Domingo, 3 de Dezembro de 2017
O FILHO DAS SALSAS ERVAS

 

Ervas daninhas.jpg

 

 

Até ele nascer, o pai teve catorze filhos sendo quatro do casamento e dez fora do dito.

 

Este rapaz que vos estou a referir, foi o único daquela mãe e esta não passava de uma das empregadas do pai, comerciante e fazendeiro numa terriola perdida num vale andino, no Peru. Para ela, o filho era um empecilho que não lhe permitia alternar o trabalho com os folguedos. Por isso, logo que conseguiu amealhar uns dinheiritos, comprou um bilhete de ida e volta na camioneta que os levaria a umas centenas de quilómetros, a uma terriola na costa peruana onde tinha parentes que por certo não se importariam de criar o petiz. Levou-o, deixou-o e regressou à origem antes que os tais parentes se arrependessem.

 

Os parentes, espantados, não tiveram tempo para manifestar qualquer arrependimento antes de a rapariga desaparecer pelo que a criança ficou em casa deles. Mas as atenções dispensadas foram apenas as necessárias para que não morresse de fome ou de frio. Deambulou uns tempos pela praia mas não chegou a fazer amizades pois as crianças da sua idade estavam no afago das respectivas famílias, o que ele não tinha. Foi o Padre local que lhe ensinou as primeiras letras mas ninguém controlava as idas às aulas e a instrução primária ficou-se pela precaridade.

 

Até que aqueles parentes se fartaram do rapazito e o mandaram para casa de outros parentes que viviam em Lima, a capital, a mais não sei quantas centenas de quilómetros e cada vez mais longe do local de origem em que a mãe continuaria. Aliás, nunca mais na vida voltou a ver a mãe.

 

Depois de longuíssima viagem, chegou a Lima e conseguiu descobrir a casa dos novos parentes que ele nunca vira. Tudo bem, deram-lhe um quarto para dormir, mandaram-no à escola para completar o ensino elementar mas exigiram-lhe em contrapartida que fizesse trabalhos domésticos. E foi como serviçal que estudou até meio do ensino secundário.

 

Aluno mediano, lá se viu novamente em bolandas para uma cidade no interior do país onde alguém descobriu o pai dele e respectiva família que, entretanto, já era outra relativamente à da época em que ele nascera. E da mãe, nem rastos… esfumara-se.

 

Muito severo, o pai não lhe ligava patavina (nem aos outros irmãos), apenas se preocupava com os negócios e se dedicava a fazer mais filhos um pouco por toda a parte. Mas a madrasta, ao contrário das histórias para crianças, prestou-lhe atenção e, pela primeira (e talvez única) vez ele sentiu que alguém se interessava por ele. A única obrigação que lhe foi imposta foi a de estudar. O quê? O que ele quisesse desde que fosse na Universidade. Mas ele queria ir para a Escola do Exército. Não, isso é que não! Para a Universidade e não havia discussão. E ele foi…

 

Licenciou-se em Direito, escolheu a carreira docente e chegou a Catedrático. Como assim, tão rapidamente?

 

É que lá pelo final do ensino secundário alguém lhe havia falado de um tal Marx, de um Fulano chamado Engels e de um russo a quem chamavam Lenine por cujos livros (de distribuição clandestina) o jovem estudante se interessara. Mais: livros que devorou e passou a citar de cor.

 

Então, assumindo-se comunista, caiu nas graças do Reitor da Universidade que o recrutou para a carreira docente logo que o jovem concluiu a licenciatura, o foi encarregando de missões políticas dentro e fora do curriculum académico e o promoveu sucessivamente até que – sem grandes discussões científicas – se viu alcandorado a uma cátedra.

 

À boa maneira dos comunistas, o nosso homem não ria nem sequer sorria, não tinha amigos e apenas se relacionava com camaradas – eles e elas. E foi com uma dessas elas que ele casou. Ele com 31 anos de idade; ela com 17.

