Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
PERU – 6

 

QUEM COM FERRO MATA, COM FERRO MORRE

 

Poderia ter sido um esplendor da civilização cristã mas não foi nada disso. Foi apenas um malandro odiado e temido. Chamava-se Francisco Pizarro, foi o autêntico Stalin do séc. XVI e teve o fim que merecia, decapitado.

Pizarro.jpg

 

Vamos a ele… com a ajuda da Wikipédia.

De seu nome completo Francisco Pizarro González, nasceu em Trujillo, na Extremadura espanhola, em 16 de Março de 1476 e fez diabruras até 26 de Junho de 1541 quando foi assassinado em Lima e o seu corpo, decapitado, arrastado pela Praça de Armas até ao esfrangalhamento quase completo. Os ossos acabaram varridos para uma caixa que foi depositada por ali... Passados séculos, foram finalmente identificados e colocados num ataúde apropriado que se encontra exposto numa lateral da Catedral de Lima pois mesmo que maligno, não pode deixar de ser considerado importante na História do Peru. Mas quem nos mostra o local, tem o cuidado de dizer que não se trata duma capela; é apenas um local. Aliás, passou à História como "o conquistador do Peru" pois subjugou o Império do Inca ao poderio espanhol. Mas fê-lo de modo especialmente sanguinário e repugnante aos olhos actuais - e em especial aos dos coevos, claro, que lhe sofreram a maldade.

Mas – e lá vem o tal «mas» que tanto relativiza os juízos – é preciso saber-se que o rapaz foi abandonado na tenra infância, que guardou porcos para que alguém lhe desse alimento e o deixasse dormir no chiqueiro, que só foi tardiamente reconhecido pelo pai, que quem o deveria acolher não descansou enquanto o não embarcou num navio da conquista lá pelo ano de 1489, rondava ele os 13 anos de idade. Quem o educou, então? Os suínos que pastoreara ou os javardos bípedes embarcados por indulto das cadeias espanholas? Dá para imaginar os atropelos a que foi submetido…

E assim se fabrica uma besta.

O primeiro registo oficial que o menciona é a documentação da expedição de Vasco Núñez de Balboa no Panamá em 1513, onde aparece como obscuro oficial, quase analfabeto. Desde aí, desenrolou-se-lhe a vida na aventura da conquista da América, nas primeiras colónias espanholas na América Central, então chamada «Castilla de Oro», o que mais lhe rendeu aflições com índios e companheiros espanhóis do que honra e glória. Até que, em 1517, lhe foi atribuída a tarefa de aprisionar o seu antigo chefe, Balboa, por ordem de Pedro Faria, o novo Governador colonial.

Foi em 1524, já com cinquenta anos de idade, que se juntou a um oficial menor chamado Diego de Almagro, ambos acalentando planos depois de ouvirem a narrativa de Pascual de Andagoya que, embora regressasse ferido e sem riquezas de uma expedição mais ao sul, teria obtido a informação de um nativo que, apontando mais para o sul, lhe dissera que conhecia o Pirú, reino onde "se come e se bebe em vasilhas de ouro".

Aproximando-se de um rico comerciante da Colômbia, o juiz Gaspar de Espinosa, Pizarro obteve um patrocínio e em Novembro de 1524, fez-se ao Pacífico com oitenta homens e quatro cavalos.

Infrutífera viagem, regressaram sem riquezas ou glórias (Almagro perdeu, entretanto, um olho nos combates travados com nativos), foram necessárias muitas negociações para o financiamento de uma nova expedição que, entretanto, foi minuciosamente contratada por escrito no qual já se previa a conquista do Peru ainda desconhecido e já se tratava da partilha das suas riquezas.

