Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017
ADEUS

Este blog dá aqui os seus trabalhos por encerrados.

Agradeço sinceramente a todos os amigos que ao longo de 13 anos me ajudaram a fazê-lo.

Abraços,

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:15
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017
CRIAR TRABALHO: O AMBICIOSO «MAKE IN ÍNDIA»

StartUps.jpg

 

Admiro decisões difíceis que podem levar um país a uma situação muito melhor, após trilhar um caminho exigente.

As estruturas económicas indianas ficaram marcadas pelo ‘socialismo’ de tipo soviético, nada amigo do empreendedor. Assim se entende por que os empresários indianos saíram e vingaram nos EUA, UK, Ásia, Médio Oriente, com sucesso e reconhecimento, criando lá trabalho e riqueza.

 

Make in India, skill India, startup India

make in India

 

Está a progredir o make in India, programa para criar muitos postos de trabalho para os jovens que vão chegando ao mercado, à razão de 12-15 milhões por ano, para trabalhar na indústria e serviços. É a indústria que pode criar mais jobs pouco qualificados por unidade de investimento, ao contrário das TI -Tecnologias de Informação e a I&D -Investigação e Desenvolvimento, que só criam postos qualificados e poucos.

 

A presença impactante do Primeiro Ministro (PM) Modi em países ricos levou à projeção de uma imagem moderna e dinâmica da Índia. Ajudou a diáspora indiana, em geral muito prestigiada, ocupando altas posições nas empresas, no ensino, finanças, função pública, hospitais, etc., dos EUA a sentir-se orgulhosa do seu país.

 

Mais importante, com resultados não imediatos, mas que prevejo profundos, é a sua ação de PM para desenvolver o país, criando fontes de trabalho para todos, não se limitando a discursos de boas intenções, mas empenhando-se com ideias práticas para resolver as dificuldades emergentes, reformando a legislação e o complicado sistema impositivo, para serem mais uniformes ao longo do país e mais amigos do empreendedor.

 

Ajustar a legislação

 

Modi tem a maioria no Lok Sabha (Câmara Baixa), o que facilita aprovar leis, para corrigir as incongruências passadas. Contudo, elas devem ser homologadas pelo Rajya Sabha (Câmara Alta) controlada pelo partido do Congresso, o que não tem sido fácil, pois a agenda e interesses dos partidos são divergentes.

 

Muita coisa que repelia investimentos internos ou externos na indústria, está a ser mudada: a formação técnico-profissional está a ser muito ampliada; a uniformização da taxa sobre produtos e serviços a transacionar, designada por GST- Goods and Services Tax, já está aprovada e falta ser levada à prática. A participação estrangeira no capital das empresas sofreu bons avanços. Agora só falta a economia entrar na linha da retoma, tanto aumentando o consumo interno, como as exportações.

 

skill India

O make in India vem acompanhado do skill India, para as capacitações que o país precisa, em todos os trabalhos de construção civil, de eletrónica, de mecânica automóvel, de têxtil, etc. Haverá que treinar 300 milhões de jovens até ao ano de 2025, para todo o conjunto de ocupações imagináveis. É um bom desafio suscitar instituições que deem boa preparação e treino; e oxalá que todos os Estados da Índia vão pela linha de suscitar iniciativa privada para responder às necessidades, porque é sempre bem mais eficaz.

 

startup India

Para se incentivar a criação de novas empresas, está o startup India. O entusiasmo inicial levou ao lançamento de grande quantidade de start-ups; como é habitual, quando certo tipo de empresas singra velozmente, umas ganham a vanguarda e afirmam-se. As demais tendem a ser absorvidas ou a desaparecer, é a ordem lógica… As que ficam valorizam-se, fazem sonhar a juventude. Depois do ‘banho frio’ pós-euforia, os empreendedores ganham mais maturidade e prudência, ao entrar numa nova aventura.

 

No ano de 2015, os EUA tinham mais de 47 000 start-ups tecnológicas e a Índia estava em 3º lugar com 4 200, com Bangalore a destacar-se. Considerando as tecnológicas e não-tecnológicas, a Índia estava em 5º lugar mundial, com 10 000 start-ups.

 

As start-ups gozam na Índia de certas facilidades, como: isenções fiscais nos 3 primeiros anos, rapidez na sua criação (está-se a tentar que o encerramento seja rápido); e o registo de patentes de invenção terá custos suavizados. Aparecem start-ups em todos os domínios de atividade: na agricultura, na indústria e também nos serviços.

 

O turismo é uma atividade que cria muito trabalho: dispõe de boa infraestrutura – hotéis, transportes aéreos, caminhos de ferro, autocarros, autoestradas, internet, telefone, hospitais, monumentos antigos que os britânicos não puderam levar, pessoas conhecedoras da história dos monumentos e disponíveis para a partilhar; boa restauração e espetáculos, museus, souvenirs, roupas étnicas, táxis, etc. É uma grande oportunidade para se conhecer a Índia!

