Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2018
LIDO COM INTERESSE – 75

O SANGUE DOS INOCENTES.jpg

 

Título – O SANGUE DOS INOCENTES

Júlia Navarro.jpg

Autora – Júlia Navarro

Tradutora – Maria João Freire de Andrade

Editora – BERTRAND EDITORA

Edição – 1ª, Junho de 2017

 

* * *

 

A história é para quem a lê.

 

Seria de muito mau gosto e um autêntico desmanchar de prazeres vir aqui contá-la. Acho mesmo que a contra-capa já conta demais e que o interesse do putativo leitor se poderia despertar sem revelar tanto como ali se faz.

 

Bastaria dizer que se trata de um enredo (fictício, claro) sobre acontecimentos históricos, nomeadamente acerca dos cátaros. E em vez de contar histórias mais ou menos mirabolantes para animar os entusiastas de aventuras de capa e espada ou de «jamesbondices», a autora explica. E são estas explicações que contribuem muito para que se perceba o resto. E se aprenda o que esta grande estudiosa tem para nos ensinar em meia dúzia de linhas em vez de desenvolver relambórios chatos que convidariam a saltar páginas. Pelo contrário, escreve curto e de fácil leitura. E não toca em vulgaridades de cordel.

 

Tenho a tradução portuguesa como digna de realce e não me apercebi de que possa ter havido traições ao original.

 

Quanto à narrativa, achei graça ao modo saltitante como somos levados no espaço e no tempo. Fiquei com uma curiosa sensação de ubiquidade que raramente outro narrador alguma vez me deu. Mais: conhecendo eu muitos dos locais em que a narrativa se desenrola, senti-me envolvido naqueles espaços e historicamente transportado para cenários de evidente plausibilidade. De grande realismo, a subjectividade das personagens.

 

Mais do que com interesse, li com gosto e recomendo.

 

Fevereiro de 2018

Buenos Aires, 2012.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:23
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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018
CABO DA ROCA

 

OU

O FIM DA PICADA – 2

 

E a palestra continuou depois de um mini intervalo para dar entrada a mais ouvintes que vinham sabe-se lá donde.

 

Retomada a palavra, avancei para a solução dos problemas até ali enunciados que, como tinha dito, é a Ética cuja reposição me parece imperiosa.

 

E a questão estaminal da nossa conversa é a de saber o que é a Ética. Então, para desfazer muita confusão que por aí navega, comecei por afirmar simplisticamente que a Moral é a questão dos princípios enquanto a Ética é a questão dos factos.

 

Muito resumidamente, disse que todas as religiões têm as suas escrituras sagradas as quais, criando a respectiva Teologia, deram origem a verdadeiros códigos de conduta que definiram os grandes princípios da Moral correspondente e foi a partir daí que cada sociedade, descendo aos factos reais da vida quotidiana, criou a sua Ética; assumindo a obrigatoriedade do cumprimento, cada Ética vestiu o figurino de quadro jurídico.

 

Breve, a lógica descendente tem origem nas Sagradas Escrituras que definem a Moral que, por sua vez, induz a Ética e é esta que fundamenta o quadro jurídico.

 

Exemplos? Muitos. Mas basta referir a Bíblia cujo Antigo Testamento fundamenta o Judaísmo, os Vedas que são a base do Hinduísmo, os Ensinamentos de Buda que deram origem ao Budismo, o Novo Testamento que, em conjunto com o Antigo, fundamenta o Cristianismo, o Corão que é a Sagrada Escritura do Islão.

 

Contudo, como vimos de início, o homem pós-moderno extremou a sua própria laicização donde resulta que a inspiração divina nada lhe diz e ele se desliga de tudo que tenha origem nesse tipo de Valores. Não vale, portanto, a pena invocarmos princípios religiosos – venham eles donde vierem – para levarmos o pós-moderno convicto a aceitar um quadro jurídico que se inspire numa Ética que por sua vez se fundamente numa Moral de origem divina.

 

Então, como havemos de sair deste beco?

 

A questão pode-se resolver a partir duma frase que cito muitas vezes que, apesar de ser da autoria de um Cardeal, pode ser laicizada com toda a facilidade pois ela própria a isso conduz: «as coisas não são boas ou más porque Deus as mande ou as proíba; antes as manda porque são boas e as proíbe porque são más»[i].