Foi em Novembro de 1526 que Pizarro voltou ao mar desembarcando na foz do Rio San Juan na costa da atual Colômbia onde ficou com a maior parte dos seus homens enquanto Almagro voltava ao Panamá com uma das embarcações para buscar mais reforços. A outra embarcação, sob o comando do piloto Bartolomeu Ruiz, prosseguiu, passando o Equador, ocasião em que teve o primeiro contacto com a civilização Inca: tratava-se de uma grande jangada impulsionada por uma vela quadrada na qual havia homens e mulheres bem vestidos com túnicas de lã, usando ornatos feitos do tão ambicionado ouro.

Três Índios foram aprisionados para servirem de intérpretes. Bartolomeu Ruiz voltou e reuniu-se com Pizarro. Pouco depois chegou Almagro com um reforço de 90 homens. Entretanto, Pizarro já havia perdido muitos homens vítimas da fome e do escorbuto (?). Traçando com a espada uma linha na areia, desafiou todos a passarem para o lado dele, onde estariam a luta e a morte mas também a fama e a fortuna. Apenas onze espanhóis e um grego se lhe juntaram; os outros regressaram ao Panamá.

Pizarro e companheiros esperaram numa ilhota ao largo da costa durante sete meses, até que o Governador do Panamá lhe enviou um barco com novos recrutas. Embarcando, esta força expedicionária navegou mais para o sul por mais de 25 dias até ao golfo de Guaiaquil onde um daqueles índios, já intérprete, explicou que se tratava do porto quéchua mais setentrional, a actual cidade de Tumbes. Ficando aí alguns espanhóis, Pizarro prosseguiu mais para o sul até Guayaquil onde foi confrontado com um grande número de jangadas repletas de guerreiros nativos. Trocando informações com eles, Pizarro exibiu as vistosas armaduras, arcabuzes e vinho e os quéchuas falaram abertamente da sua civilização admitindo a existência de ouro, prata e pedras preciosas. Algumas semanas depois, Pizarro voltava ao Panamá com artefactos de metal e tecidos finos indígenas, algumas lamas e vários jovens índios destinados ao serviço de intérpretes, prova mais que suficiente para fundamentar nova expedição.

Prosseguindo os seus objetivos, Pizarro voltou a Espanha e diante da corte de Carlos V fez a apologia dos esplendores do Peru fazendo coro com os relatos ainda mais auspiciosos de Hernán Cortés, que regressava da conquista do México. Em 26 de Julho de 1529 a rainha assinou a «capitulación» que autorizava Pizarro a conquistar e explorar as riquezas do Peru nomeando-o Governador e Capitão- Geral.

Em 1530, Pizarro reuniu-se no Panamá com Almagro e rumou para o sul fundando, em Setembro de 1532, o primeiro estabelecimento hispânico na costa do Peru denominado San Miguel de Piura, formando uma força de conquista com sessenta e dois cavaleiros e cento e seis infantes com a qual avançou continente adentro na "Conquista do Império Inca".

No dia 16 de Novembro de 1532, Pizarro, com a sua pequena força expedicionária, chegou a Cajamarca onde, deixando a maior parte dos seus homens fora da cidade, aceitou o convite do imperador Atahualpa para um jantar no qual fez assassinar a sua pequena guarda de honra e aprisionou o próprio imperador. Seguiram-se chacinas medonhas de todos os que ousavam aparecer-lhes à frente. No ano seguinte, Pizarro invadiu Cuzco e derrubou o rei local.

Considerando Cuzco muito distante e muito acima no planalto, Pizarro fundou a cidade de Lima no dia 18 de Janeiro de 1535, prosseguindo em grandes chacinas pois as forças quéchuas (do Inca) tentaram retomar Cuzco. Derrotadas finalmente por Almagro, julgou-se este em condições de tomar a cidade para si, gerando uma disputa com Pizarro que o derrotou e executou ali mesmo, em Cuzco. Corria o ano de 1538.

Zangados, partidários de Almagro foram ter com Pizarro que entretanto estava em Lima, assassinaram-no em 26 de Junho de 1541, decapitaram o cadáver e fizeram-no arrastar pela Plaza Mayor até ficar em pedaços.