 

Eugenio Viassa Monteiro.jpgEugénio Viassa Monteiro

Professor da AESE e dirigente da AAPI



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 06:37
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Domingo, 29 de Janeiro de 2017
O CULTO AO ESPÍRITO SANTO EM PORTUGAL E AÇORES

 

Arcada 1941-Igreja e Hospital do Espírito Santo,

 

Dizia Marcelino Lima, através do livro do picoense Tomaz Duarte Jr. que ..."A rainha Isabel de Aragão introduziu em Portugal o culto do Espírito Santo, sob a égide espiritual e os ideais escatológicos do Abade Joaquim de Flora". O que levou em 1323 à fundação da primeira Igreja do Espírito Santo e respectivo hospital no nosso país (Vila de Alenquer).

 

À exemplo das Associações alemãs e francesas medievais (1160) que sob a invocação do Espírito Santo se dedicavam ao auxílio indigentes, pobres e doentes, depois da sua expansão em Portugal com a fundação de Confrarias, Irmandades e Casas do Espírito Santo, no século XV chegou com os franciscanos aos Açores. Hoje as festividades do Espírito Santo são uma força que marca a cultura e o turismo religioso no Arquipélago e na diáspora açoriana, apesar da sua decadência no Continente Português.

MADUFA-Procissão Açores.jpg

Procissão das Rosquilhas, Vila da Madalena (Pico)

 

Maria Eduarda Fagundes

 Maria Eduarda Fagundes

Fonte: O Culto do Espírito Santo (Tomaz Duarte Jr.) 2001



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:56
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Sábado, 28 de Janeiro de 2017
(IR)RACIONALIDADE TRUMPISTA

Trump.jpg

 


O francês Nicolas Chauvin serviu ardorosamente nas campanhas napoleónicas e, depois da derrota final dos seu ídolo, em Waterloo, regressou a França graduado em sargento e inaugurou o culto do chauvinismo, ou seja, "França primeiro", "França é o melhor do mundo", fenómeno psicossocial semelhante ao sebastianismo português pós Alcácer Quibir. Todos conhecemos movimentos do mesmo cariz que ocorreram na Alemanha, Itália e Rússia, após derrotas catastróficas. Os chauvinismos são pois movimentos populistas compensatórios dos grandes traumas políticos que um qualquer país sofreu. Servem para manter ou reforçar o amor próprio patriótico, ingrediente essencial da nação: O que aconteceria a uma nação que deixasse de se amar a si própria? Lamentável é que para um povo se amar a si próprio seja necessário que "desame" os outros e desacredite a suas próprias elites. Todos estes populismos tem uma característica comum: o propósito de desmontar a elite estabelecida.


O surpreendente no trumpismo -
America great again; America first - é que se impôs sem derrota prévia. Os EUA não terão já a superioridade que detinham no final da II Guerra Mundial, não serão omnipotentes nem invulneráveis, mas continuam hegemónicos. Talvez isto tenha acontecido porque na América o populismo existe em latência desde a Fundação da União. Poderemos até admitir que a Revolução Americana foi um processo de apropriação por parte de uma elite de um impulso caótico genuinamente popular. Ao longo da História americana, os dois partidos souberam sequestrar as sucessivas explosões de sentimentos populares; desta feita porém foi uma pessoa isolada que captou o sentimento e sequestrou um Partido.


O populismo-trumpista actual resultaria da adição de uma frustração de cariz marcadamente socioeconómico. O Povo deu-se conta que as elites o ignorava e começou a organizar-se. Mas Trump não é povo, Está muito longe de ser outro Nicolas Chauvin ou outro Bandarra. Será talvez outro elitista a tentar domesticar um forte impulso popular que poderia gerar o caos.

 

Luís Soares de Oliveira.jpg

Luís Soares de Oliveira



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:31
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017
MEDO OU FOBIA

 

Num mundo cada vez mais assolado pelo egoísmo e violência, onde tudo nos chega em enxurradas de informação, onde se quer tudo para “ontem”, quem não está conectado às novidades tecnológicas recentes e à globalização, está excluído da sociedade vigente. As pessoas enchem os consultórios de psicólogos e psiquiatras em busca de ajuda. A ansiedade e a correria a que ficam submetidas geram situações de medo e fobias que destroem a qualidade de vida dos cidadãos.

 

Quem não tem medo de, ao sair de casa, numa cidade violenta e sem protecção policial adequada, ser assaltado ou receber uma bala perdida a qualquer momento? Dentre tantas outras, essas são situações reais, que a população enfrenta com grande ansiedade. Quem sobe uma escadaria para não entrar num elevador, mesmo vazio, por medo de ficar preso ou por não tolerar ambientes fechados? Os fóbicos, é a melhor resposta. Enquanto o medo é uma reação normal, de autoprotecção a alguma situação sócio-ambiental de risco ou perigo eminente, a fobia é um medo irracional a alguma situação específica desencadeadora de um stress emocional, pessoal, muitas vezes com raízes genéticas. Tanto o medo como a fobia apresentam manifestações físicas como coração disparado (taquicardia), boca seca, sudorese excessiva, respiração ofegante, pupilas dilatadas (midríase), mãos frias. São manifestações autonómicas que nas pessoas fóbicas chegam a dar a sensação de morte eminente!