 

Subidos na hierarquia do Partido Comunista Peruano, puseram em prática a cartilha da organização partidária e de doutrinação das hostes.

 

Só que, a certa altura do «campeonato», chegaram-lhes às mãos os livrinhos vermelhos do Presidente Mao e, vai daí, os nossos «artistas» dão-se de amores por esse chinês e decidem formar um novo Partido Comunista mas de prática maoista e não mais «revisionista» como eles passariam a chamar aos de observância moscovita. Este, sim, o verdadeiro caminho das luzes – em espanhol, o Sendero Luminoso.

 

Frustrado com o facto de não lhe ter sido possível seguir a carreira militar, o nosso homem decidiu militarizar o seu novo Partido, o maoista, mas quem se encarregou da missão foi ela, a mulher.

 

Seguiu-se o lançamento de acções de terror por todo o país, clandestinidade, guerra de guerrilha, milhares de mortos… uma verdadeira desgraça nacional. Foram 18 anos de pesadelo até que uma sociedade destroçada conseguiu reunir algum ânimo, dar guerra aos assassinos lunáticos, derrotá-los e prendê-los.

 

Ela, a grande guerrilheira «Norah», Augusta La Torre de seu nome oficial, já tinha desaparecido da circulação numa morte misteriosa e sem prova de corpo. Quanto a ele, preso, julgado e condenado a duas prisões perpétuas, já passou os 80 anos de idade e cumpre pena no mesmo estabelecimento prisional que os seus arqui-inimigos, ex-Presidentes corruptos do Peru, Alberto Fujimori e Alejandro Toledo, ambos condenados a 25 anos de cadeia pela cleptomania que praticaram no exercício do cargo presidencial.

 

O «artista» que acompanhamos desde a infância fora baptizado como Ruben Manuel Abimael Guzman Reinoso, toda a vida usou apenas Abimael Guzman, passou por ser o «camarada Álvaro» e acabou a clandestinidade como «Presidente Gonzalo». Então, fruto que é do abandono familiar e do desprezo social, fez do Peru um antro de terror horrível para todos os seus concidadãos e por isso eu prefiro chamar-lhe «o filho das salsas ervas» para não lhe chamar aquilo que o leitor está a imaginar…

 

Dezembro de 2017

 Henrique Machu Picchu.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

ABIMAEL – EL SENDERO DEL TERROR, Umberto Jara, ed. Planeta, Lima – Peru, 1ª edição - Agosto de 2017



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:26
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FRASE DO DIA

 

Quem quiser ser bem sucedido na política, deve manter a sua consciência sob apertado controlo

Lloyde George.pngLloyd George

David Lloyd George (1863 – 1945), 1.º Conde Lloyd-George de Dwyfor foi um estadista britânico e o último membro do Partido Liberal a ser Primeiro-ministro do Reino Unido. Está enterrado na Abadia de Westminster.

Partido político: Partido Liberal (1890–1916 & 1924–45)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:20
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Sexta-feira, 1 de Dezembro de 2017
RESTAURADORES DA SOBERANIA NACIONAL EM 1 DE DEZEMBRO DE 1640

 

Restauracao-Tapecaria_Portalegre.jpg

 

 

Afonso de Menezes, D.

Álvaro Coutinho da Câmara, D.

Antão Vaz d’Almada, D.

António de Alcáçova Carneiro, D. – Alcaide-mor de Campo Maior

António Álvares da Cunha, D. – 17º Senhor de Tábua

António da Costa, D.

António Luís de Menezes, D. – 1º Marquês de Marialva

António de Mascarenhas, D.

António de Melo e Castro

António de Saldanha – Alcaide-mor de Vila Real

António Teles da Silva – Governador do Brasil

António Telo, D.

Carlos de Noronha, D.

Estêvão da Cunha

Fernando Teles de Faro, D.

Fernão Teles de Menezes – 1º Conde de Vilar Maior

Francisco Coutinho, D.

