre caiu no mesmo erro que Frantz Fanon, médico psiquiatra da Guadalupe obcecado pela color bar (= linha divisória, barreira da cor) americana, ou racismo e contra-racismo anglo-saxão, pela cor da pele. Nem um nem outro conheciam África. Gilberto Freyre iniciou a sua primeira visita a África só depois de passar por Cabo Verde. Depois de se formar em França, Frantz Fanon foi trabalhar para a Argélia, no manicómio de Joinville, Blida, onde aderiu à Frente de Libertação Nacional argelina e só veio ao mato do Norte de Angola em 1963 munido dum binóculo, para encorajar Álvaro Holden Roberto a desencadear uma bárbara insurreição, na data duma reunião do Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque, a 15 de Março de 1961 (João Paulo Nganga, 2008, O Pai do Nacionalismo Angolano, As memórias de Holden Roberto, I Volume, 1923 - 1974, Globalangola Lda, 296 p.).

 

O primeiro livro de Frantz Fanon, sobre a sociedade e cultura das Antilhas Francesas teria o título de “Pele Preta Máscaras Brancas”, se tivesse sido traduzido em português (Frantz Fanon, 1952, Peau Noire Masques Blancs, Collection “Esprit” aux Editions du Seuil, Paris, 223 p.)*.  Como diria o Padre António Vieira a pele preta nas Antilhas é, na realidade, um “acidente” e naquelas culturas pode verificar-se, que não há máscaras nenhumas, os sentimentos espelham-se nas fisionomias, os antilheses, incluindo os de origem indiana oriental, não aprenderam a usar a máscara oriental. Nas Pequenas Antilhas, há sim pele preta e almas brancas, resultado do trabalho produtivo secular em língua crioula e do trabalho de evangelização das igrejas.  Como em Cabo Verde, a África “diluiu-se” nas Pequenas Antilhas, as Pequenas Antilhas, como Cabo Verde, “fugiram” da África (Baltasar Lopes da Silva, Rádio Mindelo, São Vicente, 19.5.1956). Também nos Estados Unidos da América a pele é preta e a alma branca, como cantava Paul Robeson (“I am a little black boy but all my soul is white.”), inspirando-se de um poema de William Blake, poeta inglês, 1757 – 1827.

JCH-Baltasar Lopes da Silva.jpg(Caleijão, São Nicolau 1907 – Lisboa 1989)

 

Temos assim duas autoridades e duas conclusões diametralmente opostas sobre a caboverdeanidade.  Gilberto Freyre não aprofundou o “caso” de Cabo Verde, estava em missão de estudo da língua portuguesa nos trópicos e a língua crioula não era português, apesar do seu léxico, com mais de 95% de palavras de etimologia portuguesa. Descuidou-se ao tomar as aparências por realidades e ao pôr por escrito as suas primeiras impressões, necessariamente superficiais, porque ficou pouco tempo em Cabo Verde.

 

O Padre António Vieira, tão brasileiro como Gilberto Freyre, estava e esteve quase toda a sua vida em missão de evangelização. Confiou-nos que gostaria de ter ficado na diocese de Cabo Verde, onde se sentiu melhor do que no seu Maranhão e onde, com a sua grande alma, antevia obra grandiosa, que não chegou a realizar-se, porque os jesuítas portugueses se retiraram, em 1642 e não voltaram, depois de terem trabalhado trinta e oito anos, pouco numerosos, na Grande Guiné e em Cabo Verde e consagrado à Serra Leoa catorze anos de vida dos missionários Padres Baltazar Barreira (1604 a 1608) e Manuel Álvares (1607 a 1617). O primeiro está sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Cidade Velha desde 1612 e o segundo morreu em 1617 na Serra Leoa, uma capitania portuguesa que não vingou ao contrário da capitania de Cacheu fundada e fortificada em 1589 pelo caboverdeano Manuel Lopes Cardoso (Nuno da Silva Gonçalves, 1996, Os Jesuítas e a Missão de Cabo Verde, Brotéria, Lisboa, 449 p.).

 

Tampouco vingou, um projecto de futura colónia caboverdeana. Os caboverdeanos não tiveram uma terra prometida, “tão abundante de tudo, que nada lhe faltava” (André Álvares de Almada, 1594, Tratado Breve dos Rios da Guiné do Cabo Verde, publicado, anotado e comentado, em 1964, por António Brásio C. S. Sp., Lisboa, Editorial LIAM, 156 p.), uma futura colónia melhor do que Canaã. Um grande caboverdeano André Álvares de Almada, futuro cavaleiro da Ordem de Cristo, foi mandatado pelo povo da ilha de Santiago, para ir ao Reino apresentar este projecto, à volta de 1581, e requerer autorização de povoamento pelos caboverdeanos, requerimento indeferido por almas tacanhas, “com receio que a ilha ficasse desamparada” (Avelino Teixeira da Mota, 1970, Dois escritores quinhentistas de Cabo Verde, André Álvares de Almada e André Dornelas, Conferência proferida no Museu de Angola, Luanda em 23 Nov. 1970, Liga dos Amigos de Cabo Verde - Boletim Cultural, Nov.1970, p. 40-44), como efectivamente ficou desamparado todo o Arquipélago, durante perto de quatro séculos, sujeito a secas e fomes periódicas e sem receber alimentos suficientes, nem do Rei Mandinga, nem do Rei Português. Quatro séculos mais tarde, o Cónego Marcelino Marques de Barros (1844-1928), havendo fome em Cabo Verde, publicou a 31 de Outubro de 1883, em 4 páginas e 10.000 exemplares, A Fraternidade, Guiné e Cabo Verde, folha destinada a socorrer as vítimas da estiagem da província caboverdiana, com artigos e comentários de simpatia de 41 guineenses, entre eles 6 senhoras. A Guiné já se tinha tornado independente do Governador de Cabo Verde há quatro anos, mas não queria poupar-se a esforços para suavizar os sofrimentos dos seus irmãos caboverdeanos e dava um exemplo da solidariedade dos países lusófonos, talvez o primeiro.