Como já disse, encontra-se depositado em ossário exposto na Catedral de Lima.

Do outro lado da Plaza Mayor, foi há pouco tempo apeada a estátua que o representava, procedimento que muito irritou a UNESCO cujos membros não têm seguramente antepassados importunados por Francisco Pizarro González, esse autêntico Stalin do séc. XVI.

Sim, é assim mesmo: quem com ferro mata, com ferro morre.

E mais quê? Já lá vamos…

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 

Henrique Salles da Fonseca



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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
PERU – 5

 

MITOLOGIA E TEOLOGIA

 

«Mitologia» vem de mito que é algo que não existe, que é ficcional; «Teologia» tem a ver com «teo», Deus.

Só a nossa religião é teológica; todas as demais são mitológicas.

 

Inti é o nome quéchua do Sol, tido pela divindade mais significativa da mitologia quéchua, a do Inca.

Culturas anteriores à quéchua tinham Viracocha como sendo a suprema divindade. A definição completa do seu poder absoluto passava pela enumeração da sua superioridade sobre a água, a terra e o fogo mas evoluiu para um conceito mais complexo que acabou por se tornar no Deus único e criador universal, Inti.

Até aqui, parecia que estávamos a falar do nosso Deus mas este novo e muito poderoso Deus do Sol não estava sozinho, estava casado com a sua irmã, a Lua, com quem compartilhava uma posição igual no tribunal celestial. A Lua era conhecida por Mama Quilla.

Inti.jpg

 

Inti era representado por uma elipse ou disco de ouro; Mama Quilla, por uma figura de prata.

Mama Quilla.png

 

Como criador do Universo, Inti era adorado e reverenciado, mas também concedia (ou não) favores e ajudava (ou não) a resolver problemas e a aliviar as necessidades; só ele podia dar boas colheitas, curar doenças e providenciar a segurança exigida pelo homem. E no meio de Natureza tão agreste com desertos tão áridos, com chuvas diluvianas, com tremores de terra e tsunamis tão devastadores, bem se compreende como esta (e qualquer outra) divindade era importante para acalmação das gentes da sua fé.

A Mama Quilla competia a gestão do fervor religioso das mulheres, nomeadamente das Mama Conas, que formavam o núcleo de fiéis seguidoras que eram as sacerdotisas encarregadas pela Deusa de guardarem e instruírem as vestais que residiam no templo anexo aos aposentos do Inca e cujas funções eram não só de índole puramente religiosa mas também a de garantirem a descendência do próprio rei. Em resumo muito erudito, «orare et coierit».

Com a chegada dos espanhóis em 1532, chefiados por Francisco Pizarro, tudo isto foi desbaratado, templos arrasados e gentes insubmissas passadas a fio de espada.

O objectivo era o de destruir a mitologia e impor a teologia. Sim, sim… e o de obter o ouro e outras preciosidades que os quéchuas possuíam.

E quem era esse tal Francisco? Já lá vamos…

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca



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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
PERU – 4

 

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA…

 

… tanto dá até que fura.

Sim, o problema do Peru resulta da falta de água ou do excesso dela.

Eis como as coisas se passam:

  • A costa ocidental da América do Sul é banhada por uma corrente oceânica que vem da Antártida, e, portanto, constituída por água fria (chamada do Chile ou de Humboldt) sem grande evaporação e que, portanto, não humedece suficientemente o ar;

Corrente de Humboldt.jpg

 

  • Quase todo o litoral ocidental sul americano é desértico por ali imperando o Deserto de Atacama que, sendo fundamentalmente chileno, se estende ainda por vastas zonas do sul do Peru quase alcançando Lima onde se limita a mudar de nome várias vezes até atingir a Colômbia e sabe-se lá até mais onde…
  • Nos Andes peruanos só neva a partir dos 4500 metros de altitude pelo que, daí para baixo, a água é (ou deveria ser) gerida gota a gota.