 

Ou seja, tanto o bem como o mal existem fora da discussão teológica e por isso é possível erigirmos uma Ética laica que se fundamente na «Declaração Universal dos Direitos do Homem»[ii] e na «Declaração de Ética Mundial»[iii]

 

Para não cansar a assistência, referi apenas as linhas gerais deste último documento que começa por condenar a usurpação dos ecossistemas do planeta, o abandono dos miseráveis, o recrutamento forçado de crianças como soldados, a agressão e o ódio cultivados em nome das religiões.

 

E depois deste posicionamento crítico, passa para a positiva afirmando haver uma reserva de valores fundamentais comuns a toda a Humanidade que constituem a base para uma ética que fundamente uma ordem mundial duradoira, nomeadamente pelo reconhecimento de alguns princípios:

  • Há que respeitar a comunidade dos seres viventes (humanos, animais e plantas) preocupando-nos com a conservação da Terra, do ar, da água e do solo – princípio ecológico;
  • Todas as nossas acções e omissões têm consequências que devemos ponderar – princípio da responsabilidade;
  • Devemos dar aos outros o tratamento que deles queremos receber - princípio da equidade;
  • Temos que nos encher de paciência;
  • Nos cumpre servir o bem comum;
  • Deve prevalecer uma relação de companheirismo entre homem e mulher com igualdade de direitos – princípio da dignidade humana;
  • Temos o direito de combater a ânsia pelo poder – princípio da democracia política.

 

Estas, algumas das bases que devem servir para a construção de uma ética laica mundial na qual se revejam os pós-modernos que por aí pululam à nossa volta.

 

Concluí a palestra com a revelação de um segredo (pedindo que não o revelassem aos pós-modernos): esta ética laica mundial pode na perfeição ser considerada ecuménica pois resulta de um longo diálogo inter-religioso e o documento em apreço tem origem, afinal, nas confabulações desenvolvidas no seio do Parlamento das Religiões Mundiais.

 

Então, o que menos importa será saber se a origem da Ética Mundial tem ou não uma génese religiosa; basta saber que ela nasceu para servir a Humanidade.

 

Cabo_da_Roca_sunset.jpg

 

É que, assim não sendo, nos resta constatar que chegámos ao Cabo da Roca onde a terra acaba, onde é o fim da picada e onde, portanto, só poderemos optar entre atirarmo-nos ao mar ou darmos meia volta e meditarmos ponderadamente sobre o que queremos fazer da vida.

 

* * *

 

Dei por finda a palestra e não apanhei mocadas na cabeça. Mas passadas as portas do anfiteatro, retomaram pela certa aqueles finalistas a dinâmica das festas da queima das fitas arquivando algures numa dobra recôndita do cérebro as coisas que o tipo do bigode disse desejando que ele se coce com urtigas pois «nós somos hedonistas felizes como o cão dele».

 

Fevereiro de 2018

Henrique em Praga.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa, então Bispo do Porto, no seu livro “1810-1910-2010 DATAS E DESAFIOS”, pág. 121

 

[ii] - 1948

[iii] - Assinada em Chicago em 1993



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:01
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2018
CABO DA ROCA

 

OU

O FIM DA PICADA -1

Sé-de-Braga.jpg

 

Fui há tempos palestrar a uma «queima de fitas» no norte de Portugal e pediram-me previamente que abordasse o tema do futuro deles, os então finalistas daquela Universidade.

 

Nunca eu falara para plateia tão grande e tão apinhada em que não dava para perceber onde estavam os sentados, os de pé e os «sabe Deus como».

 

Então, se me queriam ouvir falar do futuro, teriam que ter uns minutos de paciência para me ouvirem falar do passado. Do recente, sim, mas passado na mesma. O passado imediato relativamente ao presente, este que antecede imediatamente o futuro. E como o presente é o instante que separa o grande passado e o futuro que temos por infinito, vejamos no que estamos metidos. E esse «caldinho» chama-se pós-modernidade.