 

Em Cabo Verde, os jesuítas residiam ao pé da fortaleza real de São Filipe, onde ensinavam a ler e escrever às crianças. Depois de partirem, a população não cessou de reclamar o regresso da missão e o Padre António Vieira apoiou essa reclamação, escrevendo, nesse sentido, para Lisboa ao confessor do príncipe herdeiro, Dom Teodósio e ao Padre Provincial do Brasil (Padre António Brásio, 1946, O Padre António Vieira e as Missões de Cabo Verde, Portugal em África, Revista de Cultura Missionária, Segunda Série, Ano III, Número 17, Set. – Out. p. 298 - 305). As causas da curta duração da missão dos jesuítas estão ligadas à crise económica de Cabo Verde, anunciada na primeira década do século XVI, com o cancelamento, por Dom Manuel I, da concessão da carta de Dom Afonso V de 12 de Junho de 1466 e com a emigração para o Brasil duma parte dos operadores económicos caboverdeanos acompanhados de suas famílias, bens e haveres, incluindo trapiches e trabalhadores cativos e forros, crise que começou na década de 1560 e se acelerou por outras causas ecológicas e políticas, ficando Cabo Verde órfão, quando terminou o império português da Ásia, dois séculos depois da colonização.

 

A visita do Padre António Vieira, coincidiu com o declínio dos tratos e resgates nos rios da Grande Guiné dos moradores de Santiago (António Carreira, 1983, Panaria Caboverdeana-Guineense, Alguns Aspectos Históricos e Socio-Económicos, segunda edição, Instituto Caboverdeano do Livro, 226 p.) e da própria Grande Guiné, que já estava reduzida à Pequena Guiné de hoje mais a Casamansa.  A esmola concedida pelo Rei de Portugal Dom Filipe II para mantimento dos missionários jesuítas praticamente não era paga em Cabo Verde, pela fazenda real minguada de recursos financeiros, pois os navios negreiros espanhóis, primeiro, franceses, ingleses, holandeses e outros, depois, passavam a abastecer-se na costa africana, sem fazer escala em Cabo Verde, onde a alfândega ficou sem recursos financeiros.

 

Os jesuítas portugueses só deixaram obra grandiosa no Brasil. Outro grande missionário jesuíta, Dom Gonçalo da Silveira, chegou a pôr mãos à obra sòzinho, em Moçambique, mas por pouco tempo. Estava, ao Norte de Manica, a catequizar e ensinar a ler e a escrever às crianças com autorização do Monomotapa ou Senhor da Mutapa, quando foi estrangulado e o seu cadáver atirado aos crocodilos duma lagoa do rio Mossenguese. A decadência portuguesa já estava em marcha, com os comerciantes, artífices, industriais e trabalhadores independentes das cidades, que tinham feito, em Lisboa, a primeira revolução burguesa da Europa em 1383-85 (Álvaro Cunhal, 1975, As Lutas de Classes em Portugal nos Fins da Idade Média, Lisboa, Editorial Estampa, 132 p.), a serem discriminados, presos e queimados pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, depois de espoliados de bens de raiz e cabedais. Além da paz e reatamento das relações comerciais com os Países Baixos, um dos objectivos da missão diplomática confiada pelo Rei de Portugal Dom João IV ao Padre António Vieira, que este acabava de desempenhar na Europa, era, aliás, tentar reorientar os cabedais ou capital dos portugueses judeus e cristãos novos refugiados na França, Holanda, Inglaterra, Alemanha e Itália, em proveito da sua pátria e do império português, missão que fracassou e acabou de vez, com a prisão pela Inquisição Portuguesa, do grande Padre Missionário e Imperador da Língua Portuguesa, assim apelidado por Fernando Pessoa (António Brandão, 1972, O Padre António Vieira, 1663-67, A prisão dum Jesuíta pelo Santo Ofício, um cárcere insuportável, pedido de comutação desatendido, Volume I, Cap. XIV, Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa., Seara Nova, 3 vol., 280 + 353 + 205 p.).

 

Mas, nestes subsídios, vamos limitar-nos, tanto quanto possível, a Cabo Verde e à sua grande diáspora. A cultura caboverdeana é europeia, como sempre se provou, ou africana, como se pretende desde que sopraram as lestadas marxistas-leninistas da revolução africana sobre o Arquipélago? Depois de sublinhar a impressionante “fuga” à África do Arquipélago e de reconhecer a “diluição” da África na cultura e língua caboverdeanas, Mestre Baltasar Lopes da Silva, resolveu este dilema, em 1985, da seguinte maneira:

 

Sim, porque nos dizem, a nós das ilhas:

- Se vocês “não são de África”, o que é que são? Europa?

Ou, inversamente, mas creio que muito mais raramente:

- Se “não são Europa”, o que são? África?

Claro que a mesa assim posta não deixa liberdade nenhuma ao conviva, que possivelmente se retrairá de anunciar a única verdade etnológica:

- Nem uma coisa, nem outra, somos caboverdeanos.

 

Baltazar Lopes da Silva, 1985, Prefácio ao livro de Manuel Ferreira, A Aventura Crioula, Lisboa, Plátano, republicado em Baltazar Lopes, 2010, Escritos Filológicos e outros Ensaios, Praia, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 365 p.)

 

Queríamos só acrescentar, caboverdeanos há cinco séculos e meio, fincados naquelas ilhas verdes só quando chove, pequenas e pobres em recursos naturais, geralmente desamparadas pelos governos de Lisboa, levados e retornados pelos ventos dos oceanos para participar, nas sete partidas do mundo, ao trabalho da globalização do mercado, à revolução industrial e ao sustento das famílias e educação dos filhos. Porque, sem a sua diáspora, iniciada com a ida para o Brasil dos seus operadores económicos mais dinâmicos, a que aludimos mais acima, a nação caboverdeana fica mutilada e perdida no oceano, a sua língua reduzida a um “alfabeto”.

 

A defesa da caboverdeanidade por mestre Baltazar Lopes da Silva surtiu efeitos ao mais alto nível do luso-tropicalismo. Outra autoridade unanimemente respeitada, o Professor Adriano Moreira afirmou sem hesitações, nem dúvidas, que Cabo Verde “é a expressão mais perfeita do luso-tropicalismo no mundo” e repetiu, por outras palavras, que o caboverdeano constitui “o exemplo mais perfeito da cultura luso-tropical” (1962, Partido Português, discurso proferido em 5 de Setembro de 1962 na Praia, durante a sessão do Conselho de Governo de Cabo Verde, Livraria Bertrand, Lisboa, p. 123 - 150).

 

Desejaríamos analisar e esclarecer, nos próximos subsídios, se o Arquipélago é de origem vulcânica e se faz parte do continente africano e investigar a história da nação caboverdeana no mundo e da sua língua crioula, como nasceram e se propagaram e espalharam pelo mundo os caboverdeanos e a sua língua crioula. Depois do grande sucesso do projecto de desenvolvimento económico resultante do privilégio do monopólio de comércio com a África Ocidental (Subsídio 14), o trabalho da nação caboverdeana organizado e articulado pela sua língua crioula fez do Brasil uma grande potência económica, deu novos mundos ao mundo e novas línguas à África, à América, a ilhas perdidas nos oceanos e à Ásia também, tudo isto ao lado e de mãos dadas tanto com a nação portuguesa como com a sua grande e muito mal conhecida diáspora religiosa.