Mas – e há sempre um «mas» - lá pelas alturas de Dezembro, desabam chuvas diluvianas trazidas do mar por fortes ventos num fenómeno de contraciclo a que a época do ano sugeriu que se chamasse «El Niño», «O Menino» (Jesus). Assim como que naquela nossa expressão de que “não há fome que não dê em fartura”, também o Peru passa de repente duma extrema secura para uma situação de enxurradas terríveis que levam tudo à frente até ao afogo no mar.

 

El Niño.jpg

 

Se a isso juntarmos a permanente ameaça (e ocorrência frequente) de terramotos e tsunamis, dá para compreender que aqueles povos se agarrem com força a uma Fé que os faça crer numa vida melhor no Além.

E, contudo, vê-se gente feliz um pouco por toda a parte.

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017
PERU – 3

 

POR SUPUESTO

 

- Juan, for favor, fale-nos dos movimentos terroristas aqui no Peru.

- Si, por supuesto, lo haré!

Foram dois os «Juans» (nomes falsos que atribuo aos guias que nos elucidavam sobre tudo o que víamos, sobre a História, religiões, etc.) a quem pedi que nos falassem sobre o cenário político e de segurança, foram dois os que me responderam «por supuesto» e foram dois os que nada disseram. Pelos vistos, o tema não é confortável nem sequer em ambientes fechados como o do grupo de turistas em que nos integrávamos.

E, de facto, com tantos temas interessantes à disposição, para quê abordar assuntos que se podem revelar incómodos?

Lembro-me de no final dos anos 60 do século passado, um conhecido meu dizer que em determinado país da América Latina (Colômbia?) em que ele trabalhava como perito agrário, havia 46 Partidos políticos em que apenas um não se denominava revolucionário: o Comunista. E sugeria esse meu conhecido que ninguém se metesse num avião em que viajasse algum Ministro.

Pois é, Caros Leitores, a América Latina tem os seus quês. Pelos vistos, ainda hoje.

No Peru, tudo o que consegui apurar é que estão presos dois ex-Presidentes por aboletamento de dinheiros públicos (Alberto Fujimori e Alejandro Toledo) e vários dirigentes terroristas por razões óbvias. Por motivos que não apurei, apenas constatei que toda essa rapaziada de trato mais ou menos fino, se encontra no mesmo estabelecimento prisional. Talvez que para mais eficaz troca de saberes e de experiências feitas. Por certo, sairão de lá uns malfeitores ecléticos de altíssimo gabarito e à prova de todas as circunstâncias. Vai ser bonito…!!!

Duas particularidades: o «empochamento» de Fujimori terá ultrapassado os 6 biliões de dólares, os quais se encontram em parte incerta pelo que o Erário peruano ainda não conseguiu deitar-lhe a mão; os dirigentes terroristas (do «Sendero Luminoso» e do «Túpac Amaru») já fizeram saber que não estão arrependidos e que as suas críticas se mantêm. Repito: - Vai ser bonito…!!!

Kuczynski_Pedro_Pablo.jpg

 

Actualmente, o Peru é presidido por Pedro Pablo Kuczynski, economista e ex-primeiro ministro de tendência centro-direita. Note-se que conquistou a presidência derrotando Keiko Fujimori, a herdeira dos tais 6 biliões que ela deve saber onde estão. E porque a oposição (a do gamanço) tem a maioria nas Câmaras legislativas e não o deixa governar completamente, consagrou solenemente o Peru, ele mesmo e sua família, ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria como quem diz que a situação política só verá a sanidade com a ajuda divina.

«Por supuesto», todos os peruanos com quem falei me disseram bem dele na sua condição de competência e seriedade.

«Por supuesto», gostei do que ouvi. Até porque somos colegas de profissão. Com duas diferenças fundamentais: ele está ao activo e eu estou aposentado; ele é Presidente do Peru e eu não.