 

A pós-modernidade designa a condição sócio-cultural dominante após a queda do Muro de Berlim (1989), o colapso da União Soviética e a crise das ideologias nas sociedades ocidentais no final do século XX, sobretudo pela dissolução da referência a esquemas totalizantes - o fascismo, o nazismo e o comunismo - fundados na crença no progresso mas que, por sua vez, já eram a negação dos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade.

 

E aqui chegados, disse-lhes que me parece imprescindível pensarmos na questão da ética e seus fundamentos precisamente porque estamos a viver num mundo sem conceitos superiores uma vez que nos tempos que correm só se pensa na competitividade. E esta, sim, é fruto do pós-modernismo em toda a sua pujança, é a sacralização do profano.

 

Então, avancei com a afirmação de que o cidadão do Mundo, pós-moderno, é ateu ou, no mínimo, agnóstico; para ele a vida é esta em que estamos e mais nenhuma. Por isso mesmo quer TUDO, e JÁ! E como não se sente vinculado a uma Moral, também ignora a correspondente Ética. Ou seja, tudo vale para que alcance imediatamente a sua própria felicidade sem sacrifícios pessoais (mas talvez à custa dos alheios). Egocêntrico, assume o egoísmo como algo de natural e fá-lo de consciência tranquila, sem sentimento de culpa, porque amoral e aético. Assim se confunde com hedonista sem sequer saber que o é nem o que tal palavra significa.

 

Com risco de não sair dali sem umas mocadas na cabeça, eu disse-lhes que o meu cão também é hedonista: quer todo o prazer de imediato; não gere a sorte da fortuna. Ninguém levantou a voz em protesto mas fiquei convencido de que muitos daqueles jovens reconheceram os paizinhos no que eu acabara de dizer. Mas, educadamente, «enfiaram o barrete» e calaram.

 

Onde estamos, então, depois de derrubado o muro das ideologias? Na arena nihilista e em mais nenhuma. Um BRAVO a Nietzsche que se suicidou em vão.

 

Sobrevivente do frisson quase ofensivo, mais lhes disse que, chegados ao ponto em que não se olha a meios para atingir o objectivo que cada um se auto-atribui sem querer minimamente saber se tal desiderato corresponde ou não ao bem-comum, a desorientação global resulta da abdicação que os governos fizeram de muitos conceitos entretanto considerados caducos para apenas alcandorarem a competitividade ao estatuto de quase sacralização. Foi assim que nos vimos chegados a uma sociedade de quase Partido Único em que todos os grupos seguem políticas liberais e apenas diferem nas cores das camisolas que vestem. Aliás, todos sabemos por experiência própria que a definição do bem-comum é pouco ou nada referida nas campanhas eleitorais e os votos definem-se com frequência por claques de simpatia. Vacuidade ideológica, política liberal por quase todos e por toda a parte, gestão de favores de classe ou, pior, individuais.

 

E, então, eu disse-lhes como foi na época em que eles estavam a concluir o ensino secundário e a entrar na Universidade: quando a inovação tecnológica deixou de proporcionar as margens de lucro ambicionadas pelos vorazes pós-modernos, restou-lhes a matéria-prima alvo da sua cobiça, o dinheiro. Foram então os «capitães de indústria» substituídos pelos magnatas da finança e do investimento produtivo se passou à especulação bolsista em que se vende «gato por lebre» (os famigerados «produtos tóxicos») sendo que até vendem o gato mesmo antes de o comprarem ou até mesmo antes dele nascer.

 

E de tanto por ela puxarem, a corda da sorte rebentou e ficámos a braços com a bancarrota mundial… As poucas lebres andavam perdidas no meio de muitos gatos e saíram da cena todas arranhadas.

 

- Eis o cenário que se vos depara – disse-lhes eu e notei algum desconforto na plateia.

 

Que fazer? Eis a questão cuja resposta não passa pelo encarceramento do todos os culpados pois não há grades suficientemente grandes para aprisionar meio mundo. E a reciclagem de mentalidades vai demorar...

 

A palestra continuou mas eu acho que este escrito vai ficar por aqui para não cansar quem me lê. No próximo número vou então continuar a contar como decorreu a palestra da queima das fitas e tratar da solução, a Ética.