 Jose Carlos Horta.jpg

José Carlos Mucangana

 

 

* Foi já traduzido e publicado com título errado: Pele Negra Máscaras Brancas, 2008, Salvador da Bahia, EDUFBA,194 p.  Para esta côr, em francês há uma única palavra noir, ao passo que em português há duas preto e negro.  Em inglês black é a côr e negro, como, em francês nègre não é uma côr e só se aplica a uma “raça” humana com elevada taxa de melanina dérmica ou black skinned (= com pele de côr preta). Já ficou provado, que não existem raças na espécie humana. Fanon referia-se à cor da pele e sabia francês. Referia-se à côr da pele noire ou preta, não escreveu nègre (= negro), porque não se referia a nenhuma raça “raça”. O tradutor deve ter-se esquecido, ou não sabia, que negro tem sentido pejorativo, quando se trata de “raça”, mas, no título deste livro, não se trata de “raça”, é só a côr da pele. Traduttore, traditore, diz-se em italiano, ou tradutor, traidor, em tradução portuguesa, mas, às vezes, é só incompetência, aqui talvez também ideologia mal digerida ou preocupação comercial.

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:12
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Sábado, 3 de Dezembro de 2016
CARVALHO CALERO

 

Carvalho Calero.jpgA fala da Galiza, o português de Portugal, o português do Brasil e o português dos distintos territórios lusófonos, formam um único diassistema linguístico conhecido entre nós (Galiza) como galego e internacionalmente como português.

Ricardo Carvalho Calero (Ferrol, 1910 — Compostela, 1990) foi um filólogo e escritor galego do século XX, o primeiro Catedrático de Língua e Literatura Galegas, considerado o grande pensador do reintegracionismo linguístico. Escritor, nacionalista, teórico do reintegracionismo e professor universitário, é uma das figuras mais proeminentes do universo intelectual galego do século XX.

Wikipédia



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:10
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A MORTE DE FIDEL CASTRO

HSF-Fidel e o seu Cohiba.jpg

 

O mundo acordou dia 26/Nov. com a notícia da morte de Fidel Castro. Era de se esperar uma grande repercussão, afinal, a história do ditador, além de estar ligada à história dos movimentos revolucionários latino-americanos, está fortemente imbricada com a história da maior potência do ocidente, os EUA (Estados Unidos da América).

 

O pequeno parágrafo que acabei de escrever acima já seria suficiente para suscitar uma discussão interminável sobre duas palavras: ditador e revolucionário. A maioria das pessoas verá nelas uma contradição, pois "ditador" é algo tido unanimemente como ruim (ao menos supostamente) enquanto que "revolucionário" é tido pela maioria das pessoas como algo bom. Isso porque o mundo ocidental vive uma revolução cultural promovida pelos agentes do marxismo cultural que já dominam quase que totalmente as instituições de ensino, os meios de comunicação social e a Igreja Católica. Por conta disso, as pessoas têm, já naturalizados, concepções impostas sobre determinadas palavras. Revolução é uma delas. No universo da lusofonia, Bluteau regista a palavra na primeira quadra do século XVIII ainda com um possível significado de volta a uma situação anterior, no sentido de recompor um ordenamento, baseado na ideia de revolução dos corpos celestes e na tradição. Mas também regista o significado de mudança. Se entendermos que uma volta ao passado, nesses termos, estará marcada por uma mentalidade presente que pode corromper o modelo original e que a mudança pela mudança, em si, leva ao vazio do relativismo, verificaremos que revolução é, aprioristicamente, algo ruim. Se entendermos revolução com o significado que a palavra tem na actualidade, já bosquejado por Bluteau, mas acrescentada e associada à ideia marxista de ruptura total com as estruturas existentes para a construção duma sociedade baseada em novos alicerces, é algo pior ainda, pois quando as estruturas anteriores são totalmente destruídas, perde-se, sob qualquer ponto de vista, tudo que vem de antes, seja bom ou ruim. Mas nenhuma dessas considerações muda a percepção que a maioria esmagadora das pessoas no mundo hodierno tem acerca da palavra "revolução", que é entendida sempre como algo bom. Assim é, infelizmente, queiramos ou não. É um dado da realidade. Pois bem, Fidel foi um revolucionário, no conceito moderno da palavra. E, como tal, deixou um rastro de destruição.

 

Então, deixemos de lado os prolegómenos e vamos directamente tratar daquilo que o título sugere.

 

Fidel Castro nasceu numa Cuba ainda vivamente marcada pela derrota de 1898 onde os EUA, ao vencerem a Espanha, ficaram com uma influência maior sobre Cuba, além de terem ficado com o domínio de Porto Rico, Ilhas Guam e Filipinas, enfim, uma verdadeira tragédia para o mundo hispânico. Esse cenário fez com que Fidel trouxesse, "do ventre", uma mentalidade anti-americana (no sentido de anti-estadunidense) ainda que mesclada com uma grande admiração, haja vista que independentistas cubanos contavam com a simpatia dos Estados Unidos para sua causa. Sucede que o processo de independência de Cuba aconteceu concomitante com a guerra hispano-americana. O resultado é que Cuba nasceu sob o jugo dos EUA. Ressalve-se que, apesar de, originalmente, Hispânia poder ser afecto também à Portugal, faço uso do termo de forma alusiva tão-somente à Espanha moderna na sua territorialidade e zona de influência política, cultural e linguística, em todo mundo, termo cunhado historicamente e devidamente aceito como demonstra o uso corrente da palavra, e que não inclui o mundo português.

 

A partir da independência, Cuba passa a ser governada por representantes das oligarquias locais, aliadas aos interesses dos EUA. A vitória do liberalismo em Espanha, consequência do iluminismo e da Revolução Francesa, de há muito tinha moldado governos com a ideia distorcida do que era monarquia. Governos centralizados num ambiente cultural como o espanhol produziram, na América Hispânica, caudilhos e chefetes que conduziram processos políticos autoritários rumo à independência onde as elites decaídas estavam descoladas da sociedade tal como um corpo estranho, inorgânico. Ainda assim as instituições ocidentais continuaram, em essência, preservadas.