 

No medo o indivíduo evita a ansiedade contornando a situação stressante. Na fobia há uma resposta psíquico-emocional, irracional, desencadeada por algum factor traumático vivido pelo paciente. A pessoa passa a desenvolver sentimentos negativos e progressivos que cada vez mais a paralisa ou atrapalha socialmente. Ela está sempre esperando o pior acontecer, mesmo nas situações estáveis ou improváveis, despertando uma ansiedade, um sofrimento psíquico frequente.

 

Sem acrofobia.png

 Sem acrofobia

 

Na fobia simples o indivíduo tem medo de uma coisa ou situação específica. Como medo de alturas, de animais, de elevadores, de viajar de avião..., são medos fóbicos, desconhecidos, geneticamente determinados, que lhe trazem pequenos desconfortos e algumas limitações à sua qualidade de vida.

 

Na fobia social os prejuízos são maiores, pois o indivíduo se sente observado, julgado, avaliado, coisa que lhe bloqueia os passos e a naturalidade. Sente-se mal, evita falar e escrever em público, a ir a reuniões sociais, a comer fora, a sair com outras pessoas. Quase não tem amizades.

 

Já na agorafobia, o indivíduo não tem medo das situações, mas de se sentir mal ao vivenciá-las, o que lhe desperta uma incontrolável ansiedade, com ou sem ataques de pânico. Em situação de stress, o coração dispara, a pressão descontrola, sente tonturas, perde o controle de si mesmo, pensa que vai enlouquecer ou até morrer. As crises repetem-se com frequência. Com o tempo, a pessoa passa a evitar os lugares onde se sente incomodada. Depois, não quer mais sair, tem medo de se sentir mal no cinema, ao caminhar, ao dirigir... .Tudo é motivo de stress. Há uma ansiedade antecipada para qualquer coisa que a tire da área de conforto, um sofrimento psíquico que a prende em casa e lhe rouba a qualidade de vida.

 

Em todas as formas de fobia há como ajudar o indivíduo. Seja com medicamentos anti-stress, nos momentos agudos, seja com terapias de apoio, técnicas de relaxamento, ou procedimentos psíquico-terapêuticos. O uso de métodos cognitivos, para entender e driblar o medo fóbico e de exercícios de enfrentamento das situações stressantes, onde se aprende técnicas associativas que confrontam a realidade e a fantasia, ensinam a raciocinar entorno da situação com visão crítica. O indivíduo aprende a avaliar o pensamento negativo e a formular em contrapartida outro mais real e provável. Tudo é uma questão de treinamento, paciência e persistência, em que se aprende no dia a dia a dominar o medo e a ansiedade doentia.

 

Uberaba, 25/01/2017

 

Maria Eduarda Fagundes

Maria Eduarda Fagundes



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:47
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017
DEPOIS DO…

Refeitório dos frades, Alcobaça.jpg

 

ENCONTRO DE ESCRITORES

 

É verdade! Acabou o Encontro em Alcobaça.

As testemunhas saíram rapidamente, de fininho, e o organizador esperou que os monges aparecessem para “prestar contas” ao Dom Abade.

Este nada vira, ouvira ou sentira e estava extremamente curioso para saber o que se teria passado, tanto mais que as testemunhas tinham ido embora sem falarem com alguém.

No refeitório estavam as garrafas que sobraram – muitas delas vazias – uns quantos copos espalhados pelas diversas mesas, mas tudo arrumado, sem o menor sinal de qualquer distúrbio.

- Meu amigo, afinal o que se passou aqui, que ninguém viu a não ser as testemunhas à chegada? Não se ouviu um ruído, uma voz, nada?

- Dom Abade, a única coisa que lhe posso dizer é que nem eu nem qualquer das testemunhas tocou nessas garrafas! Mas quanto a contar-lhe o que se passou... impossível. Eu seria amarrado e mandado para um sanatório de loucos e, como pode imaginar é tudo quanto eu não quero!

- Nem em segredo de confissão?

- Nem assim, Dom Abade, também meu amigo. Gostaria que o senhor me dissesse se lhe devo alguma coisa, se notou algum estrago, enfim, quero sair daqui de consciência limpa.

- Não nos deve nada. Está tudo perfeito e isso ainda mais me intriga.

- Então, se me der licença gostaria de ir novamente até ao altar de São Pedro.

- À vontade. Já sabe o caminho.