 

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



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Domingo, 15 de Outubro de 2017
PERU – 2

 

MISTÉRIOS QUÉCHUAS

 

Primeiro mistério:

rio-rimaq.jpg

 

Em conformidade com a pronúncia quéchua, o rio Rimaq pronuncia-se ˈli.maq e, como noutros topónimos, a oclusiva final desapareceu ao passar ao castelhano, preferindo-se, com o tempo, a grafia Lima. Isto, porque o Rimaq é um dos três rios que por ali desaguam e, sendo o maior, impôs o seu nome à cidade.

Não foi, portanto, nenhum cavalheiro de apelido Lima que fundou a cidade.

Segundo mistério:

república-do-peru-mapa-do-país-84537221.jpg

 

A palavra Peru deriva de Birú que, no início do século XVI, era o nome de um cacique indígena do Panamá. Quando, em 1522, os seus domínios foram visitados pelos exploradores espanhóis, logo foram denominados «terras do Biru», toponímia que se estendeu para sul até ao actual Peru mas desaparecendo na origem geográfica.

A Coroa Espanhola oficializou o nome do território em 1529, com a «Capitulação de Toledo», que designou o Império Inca como a Província do Peru. Sob o domínio espanhol, o país era denominado Vice-Reino do Peru, que, após a guerra da independência do país, se tornou a República Popular do Peru.

O nome Peru nada tem, portanto, a ver com a nossa vítima natalícia.

 

Terceiro mistério:

O Inca.jpg

Civilização Inca? Não! Civilização quéchua!

Inca, o rei filho do Sol, governava o povo quéchua e, portanto, a civilização era do povo e não do rei. Se a civilização fosse do rei, morreria com a morte do seu dono; sendo do povo, prossegue…

A este tema – morte e ressurreição da civilização quéchua - regressarei numa crónica futura.

Outubro de 2017

 

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



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Sábado, 14 de Outubro de 2017
PERU – 1

 

O BOOKINISTE PERUANO

 

Foi numa das minhas passagens pelo aeroporto de Lima que entrei numa loja de «recuerdos» mas que também vendia livros, me dirigi ao cavalheiro que parecia por ali saber tudo e lhe disse que da literatura peruana só conhecia o Garcia Marquez; se ele me podia sugerir outro autor genuinamente representativo da literatura peruana que ali tivesse obra à venda nos seus escaparates. Mas era claro que podia e que o fazia com o maior «gusto». E põe-me de imediato na mão um livro de bom tacto (os dedos também gostam de mexer na literatura). Nunca eu ouvira falar de Javier Cercas e muito menos da sua obra «El monarca de las sombras». Da editora – LITERATURA RANDOM HOUSE – também nada sabia. Cheirou-me a alguma réstia de passagem mais ou menos fugaz do investimento britânico a favor da aculturação do povo quéchua mas guardei essa suspeita numa das minhas dobras cerebrais mais recônditas. Porquê em Lima, uma editora com tal nome? Mas como da cantracapa e das badanas nada se poderia concluir em desabono de alguma nova literatura peruana, comprei.

E comecei a ler…

El-Monarca-de-las-Sombras.jpg

 

Bem escrito, leitura agradável, prolegómenos em Espanha; enquadramento sublime das circunstâncias que num «pueblito extremeño» conduziram à guerra civil… e já vou nos agradecimentos finais que o Autor faz a quem o ajudou nas investigações para a escrita sair assim histórica, política e sociologicamente tão interessante e ainda não emigrei para o Peru. Mas fiquei a saber muito sobre o que se passava ali do outro lado da fronteira de Elvas. Sim, o «pueblito» chama-se Ibahernando e é ali para as bandas depois do Caia.

E fui eu até aos Andes para ler sobre tão perto.

Então, a pergunta que me ocorre é: terá o «recuerdista» do aeroporto de Lima desejado enfiar o garruço a um papalvo de bigode que por ali passava a pedir conselhos ou seria ele mesmo ignorante quanto à literatura peruana?

A resposta que posso dar é muito simples: é por caminhos inesperados que aprendemos muito do que ignoramos.