 

Fidel Castro cresceu num ambiente de grande desconfiança em relação "grande irmão" do norte e, educado por jesuítas, assimilou todo o sentimento de revanche presente entre os inacianos, ordem que, embora tenha religiosos de várias origens, sempre foi alinhada com os interesses castelhanos desde sua fundação. Com efeito, os loyolistas viram a Grande Armada ser derrota pela velha Albion em 1588, viram os estadunidenses tomarem mais da metade do território do México em meados do século XIX e, outro grande desastre, a derrota de Espanha para os EUA em 1898, como já referimos acima, derrota que abalou e feriu de morte o orgulho hispânico e, mais uma vez, para o inimigo de sempre, os ingleses e seus descendentes no novo mundo. Está nesse sentimento de recalque dos hispânicos o alimento para o que viria a ser o movimento "anti-imperialista". Os jesuítas trataram de manter esse sentimento vivo através de todas as suas instituições de ensino na América Latina. Pouco antes do nascimento de Fidel, resulta vitoriosa a Revolução Russa. As ideias socialistas influenciarão fortemente a formação dele.

 

A revolução que levou Fidel ao poder teve, de início, o apoio de toda a sociedade. Havia uma grande insatisfação com o regime de Fulgêncio Baptista. As classes médias e a burguesia cubanas apoiaram, maioritariamente, Fidel. Mas esse cenário não daria a ele o embate que queria com os EUA. Nesse sentido, a ideologia marxista-leninista foi o meio que ele teve ao seu alcance para expressar esse antagonismo. Fidel já vinha de uma militância em partidos de esquerda e sua radicalização seria algo natural, principalmente quando um potencial grande aliado se aproximou: a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

 

Fidel costumava dizer que a Cuba de Baptista era uma ditadura, um bordel dos EUA, tinha uma economia baseada no mercado negro e o povo na miséria. Na verdade, Cuba tinha vários aspectos de subdesenvolvimento mas era, no contexto latino-americano, um país com indicadores sociais acima da média e que, desde que superasse um sistema político que negava a participação à maioria da população e contasse com instituições mais fortalecidas, tenderia a ter um futuro com muito progresso aproveitando-se das parcerias comerciais com os EUA e com a Espanha. Implantada a revolução, começa um período de repressão com a eliminação física dos opositores mas também de aliados que ousassem divergir do rumo que Fidel dava ao processo político. Fidel instaura um regime comunista totalitário a passa a seguir as determinações de Moscovo que tinha dois objectivos prioritários: estabelecer uma cunha em território próximo aos EUA e exportar a revolução para o resto do continente.

 

O comunismo é um regime totalitário e, como tal, destrói o estado de direito para impor-se. A tentativa da exportação da revolução trouxe consequências para todo o continente. Uma das características da acção dos comunistas é que ela aproveita-se da democracia para corrompê-la e levar o processo político na direcção por eles desejada, infiltrando-se nas instituições e em todos os sectores da vida nacional. Nesse sentido, vale dizer que Gramsci, com sua tese de hegemonização, é o campeão do leninismo pois aperfeiçoou o que Lenine planejara de forma mais rude e tosca. Para o comunista, a democracia é mero expediente táctico para alcançar a estratégia que é a implantação do regime totalitário outrora chamado "ditadura do proletariado". O que Lenine elaborou propondo a infiltração nas fábricas e no exército, Gramsci elaborou com muito mais sofisticação propondo o domínio de todos os segmentos da cultura, meio académico e comunicações. Algumas expressões mais visíveis da praxis Gramsciana são o politicamente correcto, a ideologia de género e o multiculturalismo. Esse processo pressupõe um quadro revolucionário que culmina com a ruptura de todo o quadro político institucional. Ou seja, o estado de direito e as instituições ocidentais, base da democracia, deixam de existir.

 

 

Cabe aqui uma pequena digressão sobre a diferença entre totalitarismo e regimes autoritários do tipo que tivemos na América Latina, antes e depois da Revolução Cubana. A diferença é muito clara. Esses regimes autoritários, alguns deles ditaduras militares, não destruíram o Estado de Direito nem as instituições ocidentais. Em muitos casos, como no Brasil, eles surgiram para impedir um golpe comunista e salvaram a democracia restringindo algumas liberdades para que fossem preservados os direitos mais importantes pois não há democracia sem Estado de Direito ou instituições fortes. Já num regime totalitário, como o cubano, as pessoas perdem seus direitos primevos: o direito de ir e vir, o direito à propriedade, o direito a professar sua religião qualquer que seja ela, o direito de educar seu filho sem a interferência do estado, o direito à inviolabilidade de correspondência e esses direitos nunca foram suprimidos na América Latina à excepção de Cuba. Actos institucionais de excepção nesses regimes autoritários estavam claramente definidos como tal, ou seja, não foram considerados como dentro da normalidade de um arcabouço jurídico. Num regime totalitário, TODAS as instâncias da vida nacional funcionam sob a directriz do governo e do partido único. Os actos de força que restringem as liberdades não são considerados actos de excepção mas, sim, da normalidade do sistema. Os juízes são do partido que governa. Não há independência do judiciário. O parlamento, quando existe, é composto exclusivamente por membros do partido. E o pior de tudo, no regime totalitário não basta não se meter em política para não ser importunado, há que manifestar seu apoio ao governo e denunciar quem não estiver apoiando. Quem não lembra do menino que ganhou uma medalha do Estaline por denunciar seu pai que não entregou a cota de produção agrícola ao Estado? Nos regimes autoritários que tivemos, houve, sim, a supressão da liberdade de expressão e de organização partidária. No mais, tudo diferente. Tomando outra vez o Brasil como exemplo, durante a ditadura militar: os direitos básicos foram mantidos, o judiciário manteve o acesso por concurso e os juízes mantiveram sua independência e autonomia. O judiciário nunca foi aparelhado e tampouco ideologizado. Foram muitas as pessoas acusadas de subversão que foram absolvidas até mesmo por tribunais militares. O judiciário continuou a funcionar normalmente e protegeu sempre os direitos fundamentais dos brasileiros. O parlamento continuou a funcionar e uma oposição continuou a existir. Nunca alguém foi seriamente importunado por ter um parente envolvido em subversão. Nunca algum inocente foi instado a denunciar outra pessoa por crimes políticos. E quem não quis se meter em política, pôde levar sua vida sem sobressaltos ou constrangimentos e prosperar.

 

Cuba tem até hoje um estado policial. Sem instituições que funcionem, porque foram destruídas, os cubanos não vislumbram uma saída que não passe pela intermediação de seus algozes, pois toda e qualquer oposição foi eliminada fisicamente.

 

Enquanto contou com o dinheiro vindo da URSS Cuba manteve-se relativamente estável. Durante esse período de estabilidade, contou também com recursos vindos de Angola, país entregue à URSS pelos comunistas infiltrados no Exército Português que fizeram a quartelada de 25 de Abril. Com a "débâcle" da URSS, Cuba entra em colapso. O país não estava preparado para viver sem essa ajuda e tem uma economia totalmente desestruturada, incapaz de produzir os géneros mais básicos para a população.