Francisco de Melo

Francisco de Melo e Torres – 1º Marquês de Sande

Francisco de Noronha, D.

Francisco de São Paio

Francisco de Sousa, D. – 1º Marquês das Minas

Gaspar de Brito Freire

Gastão Coutinho, D.

Gomes Freire de Andrade

Gonçalo Tavares de Távora

Jerónimo de Ataíde, D. – 6º Conde de Atouguia

João da Costa, D. – 1º Conde de Soure

João Pereira, D.

João Pinto Ribeiro, Dr.

João Rodrigues de Sá

João Rodrigues de Sá e Menezes, D. – 3º Conde de Penaguião

João de Saldanha da Gama

João de Saldanha e Sousa

Jorge de Melo

Luís Álvares da Cunha

Luís da Cunha

Luís da Cunha de Ataíde, D. – Senhor de Povolide,

Luís de Melo, Alcaide-mor de Serpa

Manuel Rolim, D. – Senhor de Azambuja

Martim Afonso de Melo – Alcaide-mor de Elvas

Miguel de Almeida, D. – 4º Conde de Abrantes

Miguel Maldonado

Nuno da Cunha de Ataíde, D. – 1º Conde de Pontével

Paulo da Gama, D.

Pedro de Mendonça Furtado – Alcaide-mor de Mourão

Rodrigo da Cunha, D. – Arcebispo de Lisboa

Rodrigo de Menezes, D.

Rodrigo de Resende Nogueira de Novais

Rui de Figueiredo – Senhor do morgado da Ota

Sancho Dias de Saldanha

Tomás de Noronha, D. - 3º Conde dos Arcos

Tomé de Sousa - Senhor de Gouveia

Tristão da Cunha e Ataíde - Senhor de Povolide

Tristão de Mendonça

 

TOTAL = 55



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:10
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Domingo, 12 de Novembro de 2017
OLIVARES, ESSE DEMOCRATA

Conde-Duque_de_Olivares.jpg

Chamava-se Gaspar de Guzmán y Pimentel Ribera y Velasco de Tovar mas ficou na História como Conde Duque de Olivares. Nasceu por acaso em Roma a 6 de Janeiro de 1587 e morreu aos 58 anos de idade em Toro a 22 de Julho de 1645, diz-se que abalado por uma grave melancolia (ao que actualmente chamamos depressão).

 

Nobre e político espanhol, foi o terceiro Conde de Olivares, o primeiro Duque de Sanlúcar la Mayor, primeiro Marquês de Heliche, primeiro conde de Arzarcóllar, primeiro Príncipe de Aracena e Valido do Rei Felipe IV (Valido corresponde ao que actualmente chamamos Primeiro Ministro).

 

Como Primeiro Ministro, ficou famoso por ser o autor do chamado «Gran Memorial»​ (1624) e cujo conteúdo consistia na introdução da uniformidade legal em toda a Espanha, no reforço do poder real pela abolição de prerrogativas locais e regionais e na eficácia da maquinaria bélica a fim de atender a todos os potenciais (e reais) conflitos internos e externos.

 

A esta última faceta da sua política, chamou Olivares a «União das Armas», projecto destinado a incrementar o compromisso de todos os reinos de Espanha para compartilhar com Castela o esforço bélico tanto humano como financeiro. Eis como aos portugueses se lhes «chegou a mostarda ao nariz» por se verem obrigados a marchar ao serviço dos interesses de Castela e, ainda por cima, tendo que pagar.

 

Conspirando com eficácia, os restauradores da nossa soberania não deram tempo à Duquesa de Mântua nem a Miguel de Vasconcelos para se aperceberem com clareza do sarilho em que estavam metidos. Ela, convidada a viajar para lá de Badajoz; ele, defenestrado.