 

(continua)

 

Fevereiro de 2018

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:44
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2018
AFINAL, SOMOS UNS GAJOS

 

Numa palestra que proferi há tempos, comecei por abordar o tema de identificação da génese do desenvolvimento duma Nação afirmando que, naturalmente, todos ambicionamos pertencer a uma sociedade desenvolvida mas que é importante sabermos como se alcança esse desenvolvimento para que não corramos o risco de algum retrocesso.

 

Quais, então, as condições necessárias para que o desenvolvimento ocorra?

 

Logo afirmei de seguida que isso se consegue com um elevado sentido de independência individual e colectiva, com muita gente a trabalhar para si própria demonstrando grandes doses de empreendedorismo, elevado nível de auto-estima, assumindo com orgulho as tradições culturais sem submissão a estrangeirismos e com um elevado sentido de auto-suficiência.

 

Perguntei aos meus ouvintes se estavam de acordo com as premissas enunciadas e, como previra, quase não tive tempo de chegar ao fim da pergunta porque a resposta foi imediata com uma aprovação unânime.

 

Então, sugeri que todos se sentassem confortavelmente, o que fizeram de imediato porque, efectivamente, a plateia estava cheia mas não havia ninguém de pé. E assim foi que lhes disse que quando estava a definir as premissas, eu estava a pensar nos ciganos. A desilusão que senti na audiência nada teve a ver com racismo mas apenas com alguma revolta contra mim, o orador, que os levara ao engano. Com a verdade os enganara.

 

Para não deixar a desilusão assentar praça, avancei de imediato para a fase seguinte do meu raciocínio, aquela em que lhes provaria que as premissas enunciadas eram necessárias, sim, mas estavam longe da suficiência.

 

Então, qual é a génese do desenvolvimento?

 

E aqui seguiu-se o resto da palestra em que comparei o Afeganistão com a Suíça, Angola com o Japão, a Cisjordânia com Israel,… até demonstrar que o desenvolvimento é consequência directa, não das riquezas naturais dos territórios ocupados por uma Nação mas sim do elevado nível de educação, instrução e formação.

 

Assim, as premissas que eu enunciara no início da palestra são claramente importantes mas estão longe da suficiência.

 

A educação que se obtém na família induz a civilização; a instrução que se obtém na escola induz a cultura; a formação profissional que se obtém nas Universidades e noutras instituições equiparáveis induz os conhecimentos para se ganhar a vida, a independência material. Se a isto tudo se juntar um elevado sentido de independência individual e colectiva, se houver muita gente a trabalhar para si própria demonstrando grandes doses de empreendedorismo, se se tiver um elevado nível de auto-estima, se se assumir com orgulho a tradição cultural sem submissão a estrangeirismos e se se tiver um elevado sentido de auto-suficiência, então, sim, alcança-se o desenvolvimento por todos ambicionado e ninguém «agarra» essa Nação.

 

gente_normal.jpg

 

Seremos, então, ciganos? Não, somos apenas «gajins», os não-ciganos, esses que, na terminologia cigana, deram origem aos gajos.

 

Bom. Mas se para progredirmos nos resta a solução de sermos uns gajos, então que o sejamos com classe, com ética.

 

Só que isto da ética vai dar para mais umas quantas palestras. Lá iremos…

 

Fevereiro de 2018

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



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Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2018
HISTÓRIA VIVIDA - 1

 

COEVOS E COESOS

 

Coevo é sinónimo de contemporâneo e os historiadores estão sempre a procurar documentos coevos do acontecimento que querem historiar porque os consideram as fontes verdadeiramente fidedignas, credíveis; que tudo o mais é susceptível de dúvidas, de interpretações.

 

Ora, se ser contemporâneo é prova historicamente reconhecida de fidelidade ao acontecimento, então nós próprios – os que vivemos certos acontecimentos – somos esses «documentos» coevos historicamente reconhecidos como válidos. Ou seja, os nossos relatos pessoais são tão válidos (ou mesmo mais) do que as crónicas de Fernão Lopes relativas a D. Pedro I e a D. Fernando ou de Gomes Eanes de Zurara relativamente a D. João I. Estes cronistas relataram o que presenciaram mas também dá para crer que escreveram o que os respectivos «patrões» lhes mandaram escrever. E nós, que vivemos os acontecimentos de que falamos e não temos «patrões», não somos credíveis, porquê?