- Muito obrigado por tudo. Quem sabe se um dia eu ainda lhe conte alguma coisa. Vou pensar nisso. E terá que ser em segredo de confissão e com um psicólogo ao lado para que me julguem louco!

A caminho do altar já foi ouvindo:

- E então gostaste do Encontro?

Olhou à sua volta, a Igreja vazia e reconheceu, no seu íntimo a voz de Simão Pedro.

Ajoelhou frente ao altar e respondeu sem abrir a boca:

- Querido São Pedro. Creio que jamais alguém terá tido um presente dos céus como este. Estou tão emocionado que tenho que ir repousar a cabeça. Mas antes vim dizer-vos só: Obrigado.

- Agora vou eu ver o que eles terão a me dizer! E, se tiver oportunidade, não deixarei de te transmitir.

- Obrigado. Muito obrigado.

Nem para casa foi. Precisava digerir tudo aquilo e precisava de solidão. No primeiro hotel que encontrou pediu um quarto sossegado, sem ruídos de rua e que lhe levassem algo para comer e uma garrafa de vinho.

Ele mesmo estava sem saber se aquilo a que tinha assistido fora real ou só um sonho, e se estaria ainda a sonhar.

O hotel deu-lhe um quarto no último andar, janelas de vidro duplo, e uma bela vista para o “seu” Mosteiro.

Feliz mas confuso – e com alguma fome! – começou por ir assinalando na lista que inicialmente tinha feito, para saber quem tinha estado presente.

Logo de entrada notou a falta de Gil Vicente! Porquê? Uma personagem tão importante! Estranho.

Ouviu então aquela voz, já sua conhecida:

- Gil Vicente continua melindrado porque teimam em não lhe reconhecer o mérito de ter feito, por suas mãos, aquele maravilhoso ostensório que está no Museu. Diz que se incomoda quando dizem que “se atribui a Gil Vicente” em vez de afirmarem diretamente que foi obra sua. Por isso não apareceu!

- E Fernão Mendes Pinto?

- O mesmo. Levaram séculos para lhe reconhecer o valor e a veracidade do que escreveu! E ainda se sente insultado quando por maledicência lhe chamavam o “Fernão Mentes? Minto!” querendo fazer graça que o ofendia.

- Duas jóias na nossa literatura! Se houver um próximo Encontro serão os primeiros a convidar.

Continuava a correr a lista e via que teria sido impossível que todos tivessem comparecido. O número dos que apareceram já daria para ali terem ficado até... até...

Só então reparou que uma grande quantidade deles estava anotada numa segunda folha! Talvez São Pedro tivesse, ele mesmo visto que seriam demais e não “olhou” para esta outra página.

Lá estavam, do Brasil, Machado de Assis, José de Alencar, Gonçalves Dias, Castro Alves, Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Raul Pompeia, Lima Barreto, Nelson Rodrigues, os poetas Mário de Andrade, Vinicius de Morais e Carlos Drummond de Andrade, os Inconfidentes Tomás António de Gonzaga que foi deportado para Moçambique, Gregório de Matos e Cláudio Manuel da Costa, e ainda mais uns tantos que o Brasil foi, e é, rico em artistas; de Angola, Uanhenga Xitu, Ferreira da Costa, Alexandre Lobato, Lucio Lara, e mais e mais, de Moçambique Noémia de Sousa (esteve em Beja !), Malangatana, Glória de Sant’Anna, Rui de Noronha, e de Portugal outra infinidade a começar por Santo António e seus Sermões,  João de Deus, Julio Diniz, Fialho de Almeida, Jaime Cortesão, Alves Redol, Teófilo Braga, Raul Brandão, Miguel Torga, o Dr. Adolfo Rocha, e... para que reler mais esta interminável lista?

Pensou:

- Quem sabe ainda organizarei outro Encontro. Mas para já vou ver se consigo “digerir” este!

Saboreava o ter visto, e ouvido, personagens quase míticas como Dom Diniz e seu avô Afonso X, Dom Pedro duque de Coimbra, parecia ouvir Bandarra a falar sobre as suas profecias que só se viriam a confirmar daqui a... um monte anos, entretanto os olhos iam-se fechando, começava a ver um céu estrelado e a ouvir Abraão Zacuto a mostrar-lhe as constelações e como poderia navegar, depois, com a voz sempre suave de Alda Lara, que lhe recitava um dos seus poemas. Adormeceu!

E continuou a sonhar. Sonhou com livros, com os autores e a ver uma miríade de leitores a quererem todos comprar as exíguas edições.

Tudo no seu sonho em vez de lhe dar descanso à cabeça, que continuava entre feliz e confusa, mais o confundiam.

Umas horas depois sossegou. Acordou tarde. Olhou em redor e procurava alguma coisa que não sabia o que era.

- Será que sonhei tanto tempo e com tantos escritores. E porquê estou a dormir neste hotel em frente ao Mosteiro da Batalha? Como posso ter a certeza que vi o grande Rei Dom Diniz e tantos escritores? Será que estou a ficar louco?