 

E quando Olivares soube dos acontecimentos, já por certo D. João IV tinha sido aclamado Rei de Portugal. Não teve tempo para mandar prender ninguém por uma ou duas simples razões: não teria encontrado quem lhe obedecesse a qualquer ordem de prisão que desse sobre os revoltosos; a Catalunha era muito mais importante que as «praias atlânticas» das quais voltaria a tratar logo que Barcelona sossegasse.

 

Um estratega, sem dúvida; um democrata, por falta de força para ser bruto.

 

Seguiu-se a nossa Guerra da Restauração mas quando ela estava no auge para gáudio português e tristeza castelhana, já Olivares tinha sido, também ele, politicamente defenestrado e enviado para Toro, lá bem perto do Sol posto, no que representaria uma caminhada de quase 50 horas a partir da Corte madrilena.

 

E foi nesse exílio que lhe surgiu a tal melancolia que pôs fim aos seus 58 anos de vida terrena.

 

Passados uns tempos, eis que a Catalunha volta a dizer que está farta do «Gran Memorial» e do Valido de Filipe VI.

RAJOY.jpg

 

Mas agora, não tendo já muitas veleidades sobre as «praias atlânticas», o Valido actual envia os seus fiéis castelhanos (ele, propriamente, é galego) travar os «moços de esquadra» e espatifar as urnas de voto numa demonstração de irracionalidade democrática, manda reabrir as prisões políticas tão usadas no tempo do Caudilho Franco e apresenta-se nas televisões a dizer que é necessário recuperar a Catalunha para a democracia. Bastou, afinal, uma relativamente modesta acção policial para uns quantos se porem «a monte».

 

O descaramento de um corresponde na perfeição à cobardia dos outros.

 

Reconheçamos que não foi com gente do calibre dos que fogem que se fez Portugal. Também, não dá para perceber como há por cá quem não reconheça a legitimidade política da afirmação catalã.

 

Novembro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia - https://es.wikipedia.org/wiki/Conde-duque_de_Olivares



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:27
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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2017
FRASE DO DIA

 No Lenin, no Hitler

“Without the Russian Revolution of 1917, Hitler would likely have ended up painting postcards in one of the same flophouses where he started. No Lenin, no Hitler”.

Simon Sebag Montefiore.png

 Simon Sebag Montefiore

 

(historiador, autor de uma celebrada biografia de Estaline)

Stalin,Montefiore.jpg

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:32
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Sexta-feira, 3 de Novembro de 2017
CARTA DE UN MINISTRO AL REY FELIPE IV

          Philip_IV_of_Spain (D. Velásquez).jpg

"Dicen a Vuestra Magestad que Portugal no tiene dinero, no tiene navíos, no tiene gente: traidores son los que lo dicen. Pues con qué nos tienen destruidos? Sin gente nos tienen tantas veces desbaratados; Válgame Dios, que fuera con gente! Sin dinero lloramos nuestras ruinas, qué lloráramos si tuvieran dinero? Señor: Portugal nos desbarató en Montijo [batalla de Montijo, 1644], nos destruyó en Yelbes [batalla de Elvas, 1659], Luis Méndez de Haro [Valido de Felipe IV] huyó dejando caballos, artillería, infantes y bagajes.

 

Portugal en Évora [batalla de Estremoz o de Ameixial, 1663] destruyó la Flor de España, lo mejor de Flandres, lo lucido de Milán, lo escogido de Nápoles y lo granado de Extremadura.

 

Vergonzosamente se retiró S.A [El Príncipe D. Juan José de Austria, hijo de Felipe IV] dejando ocho millones que costó la empresa, ocho mil muertos, seis mil prisioneros, cuatro mil caballos, veinticuatro piezas de artillería, y lo más lastimoso fue que, de ciento veinte títulos y cabos, no escaparon sino cinco (...). Cada día espera Vuestra Magestad que se gane, y cada día sepa Vuestra Magestad que se pierde, y que es mucha la pérdida de cada día."