Ah! Santa ignorância do bookiniste peruano!

Outubro de 2017

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca



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Domingo, 24 de Setembro de 2017
ESCRITORES ESQUECIDOS

 

 

Boileau.jpgNICOLAS BOILEAU

 

Nicolas Boileau-Despréaux (Paris, 1636 — Paris, 1711) jurista, crítico e poeta francês. Publicou o seu primeiro volume de sátiras em 1666. Foi apresentado na corte em 1669 após a publicação de seu Discurso sobre a sátira.

 

Desde cedo aprendeu a não ter qualquer ilusão e cresceu com "o desprezo pelos livros estúpidos". Foi educado no Colégio de Beauvais e continuou os seus estudos de Teologia na Sorbonne. Mudou de curso, para Direito. Seguiu-se breve carreira como advogado. O pai morreu em 1657 deixando-lhe uma pequena fortuna, de forma que se pôde dedicar às letras.

 

PAROLES DU POÈTE À SON JARDINIER, ANTOINE

Antoine, de nous deux, tu crois donc, je le vois,

Que le plus occupé dans ce jardin, c’est toi.

Oh! Que tu changerais d’avis et de langage,

Si, deux jours seulement, libre du jardinage,

Tout à coup devenu poète et bel esprit,

Tu t’allais engager à polir un écrit

Qui dît, sans s’avilir, les plus petites choses,

Fît des plus secs chardons des oeillets et des roses…

 

* * *

 

Sim, eu também não duvido que os trabalhos braçal e intelectual produzem cansaços bem diferentes.

 

Setembro de 2017

 

071.JPG

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA

  • Wikipédia
  • «Anthologie de la poésie française», Annie Collognat-Barès, LE LIVRE DE POCHE, Libretti, 1ª edição, Setembro de 1998


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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
LIDO COM INTERESSE - 19
 
 
 
 
Título«Diário de Leal Marques sobre a formação do primeiro
                 Governo de Salazar»

Fátima Patriarca.jpg

AutoraFátima Patriarca

 
Editora – Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
              
Edição – “Análise Social” – Vol. XLI, 1º Trimestre 2006, pág. 169 e seg.
 
 
 

Antero_Leal_Marques_1930_1941.jpg

 

 
Poucos serão os portugueses actualmente vivos que já tenham ouvido falar de Antero Leal Marques e ficarão por certo espantados ao saberem que este farmacêutico foi Chefe do Gabinete de Salazar durante uma dúzia de anos, entre 1928 e 1940.
 
Dá para imaginar, num país com 900 anos de História, quantas personalidades ainda estarão envoltas nas brumas da nossa ampla e faustosa ignorância …
 
Pois foi esse desbrumar que a Dr.ª Fátima Patriarca, Investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, nos proporcionou com este trabalho.
 
Trata-se da explicação do manuscrito do «Diário» em apreço que abarca o período compreendido entre os dias 28 de Junho e 11 de Julho de 1932, ou seja, o relativo à formação do primeiro Governo do Doutor Salazar e nele se compreende como foi complicado gerir um processo cheio de nuances.As subtilezas tinham muito a ver com o regime – República ou Monarquia – mas também havia que considerar a indisciplina que grassava no Exército, na Marinha e na Guarda Nacional Republicana.
 
A mudança de regime foi claramente um processo de transição morosa e traumática em que o alevantamento dos espíritos era frequentemente fomentado por quem pretendia ver satisfeitas mordomias a que se habituara ou a que se queria habituar. O jogo de interesses e a “prestação de serviços” está claramente exposto neste «Diário»: por ele se vê como os quartéis tiveram que “ser postos em sentido” e como foi necessário induzir o “sentido de Estado” a todos aqueles que se queriam manter na política.
 