Viu a seu lado as listas dos “convidados” e pensou que teria sido uma “indigestão” literária que lhe tinha feito mal à cabeça. Mas outra lista, pequena tinha os nomes duns amigos, as testemunhas.

Chamou um deles pelo telefone. Atendeu a mulher.

- O Henrique ainda dorme. Chegou ontem muito perturbado e não quis falar sobre o que se tinha passado. De princípio até pensei que tinha sofrido um acidente, mas está muito bem de saúde. Mas a cabeça... está um pouco febril.

Chamou outro. A informação que recebeu não variou muito.

O terceiro, mais calmo atendeu.

- Manel, estou confuso. Queres-me dizer o que se passou ontem?

- Mais confuso estou eu e, como sabes, costumo ter um raciocínio calmo. Mas entre confuso e calmo estou maravilhado com o que vimos.

- Temos que nos encontrar. Hoje não, que eu estou demasiado baralhado. Amanhã, num lugar onde ninguém nos ouça.

- Antes de desligares: porque não convidaste os teus dois bisavôs? E o Saramago?

- Não me digas nada porque estou com medo de ter ficado avariado da cabeça. Amanhã com mais calma falaremos. Mas sobre o Saramago posso já adiantar-te que, para mim é persona non grata. Um cara que foi mau, vingativo, perseguiu os colegas do jornal, e por fim escreveu livros duma senilidade nojenta! Nem o São Pedro sabe por onde ele anda! Certamente em lugar mais quente do que nas Canárias!

Desceu do hotel, já tarde, cheio de fome. Pagou a conta e em vez de procurar o carro, foi andar um pouco. No Largo do Mosteiro encontrou um restaurante. Aspecto agradável. Sentou-se na esplanada, bem fronteiro ao Mosteiro, sem conseguir dele tirar os olhos. Pediu costeletas de carneiro,  e vinho bebeu do melhor que “A Casa” dispunha, uma garrafa de Ramisco da adega Regional de Colares, colheita de... Refez as forças.

Sem poder conduzir por ter bebido, andou algumas horas a pé à volta do Mosteiro.

Finalmente meteu-se no carro e foi embora.

Sem saber ao certo o que se tinha passado.

21/01/2017

Francisco Gomes de Amorim, 2016

Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:31
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DONALD TRUMP – 3

Trump 2.png

 

Islão como factor de risco

 

A eleição de Trump alerta também para o facto do preço da abertura da Europa ter sido proveitoso para as elites que participam do poder e prejudicial para a camada social desprotegida, com mais concorrência e mais negação da própria cultura em favor da árabe: esta dá-nos petróleo e imigrantes em troca da expansão da sua religião. Trump tocou também este ponto sensível ao considerar o Islão como “potencial de risco” sem diferenciar entre Islão como ordem social e muitos muçulmanos que a nível individual distinguem entre poder religioso e poder secular.

 

Temos uma classe política europeia cúmplice, crítica em relação ao cristianismo, fraudulenta no que toca ao futuro da juventude e implementadora do Islão por razões económicas e estratégicas. Enigmático na política da UE, que se preocupa tanto com a defesa dos valores ocidentais permanece o facto de nunca um governo ocidental ter defendido os perseguidos cristãos nos países islâmicos e por outro lado os políticos virem para a praça pública dizer que o Islão pertence à nação e que o sistema dos países islâmicos e o terrorismo islâmico não têm nada a ver com o Islão. Em vez de se procurarem medidas para resolver os problemas de maneira equilibrada e bilateral, assiste-se também aqui a uma política semelhante à seguida nas dívidas soberanas que apenas se juntam e aumentam à custa da insegurança das gerações futuras. Nos USA há 5 milhões de muçulmanos, na Alemanha vivem 4,02 milhões.

 

Na hora dos mal comportados

 

Trump, tal como Costa em Portugal, conseguiu assumir ao governo embora o partido adversário tenha reunido mais votos (Clinton 61 milhões e Trump 60).

 

Nestas eleições reúnem-se os mal comportados: Trump que não respeita a classe dominante nem as minorias; Obama que vai contra a tradição fazendo um discurso de despedida contra o da tomada de posse de Trump e dirigido ao eleitorado dos democratas; na rua, vencidos revoltam-se contra vencedores como se não tivesse havido eleições; tudo isto parece dar vida à democracia que não quer ver todos os cidadãos reunidos debaixo das suas saias: ela vive da disputa de valores e interesses. Trump poder-se-ia vingar em parte do “estabelecimento político” que, há cinco anos, através de Obama, o humilhou publicamente. Tal atitude prejudicaria o restabelecimento da unidade nacional. Naturalmente Trump não governa sozinho; ele tem a seu lado instituições democráticas que o não deixam isolar-se.