 

[Poco después de estas palabras, tuvo lugar la derrota de Castelo Rodrigo en 1664, y la aplastante derrota de Villaviciosa o Montes Claros en 1665].



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:43
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Sábado, 28 de Outubro de 2017
LIDO COM INTERESSE – 74

 

 

EL MONARCA DE LAS SOMBRAS.jpg

 

 

Título – EL MONARCA DE LAS SOMBRAS

Autor – Javier Cercas

Editor – LITERATURA RANDOM HOUSE, Lima, Peru

Edição – 1ª, Fevereiro de 2017

 

Foi numa das minhas passagens pelo aeroporto de Lima, capital do Peru, que comprei este livro julgando tratar-se de um novo escritor peruano. Não, é espanhol. Mas li-o na mesma e a literatura peruana fica para um dia, lá para a frente, em que outro bookiniste não me induza em erro. Entretanto, uma vez que o meu universo da literatura peruana se limita a Mário Vargas Llosa, acho que não tenho motivos de queixa que me obriguem a correr a trás de algum outro escritor peruano que, muito provavelmente, não chegará ao nível deste que já conheço. Eis por que me aconselho calma na busca que farei.

 

Quanto a este que agora acabei de ler, Javier Cercas, é claramente um bom contador de histórias e prendeu-me desde o início até ao fim. Mas, mais do que a história (que nos é apresentada como verdadeira), apreciei o estilo literário com formas de construção das frases que me encheram de curiosidade. Por exemplo, intercalando entre cada raciocínio a conjunção «e» (em castelhano, «y»), faz parágrafos quase duma página inteira sem que o leitor perca o fôlego. Mais: obriga-nos a seguir a sequência que nos quer contar com um ritmo que a divisão em diversos parágrafos poderia quebrar e distrair-nos. Garante, pois, uma unidade de escrita que, afinal, não cansa.

 

Fez-me lembrar o que se diz de Saramago que parece escrever sem pontuação. É o que me dizem pois nunca li – nem tenciono ler – escritos do pensador de Lanzarote.

 

Outra curiosidade: Cercas intercala, entre aspas, diversas frases em discurso directo num parágrafo em discurso indirecto. E quando ficamos à espera duma grande confusão, damos por nós a constatar que, afinal, é uma escrita limpa.

 

Forma muito interessante, lê-se bem.

 

No que se refere ao conteúdo, a história é sobre a guerra civil de Espanha, a de 1936-39 e o personagem central é tio-avô (materno) do autor. Tudo começa num lugarejo perto de Trujillo, ali pouco depois da nossa Elvas e metade do livro é o autor – politicamente conotado com a esquerda ou, pelo menos, com a não-direita - a procurar uma justificação para escrever um livro sobre esse tio-avô que lutou nas tropas franquistas.

 

Livro sem a mais pequena ponta de «suspense» (desde o início que sabemos como a história acaba), dá para perceber as motivações de uns e outros na sociedade quase hermética de um «pueblito extremeño» durante os prolegómenos da que viria a ser uma das maiores matanças de espanhóis. E histórica e sociologicamente, é esta a grande virtude deste livro.

 

Li a versão original, castelhana, mas a tradução portuguesa chegou agora às nossas bancas.

 

Para acabar, uma breve referência ao autor, Javier Cercas, que nasceu em Ibahernando em 1962, é professor de literatura espanhola na Universidade de Girona e tem no seu curriculum de escritor várias obras editadas e traduzidas.

 

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:24
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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017
PERU – 12

 

CUSCO

 

No final da crónica anterior aprazei para agora um relato sobre a nossa visita a Cusco mas, pensando um pouco mais, acho que os meus leitores ficam muito mais esclarecidos se forem à Internet e procurarem informação sobre essa cidade. Para já, sugiro que vejam em https://pt.wikipedia.org/wiki/Cusco e logo de início vão ver que o nome da cidade, em língua quéchua, significa «o umbigo do mundo». Confesso que já li descrições mais agradáveis como por exemplo, a «cidade das luzes» relativamente a Paris, uma outra qualquer a que chamam «a pérola do Adriático», etc. Mas umbigo… ná!