Transparece como evidente que a preparação do terreno que o Doutor Salazar pisou em muito se deveu ao trabalho do General Domingos de Oliveira que não contou com polícias secretas nem terá recorrido a procedimentos democraticamente menos deontológicos. O autor do «Diário» tece-lhe mesmo assinaláveis encómios com os quais o General se comoveu e … comover um General não será uma tarefa de cumprimento diário, presumo.
 
O «Diário» é antecedido de uma breve apresentação em que a Autora resume a biografia de Antero Leal Marques, nomeadamente nos períodos anterior e posterior à época em que trabalhou directamente com o Doutor Salazar e ao longo do texto do documento transcrito vai produzindo Notas do maior interesse identificando as personalidades amiúde nomeadas de tal forma que o leitor se consegue integrar no ambiente descrito.
 
Para além do mérito científico que o trabalho evidencia, trata-se de uma leitura muito agradável que nos faz compreender os acontecimentos sem a influência da actual propaganda política e que nos incentiva à descoberta de outras personalidades ocultas que nos espreitem lá dos recantos em que se encontrem na História de Portugal.
 
 
Tavira, 10 de Agosto de 2007
 
Henrique Salles da Fonseca


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:46
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Sábado, 16 de Setembro de 2017
LIDO COM INTERESSE – 73

História da Companhia de Jesus.png

 

Título – «HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS EM PORTUGAL»

Autora – Maria de Deus Beites Manso

Editora – EDIÇÕES PARSIFAL

Edição – 1ª, Setembro de 2016

 

Da badana se extrai que, fundada por Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus tornou-se numa das principais ordens religiosas no combate ao Protestantismo, na aplicação das determinações do Concílio de Trento e no estabelecimento de missões fora da Europa.

Com uma responsabilidade maior na doutrinação, desde a sua implementação ao nosso país, a Companhia de Jesus foi um dos agentes centrais da expansão portuguesa revelando, desde sempre, uma notável capacidade de adaptação aos remotos lugares onde chegava com recurso a múltiplas formas de evangelização – adoptando na Ásia costumes locais perante civilizações e religiões complexas; defrontando-se no Brasil com práticas ancestrais de antropofagia, onde seria edificada uma notável rede de ensino.

A Autora é professora na Universidade de Évora, tem escrita enxuta e produziu um livro de verdadeiro interesse para quem gosta de perceber como fizemos um Império.

Descontando anexos, notas, agradecimentos e referências bibliográficas, são 203 páginas de texto que transmitem uma ideia inesperada sobre a dimensão de Portugal ao longo da vida da Companhia desde que para cá veio no reinado de D. João III até à actualidade: a página 199 inaugura a história jesuíta no território a que actualmente estamos confinados porque nas páginas antecedentes tudo era Império. Mais: enquadrada no Padroado Português, a Província do Oriente da Companhia chegou a ter jurisdição desde o Cabo da Boa Esperança até Nagasáqui sendo também «nossas» as Províncias jesuítas do Brasil e a da África Ocidental.

Sim, Portugal foi grande e, em consequência, a Companhia de Jesus também. A Companhia tem, entretanto, um Papa; nós, não.

Setembro de 2017

HSF-2.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

(no Sri Lanka, 2015)



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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017
ESTAREMOS TRAMADOS ENQUANTO...
 

 

KNORR-arroz malandrinho.png

 

 

... a comida for caseirinha

    (ou a comidinha for caseira);

... o arrozinho for malandro

    (ou o arroz for malandrinho);

... as pombinhas forem da Catrina

    (ou a Catrina for bloqueirinha);

... a cozinha for o reino da panelinha

    (ou o "panelinho" mandar na cozinha);

... as batatinhas forem assadas no braseiro

    (ou a assadura arder no traseiro);

... os poderosos se roerem de inveja

    (ou os invejosos se mantiverem no Poder);

... os analfabetos forem adultos

    (ou os adultos forem analfabetos);

... isto tudo não entrar nos eixos

    (ou um eixo não espatifar tudo).

 

Tenho dito!

 

Chefe índio 2.JPG

Henrique Salles da Fonseca



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