 

Qual foi o legado de Fidel Castro para Cuba? Subdesenvolvimento e pobreza à beira da miséria. Tudo aquilo que Castro falava sobre a Cuba de Baptista manteve-se apenas com a troca de "americanos" para "europeus", mormente espanhóis. Cuba é hoje uma ditadura muito pior porque totalitária, é um bordel dos espanhóis, tem uma economia baseada no mercado negro e um povo muito pobre e sem perspectivas pois não houve desenvolvimento económico na ilha durante esses mais de 50 anos. Além disso, existe a exploração de trabalhadores em condições que os esquerdistas taxariam de análogas à escravidão se ocorressem em países capitalistas. Cito apenas um exemplo: empresas europeias contratam engenheiros cubanos para obras na ilha pelos quais pagam, por exemplo, 2 mil euros por mês. Esse contrato é intermediado pelo governo cubano que recebe os 2 mil euros mas só repassa 200 euros aos engenheiros contratados. Cito só esse dado porque é reconhecido pelo próprio governo cubano, não podendo ser contestado. Fora da ilha, o governo cubano procede da mesma forma como quando, por exemplo, mandou médicos para o Brasil num trato com o governo comuno petista de Dilma Rousseff.

 

E as tais conquistas na saúde e educação? Tudo balela. A educação em Cuba contempla somente o lado do adestramento para servir ao regime e preencher algumas funções pré determinadas. Não pode haver um bom sistema de ensino no seu sentido mais amplo pelo simples motivo de que não há pluralidade de ideias e os alunos nos seus diversos níveis só lêem o que o regime permite além de não poderem escolher a sua profissão. A saúde teve progressos no que tange à medicina social e regista algumas ilhas de excelência mas muito abaixo do nível da medicina de outros países latino-americanos e a saúde do povo é agravada pela falta de comida.

 

No Brasil a repercussão da morte de Fidel foi imensa e assistimos dois dias seguidos de propaganda comunista nas estações de TV só interrompida pelo trágico acidente aéreo na Colômbia com os atletas do clube Chapecoense. O avanço da revolução cultural no Brasil com os agentes do marxismo cultural actuando em todas as instituições e frentes possíveis criou uma mentalidade de esquerda principalmente nas classes médias e na burguesia, segmentos mais permeáveis à acção desses celerados. Falaram muito da preocupação de Fidel com os mais pobres e muito "en passant" sobre o regime político. A palavra ditador só usaram quando falaram de Fulgêncio Baptista. Em nenhum momento foi usada para definir Fidel que, para eles, foi um revolucionário preocupado com os mais pobres que cometeu alguns pequenos erros. Pelo que se pôde ver em canais internacionais, foi um pouco assim por toda a parte.

 

A morte de Fidel também expôs tragicamente para o ocidente, de forma definitiva, que Bergoglio tem um projecto político que passa pelo apoio ao comunismo e à tal "Pátria Grande" à qual ele aludiu logo nos primeiros dias como Papa. É a ideia de hegemonização, bem ao estilo gramsciano, de todo o continente baixo influência da Teologia da Libertação, tentativa impossível de conciliar cristianismo com marxismo, em aliança com os comunistas, para melhor fazer vingar o plano de contrapor-se ao bloco capitalista e às nações do hemisfério norte, que Bergoglio julga culpadas por todas as mazelas do mundo subdesenvolvido. Mas essa já é outra história...

 

Às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em o dia dois de Dezembro de 2016

Marcos Levy Crespo.jpg

Marcos Levy Pina Gouvêa Crespo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:39
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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016
EL PURO D’EL COMANDANTE

 

 

 

Voltando a Fidel Castro, reconheço que se tratava de personagem carismática. Mas não me restam grandes dúvidas de que era um verdadeiro malandro que parece ter mandado matar mais gente do que a ditadura militar do seu antecessor, o boçal sargento Fulgêncio Batista (auto-arvorado em Coronel e em Comandante Chefe das Forças Armadas do seu país) e muitíssimo mais do que a ditadura militar no Brasil. Na ausência de estatísticas fiáveis, fiquemo-nos pelo que se diz.

 

Como já contei noutra crónica (http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/na-morte-de-fidel-castro-1747911), a minha tia Amélia Teixeira casou nova com o tio Pairó[1], cubano de origem galega, advogado e que viria a ser professor catedrático de Direito Civil na Universidade da sua Havana natal. E foi por ela que eu soube que a vida em Cuba não era fácil.

HSF-Fulgêncio Batista.jpg

 

Durante o período de Fulgêncio Batista, a boçalidade reinava e Cuba pouco mais seria do que um parque de diversões – eufemismo de prostíbulo – ao largo da Flórida para americanos à busca de diversão mas gerido com grande intervenção da Máfia. Mas os cubanos viviam. Diga-se em abono da verdade que viviam com as dificuldades típicas de um país gerido por gente iletrada, boçal, complexada e, portanto, tendencialmente violenta.

 

Letrado, Fidel pôs um ponto final nesse cenário.

 

O tio Pairó tinha sido professor de Fidel e, conhecendo-o relativamente bem, atribuía aos americanos a culpa da viragem que ele fez para o comunismo. Lembro-me perfeitamente de ouvir a tia Amélia dizer «o Manolo diz que o Fidel não era comunista e que só se virou para a Rússia quando os americanos lhe fizeram a vida negra». E nós, conhecendo o tipo de raciocínio hermético do americano vulgar para quem o mundo é a América e tudo o mais não passa de arrabaldes desprezíveis, estamos mesmo a ver como o caldo se entornou: Fidel fez um Inferno aos negócios da Máfia em Cuba, a Máfia queixou-se ao Governo Americano e este fez um Inferno a Fidel. Não era que a Máfia mandasse no Governo Americano; este apenas pensou que os interesses americanos estavam a ser prejudicados em Cuba e não quis saber de mais nada. A partir daí, todos conhecemos a História...

 

E o que foi a revolução cubana? Muito simplesmente, o alastramento do Inferno a toda a sociedade. Os adeptos do comunismo tecem loas à educação e à saúde mas esquecem-se do pequeno-almoço, do almoço e do jantar; a louvável expulsão dos americanos mafiosos não foi acompanhada da instauração de uma economia virtuosa que criasse níveis mínimos de bem-estar; pelo contrário, o dogma tomou conta de tudo e a economia colapsou. E como a «pureza» da tirania já perdura há quase 58 anos[2], são várias as gerações de cubanos que não sabem viver se não na miséria. E a alta instrução que obtiveram, aplicam-na gerindo stocks de senhas de racionamento e mantendo relações públicas (vulgo, prostituição) com quem lhes acene com moeda forte já que o ordenado médio mensal equivale (em moeda não transaccionável) a € 5,00 e um engenheiro ganha cerca de € 8,00.