 

Penso que o que está aqui em jogo é a volta dos nacionalismos e correspondentes proteccionismos dado também a política europeia das portas abertas ter falhado e ser um perigo para um continente dividido que não tem os mesmos pressupostos históricos nem a independência política que podem ter os EUA. Penso que a situação da esquerda e da direita é tão novelada em torno de um polo e do outro que, de momento, domina demasiadamente o medo e um espírito político carnavalesco.

 

Trump quer governar o mundo como se este pudesse ser governado tal como se gere uma empresa; neste sentido parece equacionar o mundo em termos de cálculo de custo e de utilidade (lucro). Por outro lado personaliza e privatiza a política conotando-a mais de povo. A um extremo seguido até agora segue-se talvez um outro, num movimento pendular de épocas, ideologias e tempos.

 

No reino das projecções e das sombras

 

A indignação exagerada ou uma fixação na crítica contra Trump ou contra outra personalidade pode ser indício de carácter fraco e correr o perigo de procurar e combater inconscientemente fora de si os defeitos que traz dentro de si e consequentemente vê-os (projecta-os) como sombras em Trump ou em alguém que odeia. Muitas das pessoas que odeiam deixam-se reduzir a meras portadoras de sombras. Exigem que os outros sejam exemplos de luz, portadores da luz que corresponde à sombra que não reconhecem em si mesmos. A América sempre serviu de espaço da sombra para a esquerda europeia e para os nacionalistas.

 

Este é um conceito de C.G. Jung que tudo o que não aceitamos (vícios) em nós, o oprimimos e banimos para as sombras que são o nosso inconsciente. Então inquieta-nos o que não queremos admitir em nós para o combatermos nos outros. Quando nos irritamos muito com algum defeito nos outros isso é um sinal de que esse defeito é algo que faz parte da nossa sombra invisível (combatemos fora os próprios defeitos oprimidos!).

 

No sentido do pensar positivo americano

 

Uma vantagem da América e da Rússia sobre a Europa na qualidade de povo e nação vem do facto de darem importância à religião cristã como factor de substrato nacional e de identificação. Trump é um aviso à esquerda materialista dominante na sociedade para que se torne mais humilde e não tão determinante e poder-se-ia tornar também num apelo aos americanos de cima para que se comportem de modo responsável para com os de baixo.

 

Concedamos-lhe 100 dias para governar e então saberemos mais! De resto, até agora, pelo que pude observar, Trump tem a vantagem de ser um homem igual a si mesmo! Quanto ao resto, os factos o dirão.

 

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 António da Cunha Duarte Justo

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:15
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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017
DONALD TRUMP - 2

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Trump quer poupar na Nato para investir nas infraestruturas

 

Trump quer restringir a política externa e o planeamento militar e para isso reduzir os lugares de inserção  e operações militares. Os EUA gastam com a defesa 600 mil milhões de dólares por ano (tanto como a China, a Rússia, o Reino Unido e a França juntos) e têm um exército com 1,5 milhões de empregados. A tesoura entre ricos e pobres é maior que noutros países industriais. O topo da população americana (0,1%) ganha em média seis milhões de euros por ano, enquanto 90% da população ganha em média apenas 33.000 dólares por ano. A expectativa de vida dos norte-americanos desceu há dois anos de 78,9 anos para 78,8. Vinte e nove milhões de norte-americanos não têm seguro de saúde; as infraestruturas do estado, estradas e electricidade, são piores que as europeias.

 

Enquanto os gastos com a NATO em 2016 corresponderam a 3,61% do PIB dos EUA, na Alemanha corresponderam a 1,19%, na França a 1,78% e no Reino Unido a 2,21%. O objectivo da NATO combinado em 2002 para os seus membros tinha sido 2%.

 

Só a aragem de Trump talvez obrigue a Europa a unir-se e a estender a mão à Rússia, seu natural e vocacionado vizinho, se não quiser perder-se em gastos imensos de armamento.

 

Uma elite do poder renitente

 

O medo do terror dependurado no pescoço americano (desde11.11.2001) legitima o governo a tornar-se mais autoritário. Na Turquia que, se encontra perto e dentro da Europa, o fascismo e a ditadura afirmam-se sem manifestações públicas nem medidas da UE que considerem isso perigoso embora 60% dos turcos na Alemanha apoiem Erdogan.

 

O poder estabelecido treme já só em ouvir o soar da trompeta de Trump. Há muito a perder de um lado e talvez algo a ganhar do outro. Em democracia os interesses revezam-se no poder e, como a sociedade está dividida, reveza-se também na dor. Muitos cidadãos não se se dão bem com a bipolaridade da realidade colocando a verdade num só polo esquecendo que partido é parte e, como tal, representa apenas uma parte da verdade e dos interesses populacionais.

 

Independentemente dos Erros de Trump, é triste o facto de uma Europa com uma consciência política semelhante à das elites do partido democrático americano não se aproveitar da lição da eleição de Trump para se virar para o povo e analisar o que realmente faz de mal.