Fernão Lopes.jpgFernão Lopes

 

Zurara.jpgGomes Eanes de Zurara

 

Coeso é aquele em que há coesão, o que une, liga; o que é fiel à verdade dos acontecimentos a que se sente ligado.

 

E a questão é a de saber por que razão Fernão Lopes e Zurara hão-de ser mais credíveis que nós, os que vivemos nos tempos dos Consulados do Doutor Salazar e do Professor Marcello Caetano.

 

Nós, sendo coevos e coesos, somos provavelmente mais credíveis que esses afamados cronistas pois nós assistimos às ocorrências e não nos submetemos a quem nos queira dizer o que devemos escrever.

 

E quem são esses «nós»? Não sei. Falo por mim e digo o que penso. Eu sou o tal «documento» coevo e coeso porque assisti a muitos acontecimentos das épocas relativas aos Consulados que refiro e não tenciono escrever de modo diferente ao que observei.

 

Janeiro de 2018

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

 Henrique Salles da Fonseca



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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018
ACADEMIA PORTUGUESA DE HISTÓRIA

Marcello Caetano.jpg

 

Marcello Caetano, Historiador e a Academia Portuguesa da História

 

OradorAntónio Alves Caetano, Professor Doutor

Local – Lisboa, sala de actos da sede da Academia

Data – 24 de Janeiro de 2018 (15,00 h.)

 

* * *

 

Nota prévia – fui marcelista por quase todas as razões que me tinham feito não salazarista, o que explicarei noutra ocasião. Por agora, basta dizer que considero importante fazer justiça a Marcello Caetano. Também para isso, fui à conferência.

 

* * *

 

Sala tão cheia que foi necessário ir não sei onde arrebanhar cadeiras para que não fossem muitos assistentes a ficar de pé. A coxia central quase desapareceu; as coxias laterais já lá não estavam quando entrei.

 

O orador tinha sido meu Professor na minha efémera passagem pelo ISCEF em 1962/3 (donde zarpei enxotado pelo famigerado ambiente das greves académicas) e dele guardava uma ideia que confirmo passados todos estes anos: a de quem, com toda a naturalidade, se dá ao respeito, sabe do que fala, ensina com método.

 

Hoje, para além das características anteriores, falou com erudição.

 

O tema geral era meu desconhecido pois sabia que o Professor Marcello Caetano fora doutrinador de Direito mas não sabia que tinha sido historiador. E, pelos vistos, com vastíssima obra - desde os temas relativos às estruturas económicas medievais na cidade de Lisboa e as questões legais e políticas abordadas nas Cortes de Leiria em 1254 até às «manigâncias» manuelinas contra os judeus, tudo foram novidades para mim. E muitos mais temas que não fixei porque erradamente não tomei notas.

 

Recordei que a Academia Portuguesa de História, instituída em 1936, é a sucessora da Academia Real da História Portuguesa instituída no reinado de D. João V e fiquei hoje a saber que o Professor Marcello Caetano fez parte do grupo de refundadores ocupando a cadeira 24 até que faleceu em 1980. Apesar de academicamente ser de ramo diferente, foi reconhecido como historiador e teve cargos relevantes na estrutura da Academia.

 

Debalde, procurei o seu retrato numa das paredes da sala de actos mas concluo que deve estar exposto nalguma outra dependência a que o público anónimo não tem acesso…

 

Resta-me a esperança de que o Professor Alves Caetano autorize que a Academia publique o texto da sua conferência. Comprarei com todo o interesse.

 

No final, houve um simpático período de comentários, perguntas e respostas de que fixei o pedido de alguém na assistência no sentido de se organizar outra conferência em que se aborde o tema de «Marcello Caetano como pedagogo».

 

Em vez de pedir a palavra nesse período, aproveito agora este espaço que o éter me oferece aqui para pedir que se realize ainda uma outra conferência que aborde o tema «Marcello Caetano como actor na História de Portugal».

 

É que só assim se começará a fazer a justiça que tarda.

 

Janeiro de 2018Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



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Domingo, 21 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA - 16

 

 

Não eleves a fé até à altura do vôo dos pássaros e não rastejarás depois como os vermes.