 

E não me venham, comunistas, com a conversa mais do que estafada dos malefícios do bloqueio americano. Esse bloqueio não passou de um bluff infantil só «para inglês ver» pois estava super furado pelos próprios americanos disfarçados de canadianos e os outros países cooperaram sempre com Fidel. O problema tem sido um e um só: o modelo económico comunista não funciona e, portanto, não presta. Vi com os meus próprios olhos, não emprenhei de ouvido.

 

E foi por causa do desastre do modelo que muitos cubanos optaram por mandar a «pureza» às urtigas e fugiram em botes, jangadas e câmaras-de-ar devidamente insufladas; os outros, esperaram pelo fim do puro d’el Comandante, esse que não precisava de esperar pelo fim do mês para fumar charutos.

 

HSF-Fidel e o seu Cohiba.jpg

 El Comandante y su puro

E agora?

 

Agora, a ver vamos como dizia o ceguinho. Como assim? Quem é que já viu um comunista abandonar o poder voluntariamente ou em resultado de eleições livres?

 

Não tenho uma bola de cristal que me informe dos passos seguintes em Cuba (nem fora de Cuba) mas creio que tudo terá que ser construído a partir do zero pois o comunismo destruiu completamente a sociedade civil, assim destroçando a Nação cubana que, das duas, uma: ou vive no Partido em obediência cega ou fora dele, numa clandestinidade mais ou menos literal e rigorosa.

 

O sucessor do «tio Manolo» na cátedra de Direito Civil (será que ainda existe?) na Faculdade de Direito da Universidade de Havana vai ter muito trabalho a descodificar as normas partidárias para que, um dia no futuro, Cuba discuta democraticamente um renovado quadro legal e possa finalmente ser aquilo que nunca foi verdadeiramente: um Estado de Direito. Um dia...

 

E que os mafiosos se mantenham à distância.

 

Novembro de 2016

 

HSF-27NOV16.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] Manuel Diaz Pairó - Universidad de La Havana, Facultad de Derecho

[2] - Fidel Castro chegou ao poder no dia 1 de Janeiro de 1959



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:17
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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2016
SAUDADES DO «URUGUAI»

Uruguai-Ladear a trote.jpg

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:29
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CITAÇÃO

Quem gosta de escrever cartas para os jornais não deve ter namorada.

Carlos Drummond de Andrade

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:45
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RESTAURADORES EM 1 DE DEZEMBRO DE 1640

 

 

Lisboa-Restauradores.jpg

Lisboa - monumento aos restauradores da sobernia nacional 

 

Afonso de Menezes, D.

Álvaro Coutinho da Câmara, D.

Antão Vaz d’Almada, D.
António de Alcáçova Carneiro, D.Alcaide-mor de Campo Maior
António Álvares da Cunha, D. 17º Senhor de Tábua
António da Costa, D.
António Luís de Menezes, D.1º Marquês de Marialva
António de Mascarenhas, D.

António de Melo e Castro
António de Saldanha – Alcaide-mor de Vila Real
António Teles da Silva – Governador do Brasil
António Telo, D.

Carlos de Noronha, D.
Estêvão da Cunha
Fernando Teles de Faro, D.

Fernão Teles de Menezes – 1º Conde de Vilar Maior
Francisco Coutinho, D.

Francisco de Melo
Francisco de Melo e Torres – 1º Marquês de Sande
Francisco de Noronha, D.

Francisco de São Paio
Francisco de Sousa, D.1º Marquês das Minas
Gaspar de Brito Freire
Gastão Coutinho, D.

Gomes Freire de Andrade
Gonçalo Tavares de Távora
Jerónimo de Ataíde, D.6º Conde de Atouguia
João da Costa, D.1º Conde de Soure
João Pereira, D.

João Pinto Ribeiro, Dr.
João Rodrigues de Sá
João Rodrigues de Sá e Menezes, D.3º Conde de Penaguião

João de Saldanha da Gama
João de Saldanha e Sousa
Jorge de Melo
Luís Álvares da Cunha
Luís da Cunha
Luís da Cunha de Ataíde, D.Senhor de Povolide,
Luís de Melo, Alcaide-mor de Serpa
Manuel Rolim, D. – Senhor de Azambuja

Martim Afonso de Melo – Alcaide-mor de Elvas
Miguel de Almeida, D.4º Conde de Abrantes
Miguel Maldonado
Nuno da Cunha de Ataíde, D.1º Conde de Pontével
Paulo da Gama, D.

Pedro de Mendonça Furtado – Alcaide-mor de Mourão
Rodrigo da Cunha, D.Arcebispo de Lisboa
Rodrigo de Menezes, D.
Rodrigo de Resende Nogueira de Novais
Rui de Figueiredo – Senhor do morgado da Ota
Sancho Dias de Saldanha
Tomás de Noronha, D. - 3º Conde dos Arcos
Tomé de Sousa -  Senhor de Gouveia
Tristão da Cunha e Ataíde - Senhor de Povolide
Tristão de Mendonça

 

TOTAL = 55



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 05:29
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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2016
DE COMO NASCI E FUI CRESCENDO...

 

Este texto é dedicado aos curiosos. Àqueles que gostam de saber tudo da vida alheia, sobretudo aos que conhecem o “cara” desde há... uma porrada de anos.

Tenho escrito sobre muita coisa, metido o nariz até onde só aos GRANDES cientistas e professores seria admitido, aproveitando para dizer entre algumas verdades, certamente muita bobagem, e também sobre passagens da vida, minha e de amigos, cujas peripécias, ao trazê-las à memória são um bálsamo para a saudade que deixaram.

Depois de mais de 70.000 visitas ao meu site, desde há pouco mais de 7 anos (alguns milhares devem ser de idas minhas, xeretar quem viu ou leu!) começo a ter dificuldade em encontrar novos assuntos sobre os quais escrever.

Devem lá estar talvez uns setecentos textos, o que não é grande coisa, mas a idade começa a bloquear-me as meninges e, de repente (não tão de repente assim!), sinto o vazio a crescer dentro da cabeça!

Podia escrever sobre política, finanças e segurança, no Brasil e até no mundo, como muita vez fiz, mas creio que a grande maioria das pessoas está cansada destes assuntos, bem como eu.

Escrever sobre o quê?

Sobre mim. Contar algo que penso ainda não terei divulgado, e que não vai interessar a muita gente. Mas... quem não quiser não lê. Vamos nessa.