 

Cusco.jpg

 

Sim, tem história que basta para encher um livro ou dois mas estejam tranquilos que não vos maço com isso. Maço-vos com outras coisas. Por exemplo…

 

… por exemplo com algo que consciencializei em Cusco mas de que ninguém me falou: a dicotomia étnica da sociedade peruana. Sim, há nitidamente dois Perus, o nativo - tanto genuíno como misto – e o de «pura raza española». O nacionalismo peruano é quéchua (e das demais etnias indígenas que erradamente misturo por completo numa só), seja ele puro ou misto; os «espanhóis» estão lá para ganhar dinheiro sem beliscarem a pele. Digo eu, mas sinto que estou a generalizar demais. O leitor dará um desconto a seu bel critério.

 

E porquê em Cusco? Porque esta é a capital do Império do Inca, não Machu Picchu que era apenas um local de contemplação religiosa (eis o grande templo ao Deus Sol) e de fuga das maldades profanas. A propósito, também de refúgio contra os espanhóis. E foi precisamente em Cusco que os invasores concentraram a sanha da sua maldade enquanto se limitaram a passar em frente pelo sopé da famosa montanha.

 

quechua-peru.jpg

 

E o nacionalismo peruano é em Cusco que se concentra enquanto em Lima são os «de pura raza española» que se pavoneiam.

 

Bastaria a militância «cusqueña» dos nossos guias turísticos para dissipar quaisquer dúvidas. Mas é um nacionalismo positivo a favor da cultura nativa, não contra quem quer que seja. E isso só lhes fica bem, acho eu.

 

Como já referi em crónica anterior, foi-nos apresentada com algum detalhe a mitologia inca - que tiveram o cuidado de não identificar como teologia. E a pergunta que se impunha era a de saber se continua a haver fiéis dessa religião. A resposta foi dúbia, falaram de sincretismo entre a religião tradicional e o cristianismo, disseram que sim e mais que também… e eu fiquei na mesma, sem saber nada de concreto. Quero, contudo, acreditar que os antigos rituais de sacrifícios animais já não se realizem e muito menos os humanos. Haverá hoje um ensino daquela religião numa base meramente cultural, sem fé.

 

E o que fazem por lá os «espanhóis»? Fazem política e ganham dinheiro.

 

Finalmente, como na música, esta viagem concluiu-se com um «da fine al capo» ou, mais prosaicamente, como a pescadinha de rabo na boca: voltámos a Lima, almoçámos num restaurante no Bairro San Borja e isso permitiu-nos melhorar substancialmente a ideia inicial sobre Lima que, afinal, também é uma bela cidade.

 

No dia seguinte, 6ª feira, 13 de Outubro, voámos de regresso à Europa sem solavancos nem outros azares.

 

Outubro de 2017

Henrique Machu Picchu.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:46
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
PERU – 11

 

VALE SAGRADO – MACHU PICCHU

 

Então, se em Puno estávamos a 3800 metros de altitude, vá de amarinhar pelas montanhas acima até que chegámos aos 4955. E o mais curioso é que não senti o mínimo incómodo. Parámos frente a mais uma montanha imponente que nos fazia esquecer a altitude a que já chegáramos e vai de reparar num riacho que passava por baixo da estrada em que estávamos estacionados e que ali mesmo se dividia em dois: um ramo virava para o vale que nós acabávamos de percorrer e o outro seguia pelo nosso caminho em frente. O que, relativamente ao nosso sentido de marcha, voltava para trás, tinha como destino desaguar no Titicaca; o que se nos adiantava, desaguaria lá longe, directamente, no Pacífico.

 

O local em que nos encontrávamos era, como já deu para perceber, a divisória de duas bacias hidrográficas: a do Titicaca e a de Cusco.