 

Do nosso lado temos a soberana dívida, o Brexit que questiona a UE e a que se soma uma taxa de desmprego nos paíse europeus horrenda de desemprego (de 23,1% a 7,6%: média europeia 9,8%),  um capitalismo feroz que tomou conta da política e a crise dos refugiados.

 

Uma Europa aberta mas de patriotismo envergonhado e pródiga em relação ao esbanjamento de interesses económicos arma-se em tribunal da sociedade americana dividida que agora vê ganhar a parte instável em Trump. Em vez de análise da situação ouve-se por todo o lado uma indignação arrogante de uma opinião pública massificada que se arroga o direito do monopólio da interpretação, como se em democracia só tivesse uma facção razão e a verdade fosse determinada pelo barulho da rua ou dos Média. Trump não gosta dos jornalistas e os jornalistas não gostam dele. O poeta e dramaturgo Bertold Brecht (1898-1956) alertava para a cegueira do quotidiano e da opinião pública publicada dizendo: ”Não aceitem o habitual como coisa natural, pois em tempos de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural. Nada deve parecer impossível de mudar”.

 

Talvez o exagero de Trump ajude a Europa a mais realismo e, com o tempo, a menos ideologia política de modo a poder voltar à Europa a política económica social de mercado e o respeito pelos interesses da sua população desprotegida ou mantida à mão da esmola do Estado. Esta, estruturalmente desdignificada e desonrada, cada vez se sente mais como peso morto num Estado sem sol para ela e que lhe não oferece perspectivas.

 

(continua)

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António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:41
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DONALD TRUMP - 1

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UM INCÓMODO PARA A ESQUERDA E

UMA INSEGURANÇA PARA A DIREITA

 

Trump mete medo às elites do poder favorecidas pela unidade de opinião

 

São mais as vozes que as nozes! O discurso de Trump abriu-nos uma panorâmica a preto e branco! Assistimos ao irromper de uma era histórica da privatização e emocionalização da política e ao bulevardismo do poder mediático.

 

O que está em jogo?

 

Trump manifestou-se contra as elites que vivem encostadas ao Estado, quer iniciar o proteccionismo económico e assim opor-se principalmente à concorrência chinesa, não pretende a guerra fria com a Rússia, quer responsabilizar mais os membros da Nato, quer destruir as bases do “Estado Islâmico „na Síria e no Iraque, põe em questão a causa das alterações climáticas, é contra a imigração ilegal, considera o Islão como “potencial de risco” querendo proibir a imigração de muçulmanos, é também contra o aborto e contra o casamento homossexual que hoje são legais nos EUA.

 

De momento encontram-se dois poderes em luta na opinião pública: a dos que defendem os interesses do estabelecimento político e a dos que alegam a defesa do povo mais precário ou em derrocada: num extremo os que vivem melhor da ideologia e no outro os que vivem pior do trabalho.

 

Contra uma cultura da abertura que favorece as culturas fechadas

 

Os EUA são de todos: de republicanos e de democratas; a Europa é de todos: de conservadores e de progressistas, de religiosos e ateus; neste contexto é óbvia a moderação e o equilíbrio e o reconhecimento da intercultura provocada pela imigração que vai mudando o rosto americano.

 

O trunfo Trump assusta principalmente as elites que vivem em torno do poder estabelecido habituado à unidade de opinião pública de timbre vermelho e numa política do continue-se assim! Uma grande parte da população na América e na Europa não têm nada a perder, pelo que, qualquer experimentação no palco da política não a levará a pior.

 

Os apoiantes de Trump, tal como parte do povo europeu, contesta a prática política de uma cultura aberta desenfreada que tem beneficiado a afirmação das culturas fechadas (privilegiando mesmo a formação de guetos com mais força de organização e afirmação do que o povo precário nativo) e consequentemente o ressurgir do proteccionismo e do nacionalismo. A Europa tem fomentado a abertura da própria cultura e a formação de guetos cerrados no seu meio: uma contradição!

 

Esta onda irrita de sobremaneira uma certa elite do poder europeu que tinha apostado na desestabilização económica da classe média e da própria cultura em favor da globalização e do rejuvenescimento social através da imigração e da afirmação do islão, mais adequado à execução da sua ideologia e interesses.

 

Compromisso: Primeiro América e os americanos

 

O aparecimento súbito de um homem representante de valores machistas a dizer “Primeiro América e os americanosdesperta esperanças naquela parte da população que se sente há muito como alma penada da nação e como tal a sapata de um regime político que a leva a julgar-se estrangeira no próprio país. Segundo a revista Forbes nos últimos quarenta anos os salários dos gestores cresceu mil por cento e o dos trabalhadores onze por cento.