Nasci numa segunda-feira, eram 9 horas da manhã, segundo documento escrito pela minha mãe. Já estava a preparar-me para enfrentar o batente da vida, logo no comecinho da semana. E surgi com mais de 3 kilos e tal, para aguentar o tranco, e dizia a minha mãe que me deu de mamar durante um ano! Por isso tenho aguentado, até hoje! Terceiro filho.

Inverno, lá fora devia fazer um frio do cão e o “chalé” onde vivíamos na ocasião, na Rua das Valas, na Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto,

FGA-Brasão do Porto.png

freguesia de Cedofeita, a mais antiga, seria certamente do século XIX, teria algum aquecimento (talvez uma braseira!) porque não consta que alguém tivesse enregelado, mas não era lá aquelas coisas porque:

- um dia a casa foi a baixo e fizeram um prédio bem desajeitado com cinco andares, que já está com ar de podre;

- mudaram o nome da rua para Nossa Senhora de Fátima, depois que em 1933, um pouco mais adiante e na mesma rua, construíram a igreja dedicada à Mãe de Portugal e do mundo. Mas o nome de Rua das Valas aguentou-se até 20 de Agosto de 1942! Porque se chamou assim, ainda não descobri!

 

Mas a família não ficou muito tempo por ali. Mudou-se para a Rua de Faria Guimarães, para uma casa bem melhor, que nunca mais consegui identificar qual será! Mas o senhor Joaquim Ribeiro de Faria Guimarães foi um importante empresário oitocentista do Porto. Criou a Fábrica de Lanifícios do Lordelo, era proprietário da tipografia onde se fazia a impressão de vários periódicos (O Athleta, A Coallisão e O Nacional), geriu a Fundição do Bolhão, fundada pelo seu pai, e desempenhou cargos em várias instituições. Foi vice-presidente da Câmara Municipal do Porto e o primeiro presidente da Associação Industrial Portuense.

 

Para quem sai das valas, não há dúvida que foi uma bela promoção... habitacional.

 

Aqui, um belo pátio atrás, só vizinhos nos lados, casa desafogada, entrada para carro. Óptima, tanto quanto lembro. E foi ocasião para se arranjar um cão.

 

Um fox terrier, pelo duro, o Boby (assim se deviam chamar metade dos cães em Portugal), que os irmãos mais velhos adoravam, que volta e meia ficava encarregado de tomar conta de mim, que teria um a dois anos. Se fosse a mãe a dizer “toma conta do bebé”, o meu pai, ao aproximar-se ouvia um rosnar! O contrário também era válido.

 

FGA-Mãe e filhos.png

A mãe e os três primeiros filhos: Luis, Helena e o “autor” do texto

 

Reza a história que um dia foram dar com o tal “bebé” a cuspir pelos do cão! Alguém tinha visto a cena: a criança estava a comer um biscoito e o Boby não resistiu ao agradável aroma e mordeu metade do tal biscoito. O lesado, como vingança, mordeu o seu fiel amigo, que não deve ter-se incomodado muito porque engoliu o seu biscoito sem mais nada dizer!

 

É evidente que tínhamos de mudar de casa: logo foram nascendo mais irmãos, primeiro uma irmã, alfacinha, e depois outro tripeiro. Cinco filhos, o mais velho com seis anos e, este que vos escreve, remexido, não tardou a ser mandado para um colégio infantil, perto da nossa casa.

 

Lembra pouco desse estabelecimento de ensino superior! Um dia entrou em casa, correu para a mãe a pedir dinheiro. Para quê? Para comprar flores para pôr na cama da dona... (nome...?) A mãe averiguou. Tinha morrido a esposa do Director da escolinha e as flores eram para a campa!

 

Desde cedo que à chegada do tempo quente uma forte alergia lhe deixava as curvas dos braços e das pernas com uma enorme coceira, ao ponto de sangrar. E isto durava todo o Verão.

 

O médico, o Dr. Vasco Nogueira de Oliveira, quase me adoptou como neto! Muita vez telefonava aos meus pais a perguntar se eu podia dormir lá em casa dele, e que, sem falta me devolveria bem cedo no dia seguinte. Mais velho do que o meu pai, o doutor Vasco era uma figura simpática. Tinha um filho na marinha e vivia só com a mulher, de modo que uma criança em sua casa dava uma sobrevida ao casal.

 

Numa das vezes que ia devolver a criança parou numa loja de brinquedos para me comprar um qualquer. A tal criança, aí com cinco anos, ficou à porta da loja, onde estavam exposto um monte de bonecos. Bonequinhos ou carrinhos, coisa pequena. Lembrou-se dos irmãos e deitou a mão a outros quatro que levou para casa e distribuiu à irmandade.

 

Os pais pensaram que tinha sido amabilidade do Dr. Vasco, que à tarde telefona a perguntar se eu tinha levado para casa mais do que um brinquedo. A mãe, que atendeu o telefone (já havia telefone nesse tempo, ou pensam o que?) disse que sim, que tinha dado um a cada irmão. Porque? – É que telefonou o homem da loja a dizer que o menino tinha levado uns brinquedos e que eu não tinha pago!

 

Ladrão em casa! Quase um pânico! Começava cedo (Para os devidos efeitos afirmo que nunca fui para a política, e só me lembro de outro furto, consciente, aí por 1972, mas contarei na devida época!).

 

Mas o bom do Dr. Vasco até achou graça, disse que não tinha a menor importância, chegando a louvar a atitude social do seu “neto” e cliente, e pagou o valor do valioso furto!

 

O tratamento para aquela irritação da alergia, como se pode imaginar era à moda antiga.

 

Colocavam a coitada da criança em cima de uma mesa, só de cuequinha e, com um daqueles pincéis, brocha de pintar paredes, pincelavam-lhe as curvas dos braços e das pernas, com uma mistureba de álcool puro, oxido de zinco, talco, nitrato de chumbo, flor de enxofre e, às vezes, para dar um cheirinho... água de rosas!

Não é difícil imaginar que em cima de áreas feridas aquelas pinceladas ardiam bem, e o coitado não tinha outra alternativa se não chorar! Mas creio que me deve ter feito muito bem. O álcool hoje é consumido sobretudo para uso interno e proveniente de uvas boas. O óxido de zinco, agente secante não deixou que a barriga crescesse... até há meia dúzia de anos, a flor de enxofre entre outras coisas afastou o demo, e dizem que é também responsável por manter a entrada necessária de oxigénio no cérebro, o que me tem permitido escrever tanta coisa. O chumbo é que é o pior: cada vez estou mais preguiçoso; deve ser o peso!