 

O ribeirinho das nossas arrecuas vagueava um pouco sem rei nem roque pelo vale que acabáramos de subir através de paisagens imponentes mas de pastoreio extensivo e agricultura escassa duma população relativamente empobrecida; o da frente, saía do nosso apeadeiro logo num caneirinho, todo pimpão. Logo ali à frente, surgiram uns edifícios rodeados de parques onde pastavam alguns lamas e qual não é o meu espanto quando leio um placard a anunciar o «Centro de Estudos Genéticos e de Melhoramento das Raças de Camelídeos» (lamas, alpacas e vicunhas) da Universidade de Cusco. Toma e embrulha! Para quem, como nós, acabava de percorrer uma região economicamente atrasada, aquela inesperada visão do novo vale, era francamente prometedora. E a promessa cumpriu-se.

Vale Sagrado, Peru.jpg

 

Assim foi que começámos a percorrer o vale a que os quéchuas desde sempre chamam «sagrado», tal a riqueza da agricultura, a democratização da propriedade, o bem-estar relativo que por ali se observa. E porquê? Porque, como já anotei, a gestão da água se faz desde a fonte e vai até muitos quilómetros além, onde o vale se transforma num canhão apenas transponível com alguma dificuldade no sopé de Machu Picchu.

 

O ex-libris por excelência do Peru é de acesso difícil. Propositadamente, claro! E, mesmo assim, o Inca não se livrou da grande desgraça espanhola que o assoberbou com o apelido Pizarro.

 

Depois de termos deixado o autocarro, passámos para duas carrinhas que nos transportaram ao fim do Vale Sagrado. Metemo-nos então numa luxuosa carruagem de um comboio que haveria de percorrer um canhão entre montanhas durante uma hora e meia, em paralelo com o rio Urubamba (o tal riacho que tínhamos visto nascer lá nos píncaros) para finalmente chegarmos à cidadezinha que, entre penhascos descomunais, se localiza no sopé do Monte Velho a que os quéchuas chamam Machu Picchu. Ao Monte Novo chamam os nativos Huayna Picchu e é esse que habitualmente aparece nas fotografias deixando o verdadeiro nas costas do fotógrafo.

 

Mas não vou estar aqui a descrever o que está muito bem apresentado na Internet, por exemplo, em https://pt.wikipedia.org/wiki/Machu_Picchu

 

 

Grupo.jpg

 

O mais fantástico de tudo é que todos os que estávamos exaustos, coxos, palpitantes e não sei mais quê, subimos por ali acima quase como se estivéssemos de visita à «Companhia das Lezírias», ali a seguir a Alcochete. Será esse o fascínio de Machu Picchu, o de reerguer os caídos e reanimar os moribundos? Talvez. O que sei é que amarinhei – por vezes agarrando-me sabe Deus onde – mas não me senti doente e apenas dei por mim salutarmente cansado.

E dali seguimos para Cusco…

 

Até amanhã.

 

Outubro de 2017

Henrique Machu Picchu.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 20:08
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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
PERU – 10

 

LAGO TITICACA

 

Puno é o nome da cidade que parece uma favela brasileira sem as fachadas rebocadas e se enrola no extremo norte do Lago Titicaca, essa enorme massa de água doce abastecida por cerca de 25 rios que descem das neves andinas.

 

Lago Titicaca.jpg

 

Com uma área de cerca de 8400 km2, o lago é mesmo grande, situa-se a 3821 metros de altitude e divide-se entre o Peru (cerca de 2/3 da superfície) e a Bolívia (o resto).

 

Sugiro a quem quiser saber mais, que visite a Wikipédia, p. ex. em

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lago_Titicaca

 

Ficámos instalados num hotel magnífico – «El Libertador» - situado numa ilha a que se acede por uma pequena ponte a partir de Puno. A bem dizer, tendo lá chegado à noite, nem sequer notei a ponte e duvidei de que estivéssemos numa ilha. Mas estávamos. Disso me certifiquei na manhã seguinte quando nos dirigimos para o «vaporetto» que ali não recebe tal nome mas que me fez lembrar os dito cujos.