 

A vitalidade das nações pode medir-se pelo crescimento sustentável do seu pib (produto interno bruto). O crescimento do pib previsto para este ano nos USA é de 1,5% e na China é de 6,6 %. Isto mete medo a Trum que quer manter de maneira sustentável a economia norte-americana à frente do mundo sem pensar que os outros países também trabalham no seu sentido. Em 2016 o pib americano foi de 17,9 biliões de dólares e o PIB da China foi de 10,9 biliões.

 

Nesta perspectiva a América não é Europa e a Nato também não; esta mensagem de Trump, aliada à intenção de proteccionismo económico, mete medo a uma UE habituada a viver encostada aos EUA e que se abriu tanto em nome do capitalismo e do socialismo liberal que se encontra mergulhada em problemas sem fim.

 

O proteccionismo da economia nacional e a introdução de direitos comerciais aduaneiros significaria  o fim da globalização e prejudicaria sobretudo nações exportadoras como a Alemanha que são beneficiadas pela globalização.

 

(continua)

António Justo.jpg

António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 12:25
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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017
ENCONTROS DE ESCRITORES

 

 

Refeitório dos frades, Alcobaça.jpg

 

Foi James Joyce que me sugeriu a busca da epifania das coisas e dos lugares. No sentido filosófico e não propriamente no transcendental mas, de facto, não sou capaz de deixar de imaginar as pessoas que estiveram ligadas a essas coisas e a esses lugares conferindo-lhes a essência que sempre procuro pelo que, mesmo sem um esforço especial, me chego relativamente perto da transcendência sem, contudo, lhe tocar. É claro que não chamo os espíritos sobre uma mesa de pé de galo nem dou a mão a xamãs; limito-me a imaginar as pessoas que por ali andaram e se mais houver, não é para aqui chamado. E com esta imaginação, tudo ganha uma expressão muito especial. Eis a busca do significado que tantos escritores tentam; alguns, em vão. Sugiro a quem me lê que faça esse tipo de exercício mental que, por enquanto, não paga imposto.

 

Compreende-se, assim, o entusiasmo com que correspondi ao desafio que o Francisco me lançou para testemunhar os seus «encontros» e para eu próprio contar o que nesse âmbito me aprouvesse. Sobre as descrições que o Francisco nos trouxe, posso dizer algo; sobre as descrições dos meus «encontros», outros que opinem.

 

Transcendências e seus rituais postos de parte ab initio, trouxe-nos o Francisco uma encenação de grande efeito pois foi escolher um local por onde passaram muitas histórias - tantas que será por certo impossível descrevê-las exaustivamente. Mais: esse local foi conhecido de quase todos os escritores (se não mesmo de todos) por ele convidados pelo que, directa ou indirectamente, explícita ou implicitamente, formatou a cultura de todos os invocados. Ou seja, o refeitório dos frades do Mosteiro de Alcobaça sendo, por definição, um marco inultrapassável da nossa Cultura, é cenário natural a todos os invocados que pertencem – uns mais militantemente do que outros - à esfera da lusofonia e não obrigatoriamente à da lusofilia.

 

Mas o Francisco, elegante como sabemos, foi buscá-los à lusofonia e «deixou para lá» essa questão mais diáfana que é a lusofilia. Eu próprio o fiz nos meus escritos mas, dentre os que foram menos afáveis para connosco, portugueses de Portugal, só invoquei aquelas duas Senhoras que, na aflição, nos procuraram e nos deram tudo o que tinham: a vida1.

 

A vastíssima cultura do Francisco sobra em relação ao espaço que decidiu conceder aos seus escritos. Poderia continuar, não sei até onde… A sua arte literária permitiu-lhe tecer diálogos interessantíssimos que a todos nos deu asas à imaginação e que, também eles, poderiam continuar por aí além…

 

A propósito dos diálogos entre escritores que viveram temporalmente tão longe uns dos outros, lembrei-me da Rainha de Sabá e do Rei Salomão2 que talvez nunca se tenham encontrado e que, mesmo assim, conseguiram fazer um filho, o primeiro Imperador da Etiópia. Mas como a fé não se discute, fiquemos assim.

 

Resta-me uma questão final: como é que uma Cultura tão policromada como a Lusíada em que ainda hoje, neste início do séc. XXI, proliferam hostes de analfabetos, tem conseguido produzir tantos escritores e poetas? E são tantos que nem conseguimos listá-los sem grandes omissões. Ensaio uma resposta bastamente discutível: é muito mais fácil romancear e versejar do que mourejar.

 

Salvo melhores opiniões.

 

Grande abraço ao Francisco e que continue…

 

Janeiro de 2017

Henrique Salles da Fonseca

Henrique Salles da Fonseca

1- Noémia de Sousa veio morrer a Cascais; Alda Lara veio cá tentar tudo para se salvar mas acabou por morrer em Angola.

2Salomão morreu em 931 a. C.; na tradição cristã, a rainha de Sabá é uma figura metafórica.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:53
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