 

Em 1936 ou 37 a família regressou a Lisboa, e instalaram-se na rua Padre António Vieira, num prédio de esquina, esquina arredondada, no primeiro andar (ou era no rés-do-chão?), do número 20, à porta do qual o motorista da Câmara, todas as manhãs parava o carrão, de trabalho, que vinha buscar o nosso pai. Ao domingo não tinha carro.

 

FGA-carripana.png

Tinha uma placa que jamais esquecemos: BI -10-?? Era o bidés!

 

Terá sido a estadia na rua de Vieira que viera (largas décadas mais tarde) a suscitar-me o interesse para ler a História do Futuro, para chegar à conclusão que esse tal de futuro só existiu na privilegiada cabeça desse senhor! Passado, nós imaginamos que houve, porque garantir, mesmo com documentos ditos irrefutáveis, como o que se encontra em arqueologia, escritos, fotos, etc., têm sempre algo de duvidoso. Presente, todos sabemos o que é, mas futuro?

 

Futuro só existe na verborreia dos políticos. Veja-se o Brasil, o país do futuro! Qual futuro? Quando? Como?

 

Todos os impérios ruíram e de alguns a história já nem sabe se existiram. Os que agora crescem não tarda encontram o mesmo futuro.

 

O Padre António Vieira entusiasmou muita gente, sobretudo o grande Mestre George Agostinho da Silva, mas onde agora estão podem calmamente esquecer esse futuro, visto que lá no etéreo tudo é presente e não existe passado nem futuro. Se não princípio nem fim, como vai ter futuro?

 

Continua no próximo “capítulo”!

 

29/11/2016

Francisco Gomes de Amorim, 1954

Feancisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:06
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Terça-feira, 29 de Novembro de 2016
PÁTRIA PEQUENA

POEMAS MAIATOS

 

Pelourinho da Moreira, Maia.jpeg

 

MOREIRA

 

Fomos Mouros em Moreira

Antes das estradas dos Romanos

Antes, bem antes de Gonçalo Mendes,

Da Maia Lidador;

E como em todas as vidas

Fomos donos da paixão

Que o tempo ainda não destruiu…

 

 

Pela estrada que leva ao Cabo do Mundo

Deixei um rasto de conchas,

Caso me queiras seguir.

Se não vieres,

Levo na mão um búzio

Raiado de azul

Para me mandares notícias.

 

Maria Mamede - 2 Maria Mamede



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:06
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FRAQUEZA SISTÉMICA DA POLÍTICA INTERNA PORTUGUESA

 

 

A REPÚBLICA PRODUZIU PARTIDOS OU AGREMIAÇÕES?

 

Quando observo partidos na Alemanha e os comparo com partidos portugueses fico triste com a amarga impressão que Portugal não tem partidos do povo, quando muito tem corporações de interesses rivais ou cooperantes, dentro da população.

 

Por vezes fica-se com a sensação que os políticos portugueses fazem política para o seu Estado e não para o povo (país). A eleição de Trump é um acto desesperado e um apelo do povo ocidental aos políticos para que mudem de atitude e de política. O povo no mundo ocidental já não se encontra numa idade escura, ele já vai pensando também, não se contentando com o devaneio do sentir-se honrado com a companhia de algum político ou doutor ou simplesmente ambientado com o embalar de alguma cassete.

 

A democracia portuguesa não está forte nem fraca, apenas vegeta cronicamente porque é dirigida por interesses de alguns grupos que não precisam de prestar contas sérias a ninguém (quando muito a Bruxelas e aos bancos internacionais!) e estão-se marimbando para o bem-comum e para o bem nacional; na formação da opinião pública domina ainda o proselitismo jacobino: o que conta são os sentimentos, estratagemas e não os factos.

 

Que país é este tão endividado mas tão engravatado?

 

Já Luís de Camões desabafava acerca dos líderes da nação dizendo: “O fraco rei faz fraca a forte gente”. Fracos são os que têm o privilégio da informação e o monopólio da interpretação; fracos são os deputados que se permitem aumentos salariais nos cargos políticos quando a maioria dos reformados e da população tem ordenados de fome! (Imagine-se só a diferença que vai de um reformado em Portugal com 290 euros por mês e a de um senhor com uma reforma de 50.000 euros por mês? E Isto num país em que a esquerda influente não come menos que os adversários que oficialmente combate!). E alguns ainda se queixam do povo para justificarem o mal da governação ou do próprio partido.

 

A população é como as crianças: dá a mão a quem a leva e come o pão que lhe dão! Portugal não tem povo, tem população e a razão disso está no facto dos partidos serem grupos corporativistas com interesses próprios satisfeitos à custa do Estado e das suas instituições. A vida pública nacional parece surgir da ilusão de uma vida nacional gerada sobretudo pela dinâmica de lutas das diferentes corporativas entre si. É sintomático aqui o facto de a população encontrar sempre uma desculpa para não se preocupar com as causas de um Estado quase bancarrota e não questionar a capacidade dos próprios governantes, sejam eles de que cor sejam. Os grupos corporativistas conseguiram legitimar os seus interesses apenas com sentimentos à margem dos factos porque se apoderaram do Estado e suas instituições. Para ascender ao poder e bem governar não deveria ser suficiente ter a administração pública, os funcionários do Estado e algumas agremiações mais ou menos satisfeitos!

 

As nossas elites nunca gostaram do cheiro a povo

 

A República nunca se deu bem com o povo e o povo também não a compreendeu! E isto porque em Portugal não há a tradição de partidos populares, o que há são corporações, sem organizações de base fortes que tenham capacidade para imporem aos órgãos superiores dos partidos os seus representantes; então quando muito há organizações de base fracas que resignam e por isso aceitam os paraquedistas que a elite do partido ou do sindicato nomeia. Isto provoca uma relação mafiosa e vaidosa de representantes apresentados ao povo mas que foram gerados no espírito antipopular. Temos assim um Estado enredado em interesses corporativos sem a consciência de que nele há país e povo porque as elites podem viver do Estado e do fraco copianço do que acontece politica e socialmente no estrangeiro, sem precisarem de povo. A população que o país tem vai chegando para manter as necessidades dos que se governam. De uma maneira geral, estes, nas suas campanhas eleitorais, dão umas corridas no meio dos arraiais e uma vez eleitos fazem o que lhes interessa sem que alguém lhes Peça contas; no máximo os eleitores castigam-nos com uma legislatura de tipo sabático até às sequentes eleições. A população não foi habituada a orientar-se pelos factos, foi educada a seguir apenas os sentimentos num país em que os beneficiados do Estado não se interessam pelos factos porque sempre fomentaram uma política de decisões orientadas para oscilações sentimentais.

 

António Justo.jpg

António da Cunha Duarte Justo

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:32
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