John Steinbeck.jpg John Steinbeck, in «As vinhas da ira» (pág. 110 - LIVROS DO BRASIL, edição de Novembro de 2014)

 

 

Por cá, dizemos «fia-te na Virgem e não corras, logo verás o trambolhão que dás». Ou seja, o livre arbítrio é determinante no rumo das nossas vidas, o determinismo não faz sentido. Temos sorte na vida se a soubermos «levar direitinha»; com muitas probabilidades, o azar bate-nos à porta se não procurarmos acertar, se pusermos o pé em ramo verde, não pusermos as barbas de molho.

 

O anjo da guarda só actua se nós não abusarmos da sorte, se agirmos dentro da sociabilidade, enfim, se seguirmos o Decálogo com um mínimo de respeito; ele, o anjo da guarda, age contra agressões externas, não contra o mal que façamos a nós próprios tanto por actos como por omissões.

 

No que respeita à saúde, convém passarmos pelo médico antes que este já nada saiba fazer e quando isto suceder, então e só então, é que devemos procurar a ajuda sobrenatural.

 

Fomos dotados duma capacidade estaminal de raciocínio que nos tem permitido grandes progressos científicos. A própria capacidade de raciocínio, a inteligência, tem evoluído muito ao longo dos milhares de anos que a humanidade já conta e, portanto, afrontaremos quem nos dotou dessa capacidade estaminal se não recorrermos aos conhecimentos adquiridos e se não nos deixarmos tratar por quem utilize a medicina em conformidade com a ética.

 

Curámo-nos da maleita que nos incomodava? Óptimo! Isso foi porque nos deram a injecção certa, nos submeteram à cirurgia conveniente, nos fizeram a transfusão de que estávamos necessitados. Deixemos o «queira Deus» para quando o homem já não souber actuar. Então, sim, entreguemo-nos ao Altíssimo.

 

Janeiro de 2018

Fonte da Telha-27NOV16 (barco museu).jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:56
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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA – 15

gente_normal.jpg

 

Santos - refiro-os no masculino apenas por uma questão de simplificação da escrita mas é para mim claro que o feminino se lhe aplica em perfeita igualdade.

 

Sei de Santos em várias religiões – na hindu, na budista, na católica e na muçulmana. Nas outras, não sei se os há.

 

E o que é um Santo? Objectivamente, é alguém a quem os fiéis pedem bênçãos por intermediação com a Divindade Suprema. E serão mesmo “muito bonzinhos” como diz a crença popular? Tenho as minhas sérias dúvidas de que tenham obrigatoriamente que o ser. Não podem é ser maus porque, se o forem, não serão aceites como intermediários credíveis entre Deus e o humano pecador (mas não obrigatoriamente pecaminoso).

 

Como se pode, então, ser intermediário entre Deus e os homens? Tenho como condição essencial, a de ser aceite por ambas as partes, Deus e homens, sem o que não se estabelece a imprescindível ligação. E só uma grande finura espiritual pode alcançar o misticismo necessário à aproximação da Divindade Suprema - o Ser Supremo budista, Brahma hindu, Allah muçulmano, o Deus cristão - e em nome dos homens obter a dádiva por estes pedida. Tudo, no singular ou no plural, no masculino ou no feminino.

 

Esta aproximação e intermediação pode ser feita em vida do Santo, antes do reconhecimento canónico por parte das respectivas Igrejas; o Santo pode sê-lo antes da canonização uma vez que esta é apenas o reconhecimento oficial (canónico) pelos homens das capacidades sobrenaturais do Santo, do seu misticismo. Mas o Santo é-o independentemente de ser ou não reconhecido pelos homens.

 

Daqui, dá para imaginarmos quantos Santos por aí andam ou andaram que ninguém conhece nem reconhece…

 

Os Santos são-no por si próprios, não pelo reconhecimento humano e com ou sem parusia.

 

Janeiro de 2018

Henrique-Ushuaia, MAR12.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:12
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Sábado, 13 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA – 14

 

 

Tenho os anjos como os mensageiros da verdade.

 

Então, o que são anjos e o que é a verdade?

 

Citam os antigos quatro seres da esfera espiritual: anjos, arcanjos, querubins e serafins.

 

Os anjos são citados como mensageiros e executores da ordem divina, espíritos que servem a Deus e aos humanos. Em alguns textos cristãos, os anjos são descritos com características semelhantes às humanas.