 

Tinham-nos dito que o lago é limpo e puro como uma noiva em dia de casamento mas, no ancoradoiro, a água fervilhava de reacções químicas variadas provocadas pela decomposição de… nem quero imaginar. Sei que uma das nossas companheiras de aventura tropeçou à entrada do barco, mergulhou uma perna no dito «caldo» e arranjou uma série de chatices na pele. Portanto, a noiva não é assim tão limpa e pura como nos quiseram fazer crer. Pelo menos, na zona do embarcadoiro.

 

E zarpámos rumo às famosas ilhas flutuantes que – quiseram fazer-nos crer – são habitadas por grupos de algumas famílias que ali nascem, vivem e morrem. Foi uma visita interessante mas eu fiquei com a sensação de que estava a visitar um jardim zoológico. Tudo me pareceu ficção, arranjo para turista ver, irreal. E se é real, então não abona nada a favor de quem permite que haja gente que assim continue a viver. Sobretudo, bem próximo duma grande cidade como é Puno.

 

Lago-tititaca-ilha flutuante 1.png

 

Aos barcos de junco chamam Uros mas a evolução tecnológica fê-los perder grande parte do velho encanto pois agora a estrutura é composta por alguns milhares de garrafas de plástico vazias. Flutuam melhor e têm uma durabilidade muito maior que antigamente mas, contado o «segredo», tudo parece ainda mais artificial.

 

Titicaca - UROS.jpg

 

ilha-de-taquile-titcaca.jpg

 

Libertados do folclore, navegámos sem grandes vagares durante cerca de duas horas até à ilha de Taquile onde almoçaríamos. E almoçámos mas… tivemos que escalar uma rampa e alguns «degraus incas» (feitos à trouxe-mouxe) que nos deixaram derreados apesar de, por vezes, nos termos agarrado ao chão, a quatro como a bicharada, para melhor distribuirmos o peso… que nunca imagináramos tão pesado. E durante o nosso desespero, eramos ultrapassados por carregadores nativos que transportavam às costas trouxas «só» de 30 kgs. Mas eles têm os glóbulos vermelhos a condizer com aquelas altitudes e nós estamos aclimatados à altitude zero. E, vai daí, almoçámos e quisemos crer que a descida ia ser «trigo limpo». O tanas!!! Na descida, os músculos são outros que não os da subida e voltámos a ter que descansar nos muros e muretes que bordejavam a famigerada rampa. Mas chegámos ao barco cujas cadeiras, afinal, eram muito mais confortáveis do que inicialmente nos tinham parecido.

 

A ilha de Taquile foi presídio durante o período espanhol, hoje está dedicada ao turismo a tempo inteiro e não há por lá cães, gatos nem cavalos; para além das pessoas, só há lamas, ovelhas e vacas. À hora da nossa passagem, também estavam como nós, cansadas, com a diferença de que elas estavam deitadas e a ruminar; nós não.

 

E zarpámos para o hotel onde chegámos duas horas e tal depois. Era o fim da tarde.

 

Do ancoradoiro ao hotel havia que subir uma centena de degraus turísticos (suaves) mas eu estava com os meus glóbulos vermelhos exauridos do esforço anterior e senti-me a morrer. E para não morrer despudoradamente no parque de estacionamento a meio da escadaria, resguardei-me entre dois carros ali estacionados e encomendei-me… Mas não quis o Altíssimo receber-me naquele dia pelo que lá consegui respirar fundo umas quantas vezes e arrastar-me até ao hall do hotel onde um «botones» me ferrou com uma máscara de oxigénio nas ventas sem me perguntar se eu queria ou deixava de querer. E, depois, subi ao quarto a que eles por ali chamam «habitacion».

 

Amanhã há mais…

 

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:38
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