 

O arcanjo é uma espécie de “Anjo-chefe” e exerce uma posição de destaque na esfera espiritual. Por exemplo, São Miguel Arcanjo, o protector de Portugal, é uma figura mística que não corresponde a alguém que tenha vivido na Terra e que historicamente resulta da cristianização do deus romano Zéfiro que, por sua vez, tinha sido a romanização de Endovélico, o deus dos lusitanos.

Santuário de Endovélico-rocha-da-mina.jpg

Santuário de Endovélico – Rocha da Mina

 

Quanto aos querubins e aos serafins, parecem-me fruto de imaginações muito elásticas e, portanto, não os levo em consideração. Não creio que tenha sido algum destes que me tenha chamado.

 

E o que é a verdade? A verdade da nossa vida, sendo o contrário do erro, é revelada pelo sentido protegido da vida individual terrena, a que levamos. Nada a ver com qualquer predestinação definida superiormente, apenas com a «boa gestão» de um processo em que o livre arbítrio desempenha um papel central; um sentido místico que nos protege não nos deixando cair em tentações, nos dá sinais que nem sempre percebemos e, portanto, não seguimos; a que subjaz a uma orientação que nos é concretamente sugerida pelo tão esquecido Decálogo.

 

Tudo, para além da mera ordem cognitiva metafísica; tudo, na ordem da fruição mística, do superlativo intelectual.

 

Janeiro de 2018

 

De Denang para Hué.JPG

 Henrique Salles da Fonseca



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Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2018
TEOLOGIA, DA MINHA - 13

 

FÉ, MITOLOGIA E TEOLOGIA

 

Etimologicamente, «Mitologia» vem de mito que é algo que não existe, que é ficcional; «Teologia» tem a ver com «teo», Deus.

 

Independentemente da verdade, só a nossa religião é teológica; todas as demais são mitológicas.

Inti.jpg

 

Inti é o nome quéchua do Sol, tido pela divindade mais significativa da fé do Inca.

 

Culturas anteriores à quéchua tinham Viracocha como sendo a suprema divindade. A definição completa do seu poder absoluto passava pela enumeração da sua superioridade sobre a água, a terra e o fogo mas evoluiu para um conceito mais complexo que acabou por se tornar no Deus único e criador universal, Inti.

 

Este novo e muito poderoso Deus do Sol não estava sozinho, estava casado com a sua irmã, a Lua com quem compartilhava uma posição igual no tribunal celestial. A Lua era conhecida sob o nome de Mama Quilla.

 

Mama Quilla.png

 

Inti era representado por uma elipse de ouro; Mama Quilla era representada por um disco de prata. Como um criador, Inti era adorado e reverenciado, mas também concedia (ou não) favores e ajudava (ou não) a resolver problemas e aliviar as necessidades; só ele podia dar boas colheitas, curar doenças e providenciar a segurança exigida pelo homem. E no meio de Natureza tão agreste com desertos tão áridos, com chuvas diluvianas, com tremores de terra e tsunamis tão devastadores, bem se compreende como esta (e qualquer outra) divindade era importante.

 

A Mama Quilla foi atribuído o fervor religioso das mulheres e elas foram as que formaram o núcleo duro dos seus fiéis seguidores. Quem melhor do que Quilla conseguia entender os seus desejos e os seus medos dando-lhes a protecção pretendida?

 

* * *

 

Teologia ou apenas mitologia, uma coisa é certa: mesmo fora da influência das civilizações nossas conhecidas no Médio Oriente, no Oriente, no seu Extremo ou aqui na Europa, o homem acreditava em divindades - ou porque as sentira ou apenas porque precisava de se agarrar a uma crença. E aceitou os intermediários que lidam directamente com o divino: os xamãs, os médiuns, os sacerdotes, todos mais ou menos profissionais, todos verdadeira ou falsamente imbuídos de misticismo, uns verdadeiros, outros charlatães.

 

Mas, ao contrário dos que matam em nome de Deus, eu acho que a fé não se discute.

 

Janeiro de 2018

 

Henrique num templo indú em Goa.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(algures em Goa, no exterior de um templo hindu)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:39
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